Little Last Love Song
4 4 - O que as visitas nos deixam.
Os dias pareciam ser de paz eterna naqueles tempos. As crianças cresciam mais a cada dia, e mesmo naquela cidade vazia e desolada, suas vozes ecoavam nas ruínas como sopros de esperança.
Meiko e Kaito, então com dezesseis anos, eram responsáveis pelo orfanato ao lado de Kiyoteru. Cuidavam da casa, da distribuição dos afazeres e da educação dos mais novos.
Entre estes, Rin e Len também cresciam a olhos vistos e eram inseparáveis. Seu apego um ao outro era tamanho que eles mesmos se ressentiam dele: Len não gostava que Piko brincasse com Rin, e a garotinha sempre puxava briga se Miki se aproximasse demais de seu amiguinho. Ambos dormiam sempre agarrados na mesma cama, e Kiyoteru previu que, com o passar do tempo, teria que arranjar um quarto separado para eles também.
Num dia limpo de neve e frio, enquanto os menores jogavam bola na rua vazia, Kaito veio lhe procurar no bosque. E enquanto ajudava o tutor a cortar lenha, contou-lhe muito envergonhado que pretendia pedir Meiko em casamento.
— E por que não?— Kiyoteru sorriu. — Ainda tem dúvidas de que ela vai aceitar?
— O senhor acha?— o rapazinho indagou, pouco confiante. —Bem, eu ainda tenho que fazer alguns preparativos, quero dizer... Ela é uma descendente de sacerdotes, eu sou um filho de desconhecidos... Digo, eu já me encontro numa posição inferior a ela, e além de tudo sou um órfão sem posse nenhuma. Não tenho nada pra oferecer a ela, nem nome, nem dote, nem...
— Kaito-kun— Kiyoteru pôs a mão sobre a cabeça azulada e atormentada do rapaz.— Quem disse que você é inferior a alguém? Meiko-chan cresceu ao seu lado, e te ama. Ela não quer saber de posição social nem de dinheiro. Ela quer ficar com você, só isso.
Kaito ainda parecia em dúvida. Queria o melhor para Meiko. Naquela tarde os dois foram juntos na picape velha de Kiyoteru, até a cidade mais próxima, onde recebiam a pensão do tutor no banco e a usavam para comprar suprimentos para o orfanato.
— Podíamos trazer as crianças aqui algum dia— Meiko comentou enquanto passeavam pela feira. — É movimentado, cheio de gente. Elas precisam saber como é a vida fora da nossa cidade arruinada.
— Acho que trazê-las aqui não ia dar a elas uma impressão muito boa, Mei-chan— o rapaz respondeu, sua mão entrelaçada na dela.— Esse lugar é quase tão arruinado quanto nossa cidade, e a guerrilha está sempre ameaçando chegar aqui primeiro.
— Mesmo assim— ela insistiu docemente.— Só para elas saírem um pouco. Se não aqui, podemos levá-las para o campo, o que acha?
— Acho que você parece que é mãe delas.
— Você não se sente como um pai também?
— Tem razão— ele encostou sua testa na dela, carinhoso.
Enquanto escolhiam verduras numa barraca próxima, Kaito pediu à namorada que continuasse enquanto ele ia ver o preço de algo numa loja próxima. Sumiu na multidão até encontrar o local, uma pequena joalheria.
— Tome isso— Kiyoteru tinha lhe entregue várias notas em segredo, antes que ele fosse à cidade. — Não fale nada. São apenas economias que eu tinha guardadas. Compre, guarde e assim que decidir o momento certo, faça o pedido.
Meiko esperou que o rapaz se afastasse e continuou a escolher os vegetais. Depois foi até a banca de uma senhora que vendia frutas. Conhecia-a desde alguns anos, e costumava pedir conselhos a ela.
— Tem uma coisa que eu queria te perguntar— disse à senhora, numa voz baixa e ansiosa.
E conforme conversavam, a garota punha as mãos sobre a boca, a respiração acelerada.
— Tudo bem?— Kaito indagou enquanto voltavam para a picape, depois de terem posto as compras na parte de trás do veículo.
— Hm— ela balançou a cabeça, sem conseguir olhá-lo, o rosto muito quente.
— Está quase anoitecendo— ele disse, sentindo a própria voz um pouco trêmula. —Vamos antes que o sensei fique preocupado.
Sentou-se ao volante, sentindo a pressão do pequeno embrulho que trazia no bolso. Conteve um sorriso e olhou para Meiko, que tinha as mãos repousadas sobre o colo. Estendeu a mão e a pôs sobre a dela, acariciando-a ternamente.
— Te amo— ela murmurou, sem olhá-lo.
O rapaz franziu o olhar. — O que foi?
— Nada, só me deu vontade— ela sorriu.
Kaito se debruçou sobre o banco de passageiro, acariciando o rosto dela, seus lábios se perdendo nos dela num beijo lento e quente.
Enquanto dirigia para casa ele passou a mão sobre o bolso outra vez, como quem vigia um precioso presente.
Ao seu lado, Meiko acariciava o ventre sobre o vestido, sabendo que um precioso presente estava ali.
“Melhor não falar nada agora”, ambos pensaram.
—Eu disse que as coisas iam piorar, Hiyama-san— Luka setenciou.
Os anos não lhe alteraram em muita coisa a aparência, Kiyoteru pensou. Talvez a deixaram mais cansada e triste, o que não era de se estranhar.
— Disse que piorariam em um ano— ele lembrou. —Isso já faz um tempo. Até agora as coisa estão bem tranqüilas.
— Sim, felizmente minha previsão estava errada. Adiantada demais, por assim dizer. Mas continua correta. E nesse momento, as coisas estão mesmo ruins. Não é a toa que vim aqui lhe avisar, pessoalmente.
Estava sentada numa das poltronas diante de Kiyoteru, na sala da lareira. Ele tinha mandado todas as crianças subirem para os quartos, mas sabia que elas se encontravam escondidas nos degraus da escada e ouviam tudo.
— Se é assim, devo tirar os garotos daqui— ele disse.
— Se é assim, deve voltar conosco, Hiyama-san— ela inclinou-se na direção dele, apertando os braços da poltrona. — Droga, você sabe que não tem para onde correr. Não há salvação em ficar se escondendo.
— Megurine-san...
— Você era um dos principais oficiais do exército. Esteve ao nosso lado e nos ajudou tanto, e agora quer se esconder quando mais precisamos de sua ajuda?
— Escute, Megurine-san— ele repetiu calmamente.— Minha prioridade são as crianças. Vou tirá-las daqui, levá-las para um lugar seguro, e depois resolveremos isso.
— O sensei vai embora?— Miku indagou para os outros meninos, agachados abaixo dela. — Aquela mulher veio buscar ele?
— A cara dela tá séria— Len disse pensativo.— Acho que é sobre a guerra.
— Claro que é sobre a guerra— Gumi sussurrou.— O que mais deixa o sensei tão sério?
— Ele vai embora...?— Rin indagou num fiozinho de voz.— Ele vai deixar a gente?
— Claro que ele vai falar com a gente depois—Miki disse num tom conciliador.
— Ele não vai simplesmente largar a gente, Rin-chan— Piko sorriu para ela.— Você conhece o sensei, não conhece?
Ela balançou a cabeça, os olhos azuis dilatados de aflição.
Depois que a mulher de rosto sério e cabelos rosados foi embora, porém, o sensei não falou sobre aquilo com as crianças. Disse para elas ajudarem a aprontar o jantar, enquanto Kaito e Meiko chegavam logo depois com as compras.
Rin sabia que os dois gostavam muito um do outro, mas nunca tinha os visto com aquele vermelho forte no rosto, nem seus olhos brilharem tanto. Parecia até que eles iam explodir como fogos de artifício de ano novo.
Sentadinha em seu lugar na mesa, ela observou o olhar cansado e apreensivo do sensei amenizar ao olhar para Kaito, ao lado de Meito na mesa. O rapazinho apenas assentiu num sorriso feliz, e ele assentiu de volta.
Os mais velhos tinham uma linguagem silenciosa que a fascinava. Enquanto ela e as outras crianças falavam tão claramente, eles usavam de olhares e gestos, às vezes porque não queriam que outros além deles entendessem, às vezes só por costume. Ela gostaria de aprender aquela linguagem algum dia.
Não podia contar com Len, sempre tagarela e estabanado demais. Talvez ele nunca aprendesse a ser discreto, mesmo depois de adulto. Já Piko era mais tranqüilo e calmo, e embora Len ainda fosse seu melhor amigo, o albino lhe parecia mais interessante por ser mais velho e tão diferente de Len.
Ainda refletia sobre essas coisas, enquanto Gumi e Miki faziam caretas uma para a outra e os outros riam. De repente, a mesa estremeceu.
— Sensei— Miku levantou-se e bateu as mãos sobre a madeira, fazendo todos silenciarem.
Era sempre a mais impulsiva e transparente. Desde a visita daquela tarde, não conseguiu esconder sua preocupação e a ansiedade em saber qual seria a decisão de Kiyoteru. — É verdade que o senhor vai deixar a gente?
Kiyoteru terminou de limpar a boca com um guardanapo velho e ajeitou os óculos calmamente.
— Quieta, Miku— Gumi resmungou, tentando controlar a garota ao lado.— Ele vai dizer pra gente quando for a hora certa.
— E por que não pode ser agora? Se a gente tá te atrapalhando de fazer alguma coisa, por que não diz logo?
Miki levantou e abraçou a garota por trás, enquanto ela estremecia em soluços. E Rin percebeu o clima ao redor da mesa mudar, da descontração de antes para uma melancolia intensa. Ela não entendia o porquê, mas podia sentir, e via como se as lágrimas de Miku turvassem um lago calmo, onde repousavam lembranças dolorosas.
Se Rin tivesse entrado anos antes no orfanato, teria sabido que Miku foi a última a ser deixada no orfanato. Foi uma cena terrível, quando a mãe dela simplesmente a atirou nos degraus da casa, diante das outras crianças. “A guerra me deixou viúva, e você é só um estorvo” a mulher esbravejou antes de partir. Kiyoteru soube que ela se suicidou pouco tempo depois, mas jamais contou aquilo à Miku. Ela já havia sofrido o bastante.
O tutor deixou seu lugar e se ajoelhou diante de Miku, até seus olhos chegarem ao nível dela.
— Miku-chan — disse seriamente, segurando as mãozinhas dela entre as suas.— Você é minha vida. Todos vocês são. Todos os dias agradeço a Deus por me permitir cuidar de vocês. Eu amo a vida que tenho, e amo todos vocês. Está me entendendo?
Miku sacudiu a cabeça, o rosto banhado em lágrimas, os lábios torcidos num beicinho de choro.
— Nunca esqueça disso. E nunca duvide. Estão me ouvindo, todos vocês?
Os garotos assentiram, e Kiyoteru abraçou Miku. Logo todos correram para junto deles, fazendo um montinho por trás da mesa.
Rin se aproximou, pequenininha como era, e enfiou-se entre os outros até alcançar Miku e lhe abraçar pela cintura. Não sabia o que dizer, só sentia que a garota se sentia muito sozinha, e não queria que ela se sentisse daquele jeito. Pois ela sabia o quanto era terrível.
— Não deixa a gente, sensei— Gumi acabou caindo no choro também.
— Escutem— Kiyoteru levantou-se, fazendo todos olharem para ele.— Esse é um assunto sério. A guerra está vindo pra perto daqui, e estou com medo de que venha até a cidade. Vou levar todos vocês comigo, para um lugar seguro onde ficaremos até tudo passar. Talvez eu tenha que lutar na guerra. Mas se isso significar que vocês vão ficar desprotegidos, não irei. Entenderam?
— Pra onde vai nos levar, sensei?— Piko indagou.
— Ainda vou procurar o lugar. Foi muito repentino, ainda preciso acertar as contas pendentes do orfanato.
— Já é pra gente fazer as malas?— Len indagou afobado.
— Ainda não— Kiyoteru riu.— Mas podem ir organizando o máximo de coisas que puderem. Escolham tudo o que vão levar e o que vão deixar. E lembrem de que não podemos carregar muitas coisas.
Miku, um pouco mais calma, enxugou os olhos e foi levada pelas meninas para o quarto. Apenas os mais velhos ficaram ali, enquanto Piko e Len retiravam os pratos da mesa.
— Podemos fazer alguma coisa, sensei?— Meiko indagou.
— Por ora, so cuidem dos garotos— disse ele. —Estou indo para o escritório, vou organizar nossos documentos antes de partirmos.
Eles assentiram e foram para o andar de cima. Rin, que também tinha ficado na cozinha, resolveu ir para a sala, onde se aboletou na poltrona de Kiyoteru.
— Ei, não vem com a gente?— a moça parou, agachando-se perto dela.— Vamos arrumar suas roupas!
— Estou com sono— a menininha balbuciou.— Vou ficar aqui um pouco, depois eu subo.
— Posso ficar com você, então?
Rin assentiu e levantou-se, bocejando. Meiko sentou-se e colocou a menina no colo, onde ela se aconchegou confortavelmente.
— Você é muito novinha— ouviu a voz doce e tranqüila murmurar sobre a cabeça dela.— E veio morar aqui tem poucos anos. Acho que não vai ser muito doloroso pra você deixar esse lugar, não é Rin-chan?
— Acho que não— A garota ergueu o rosto.— Isso é ruim?
— Não, de jeito nenhum!— Meiko sorriu, beijando-lhe a testa e repousando o rosto ali. — Estou feliz que vai ser uma despedida tranqüila pra você. Ainda vamos estar todos juntos, é isso que importa, não é?
Rin assentiu devagar, sentindo o perfume do cabelo curto dela, que encostava de leve em seu rosto. O colo dela era quente, e seus braços a envolviam com um carinho que ela só lembrava muito vagamente, de seus anos mais remotos.
— Meiko-chan está diferente hoje— ela murmurou sonolenta.
A jovem ergueu o rosto para a cabecinha dourada embaixo dela.— Estou? Acho que é porque estou feliz, deve ser isso.
Teve receio que a garota fosse lhe perguntar o motivo de sua felicidade. Mas Rin também pressentia que ela não queria falar a respeito.
— Que bom que você tá feliz— murmurou, fechando os olhinhos e ressonando quase imediatamente.
Horas mais tarde, Rin ouviu uma batida na porta. Achou que fosse sonho, e continuou a cochilar, mas então uma corrente de ar frio a fez se arrepiar e se encolher na poltrona vazia.
Meiko não estava mais ali.
Ela ergueu a cabeça, ainda tonta de sono, e viu a moça parada na porta. Estava ouvindo o que as pessoas ali fora lhe diziam, e por fim apanhou um bilhete que entregaram a ela.
— Venha sozinha— uma voz masculina e abafada disse.— Se contar a alguém...
Ela sacudiu a cabeça enfaticamente. Fechou a porta e Rin se encolheu no sofá outra vez.
Meiko continuou encostada na porta por alguns minutos. Rin não podia vê-la, e quando resolver levantar e perguntar o que tinha acontecido, a jovem se aproximou da poltrona, enfiando o bilhete dentro do vestido.
— Vamos para a cama, mocinha?— sussurrou.
— Meiko-chan— Rin indagou.— Tinha alguém lá fora?
Ela ficou lívida.
— Tinha... Uns senhores que queriam saber onde fica a cidade habitada mais próxima. Eu já disse a eles, então não precisamos perturbar o sensei, certo?
A calma aflitamente disfarçada em sua voz despertou a lealdade de Rin. —Não, ele tá cansado.
— Pois é— Meiko apanhou-a nos braços. —Vamos, vou te deixar no quarto com as meninas.
Ela lhe deixou numa cama vaga perto da janela, já que Len tinha se espalhado na cama onde os dois dormiam. Inclinou-se para beijar o rosto dela, e Rin viu nos grandes olhos castanhos um temor que ela não soube interpretar.
— Tudo bem, Meiko-chan?— não conseguiu evitar um sussurro.
— Tudo sim, querida— ela disse, como se procurasse convencer a si mesma. — Vai ficar tudo bem. Tenha uma boa noite, tá?
— Tá. Boa noite, Meiko-chan.
Depois que a porta se fechou, Rin se encolheu nas cobertas, observando o quarto iluminado pelo luar.
E então as palavras de Meiko ressoaram em sua memória, fazendo-a franzir a testa, preocupada.
“Vai ficar tudo bem.”
— O que tá acontecendo... Meiko-chan...?— murmurou para si mesma, antes de adormecer novamente.
Notas finais
Atualizando as velharias, até que enfim XD
Tá difícil mesmo pessoal, mas sempre que puder, vou postando novos capítulos.
A você que leu, meu muito obrigada e meus pedidos de reviews! Comentem, digam o que estão achando, enfim, não me larguem às moscas #carente
Té maisinho, pessoal! :***
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