Little Last Love Song
33 33 - Os que ficam e os que se vão.
Luka abriu os olhos lentamente.
Sentou-se na cama, os cabelos caindo pelo busto nu, e esticou os braços. Sentia o corpo dolorido, a cabeça latejava. Não era ressaca, ela sabia. Uma cerveja ruim como aquela não afetaria um organismo treinado para aguentar litros do pior uísque e estar de pé na manhã seguinte.
Então olhou ao redor, suas roupas espalhadas pelo chão. Estava sozinha.
— Ai, meu Deus – resmungou, estremunhada de sono. – O que foi que eu fiz?
Do lado de fora da taverna não se sabia se era dia ou noite, uma vez que o céu de chumbo estava sempre pesando sobre o horizonte. Kiyoteru havia posto as roupas escuras e o sobretudo novamente, e estava encostado na frente da taverna, contemplando o jipe estacionado logo adiante.
O que foi que eu fiz?
Um dos hóspedes havia acendido um cachimbo perto dele ao passar pela entrada. Kiyoteru lhe pediu um pouco de fogo e acendeu um cigarro que pegou no casaco de Luka. Esperou ficar sozinho outra vez e levou-o aos lábios, mas se engasgou com a fumaça.
— Droga– ele riu, tentando novamente. – Fui eu quem ensinou a ela. Não posso ter esquecido assim...
Enquanto tragava lentamente, viu o halo roxo surgir no canto da visão dele.
Suspirou desalentado. Foi bom enquanto durou...
— Não achei que fosse vir tão cedo.
— Espero que tenha aproveitado bem – disse o Nii-san. – Está na hora.
Ele foi até Kiyoteru, um objeto muito longo, fino e afiado em suas mãos.
— Cumpra sua missão – disse.
Kiyoteru tocou no cabo da arma, sentindo toda a memória se esvair por completo.
— Sim, Nii-san – respondeu, o olhar vidrado.
À mesa do café, os garotos do orfanato trocavam histórias dos velhos tempos. Luka estava com eles, a cabeça explodindo de dor, sem querer nem pensar no que houve na noite passada.
— Eu me pendurei assim na madeira do teto – Len contava aos outros, mostrando a posição com as mãos. – Bem quando o sensei tava fazendo a sopa. Aí eu disse: ‘eu sou o Homem Aranha!’
— Quando o coitado ia se virando, Len pulou nas costas dele – Meiko contou animada. – Foi um susto tão grande que os óculos do sensei caíram dentro da sopa.
— Ele ficou completamente cego sem eles – Len ria. – Claro, eu também tava tapando os olhos dele com as mãos e...
— O que você disse?
Luka indagou alarmada. Os outros olharam para ela, até que se deram conta aos poucos.
— O sensei... –Rin murmurou. – Ele não tava de óculos ontem.
— Ele pode ter perdido quando foi preso... – disse Len sem muita certeza.
— Não – Kaito confirmou. – Ele conseguiu enxergar sem eles. Mas eu lembro que ele sempre foi completamente míope. Como conseguiu recuperar a visão daquele jeito?
Então Luka pigarreou, um tanto corada. – Tem mais uma coisa. Ele sempre teve muitas cicatrizes por causa do tempo no exército. Mas ontem... A única que vi foi a do tiro que ele levou no orfanato.
Os outros olharam para ela.
— Onde o sensei tá agora? – Rin perguntou.
Eles saíram com tudo da taverna. Ninguém o tinha visto nos arredores, em lugar nenhum. Quando Len passou pelos carros estacionados perto da taverna, chamou Luka e os outros.
— Bem que você disse, capitã – ele murmurou. – Não devíamos ficar cegos por nossos sentimentos.
Ela ficou em silêncio. Deus sabia como estava arrependida de não ter seguido o próprio conselho.
No para brisas do carro, sobre a neve que se acumulou durante a noite, havia uma resposta para eles.
NA PONTE
O huskie apareceu bem ao lado de Meiko, empurrando o focinho em suas pernas para chamar sua atenção. Ela controlou a surpresa e o seguiu, dizendo a Kaito e os outros que voltava em breve. Seguiu o animal até o meio do bosque, onde não parecia ter ninguém por perto.
— Sinto muito – ela sussurrou emocionada, assim que se abaixou perto dele. – Não pude fazer nada por você naquela noite...
— Você pode agora – a voz de Piko soou nítida em seus ouvidos. – Não por mim. Eu estou bem. Mas faça pelos outros.
— Devo voltar à ponte?
— Não, aquela missão é da Rin e do Len. A capitã vai acabar indo também, de um jeito ou de outro. Mas você e o aniki precisam ir pelo caminho oposto.
— Qual?
— Eu mostro.
Luka olhava para as letras, sem entender. – Por que ele deixaria isso aí? Se é que foi ele mesmo. Não estou entendendo mais nada.
Rin puxou a luva de couro que protegia seus dedos. Tocou o espaço aberto em cada letra, e então, seus olhos avermelharam-se.
— Len – chamou, numa voz que não parecia ser sua. – Temos que ir.
Ao ouvir aquela voz, os olhos de Len ficaram rubros também.
— Espera – Kaito exclamou. – Onde vocês vão?
Então reparou que eles tinham as katanas já presas à cintura.
— É melhor que vocês esperem aqui– Rin disse.
Num piscar de olhos, ela e Len haviam sumido.
— Mas o que... – Kaito encarou Luka.
— Temos que ir também – ela ligou o motor do jipe e acionou o limpador de para brisas, em movimentos bruscos, denotando sua frustração. – Eu devia ter percebido. Desde que o vimos. Eu devia...
— Não tinha como saber – Kaito tentou tranquiliza-la. – Nenhum de nós desconfiou. Até o Piko foi enganado pela Ia, mesmo ele sendo tão esperto como era.
— Mas eu não podia ter deixado passar! – ela exclamou raivosa, os nós dos dedos machucando-se ao esmurrar a lataria do jipe. – Os óculos, pelo amor de Deus... Como eu não reparei nisso? Como pude ser tão cega?
Ele apertou os lábios antes de falar.
— A senhora... Amava muito o sensei.
Luka baixou a cabeça, os longos cabelos rosados escondendo o rosto. Kaito foi até o jipe e voltou de lá com um pouco de gaze, que usou para limpar o punho da capitã.
— Por favor, se acalme primeiro – pediu. – O que quer que aconteça, acho que aqueles dois podem dar conta melhor que nós.
— Mas temos que ir até lá – Luka insistiu.
— Eu sei. – Kaito enfaixou a mão dela com cuidado. – Primeiro vamos nos acalmar, e depois seguimos para a ponte.
— Não – ouviram Meiko dizer, acabando de chegar do bosque. – Kaito, temos que ir por outro caminho.
O olhar que eles trocaram foi o bastante para ele se afastar dali junto com a esposa.
— O que houve?
— Confie em mim, Kaito.
— Meiko, eu confio — ele suspirou, apertando as gazes sujas de sangue entre os dedos. — Só quero que me diga o que está acontecendo. Pra onde você foi, momentos atrás?
A mulher franziu a testa. — O espírito. Ele está dizendo para nós dois o seguirmos.
— E por que confia tanto nele, a ponto de deixar a capitã e os garotos? – ele indagou.
— Não sei o que vocês querem fazer, mas podem ir – Luka o cortou ao longe.
— Mas...
— Se vão partir agora, peguem mantimentos, armas e cobertores no carro. Vai ser difícil viajar a pé, mas acho que isso não deve ser nada pra vocês.
Meiko assentiu, mas Kaito continuava irredutível. Ela ia seguir Luka na direção do jipe, mas o homem segurou sua mão com firmeza.
— Prometa que vai me explicar isso tudo depois.
A mulher fitou os olhos dele por um momento, antes de Luka chamá-los. Então assentiu lentamente, e os dois se juntaram à capitã.
Depois que puseram tudo o que precisavam em mochilas e se prepararam para partir, Meiko se aproximou de Luka e a abraçou, para a surpresa dela.
— Por favor, tome cuidado – pediu. – E traga o sensei de volta se puder. A senhora é uma mulher incrível. Seria ótimo... Se a senhora e o sensei ficassem juntos. Espero ser ao menos um pouco como a capitã um dia.
Luka a abraçou de volta, um tanto desajeitada, sentindo os olhos nublarem-se.
— E vocês, se cuidem – disse. – Tentem não se perder um do outro.
— Sim, capitã! – ambos bateram continência, e Luka acabou respondendo, num pequeno sorriso.
Eram umas pestes, pensava enquanto dava partida no veículo, vendo a sombra já distante do casal sumir na estrada coberta de neve. Mas eram as melhores pessoas que Kiyoteru poderia ter criado.
Kiyoteru... Está achando mesmo que pode fugir de mim, não é?
As luzes da ponte estavam sempre acesas. Era a falta de luz do sol, impedindo que elas se apagassem. O céu parecia mais pesado do que nunca, e uma tempestade de neve estava para cair dali a algumas horas.
Len podia correr a uma velocidade incrível, como já havia percebido antes. Mas ainda não superava Rin. Pôde vê-la parada no meio da ponte, diante da figura encapuzada que no dia anterior, foi o sensei deles.
— Foi tudo uma mentira? – Ela indagou friamente. – Rever seus filhos, a mulher com quem você não podia ter um romance, a felicidade do reencontro... Tudo foi um teatro armado pelo pai?
— Quem pode dizer – o homem diante dela respondeu, no mesmo tom seco. – O homem que fui certamente esteve feliz ontem. Prazeres carnais e laços familiares deviam ser algo de que ele sentia falta. Mas eu não sinto.
— Porque você não sente nada.
Len se pôs ao lado dela e respirou baixo, olhando ameaçador a figura encapuzada.
— O que fez com o sensei? – indagou.
— Está preso. Morrerá comigo, se eu não tiver sorte. Se eu tivesse que enfrentar vocês dois, por exemplo. Mas você ainda não está totalmente desperto, o que facilita minha missão.
— O que...
Antes que Len terminasse, a lâmina enterrou-se bem fundo em seu ombro. Ele reprimiu um grito de dor, dando um passo para trás, sangue jorrando do ombro.
— Recue – Rin ordenou a Len, que a obedeceu, caindo no chão e segurando o ferimento com as mãos.
— Vocês são bem coordenados – o homem tirou o sobretudo, revelando a roupa militar que Kiyoteru vestia, desde um ano atrás, quando deixou o acampamento.
Mas aquele já não era mais Kiyoteru.
— Mas minha questão é com você, Kagamine ojou-san – ele sacou a katana. – Seu sensei passou por maus bocados, apenas para que estivesse pronto para dar um fim a você.
Antes que Rin abrisse a boca, ele fez que não com a cabeça. – Nem tente cantar a música. Eu sei de cor. O Nii-san me ensinou.
— Nii-san? – Ela perguntou enojada. – Está falando do pai?
— Sabe que sim. Agora, saque a sua espada. Quero ver o que faz de você a arma perfeita.
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