Little Last Love Song
34 34 - Às cegas
“Arma perfeita”, Rin pensou, no interior do quarto branco. Não foi como a Ia se referiu ao Len? A outra Rin também não parecia entender do assunto, ou mesmo estar interessada. Como sempre, o negócio dela era terminar logo o serviço para poder voltar a dormir.
— Ele quer me matar – Rin murmurou dentro do quarto branco, estremecendo. – Ele usou o sensei pra tentar me matar...
— Pois é, querida – a outra Rin respondeu. – Receba todo o amor do nosso pai.
— Me escute – ela exclamou aflita. – Você não pode matar ele. Não pode! O sensei ainda tá lá dentro!
— E daí? Você ouviu o que o cara disse. A música não vai adiantar pra fazer ele despertar. Ele é um fantoche do pai, e só tem um jeito de libertá-lo.
— Não!!
— Ótimo, então vamos ficar paradas e deixar que ele te mate?
— Não machuque ele. Por favor! Tem que haver outro jeito...
Outra vez a lâmina desceu, dessa vez sobre ela. Os movimentos de Kiyoteru eram tão rápidos e intensos que faziam a katana de Rin estremecer. Ela só esperava que a arma aguentasse o impacto da luta por tempo suficiente, para...
... ela não sabia para o quê.
Sua parte exterior gritava com ela, dizendo que foi feita para atacar, que apenas receber os golpes de um homem três vezes maior que ela ia minar suas forças rapidamente. Ferido, Len pouco podia fazer por ela. Enquanto isso Rin se debatia com a questão dentro do quarto branco. Não podia matar o sensei. Mas se não o fizesse, ele ia matá-la!
— Eu não vou aguentar muito mais, franguinha – a outra avisou.
Era mais que óbvio. Kiyoteru foi transformado numa máquina de guerra, pernas poderosas que o impulsionavam para todos os lados, braços fortes e habilidosos manejando a katana como um simples brinquedo, que descia como um martelo sobre o corpo leve e esguio de Rin, bloqueado por pouco pela katana. Ironicamente, a arma que um dia pertenceu a ele.
— Continue – Rin pedia, chorando. – Eu não posso fazer isso...
— Mas... Eu posso!
A outra finalmente aproveitou uma abertura nas costelas de Kiyoteru e o espetou com toda a força que lhe restava.
— Não – ouviu a voz de Len ali perto. Mas não parecia se dirigir a eles.
Cheio de fúria, Kiyoteru desceu a katana na direção do peito de Rin, que não podia se desviar. Mas algo segurou o golpe e amorteceu o impacto, fazendo com que apenas alguns centímetros da ponta se cravassem em seu ombro.
Uma massa de fios longos e rosados estendeu-se no ar, bloqueando sua visão.
— If you ever go astray… And despair because you’re lost… Close your eyes and you can always… Feel my heartbeat there…
Aquela voz, habituada a dar ordens, a resmungar e exclamar de desgosto, possuía uma nota suave e doce que Rin nunca tinha ouvido antes.
— Even in the morning cold… Even when past noon is slow… We are connected by the sound that… the two of us… share…
Os olhos de Kiyoteru cresceram, castanhos e assustados. Totalmente concentrado na luta, não viu o momento em que Luka se jogou na frente dele para salvar a vida de Rin.
— Você já ouviu essa música antes – o Nii-san disse ríspido, dentro de seu halo arroxeado. – Vamos, livre-se da mulher e mate a garota!
— Vai... pro inferno – ele sussurrou devagar.
Puxou a lâmina do peito de Luka, onde tinha atingido bem no coração. Sangue jorrava aos borbotões. Ele a apanhou nos braços, vendo-a sorrir, os olhos fixos nele.
— Ouvi a Rin cantar isso tantas vezes... Enquanto ela dormia... – disse, os lábios tingindo-se de sangue.
— Não fale mais nada – ele pediu desesperado.
— Você me prometeu... lembra...? Você se casaria... Teria filhos... Nessa vida. Mas quando morrêssemos, iríamos ficar juntos pra sempre...
— Luka...
— Eu achei tão idiota... Mas concordei com isso... E agora, tudo o que eu quero...
Ela tossiu de leve. Kiyoteru apanhou a mão dela e a juntou ao seu peito, encostando a testa dela na sua.
— Pra sempre, Luka.
Ela sorriu outra vez, e fechou os olhos.
— Sua missão, Kiyoteru! – o Nii-san parecia explodir de raiva. – Concentre-se!
— Já disse pra ir pro inferno – ele respondeu tranquilamente. – Sei o que tenho que fazer.
Ele ergueu o corpo de Luka nos braços e o entregou a Len, que estava recostado no muro da ponte, assistindo a cena agoniado.
— Fique com ela – pediu.
— O senhor vai matar a Rin?
Kiyoteru sorriu. – Não posso matar a arma perfeita. Mas devo lutar com ela, ou tudo o que passei no último ano terá sido em vão.
— Sensei...
Ele beijou o topo de sua cabeça. – Diga a Luka que já estou indo encontrá-la.
Ajoelhada e arfante, usando a katana para se apoiar, Rin esperava por ele, o sangue de Luka escurecendo seu casaco.
— Você, que vive dentro da Rin – Kiyoteru chamou-a. – Não dê ouvidos a ela. Pare de se refrear. Nós dois merecemos um duelo justo.
— Sensei! – Rin gritou desesperada.
— Estou no meu limite, Rin – ele contou. – Depois de tudo o que o Nii-san fez comigo, não há como eu sobreviver. Mas ainda podemos lutar. Eu não nasci pra isso... Mas você nasceu. É a última alegria que posso lhe dar antes de ir embora.
Os olhos dela estavam azuis, marejados. No fundo ela sabia, e seu coração relutante sentia que era a hora da despedida. Apenas quis adiar aquilo o máximo que pôde, mesmo que tivesse que por sua vida em risco para isso.
Mas ela tinha que tomar uma atitude. Afinal, a capitã estava esperando pelo sensei.
Rin ergueu-se e enxugou os olhos, que tornaram-se rubros novamente. Arrancou o casaco e o atirou longe. Debaixo dele vestia apenas uma sarashi manchada de vermelho.
— Muito bem, Hiyama Kiyoteru-san – ela tomou posição e ergueu a katana, sorrindo ansiosa. – Hora de lutar!
A visão de Luka estava turva. Confusa.
Algo pulsava forte junto ao rosto dela, um líquido quente escorria por sua pele. O coração de Len. Seu sangue. Ela piscou e suspirou devagar, tentando se manter em alerta.
— Aguente mais um pouco, capitã – ele pedia desesperado.
Ao longe as espadas retiniam e chocavam-se em golpes sucessivos, rápidos demais. Rin estava lutando com toda sua força, e pelo jeito, Kiyoteru também.
Você disse que ia protegê-los.
Por que está tentando matá-los?
Ela demorou alguns meses até resolver visitar o que sobrou da cidade. Seu pai estava lá na noite do bombardeio, enquanto ela lutava a quilômetros dali. A notícia foi um golpe duro para Luka, mesmo agora que estava acostumada com perdas. Big Al era sua única família. Ela sequer pôde se despedir.
Tinha ficado sabendo que Kiyoteru havia saído do exército. Também havia perdido toda a família que tinha. Era mais que natural, ela pensava. Kiyoteru parecia estar sempre sendo movido pela própria culpa. Podia imaginá-lo junto ao túmulo da mulher e dos filhos, lamentando as coisas que não viveu com eles, e as coisas que eles morreram sem saber.
Mas não imaginava encontrá-lo morando num dos casarões que restaram de pé na antiga área nobre, cuidando de duas crianças que não eram dele.
— Esse lugar é um cemitério agora – ela comentou na época, quando se encontraram. – Entendo você querer cuidar dos garotos, mas não seria mais lógico ir morar em outro lugar?
— O mais lógico é ficar aqui – ele sorriu em resposta. – Ninguém vai gastar bombas com a mesma cidade por mais de uma vez, vai?
Luka deu de ombros. Ele queria continuar na cidade onde a mulher e os filhos morreram, ela não podia fazer nada a respeito. Tampouco queria.
Mas por mais que dissesse o contrário a si mesma, não queria perder o rastro de Kiyoteru outra vez. Mesmo tendo sido ela a mandá-lo se afastar.
— Minha companhia vai estar nessa região nos próximos meses – disse. – Vou mandar alguém patrulhar por aqui de vez em quando nesse tempo.
— Não precisa fazer isso...
— Sei que não preciso.
Os anos seguintes foram difíceis, com a guerra pressionando os soldados cada vez mais. Luka precisava de reforços, e acima de tudo, de líderes. Mas o único capitão disponível que conhecia estava montando um verdadeiro orfanato e não queria nem ouvir falar de guerra. Era como se estivesse tentando fugir da realidade e se redimir por seus erros ao mesmo tempo, e isso a irritava. Não era hora para egoísmos, ainda mais para disfarçá-los de altruísmo. Mas Kiyoteru estava irredutível, e ela nada podia fazer.
Aquelas crianças eram o mundo dele agora. E só quando ele perdeu quase todas elas, Luka entendeu que algo mais que a culpa movia Kiyoteru. Era também seu amor profundo por aqueles que agora eram seus filhos.
Se Len e Piko não tivessem sobrevivido, ele provavelmente estaria quebrado pelo resto da vida.
Luka o viu voltar ao exército por eles, educá-los, dedicar tudo o que tinha a ensiná-los a se defender. A serem soldados, mas continuarem humanos. Era o único legado que queria deixar, o melhor que podia. Kiyoteru não era um covarde, como Luka acreditou por anos. Era apenas humano. Quando entendeu isso, ela percebeu que podia perdoar qualquer falha sua, e que sequer tinha autoridade para julgá-lo.
Ela se viu mesmo capaz de amá-lo outra vez.
— A Rin ainda está por aí – ele lhe disse no dia em que partiu. – Não posso ser mais irresponsável do que já fui. Preciso saber o que houve com ela.
Len e Piko já eram rapazes crescidos. Luka não teria mais trabalho com eles do que com qualquer outro soldado, de modo que Kiyoteru se sentia seguro para partir.
— Vai procurá-la às cegas?
— Tenho uma pista.
— Uma só? É o bastante?
Ele baixou a cabeça. – Pode parecer arriscado, mas preciso ir.
Luka suspirou fundo. Ele estava fugindo outra vez, pensou. Uma fuga disfarçava de busca. O que será que o fazia sentir medo dessa vez?
Ela?
Não, Luka sacudiu a cabeça. Ele jamais a veria daquele jeito novamente. Não depois de tudo.
— Parece arriscado – ela anuiu num suspiro. – Mas entendo. No fim das contas, você ainda é um bom pai.
Kiyoteru deixou escapar um riso triste. – Não, Capitã. Não sou mesmo.
Ela o espiou por trás dos óculos. Era a primeira vez que via aqueles olhos castanhos ganharem vida em anos.
— Se eu pudesse voltar no tempo... Até aquela época, eu teria escolhido você, Luka.
Ela franziu a testa, sem entender. – Está falando...
O silêncio dele a fez perder o fôlego por um momento. Ele só podia estar brincando.
— Sua noiva estava grávida naquela época – murmurou.
Kiyoteru lhe sorriu outra vez. – Pois é.
Eles nunca tinham falado daquele passado, em todo aquele tempo no acampamento. A única vez que Kiyoteru escolheu para tocar no assunto, foi antes de fugir dela outra vez.
— Podíamos estar juntos agora. Podíamos ter nossos próprios filhos.
— Ou podíamos estar mortos – ela respondeu, abalada. – Eu não sei o que podia ter acontecido, Kiyoteru, mas não sei se é certo você me falar isso depois de tanto tempo.
— Não... Não é justo com você. Mas ainda assim, queria que soubesse.
Ela continuou em silêncio, a pulsação acelerada enquanto digeria o que tinha acabado de ouvir.
Não, não era justo. Ele não tinha o direito de vir do nada e lhe fazer sentir como uma adolescente outra vez. Quando Kiyoteru estava prestes a partir ela agarrou seu braço num impulso.
— Só prometa que vai voltar – pediu.
O homem assentiu devagar. – Se eu não voltar daqui a um ano, vá atrás de mim.
Luka riu, surpresa. – Às cegas? Como vou fazer isso?
— Sei que vai conseguir.
Eu consegui, Kiyoteru?
Olhando para aquele borrão negro que lutava adiante, entre faíscas e o tilintar das lâminas, tentou lembrar do homem que esteve com ela noite passada. Sentia os músculos tensos nos braços de Len a segurá-la, enquanto assistia a luta sem poder fazer nada. E Rin voava em torno de Kiyoteru, atacava-o sem descanso.
— Len – ela murmurou, fazendo-o baixar o rosto para ela. – A Rin... Ela precisa vencer.
O rapaz pressionou os lábios, fitando-a agoniado.
— Temos que ficar para trás... Mas vocês dois... Devem seguir em frente.
— Não é justo – ele murmurou.
Luka piscou devagar. O rosto dele estava cada vez mais turvo em sua visão, enquanto ela sentia a consciência lhe deixar aos poucos.
— A vida não é justa, Len... Achei que já tivesse percebido.

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