Um vulto branco passou rapidamente ao lado do jipe. Meiko, ao volante, olhou pelo retrovisor, sem conseguir ver o que era.

— Ali é o sensei? – Kaito chamou sua atenção para um ponto adiante, e ela voltou-se.

Estavam a poucos quilômetros da ponte. Havia uma silhueta negra parada do outro lado dela, como se os esperasse.

— Já vamos saber – ela murmurou.

Instantes depois estacionou o veículo diante da ponte larga de concreto, iluminada por postes de luz amarela. Ainda não estava muito escuro, embora o cinza opressor do céu pairasse sobre as cabeças deles.

— O que a gente faz? – Rin indagou excitada. – Vai até lá?

— Pode não ser o sensei – Len opinou. – Por que a gente não fica aqui e vê o que ele faz?

Eles discutiram até chegar a uma decisão: Kaito e Meiko iriam na frente, e avisariam os outros se estivesse tudo bem. Enquanto o casal seguia caminho, Luka e os garotos aguardavam junto ao jipe.

O desconhecido estava envolta num sobretudo negro, um capuz sobre a cabeça tremulando ao vento. Kaito apertou a mão de Meiko tenso, e eles se entreolharam, buscando calma um no outro. A sensação que tinham sobre aquilo não era nada boa.

A cem passos de distância, um vento mais forte ergueu o capuz, revelando um rosto que eles podiam reconhecer bem, mesmo de longe, e mesmo sem o verem a anos. Não resistiram a apressar o passo, ansiosos.

Hiyama Kiyoteru estava bem ali, diante deles.

— Kaito-kun...? – ele chamou, confuso. – Meiko-chan?

— ...Sensei? – eles indagaram de volta.

O que viram no rosto do homem foi um sorriso de total incredulidade.

Era o mesmo homem que cuidou deles desde pequenos. Olheiras marcavam seu rosto e um ar de cansaço se revelava em sua postura, mas não havia como não reconhecer aquela voz.

— Achei que nunca mais fosse ver vocês... – ele se aproximou, os olhos brilhando numa alegria descrente. – Meu Deus, como cresceram! Você... Você realmente encontrou ela, Kaito-kun!

— Sim – ele engoliu em seco.

As memórias da despedida no orfanato fazendo seus olhos nublarem-se. – Eu consegui, sensei.

Meiko não se conteve e correu ao seu encontro, abraçando-o.

— Sinto muito, sensei! – ela chorou. – Eu não devia ter ido embora! Sinto muito por tudo!

— Está tudo bem, Meiko-chan – Kiyoteru a abraçou de volta, erguendo a mão sobre sua cabeça. – Você fez tudo o que podia. Estamos todos juntos agora.

Kaito o abraçou também, lágrimas rolando pelo seu rosto. Ao ver aquilo, Rin atravessou a ponte correndo.

— Kiyoteru-sensei! – gritou, juntando-se ao abraço e quase derrubando todos no chão. – Por que demorou tanto? Ficamos preocupados!

Meiko e Kaito abriram espaço para que Kiyoteru visse Rin.

—Sensei – ela repetia, o rosto coberto de lágrimas felizes.

— Rin-chan – ele a abraçou, seu rosto ainda numa total descrença. – Você também! Todos que fui buscar, encontrei todos de uma só vez! Como isso é possível?

Len já ia até lá, mas Luka puxou-o pela gola do casaco. – Preciso de você aqui – murmurou.

— Por quê? – ele a olhou sem entender.

— Aqueles ali não veem o Kiyoteru há muito tempo– Luka respondeu. – Apenas nós dois sabemos como ele era, um ano atrás.

Estava encostada no jipe, encarando a cena na ponte com uma expressão desconfiada. – Mantenha seus olhos abertos – disse a Len. – Não deixe nenhum sentimento lhe cegar. Kiyoteru nos deve muitas explicações, mas não sei o que pode acontecer se ele resolver tomar outra atitude.

— Do que está falando?

— Apenas um pressentimento.

Enquanto voltavam pela ponte, Meiko viu algo pelo canto do olho outra vez. A coisa branca passou rápido por eles, cintilando e sumindo de vista. Tinha até esquecido daquilo. Ela franziu a testa intrigada, mas a felicidade do momento varreu seus pensamentos para longe.

Kiyoteru e Luka se encararam por alguns segundos. Foi um momento bem constrangedor. Ele a fitava culpado; ela, com desconfiança em seu olhar enviesado.

— Demorou, capitão– reclamou secamente.

— Eu sei – ele baixou os ombros. – Fui preso pela guarda da Imperatriz. Aparentemente, falar o nome Kagamine neste país pode te levar pra cadeia.

Len olhou para ele surpreso.

— É, imagino o motivo – Luka disse. – Então, esteve preso até hoje?

— Me deixaram aqui, dizendo que alguém do meu país vinha me buscar... Mas não me disseram que seriam vocês... – ele a encarou novamente. – Foi uma decisão apressada, capitã. Sinto muito por ter partido daquele jeito.

Ela e Len se entreolharam. O rapaz não via nada além de seu sensei ali, completamente acabado depois de um ano numa prisão no exterior.

E pelo jeito, era só o que Luka via também.

— Enfim – ela resmungou. – Ao menos você está inteiro. Vamos logo embora daqui.

No caminho de volta, Kiyoteru foi colocado a par de tudo o que houve no último ano. Mayu, Rin, Zeeu, Ia, Piko. Ele lamentou a morte de seu filho, e os outros prometeram levá-lo ao túmulo dele logo que chegassem. Len não parava de falar, animado por reencontrar seu sensei, mas atento a qualquer detalhe que fosse estranho. Mais empolgada que ele, só mesmo Rin, que viajava ao lado dele no colo de Luka, e perguntava tudo sobre o que Kiyoteru fez enquanto estava naquele país.

Ao volante, Meiko continuava a enxergar a coisinha branca pelo caminho, sempre na periferia do seu olhar. Quando tentava ver diretamente, ela sumia de vista.

Foi assim por todo o caminho até a fronteira, quando finalmente os faróis iluminaram um animal bem diante do jipe. Era um huskie siberiano, surgido do nada, que fez Meiko exclamar de susto e frear no mesmo instante. Os outros contavam sobre a batalha de Len e Ia, quando foram atirados para a frente.

— O que foi? – Luka indagou, sem entender.

— Nada – ela respondeu, o coração disparado. – Achei ter visto alguma coisa. Estão todos bem?

Kaito trocou de lugar com ela, pedindo que ela fosse descansar. Mas Meiko não conseguia. Enquanto os garotos continuavam a conversar com Kiyoteru, ela viu novamente o huskie passar correndo pelo jipe e sumir de vista. Mesmo àquela velocidade, havia algo que ela notou desde que freou diante dele.

Ele tinha um olho verde e o outro azul.

Sem a urgência de voltar logo para casa, e ainda embriagados com a sensação de ter a família toda reunida, Kaito e Meiko e os garotos convenceram Luka a descansar numa taverna que encontraram no caminho, pouco depois da fronteira.

Por algum motivo, os taverneiros também estavam aceitando militares de graça em seu estabelecimento, de modo que eles preferiram se fazer em casa a questionar qualquer coisa. Kaito buscou logo um quarto para si e Meiko, mesmo tendo que ouvir os conselhos desdenhosos da capitã para deixar tudo inteiro no recinto. Havia mais dois quartos vagos, e Luka percebeu Rin indecisa ao olhar para as chaves na recepção.

— O que há, garota? Não já dormiu com o Len antes?

Ela respirou fundo e tomou coragem.

— Tudo bem você e o sensei ficarem juntos? – indagou.

Luka piscou devagar, sem reação. Não achava que Rin fosse tão perspicaz.

— Somos adultos, Rin – ela disse, e então sorriu brevemente. Além de esperta, Rin parecia genuinamente preocupada com ela. – Podemos cuidar dos nossos problemas. Agora vá, e se divirta com o Len.

— C-capitã! – ela exclamou, rubra de vergonha.

— Estou falando do salão, garota. Tem música lá. Leve o Len para dançar um pouco.

Kaito e Meiko haviam contado um pouco mais de suas vidas a Kiyoteru, sentados numa das mesas enquanto bebiam.

Claro, Kaito não contou a parte em que foi conivente e até participou dos assassinatos cometidos por Mayu, nem Meiko disse uma palavra sobre os abusos sofridos no templo. Era um dia feliz, em que coisas como aquelas não precisavam vir à tona para estragar tudo. Depois que Kiyoteru os felicitou por tudo o que conseguiram passar até ficarem juntos, ele lhes deu privacidade e se juntou a Luka, que observava Rin e Len dançando com outros hóspedes no salão.

— Ele parece bem– Kaito comentou, tomando sua cerveja. – Mas bastante cansado.

— Parece tão acabado quanto um prisioneiro fora da cela – Meiko concordou, observando-o de longe. – Mas é, fora isso, é o mesmo sensei de antes.

— Quem diria que a gente se encontraria de novo, hein?

Eles sorriram, entrelaçando as mãos uma na outra sobre a mesa. Então Kaito lembrou de algo.

— Aquilo que você viu na estrada mais cedo. Era um espírito?

Meiko engoliu em seco.

— Acho que sim.

— Será que é algum tipo de... Sinal ou algo assim?

Ela refletiu por um momento. Apenas Kaito sabia que ela tinha aquela habilidade, e ela nem lhe contou que os espíritos eram as crianças do orfanato.

Valia a pena alarmar os outros, sem saber exatamente o motivo?

— Pode ser – murmurou. – Mas não vejo nada agora.

Uma música mais lenta começou a tocar nos violões que embalavam os hóspedes. Ao convite de Kaito, Meiko seguiu-o para o salão, esquecendo as preocupações ao se deixar levar nos seus braços.

— Eu não sei dançar isso – Len bufou, parado diante de Rin enquanto os casais iam se formando.

— Você não sabe dançar nada – ela zombou. – Só sabe brincar de roda feito uma criança.

— Hah, você também!

— Mas eu posso aprender. – Ela descruzou os braços de Len e apontou com o queixo para Kaito e Meiko, que colavam os rostos um no outro. – É só fazer como eles!

— H-hein? – Len exclamou vermelho.

Antes que ele protestasse mais, Rin pegou as mãos dele e fez com que envolvessem sua cintura. Então enlaçou seu pescoço e olhou para ele, resoluta, o narizinho quase encostando no dele.

— Agora não fica parado feito um ás de paus – reclamou baixinho. – Se mexe comigo!

Ele botou uma grande dose de ar para dentro, antes que suas mãos pousassem de fato na cintura dela e movesse seu corpo devagar, junto com o dele, ao som da música.

— Viu só– ela cantarolou. – Não é tão difícil.

— Mas é estranho.

— Só porque você não tá acostumado. Poxa, me abraça direito!

Len a puxou para bem junto de si, nervoso.

Não sabia o motivo de tanta ansiedade. Talvez porque eles fossem o casal mais jovem em meio aquele monte de adultos e velhos. Talvez porque fosse a primeira vez que agiam como casal para outras pessoas. Mas era um dia tão feliz, ele pensou. Haviam reencontrado o sensei, e mesmo tendo sofrido e perdido tantos membros, a família estava reunida.

E Rin estava em seus braços.

Ele sorriu, pressionando o corpinho dela junto ao seu. Nunca pensou que um dia como aquele chegaria – os dois usando fardas militares, dançando numa taverna no meio do nada. Parecia até um sonho maluco, mas ainda assim, parecia um sonho.

E o melhor: era real.

— L-len – ela riu baixinho, trêmula, quando sentiu o nariz dele passar pelo seu pescoço. – Faz cócegas...

— Não sei dizer qual é o seu cheiro – ele sussurrou em seu ouvido, fazendo a pele dela arrepiar. – Só sei que eu adoro.

Luka estava sentada no balcão do bar, de onde dava para ver o salão alguns degraus abaixo. Ao ver Kiyoteru vindo na direção dela afastou-se para lhe dar lugar.

— Lembro da última vez que vi esses pirralhos, ainda no orfanato – comentou. – Incrível como o tempo passa.

— Ainda estou tentando me convencer de que não é um sonho – Kiyoteru respondeu, observando-os maravilhado. – Len cresceu demais desde o último ano. Você cuidou bem dele, capitã.

A mulher resmungou em resposta e ele sorriu, voltando a atenção para as danças.

Fitou o rosto dele, o perfil bonito que ainda conservava os traços da juventude. Apanhou a carteira e o isqueiro no bolso da jaqueta militar e acendeu um cigarro.

— Nunca vai largar esse vício – ele comentou.

— Difícil. O primeiro cigarro que coloquei na boca, veio da sua.

Um silêncio tenso se formou entre eles, enquanto a melodia e as conversas enchiam o ar da taverna.

Eles continuaram a observar as danças, bebendo cerveja sem nem reparar a quantidade. Algum tempo depois Luka decidiu que já estava na hora de descansar, e Kiyoteru chegou à mesma conclusão.

Ela fechou a porta e o agarrou pelo colarinho da camisa escura, puxando seus lábios para um beijo quente, demorado, recendendo a cigarro e cerveja e a uma paixão contida havia anos.

Kiyoteru se deixou levar, embevecido pelo calor dela. Prensou-a contra a parede e tomou o rosto entre suas mãos, enquanto as dela se agarravam às suas costas, arranhando sua pele por baixo da camisa. Por fim se livraram daquelas roupas e Luka tocou no peito forte dele, onde havia a cicatriz de um tiro.

— Você me salvou naquele dia – ele murmurou. – Eu me lembro bem. Não só no orfanato. Você me salvou tantas vezes...

Ela pôs o dedo sobre seus lábios e o empurrou para a cama. Engatinhou sobre ele e beijou e mordiscou seu pescoço, seu peito, o abdome, puxando as calças dele para baixo com alguma dificuldade.

— Luka – Kiyoteru sentou-se na cama, ajudando-a com as roupas, e a fez olhar para ele. – Aquilo que eu disse antes de ir embora... Eu falei sério.

— Esquece – ela puxou para fora a camiseta que vestia, exibindo seios redondos e fartos. – Não ligo mais pra isso. Só temos essa vida pra viver e nos arrepender.

— Então você... Ah...

Ele perdeu a fala quando Luka desceu o ventre sobre seu membro, se encaixando ao seu redor como há tanto tempo não fazia.

Ela moveu os quadris e ele a impulsionou, olhos azuis presos aos castanhos, gemidos e suspiros baixos, sofridos, apaixonados.

— Você demorou tanto...

— Sinto muito...

— ...Eu nunca...

— Eu sei...

— ...ah...

Ele a deitou por baixo de seu corpo e a penetrou com mais vigor, vendo-a morder o lábio, sem parar de olhar para ele, até que o prazer a atingisse e ela gritasse e arqueasse o corpo sobre a cama, expondo os seios exuberantes, que ele sugou vorazmente antes de ir mais rápido dentro dela.

Só havia uma cama no quarto. Rin já tinha se lavado e colocado a camisola longa de dormir e examinava a espessura dos lençóis, enquanto Len estava parado diante dela, feito um boneco de cera.

— O que foi agora? – ela revirou os olhos impaciente.

— Nada, ué. – Ele pigarreou e jogou a toalha num canto do quarto. Foi para o outro lado da cama e se encostou na parede, olhando para a jovem de canto de olho. – Rin...

— Hm?

— A gente tem que fazer... Hm... Aquelas coisas?

Ela olhou para o rapazinho, surpresa. – Tá falando... “Aquelas Coisas”?

— É... Já que estamos só nós dois aqui e... É.

— Não, de jeito nenhum! – Ela corou. – Já basta o aniki e a aneki, e agora a capitã e o sensei!

— Hein? – ele arregalou os olhos. – Eles dois?

— Você não sabia? –Rin estranhou.

Aqueles anos todos no acampamento, e ele nunca desconfiou de nada? Ou a Megurine-san e o Hiyama-sensei eram muito discretos, ou Len era simplesmente muito tapado.

— Enfim... – Rin subiu na cama devagar, sentando-se diante dele. –Acho que a gente não tem que fazer nada se não quiser. Você quer?

Ele franziu as sobrancelhas. – Claro que sim. Mas eu nunca fiz nada assim e... Se você não quiser agora, não tem por que ter pressa.

Rin sorriu, olhando para ele com carinho. – Sabe, você é o pior dançarino que eu já vi.

— Você não é muito melhor, sabia?

Ele a puxou e os dois caíram deitados na cama, ele abraçando-a pelas costas.

Pra que apressar as coisas, pensou, apreciando o perfume nos cabelos úmidos dela enquanto entrelaçavam as mãos. Só de ficar deitado com a Rin em seu abraço, protegida junto a ele, e de ele saber que de fato podia protegê-la... Mordiscou a orelha dela, fazendo-a se encolher de cócegas e mandá-lo parar aos risos, e ficou apenas ali, a acariciar os cabelos dela.

— Que bom que o sensei tá com a gente– ela murmurou, caindo no sono pouco depois.

Len ainda lembrava do aviso de Luka. Não deixe nenhum sentimento lhe cegar.

Mas era apenas o sensei. Se a própria capitã reconhecia isso, não havia por que desconfiar de nada. Estava tudo bem. Ele se aconchegou junto ao corpo de Rin e dormiu tranquilamente.

Notas finais
Olar novamente... Antes de tudo, sinto muito por ainda não ter respondido as reviews enviadas! A semana está passando mais rápido do que eu gostaria. Mas tudo vai ficar bem a partir da próxima semana, e como já dei uma adiantada na fic, vou poder responder as reviews e postar os caps com mais regularidade. Então é isso! Meu muito obrigado aos que acompanham e comentam a fic! E a você que leu até aqui, se puder deixar uma review como estímulo pra que eu continue postando e escrevendo, agradeço desde já. Pode deixar sua opinião, comentário, crítica, dúvida ou apenas o seu olar! Beijas e té maisinho :***