Little Last Love Song

31 31 - Segredos sobre segredos.


“...eu te prometo.”

“Claro. É só o que pode fazer agora.”

“É, é tudo o que posso fazer. Você sabe disso. Mas, quando tudo acabar...”

“Sei, sei... Não precisa repetir essa coisa idiota.”

Luka soltou uma baforada do cigarro. Irritada com o homem sentado diante dela, sem esconder de maneira alguma.

Mas ele tinha razão. Fora aquela promessa imbecil, ele não podia fazer mais nada por ela.

“Me prometa mais uma coisa então,” disse, batendo as cinzas do cigarro no beiral da cama.

“Diga.”

“Hoje foi a última vez. De agora em diante, sou apenas a soldado Megurine Luka. Vou conseguir minha transferência pra outro batalhão e depois disso não vamos nos ver mais. Mas da próxima vez... Da próxima, vou ser só alguém que você conheceu no exército. Mais ninguém. Se eu ouvir qualquer palavra sua a mais, acabo com sua raça.”

“Pode deixar”, ele sorriu. Era um sorriso conformado, ela percebia.

Não era o melhor dos arranjos, mas era assim que deviam seguir em frente.

Como apenas amigos.

Luka despertou levemente atordoada. Rin estava ao volante, enquanto Kaito e Meiko cochilavam no banco de trás, com um Len meio dopado de morfina no meio deles.

— Tudo bem, capitã? – ela indagou, preocupada em olhar para Luka e a estrada ao mesmo tempo.

— Garota – Luka resmungou, esfregando os olhos e bocejando. – Não sabia que você dirigia.

— Aprendi no acampamento. Ensinaram a mim, ao nii-san e a nee-san. Ah, eles estão cuidando do Len, então tudo bem ficarem lá atrás, certo?

Luka olhou para trás. Não especificamente para os passageiros, mas para o banco do carro.

— Tudo bem? – Rin repetiu.

— O garoto – Luka disse, voltando a encarar a estrada à frente. – Por que doparam ele?

— Ele voltou ao normal quando acordou. Estava sentindo muita dor depois que a Meiko costurou o ombro dele.

— Devia estar regenerado a essa hora, não?

— O corte foi fundo demais. Vai levar mais um tempo. Acho que amanhã de manhã vai estar perfeito.

— Sei.

Ela buscou a carteira de cigarros no bolso da jaqueta. Sentiu o olhar de Rin sobre ela e voltou-se para a garota, indagando com o olhar.

— A senhora... Estava chamando o nome do sensei – Rin contou hesitante.

— E daí? Não é atrás dele que nós estamos indo?

Rin assentiu e decidiu ficar calada, aspirando um pouco da fumaça do cigarro, a qual já estava acostumada. Não quis continuar com o assunto e dizer a Luka que o jeito como ela chamava por Kiyoteru era um tanto...

Desesperado.

Pouco antes de chegarem à fronteira, o combustível deu mostras de que não ia durar muito mais tempo, e os galões que trouxeram de reserva já estavam vazios. Kaito e Rin saíram em busca de informações, deixando Meiko cuidando de Len e Luka cochilando. Ela parecia bastante sonolenta desde o fim do confronto com Ia.

— O sensei conhecia a capitã fazia muito tempo, né? – Rin perguntou.

— Sim – Kaito procurou lembrar-se. – Eles serviram na mesma companhia, logo que a guerra começou. Pelo menos foi o que ele me disse.

— É o que ela diz também. Mas não sei... Parece que a Megurine-san não gosta muito de falar dessa época.

— O sensei nunca falava muito também. Mas era como se ele só não achasse muito importante ou algo assim. De todo jeito, tínhamos coisas mais urgentes pra cuidar naquela época, e ele sempre mudava de assunto.

Eles avistaram uma camionete passar pela estrada. O motorista lhes informou que havia um posto de gasolina a poucos quilômetros dali, distância suficiente para o jipe percorrer.

Enquanto voltavam, Rin mordeu o lábio indecisa, e afinal decidiu contar.

— A Megurine-san chamou pelo sensei enquanto estava dormindo.

— Eu ouvi.

Eles se entreolharam preocupados. Então Kaito fez um carinho no topo da cabeça dela.

— Vamos deixar que tudo se resolva, certo?

Rin assentiu, ainda um tanto indecisa. Kaito suspirou fundo ao ver o jipe a distância.

— Acho que o Len já está melhor a essa hora... Não achei que ele fosse capaz de retalhar aquela moça daquele jeito.

— Sim... – ela murmurou. – Acho que... Deve ter sido meio chocante pra vocês.

— Ah, não. Eu estive com a Mayu-senpai, lembra? E a Meiko, bem... Ela passou por bastante coisa. Quanto à capitã, nem se fala. Ela foi capaz de desdenhar de você enquanto seus olhos estavam vermelhos. Acho que isso diz bastante sobre a coragem dela.

— Verdade – ela deu um risinho. – Que bom que a ‘outra Rin’ me obedeceu e ficou quieta. Ou teria sobrado pra mim agora.

Mais desperta, Luka dirigiu até chegarem a um posto de gasolina com uma aparência bastante abandonada. Havia apenas uma velhinha tomando conta do local. Quando ela viu os uniformes de Luka e dos outros passageiros, apenas fez sinal para que Luka guiasse o veículo até a bomba e o abasteceu sem dizer uma palavra.

— Sou só eu ou tem algo estranho aqui? – Len indagou num murmúrio fraco, olhando para os outros, que deram de ombros.

Quando Luka foi negociar o pagamento a velhinha fez que não com a cabeça. Havia trazido um documento para que ela assinasse, junto com uma caneta, e ficou toda empertigada à espera enquanto a capitã lia.

— É do país aliado – contou assombrada. – Estão pagando pelo combustível de qualquer veículo militar que abasteça aqui. Só preciso deixar minha assinatura e a quantidade de litros que estou levando...

— Nesse caso – Meiko foi até o porta-malas e retirou os três galões vazios. – Vamos precisar pra viagem de volta, certo?

Os olhos da velhinha brilharam ao ver os galões. Meiko e Kaito a ajudaram a enchê-los, enquanto Luka corrigia no documento a quantidade de litros que iriam levar.

— É estranho – Len comentou, enquanto Rin vistoriava o curativo em seu ombro. – Mas se eles querem pagar, então tudo bem.

Olhou para a jovem, que tinha um ar consternado em seu rosto. – Ei, o que foi? Não tá mais tão feio assim, tá?

— Não, já tá quase sarado – ela respondeu suspirando fundo. – Ainda sente alguma dor?

— Só umas fisgadas às vezes, mas fora isso, nada. – Len tocou seu rosto. – E você? Tá tão calada. Preocupada com o sensei, é isso?

— Também. Um pressentimento ruim, eu acho.

— Sobre o que?

Rin se recostou no banco, segurando a mão de Len entre as suas. – Deu tudo certo até agora. Encontramos a katana no túmulo da Mayu. Você despertou suas habilidades. Venceu a Ia e descobriu a localização do sensei. Até achamos um posto de gasolina que fornece de graça... Não acha que tudo tá correndo bem demais?

Ele entrelaçou os dedos aos dela, pensativo. – Fácil demais. É verdade... O que acha que isso quer dizer?

Rin viu Luka olhar para os galões cheios que Meiko e Kaito colocavam no porta-malas. O combustível para a viagem de volta. A garota não gostou nada da sombra que passou pelo rosto da capitã.

— Acho que vamos descobrir quando encontrarmos o sensei.

— É... – Len disse sonhador. – Faz mais de um ano. Como será que ele está? Será que acabou perdendo os óculos, por isso não achou mais o caminho de volta?

Rin deu um sorrisinho fraco.

Não quis contar a Len que seu pressentimento ruim era justamente sobre o estado do sensei.

Os policiais da estação cumprimentaram com um acendo a mocinha de cabelos rosados e curtos que passou por eles. Era a filha do Big Al, e ninguém se atrevia a faltar com o respeito com a família do delegado.

— Vai mesmo seguir em frente com essa história – disse o homem de seu gabinete, ao vê-la fardada como soldado, o quepe militar apertado entre as mãos.

— O senhor me ensinou que servir ao próximo é a missão mais nobre que temos nesse mundo – ela retorquiu com segurança. – Não sei por que a teimosia.

— Não estou sendo teimoso – ele reclamou. – Sabe que apoiei sua decisão desde o começo. Estou falando da companhia onde você entrou.

As mãos dela apertaram o quepe com mais força.

— Ele é um homem honrado, otou-san – ela disse. – De uma família honrada. E vai constituir família com outra mulher. Eu tenho consciência disso.

— Se tem consciência, vá para outra companhia. Não seja tola de caminhar direto para um desastre quando pode evitá-lo.

— Não vai acontecer nenhum desastre, otou-san...

— Não, não vai. É o que me diz a sua boca. Mas não o seu rosto vermelho nem os seus olhos brilhantes quando começa a falar desse homem.

— Otou-san...

— Já aconteceu, Luka – ele se levantou do gabinete, envolvendo-a em seus grandes braços. – Sei como é isso. Se você tivesse conhecido minha mulher, ela poderia lhe explicar melhor... Mas já que ela não está mais aqui, eu só posso lhe dizer isso: agora que aconteceu, se afaste dele enquanto é tempo.

Luka saiu da estação policial e voltou ao quartel de sua companhia. Big Al tinha deixado com ela a carta de transferência para outro batalhão, além de lhe dar mil conselhos. Estavam em guerra, não havia tempo a se perder com complicações que podiam ser facilmente evitadas. Ela concordava, claro. Havia entrado no exército com o propósito de servir, não de agir como uma adolescente apaixonada.

Kiyoteru acabava de chegar também, os óculos caindo pelo nariz enquanto ele ajeitava o quepe. Devia estar atrasado, para variar. Luka sorriu sem perceber e foi até ele.

— Tudo bem?

— Ah – ele ajeitou os óculos, um leve rubor tomando suas faces. – Megurine-kun. Tive que voltar em casa pra pegar meus óculos...

— Você devia colar eles em seu rosto, seria mais prático.

Ele sorriu, e ela também, os olhares de ambos presos um ao outro. Sem perceber, Luka havia amassado a carta de transferência em sua mão.

— O que é isso?

— Nada. Vamos, já estamos atrasados!

Já havia acontecido. Ela já o amava. E mesmo comprometido com uma amiga de infância, ele a correspondia.

Agora ele olhava para seus dedos, lembrando de como os entrelaçou aos cabelos rosados de uma mulher que ele amou ardentemente. Da sensação de puxar o corpo esbelto para si, a sede que o acometia ao beijá-la, o momento em que perdia o juízo quando se entregavam um ao outro.

Impossível, pensava. Devia ter acontecido com outra pessoa. As lembranças sensoriais estavam lá, mas todo o resto havia sumido. Amores, dores, pessoas. Sua memória estava vazia. Só lhe restava o presente, e a missão que o Nii-san havia lhe incumbido.

Do início da ponte até o seu fim, não havia nada além de neve. Por baixo da construção havia um rio congelado, e o vento cortante soprava no rosto de Kiyoteru. Se aquele fosse mesmo seu nome, ele pensava numa vaga reflexão. Todas as suas certezas haviam sido remodeladas pelo Nii-san, assim como seu próprio corpo. Não pensava em nada além da tarefa que tinha a cumprir, não sentia nada que não fosse o poder que circulava em suas células. Se amou ou odiou alguém, pouco importava agora.

Fechou os olhos. Não lembrava. Não sentia.

Só o que precisava fazer era matar Kagamine Rin.

— Está perfeito, Kiyoteru-sensei – o Nii-san passou por trás dele, deslizando em seu quimono, envolto num halo de luz roxa. – Pode voltar. Eu lhe direi quando for a hora certa, e então você voltará para cumprir sua missão.

Quando abriu os olhos, ele sabia que era Hiyama Kiyoteru. Um homem cheio de culpas.

E um pai, até o fim.

Ela fazia desenhos no vidro embaçado da janela, que Len ao seu lado brincava de arruinar. Desenhou uma casa, e ele fez uma espécie de dinossauro prestes a pisar nela. Depois uma maçã, onde ele acrescentou uma enorme minhoca. Colocou dentes de vampiro num bonequinho de neve. Por fim, de biquinho retorcido, Rin desenhou um coração e ficou olhando para Len, esperando para ver o que ele faria.

Ele lhe sorriu amoroso, e já ia estendendo o dedo para a janela, quando ouviu a voz mal humorada de Luka. – Se você desenhar uma flecha nesse coração, eu vou vomitar.

— Ah capitã, deixa eles se divertirem– Meiko riu enquanto os dois baixavam as cabeças, envergonhados.

— Sim, claro... Começam desenhando corações e terminam quebrando tinas de banho.

Os garotos e mesmo Meiko riram, enquanto Kaito baixava a cabeça, fumaçando pelos ouvidos.

O jipe tinha passado pela fronteira e se aproximava da tal ponte. A neve dificultava a viagem e Meiko conduzia o veículo com cuidado. A noite não caía direito naquela parte do país e uma claridade baça tomava o céu, deixando tudo com cor de chumbo. Apesar disso as crianças do orfanato estavam ansiosas, Luka percebia, sentada ao lado de Len e observando-os.

Claro. Estavam prestes a rever seu sensei. Ela só esperava que o reencontro corresse bem, e que o homem que partiu do acampamento fosse o mesmo que os esperava na ponte.

Não que, para ela, isso fosse uma coisa boa. Afinal, as coisas jamais seriam como antes.

O homem jazia no porta-malas do carro, um tiro perfurando sua jugular. Desnecessário apontar que o fundo do porta-malas estava coberto de sangue.

— Você... – Luka olhou para Kiyoteru confusa, dando um passo para trás. –Por quê?

— Ele ia contar sobre nós dois a ela. Eu não podia deixar.

— Por que ele faria isso? O que ele iria ganhar?

— Me ver na desgraça, isso que ele ia ganhar. Ele queria acabar com minha vida.

— E então você acabou com a dele. Simples assim.

— Me julgue como quiser, Luka. Mas eu fiz sacrifícios demais pra que um vagabundo venha destruir tudo agor...

Ele não conseguiu terminar. O soco de direita de Luka o acertou bem acima do supercílio, derrubando-o contra o carro.

— Porra nenhuma! – Exclamou. – Não vem com essa de sacrifícios. Você fugiu feito um covarde. Quer dizer que é mais fácil matar um homem do que admitir pra sua mulher que você foi infiel?

Kiyoteru não respondeu. Parecia transtornado, como se só agora compreendesse a gravidade do que havia feito.

— Me diz uma coisa– ela o ergueu pela gola da camisa. –Se eu te ameaçar agora mesmo, de contar pra sua mulher, na frente dos seus filhos, quantas vezes você me fodeu naquele jipe velho, em quantos motéis a gente transou... O que você faria comigo?

Ele a fitava desamparado, os olhos cheios de lágrimas. Luka o largou impaciente, sacudindo a cabeça. Por fim o mandou esperar e foi para dentro de casa, voltando minutos depois com um bilhete.

— Vá a esse endereço – disse, entregando a ele. – Já falei com o cara. Ele vai saber onde desovar o corpo e o que fazer com o carro. Tem certeza de que ninguém viu nada?

Ele assentiu. Quis dizer algo mais, mas Luka o mandou se apressar. Quando ele abria a porta do carro, porém, ela o chamou.

— Mais uma coisa, Kiyoteru – disse friamente. –A partir de agora, só finge que não me conhece.

Notas finais
Pessoas lindas e atenciosas que comentaram no capítulo anterior, me aguardem! As coisas estão meio corridas por aqui, mas logo logo responderei a vocês. E a você que acabou de ler, muito obrigada por continuar acompanhando! Se puder deixar uma review comentando o que achou, dúvidas, sugestões ou apenas um olar, fique à vontade! Vai ser ótimo levar um papo contigo e ainda ganhar seu incentivo para continuar escrevendo! Bejas e té maisinho :***