Little Last Love Song
30 30 - O mundo miserável
Quando Piko contou a Ia como era a antiga vida no orfanato onde ele cresceu, ela apenas sorriu. Não podia acreditar que um lugar assim existia de verdade.
Porque se aquilo era um orfanato, ela teria de aceitar que o lugar onde passou a infância era um verdadeiro inferno.
Seus pés descalços iam aos poucos sendo encobertos por flocos de neve. Fazia horas que estava parada ali, olhando para o vazio branco que era o horizonte. Havia escalado a pequena elevação do terreno para observar o território, mas a verdade é que nada ali lhe interessava.
A noite chegou e um ponto luminoso acendeu milhas adiante. Seus inimigos estavam descansando. Era o momento perfeito para pegá-los de tocaia, mas Ia não tinha ilusões quanto a sua própria habilidade. Não era perfeita, eles estavam em maior número... E a arma perfeita se encontrava com eles.
Suspirou, formando uma nuvem de vapor à frente do rosto. Estava tão frio. Algo em seu cérebro entendia isso, mas seu corpo não respondia à altura. Não tiritava ou se arrepiava. Se sua pele fosse normal, estaria congelando ou necrosando àquela hora. Mas ela continuava ali, um vestido de trapos a cobrir o corpo pequeno, os cabelos cor de marfim balançando ao vento. Era como um espectro da neve, seu doce e belo rosto perdido numa expressão vazia.
Verdade, ela não sentia nada. E na maior parte do tempo, não lembrava também. Havia muito tempo que a canção tinha sido cantada para ela, e o pai não cantaria outra vez, a menos que quisesse libertá-la.
Mas Ia não desejava aquela liberdade. Para ela, ser livre era apenas ser capaz de esquecer. O que estava sendo mais difícil a cada dia.
O pai deixou uma katana para ela, pois sabia que a jovem não lidava bem com armas de fogo. Havia sido um martírio estar no acampamento e ver aquelas coisas por todos os lados. Ou assistir a Rin aprendendo a usar uma delas. Só de ouvir os estampidos dos tiros, seu coração perdia um compasso.
Não sentia nada. Não lembrava de nada.
Verdade?
Mentira.
Ia desceu a pequena colina devagar, sentindo o vento cortante no rosto. O vestido estava endurecido pelo sangue seco e mal balançava enquanto ela se movia.
Os estampidos daquele dia ainda ressoavam em sua mente. Catorze balas. Uma para cada cabecinha, para cada criança abrigada no porão de sua casa. Seu corpo inteiro lembrava o coice que recebia a cada disparo. A imagem de cada um dos meninos, fechando os olhos úmidos quando ela aproximava o cano da arma a sua testa.
Ao menos foram mortes rápidas, ela tentava dizer a si mesma. Sabe-se lá o que os soldados planejavam fazer com os pobres refugiados. Mas eles lhe deram a escolha, uma escolha terrível a uma menina de oito anos. Matar todos os refugiados escondidos no porão, ou matar os próprios pais.
Era menos uma escolha e mais uma condenação, ela refletia. Depois que acabou ela observou por um longo tempo a fileira de cadáveres. Crianças que ela ajudou a esconder do regime do seu país. Com seus pais ela as alimentou, vestiu, consolou todas as noites. Caída de joelhos diante da atrocidade que foi obrigada a fazer, ela sequer conseguia chorar. Sua alma estava estilhaçada. Mal podia sentir as paredes estremecerem, a casa sacudir e estrondar acima dela. Então ela despertou de seu torpor e subiu as escadas do porão.
Percebeu que os soldados que levaram seus pais estavam mortos. Sua casa foi reduzida a escombros. A cidade havia sido bombardeada. E naquela pilha de ruínas e mortos, apenas ela restava, seu olhar atordoado e vazio. Largou a pistola que ainda trazia na mão, e então gritou.
Meiko foi a primeira a ver os olhos vermelhos brilharem na escuridão e se pôs de pé, a tantou a postos. Ver que os olhos pertenciam a Rin não a fez baixar a guarda.
— Cadê o Len? – Luka indagou, ciente de que a Rin que conhecia não estava ali.
— Foi fazer o que a Ia mandou – ela respondeu. – Ir atrás dela.
— E você deixou ele ir sozinho? – Kaito exclamou. – Ele acabou de ganhar essas... Habilidades. Acha mesmo que ele está pronto?
— Só ele pode dizer se está pronto ou não. E ele decidiu que está.
Luka suspirou profundamente. – Vamos atrás dele. Meiko, Kaito, preparem-se.
— O que acham que podem fazer, além de assistir? – Rin retorceu os lábios em desprezo.
— Nada, só quero assistir de perto – a capitã retrucou. – E você, que pode fazer alguma coisa? Vai ficar aqui esperando ele voltar com a carcaça da garota? Ou o pó dela, ou seja lá no que vocês se transformam depois que morrem?
Rin estreitou o olhar. Aproximou-se de Luka e parou a alguns passos diante dela, desembainhando a katana.
— É um desafio? – A mulher indagou, indiferente.
— Sei em que direção o Len foi – ela replicou. – Posso guiá-los até lá.
— Ótimo, então guarde a arma e vamos. Vai entrar no jipe, ou você pode ir voando?
Meiko apertou nervosa a mão de Kaito, vendo uma fagulha passar pelos olhos rubros da garota. Ela ergueu a katana, a lâmina parando bem perto do rosto de uma Luka impassível.
— Sigam ao norte, sem parar – disse apenas. E então voltou para as sombras, sumindo de vista.
Kaito respirou fundo. – Isso não foi prudente, Megurine-san. Ela podia ter te cortado em duas.
— Podia – Luka pôs um cigarro entre os lábios e o acendeu. – Mas não cortou. Por quê?
— Porque ainda é a Rin – Meiko murmurou.
— Exatamente. E sendo a Rin, ela sabe quem manda aqui. Agora vamos atrás daqueles dois.
Kaito e Meiko se entreolharam, um tanto admirados. Megurine Luka era mesmo uma mulher impressionante. Eles entraram no veículo e a capitã deu partida, indo pelo caminho que Rin lhe indicou.
Até conhecer o homem de cabelos roxos, Ia precisou ficar algum tempo num abrigo para os refugiados da guerra.
As privações da nova vida não a incomodavam, nem o frio, a fome ou os maus tratos de crianças mais velhas. Quando tudo o que ela amava tinha sido arrancado dela, não havia mais nada para se importar. Só lhe restaram pesadelos, tristeza e a culpa pelas vidas que ela tirou. Aqueles olhinhos aterrorizados, vendo a menina que cuidou deles tão bem, tirando suas vidas um a um, era uma lembrança cravada em sua memória, em sua alma. Tudo o que queria era poder esquecer. Não sentir mais nada.
Se pudesse morrer, seria melhor ainda.
Mas ela não morreu. De algum jeito continuou a se penitenciar por seus pecados, a cada segundo de sua vida. Então o homem de cabelos roxos a viu e resolveu adotá-la. Tornou-se seu pai. E em sua nova vida, Ia tinha que deixar o passado para trás.
Ela recebeu dolorosas injeções por vários dias, teve seu corpo mudado, e então ouviu uma canção. Depois de tudo, já não era ela mesma.
É no que devo acreditar.
Não sou quem fui um dia. Não sou perfeita, mas sou uma das melhores armas criadas pelo meu pai. E não aquela criança do porão... Aquela assassina... Aquele monstro...
Lágrimas quentes corriam pelas faces frias dela.
Pode ser que eu seja um monstro hoje, mas não o mesmo de antes.
Não sou um monstro porque soldados me mandaram.
Sou um monstro porque o pai me mandou.
Ela não precisava ter arrancado os olhos de Piko. Mas o fez, porque era um monstro. Desde aquele dia no porão, ela não podia fugir da sua natureza. Ou daquilo que os outros lhe mandavam fazer.
Os olhos de Piko, tão diferentes e bonitos. Que a olhavam admirados e inocentes, sem saber o tipo de pessoa que ela era. Ia podia fingir o quanto quisesse, o pai lhe ensinou isso também. Mas depois de tocar a foice, seus instintos estavam de volta. Pobre Piko.
Pobres crianças.
— Que mundo miserável.
Len estava logo atrás dela, Ia podia sentir. Ela tocou o tronco da árvore seca que surgiu em seu caminho enquanto descia a colina, e ficou ali, apenas esperando. Entendeu que aquele era o único jeito de deixar de sentir, de deixar de lembrar. O pai não podia mais ajudá-la.
Só lhe restava fazer o que tinha de ser feito.
— Pode crer que é – retorquiu Len. – Um mundo miserável. Ainda mais com pessoas como você vivendo nele.
Um sorriso brotou nos lábios rosados dela. Como poderia discordar?
— Veio em busca de sua vingança, Kagamine Len – disse, voltando-se para ele. – Em busca do paradeiro do seu sensei. Deve ser bom ter objetivos na vida, além de só mirar e disparar todos os dias.
Os olhos vermelhos dele faiscaram.
— Até onde sei, você é tão bucha de canhão quanto eu – replicou.
— Me desculpe – ela baixou a cabeça humildemente. – Não quis parecer irônica. O meu caminho termina aqui, enquanto o seu segue em frente. Só posso lhe indicar a direção e desejar boa sorte.
— Sério? Você vai simplesmente dizer onde o sensei está e se entregar?
— Não, Kagamine-kun. Eu não teria tanto menosprezo por aquele que será a arma perfeita um dia. Vamos lutar, e eu darei tudo de mim nessa luta. No fim, você vai saber onde encontrar o sensei.
Os sentidos de Len explodiam em seu cérebro numa confusão fascinante. No começo ele tinha ficado desnorteado, mas agora que era capaz de ouvir cada floco de neve se partir sob suas botas, ver cada um deles flutuando, sentir o sabor do vento e saber em que direções aleatórias ele iria seguir, apenas respirava fundo, cada célula de seu corpo vibrando de agitação. E o pequeno corpo diante dele emanando calor, o sangue dela pulsando em suas veias, a vida aflorando todo o seu ser.
Len mal podia esperar pela hora de acabar com ela.
“Não se empolgue”, a versão mais velha dele lhe avisava pelo canto do olho. Len não podia vê-lo diretamente, mas sabia que ele estava lá, envolto num halo de luz amarelada. “Ela pode degolar você antes que perceba.”
“Eu posso fazer isso com ela também?”
“Não dá para saber sem tentar.”
Ele puxou a espada da bainha e atacou. Ia, que sequer estava em posição de combate, bloqueou o golpe de imediato, forçando a espada de Len a recuar. Ele o fez de boa vontade, saltando para trás enquanto Ia tentava atravessá-lo em sua katana. Todas as defesas dela estavam fechadas. Parecia que ela era melhor com uma espada do que com uma foice gigante, Len pensou, rebatendo a lâmina que descia zunindo sobre ele em ataques repetidos.
A adrenalina começou a dominar seu corpo, como na primeira vez em que lutou com aquela espada. Ele girava, se esquivava da oponente e a acertava por pouco, deixando cortes em seus ombros, sua perna, sua mão. A única abertura que Ia mantinha era a cabeça e o pescoço. Sabia que Len não iria atingi-la ali, pois precisava que ela falasse antes de morrer. A cretina era esperta, ele sorriu, continuando a bloquear e recuar, deixando que apenas ela atacasse. Precisava que ela gastasse sua energia primeiro, para então partir com tudo para cima dela.
Ouviu o ruído do jipe de Luka à distância, e minutos depois, ele estava ali. Mas havia outra presença, que chegou bem antes e observava o duelo. Rin estava pousada num dos galhos da árvore, atenta a todos os movimentos que ele fazia.
Aquilo motivou Len ainda mais. Queria mostrar para ela que era digno de lutar ao seu lado um dia. Percebeu de repente que gostava de lutar. A energia, o movimento, o perigo. Sentia-se duas vezes mais vivo durante uma luta.
Era quase como se tivesse nascido para aquilo.
“Não deixa de ser verdade”, sua parte mais velha sorriu.
“Cala a boca. Deixa eu me divertir.”
Rin estava de volta ao quarto branco. Mas a Rin Má já não era tão má assim, permitindo que ela visse do quarto tudo o que acontecia.
— Espero que esteja confortável aí dentro – ela resmungou. – Tô quase congelando.
— Achei que você não sentia frio – Rin estranhou.
— Pois é, pra você ver.
— Enfim... Você acha que vai precisar interferir?
— Nah, o cara aprendeu rápido. Fica tranquila aí e assiste. Aposto como nem vai demorar muito.
Era a impressão que Kaito tinha, vendo o embate com Meiko e Luka. As duas mal acompanhavam a velocidade dos dois espadachins, mas ele já tinha visto Mayu lutar no passado. Podia até adivinhar a estratégia de Len de cansar Ia primeiro, visto que ela devia ter ganho suas habilidades havia bem pouco tempo. Já Len, ao que parecia, havia nascido com elas, o que era uma vantagem enorme.
Ia começou a golpear em longos arcos, deixando costelas e abdome abertos. Len não atacou, esperando que ela fechasse a defesa novamente, mas ela não o fez. Era como se o fogo que queimou nela antes abaixasse rapidamente. Mas Len não deixaria ela apagar aos poucos. Faria ela virar cinzas. Começou a permitir que alguns dos golpes dela atingissem de leve seus braços enquanto ensaiava ataques rápidos. Nenhuma reação, nenhum sinal de que ela ia recuperar a ofensiva.
Era sua hora, ele pensou, e enterrou a espada no abdome descoberto. Já antecipava a vitória, quando uma pressão forte no ombro esquerdo o fez recuar alguns centímetros.
“Disse para ter cuidado”, o mais velho falou, em tom de reprovação.
Ia tinha perfurado o ombro que ele deixou descoberto. A dor era lancinante, mas Len não se importou muito. Não era ele quem estava caindo na neve, sangue esvaindo de seu estômago, escorrendo pela boca. Puxou a lâmina dela para fora e largou a espada no chão. Mas a sua, ele a enterrou mais um pouco nas entranhas de Ia.
— Espero que entenda isso– disse ele. – Pra me vingar, preciso que você sofra bastante. Então me diga onde o sensei está, e depois acabamos com isso.
— Claro – ela sorriu. – A fronteira do nosso país. Há uma ponte logo depois dela. É onde vão encontrar Hiyama Kiyoteru-san.
Então fechou os olhos e deitou-se na neve manchada de vermelho, sentindo os fluidos do estômago envenenarem aos poucos seus órgãos. Doía, ela percebeu. Doía muito. Talvez, como na época em que recebeu as injeções, ela precisasse sentir tudo, para então não sentir nada.
— Obrigado. – Ele girou a espada dentro da barriga dela, fazendo-a soltar um grito de agonia.
— Feche os olhos, franguinha – A outra Rin disse para a que estava no quarto branco, e ela imediatamente tapou os olhos. – A coisa vai ficar feia.
Quando terminou, Len estava coberto de sangue dos pés à cabeça e totalmente exausto. Mas sentia que havia cumprido o seu dever. Seu amigo estava vingado.
Enquanto desmaiava de cansaço, Kaito e Meiko trocavam suas roupas e Rin ajudava a limpá-lo. Logo depois estavam de volta à estrada, deixando um corpo totalmente destroçado aos pés de uma árvore seca, no meio da noite enevoada.
Ia sofreu até o último segundo. Sorriu até o último segundo. Nunca mais sentiria. Nunca mais lembraria.
E quando o dia amanheceu o sangue dela se misturou à neve. O que restou de seu corpo tornou-se pó, tão fino que a brisa o carregava e o misturava aos flocos de neve. Ela, que passou os últimos anos de sua vida sentindo-se um monstro, presa a lembranças terríveis e a culpa que a assolava, agora não passava de pó e gelo e vento. Sem memórias ou sentidos, inofensiva e pura.
Estava livre.
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