Little Last Love Song

29 29 - O jardim crepuscular.


E Len atacou.

Encurralado pela urgência do momento, ergueu a espada e a empunhou para a frente, como o ferrão de uma abelha. Sem pensar, sem calcular nada, apenas fez o que lhe foi mandado. E quando o choque da lâmina bloqueando a sua lhe chegou aos ouvidos, o sangue começou a pulsar em suas têmporas como nunca fez antes. Adrenalina fluiu por suas veias. Ele girou o corpo e baixou a katana quando o mais velho tentou acertar seu lado, bloqueando a espada inimiga com precisão, as mãos movendo-se antes que seu cérebro desse o comando.

Sequer havia um comando a ser dado, ele percebeu.

Ele apenas sabia o que tinha que fazer.

Diante do olhar atordoado de Len enquanto lutava, sua versão mais velha exibia um sorriso satisfeito. Gradualmente aumentou a pressão sobre o mais novo, golpeando-o por todos os lados, vendo-o defender todos eles e as mãos na empunhadura da katana firmarem-se. Len então usou um dos bloqueios que precisou fazer para proteger a própria garganta, para empurrar o mais velho para trás. Retomou o ataque, com movimentos que não sabia de onde vinham, mas dominavam seus membros e seu tronco com uma agilidade até então desconhecida a ele. Cada golpe era seguro, forte e hábil, em nada parecido com que se esperaria de alguém que pegava naquele tipo de arma pela primeira vez.

— Mais rápido – disse o mais velho. – Você pode fazer melhor que isso!

Len girou o corpo novamente e errou por centímetros o peito do outro, que também errou seu ombro. O rapaz havia se abaixado de proposito, pois previu aquele ataque. Como, ele não entendia.

— Mais rápido!

Os gritos do oponente faziam seu corpo responder de imediato, os pés girando e apoiando seu corpo no chão em perfeito equilíbrio com seus ombros e braços, que avançavam, cortavam na diagonal, recebiam o choque do bloqueio da lâmina oposta e não paravam de atacar. O clangor dos metais chocando-se ecoava na brisa calma, pequenas fagulhas saindo do ponto onde eles se encontravam.

Finalmente Len conseguiu encurralar o seu outro contra o tronco da árvore onde ele esteve sentado mais cedo. O coração ribombava no peito, o suor fazia os olhos arderem. De onde veio aquela força, aquela energia, aquela habilidade toda? Ele sequer conseguia respirar direito, quanto mais responder a essas perguntas. Porém, aquele pequeno segundo de distração foi fatal. Sua versão mais velha lhe aplicou uma estocada precisa, rápida e profunda em seu peito.

Len engasgou-se. Sangue subiu pela garganta e ele cuspiu, sentindo a pressão da arma dentro do seu corpo, e logo depois a dor. Era intensa o bastante para que ele sequer conseguisse gritar. Ele caiu de joelhos, enquanto seu oponente puxava a espada de volta e sacudia o sangue dela. O líquido quente banhou sua camisa e Len percebeu os sentidos lhe deixarem. Os ouvidos zumbiam, a língua era uma borracha dentro da boca. Tudo escureceu e esfriou, e Len desabou de lado no chão, a pergunta ainda clara em sua mente.

Por quê?

Kaito e Meiko tinham colocado o corpo dele estirado, próximo à cova aberta. Rin orientou que mantivessem a katana nas mãos dele o tempo todo, até que despertasse.

— E quando ele vai despertar? – Luka indagou a ela.

— Quando estiver pronto.

Rin estava sentada sobre as pernas, esperando pacientemente ao lado dele. Len continuava desacordado, e a mão dela pressionava as suas sobre a katana.

Meiko olhou para Kaito por um momento. O homem entendeu e os dois se afastaram dali.

— Ela é nossa irmã e confio nela– a moça disse pesarosa. – Mas não esqueci o que ela quase fez a você.

— Não era ela de verdade – Kaito tentou tranquilizá-la.

— Eu sei, mas... Eu só não entendo. E estou com medo. Não quero perder eles dois também.

— Nós não vamos, eu prometo– ele segurou suas mãos com firmeza. – E eu confio na Rin também.

Ele beijou a testa da esposa com carinho e voltou para junto dos outros. Ajoelhou-se perto de Rin e tirou a wakizashi da cintura, estendendo-a a ela.

— O sensei me deu antes de eu sair do orfanato – disse. – Quando ele era pequeno, foi adotado por um samurai, que deixou essa espada de herança pra ele. Além dessa, a wakizashi, havia outra, a katana que você usa. Juntas elas formam um conjunto chamado daishou. Foi tudo o que restou da antiga família do sensei, depois que a cidade foi bombardeada.

Ele depositou a arma sobre a grama. Rin a encarou tristemente, antes de tirar a katana da cintura e colocá-la ao lado dela.

— Finalmente estão juntas – Kaito sorriu. – Depois de tantos anos. Aposto que o sensei ficaria feliz.

Rin então sorriu, um pouco mais confiante, e assentiu para ele.

— O Len-kun vai ficar bem, não vai? – Meiko indagou preocupada, sentando-se do outro lado de Rin.

— Vai – Rin respondeu. – Ele só tem que despertar o lado mais forte dele.

— Eu não entendo nada disso... – a mulher confessou. – Mas acredito em você. E nele também.

— Acredite, nee-san – Rin segurou a mão dela. Deu a outra mão a Kaito e olhou para o rapaz adormecido, um brilho vivo em seus olhos azuis.

Vamos, Len. Sei que você pode.

Ao longe, Luka observava a cena enquanto fumava um cigarro, sem dizer uma palavra.

Eu sei que posso.

Porque ela sabe.

E ele também.

Num atordoamento geral Len despertou, puxando o máximo de ar que podia num suspiro desesperado, enquanto se erguia sobre as mãos.

Apalpou a camisa, ainda molhada e morna, buscando vestígios do golpe letal. Nada além do sangue. Seus sentidos estavam normais também. Olhou ao redor e percebeu que ainda estava no bosque, com sua versão mais velha ao seu lado.

— É sempre fim de tarde aqui – comentou, sem reparar em Len. – Ou um começo de manhã. Tudo depende do ponto de vista. Pra você, o que parece?

Len ainda tentava por as ideias no lugar, lembrando de tudo o que aconteceu – o golpe fatal, a luta inacreditável, o modo como chegou ali. Então percebeu que o homem o encarava, esperando uma resposta.

— Hein?

— O que parece pra você? Amanhecer ou entardecer?

Ele respirou fundo mais uma vez. Que pergunta idiota. Mas era melhor se concentrar nela, ou uma avalanche de coisas inexplicáveis atolaria sua mente.

— Hmm – ele olhou para as copas escuras das árvores, as folhas secas dançando na brisa, o canto de cigarras e grilos. Parecia tudo muito escuro e frio para um amanhecer. – Acho que o sol está se pondo.

— É o que acho – o mais velho sorriu. – E mesmo assim, você renasceu.

Len o encarou sem entender. Ele se levantou e sacudiu a terra do quimono amarelo e lilás, e voltou-se para o rapaz.

— Queria ter mais tempo de lhe explicar quem sou, mas enquanto o seu corpo real está desmaiado, ele enfraquece. Você precisa voltar depressa. O que vou dizer talvez você não entenda, mas ainda assim preciso que saiba.

— Certo – Len concordou sem muita certeza.

— Eu moro em sua mente desde muito antes de você começar a ter uma. Antes de você vir ao mundo. Morei na mente de sua irmã também, mas da dela eu ui capaz de sair.

— Minha irmã... – ele balbuciou.

— Sabe de quem estou falando. Vocês foram separados ao nascerem. Ela ficou comigo e pude fazer dela o projeto que foi planejado, mas você foi levado para longe. Longe dela. Sem os dois juntos, não havia nada a ser feito. Eu viveria em sua mente sem que você percebesse, e não interferiria em nada a sua vida... Mas aí encontrei a Rin. Pude reunir vocês dois, e só precisava de uma chave para que você tivesse acesso a mim. A katana serviu perfeitamente ao seu propósito.

Falou tudo num tom monocórdio, como se tivesse esperado por Len todos aqueles anos, apenas para dizer aquelas palavras.

— Quem é você afinal? – indagou confuso.

— Parte da consciência do seu pai. – Ele abaixou-se perto de Len, tocando o dedo na ponta do seu nariz. – Claro, não sou exatamente ele. Nem você. Posso ser qualquer um, ou apenas ninguém.

— Certo... – ele cerrou as sobrancelhas. – Se você diz que é parte do meu pai, então age como o meu pai, certo?

— Isso é verdade.

— E o meu pai... Que também é o pai da Rin... Quem é ele?

— Isso não importa – ele riu, pondo-se de pé novamente. – Você não sabe quem sou. O que precisa saber é que é forte, e que pode regenerar seu próprio corpo. Não precisa conhecer meu nome, mas sim as suas habilidades. Você e a Rin são especiais. Eu os criei para serem assim. Isso é tudo o que importa.

O bosque ao redor de Len começou a estremecer, o céu distorceu-se. O Len mais velho começava a se afastar, quando o original puxou-o pela ponta do quimono.

— Onde eu encontro o meu pai no mundo real?

Ele sorriu de lado. – Procure o seu sensei antes.

A paisagem começava a cobrir-se de neve. O jipe viajava de vidros fechados, mas seus ocupantes ainda assim precisavam usar casacos.

Pelo retrovisor Meiko via Len e Rin, sentados juntos ao lado de uma Luka que dormia pesado. Eles também cochilavam, a cabeça dele no ombro dela. As duas katanas apoiadas junto às pernas deles.

— Ele pareceu diferente pra você? – Kaito, no banco ao lado dela, sussurrou.

— Não– Meiko murmurou de volta, segurando o volante com firmeza. – Assustado, eu acho. Mas o jeito como ele segurava a katana era diferente. E como olhava pra Rin também.

— Reparei nisso.

— Talvez ele queira falar sobre o que houve... Com a Rin, pelo menos.

— Verdade. Mas a Luka quis que a gente fosse embora logo, mal deu tempo dele se recuperar. Ao menos sei onde minha senpai está enterrada... Mesmo que ela não passe de um monte de pó agora.

— Podemos voltar pra visita-la. Quando tudo estiver mais calmo.

Ele não respondeu. Só podia esperar que algum dia, tudo realmente se acalmasse.

Na parada seguinte, enquanto os mais velhos comiam rações ao redor de uma fogueira, Len e Rin pegaram suas sopas e foram comer num local mais afastado, cercados por pedras cobertas de neve.

Não vinham conversando muito. Eram dias dentro do carro, parando vez ou outra, abastecendo, voltando para a estrada. Todos estavam cansados. E o que Len queria dizer a Rin, preferia que ficasse entre eles dois.

Enquanto jantavam, ele lhe contou os detalhes do que aconteceu no bosque. Já havia dito algo parecido aos outros – sobre se sentir mais forte e ter ganhado habilidade com a katana. Havia até mesmo lutado contra Kaito, Meiko e Rin num pequeno teste, e eles viram que era verdade. O resto ele disse não lembrar, o que na verdade, significava que só a Rin iria saber.

Ela assustou-se quando Len descreveu a sensação vívida de ter levado um golpe mortal. Quando lhe mostrou no peito onde havia sido, Rin pareceu um pouco mais aliviada.

— Não era um ponto vital – ela contou. – Mais acima e ele tinha acabado contigo.

— Eu podia ter morrido de verdade?

— Provavelmente. Não somos imortais, sabe.

Terminaram as latinhas de sopa e permaneceram encostados nas pedras cobertas de neve. Estava frio, e mesmo o calor um do outro não era o bastante para aquecê-los. Mas Rin sentia que Len não queria voltar. Sentia-o tenso, como se houvesse algo que ele ainda quisesse lhe contar.

— Aquele homem, Rin. Ele disse que você e eu nascemos da mesma mãe. Que somos filhos do mesmo pai.

Rin, que estava recostada junto a ele, entre seus braços, voltou-se para lhe encarar. Buscou em seu rosto algum vestígio de dúvida, um traço de arrependimento.

Mas só o que viu foi ansiedade. Ele queria era uma resposta dela.

— Ainda assim, Rin...?

Ela sorriu brevemente, aliviada. Aquela questão de moralidade não a torturava tanto quanto a ele, e ver que Len finalmente havia superado isso fazia seu coração explodir de felicidade.

— Ainda assim, Len.

O rapaz sorriu de volta, quase em agradecimento. Tomou o rostinho dela entre as mãos enluvadas e beijou sua testa, por cima de seus olhos, cada centímetro de suas faces quentes, fazendo-a rir de cócegas ao beijar seu nariz. E então, alcançou seus lábios.

Algo se arrepiou na espinha dele, congelou seu estômago, fez seu coração bater muito rápido. Num fio de consciência ele percebeu que era a primeira vez que aquele sentimento o atingia com tanta força. Seu rosto queimava, o coração queimava. Ele inclinou o rosto junto ao dela e suas línguas se encontraram, roçando-se tímidas uma na outra.

Como ele quis que aquilo não terminasse nunca.

Rin enlaçou seu pescoço e sentiu uma das mãos dele lhe puxarem com cuidado pela cintura, na direção dele. Era um abraço forte, acolhedor, aquecendo-a de uma maneira que jamais sentiu na vida. Seus lábios eram íntimos dos dele agora, e a língua dele se entrelaçava à sua ansiosa. Sentia que podia perder os sentidos ali mesmo. Podia esquecer tudo, e de fato esqueceu. Não havia mais nada além deles dois, daquele beijo quente e doce, daquele abraço, de um momento paralisado no tempo, no qual podiam ser apenas eles mesmos.

Devagar, despertando de um sonho, eles abriram os olhos. Encontravam-se vermelhos e um tanto sem ar, e acabaram rindo baixinho da própria falta de jeito de si mesmos. Então Len puxou-a de volta para si, e Rin repousou o rosto em seu peito, aspirando o aroma do pescoço dele.

— Seu cheiro é tão bom – murmurou fechando os olhos, aconchegando-se no abraço dele.

— Tá ligada que faz dias que a gente não toma um banho decente, né?

— Aff, eu tô, seu quebra-clima – ela riu. – Seu cheiro me lembra nossa casa.

— Ah, sim. – Ele limpou a garganta.

Era um besta mesmo, pensou chateado. Podia estar cheio de habilidades agora, mas romantismo com certeza não era uma delas. – Pois... eu gosto do seu, também.

— Mesmo? – Rin olhou para ele, interessada. – Com o que meu cheiro parece?

Não vai falar besteira de novo, ele pensou consigo mesmo, lutando para expressar as palavras certas...

Sangue.

Era o cheiro dela? Não, lógico que não. Mas podia sentir o odor metálico e doentio se espalhando no vento noturno.

— Sangue – Rin concordou.

Sua pequena mão já apanhava a katana, e seus olhos estavam rubros. No reflexo deles Len viu a si mesmo, seus próprios olhos vermelhos também, sua própria mão segurando o cabo da sua katana inconscientemente.

Então é assim que o mundo parece, quando seus olhos estão da cor de sangue.

Tudo cheira a sangue. Até a garota que você ama.

Mas isso não é ruim. Ou importante.

O que importa é que alguém está emanando esse cheiro longe daqui. Alguém está pedindo para ter o próprio sangue manchando a neve.

Um amigo pede para ser vingado.

Uma cabeça pede para ser cortada.

— Acha que está pronto? – Rin indagou num tom sério.

Ele assentiu, sacando a espada da bainha com destreza. A garota sorriu.

— Vá– disse. – Ela é toda sua.

Notas finais
Muito obrigada a você que leu, lê e acompanha essa fic! Nos próximos sábados os capítulos vão sair regularmente, então quem puder comentar o que quiser e dar uma moral pra escritora carente, fica à vontade :3 Um agradecimento especial a Gabi chan02, que voltou depois de um tempo e saiu comentando a fic inteira ♥ Esse capítulo vai pra você querida, valeu pela força! Quanto aos leitores fantasmas, manifestem-se! Quero bater papo com vocês! Deixem uma review que seja, seus bonitos :3 Beijas e té maisin... Até sábado ^^