Little Last Love Song
28 28 - Sua arma perfeita.
Estava perto de anoitecer enquanto o jipe avançava pela estrada. A paisagem era feita de campos desertos ou arruinados. Mal havia árvores ou vegetação. O cinza claro do horizonte foi escurecendo aos poucos, mas Luka preferiu não acender nenhuma luz. Não sabia se poderia haver algum guerrilheiro inimigo naquela região. Se houvesse, não chamar muita atenção era o melhor a fazer.
Meiko dormia ao seu lado. No banco de trás Kaito permanecia desperto, no meio de Rin e Len, que derrearam as cabeças louras junto a ele e ressonavam pesadamente. Len tinha a mãozinha da garota entrelaçada à sua, e Kaito as segurava para que elas não se soltassem.
— Como estão as coisas aí atrás? –Luka indagou em voz baixa.
— Faz tempo que eles adormeceram– ele respondeu no mesmo volume. – Acho que estão bem.
— Mais tarde vamos parar e montar acampamento num local seguro. Você vai poder dormir com a Meiko, desde que não façam mais nada além disso na frente das crianças.
— Claro – Ele se apressou em responder, constrangido.
Ela caiu num longo silêncio e então suspirou pesadamente.
— Crianças... – murmurou. – Será que eles ainda veem a si mesmos desse jeito?
— Tivemos que crescer rápido no orfanato.
— Sei... Kiyoteru contou que você e a Meiko já dormiam juntos aos treze anos, não?
— Todos nós dormíamos juntos – Kaito respondeu sem jeito.
— Sabe do que estou falando. – A capitã sorriu, descontraída. – Mas enfim. Ele realmente sabia dos laços que podiam se formar entre vocês. Você e a Meiko. Len e Rin. Conhecia bastante, todos vocês.
Kaito assentiu devagar.
— E a capitã conhecia bastante o Kiyoteru-sensei, não?
Pelo retrovisor ele viu a fronte dela se tornar sombria, mesmo na pouca iluminação do interior do veículo.
— Conheci – admitiu ela. – Mais do que queria. E gostaria de não precisar falar disso nessa viagem. O Hiyama Kiyoteru que vocês conheceram e o que eu conheci, são homens diferentes. E não há necessidade alguma de compará-los.
As palavras de Luka soaram pesadas no peito dele.
Kaito não podia imaginar seu sensei como qualquer pessoa diferente da que ele conheceu. E pela mágoa no tom da capitã, ele não podia esperar que o passado daqueles dois fosse uma boa lembrança para ela...
Na planície congelada, o homem titubeava ao caminhar. Mesmo usando um longo sobretudo negro, que esvoaçava ao sabor do vento, seus ombros largos tiritavam de frio. Era um ponto negro e vacilante no vasto horizonte branco.
Por fim, seus pés tropeçaram um no outro e ele desabou na neve, tremendo, os olhos fechados.
Sequer possuía olhos, na verdade. Uma venda negra fechava suas pálpebras. Os olhos haviam sido removidos semanas atrás, e seriam substituídos por outros de visão mais aguçada.
Ou assim lhe disse o Nii-san.
Seus ouvidos, já modificados, podiam sentir o aproximar de um veículo. Duas portas se abrindo e dois passos diferentes. Um leve, quase inaudível, outro pausado e de porte elegante aproximando-se dali. Dele.
— Ainda consegue sentir frio – observou a voz feminina e jovem, num doce tom anasalado, que pouca ou nenhuma emoção revelava. – Está defeituoso.
— Não devia chamá-lo assim– o Nii-san a repreendeu suavemente. – De fato ele sente frio, mas logo não sentirá mais nada. Já você, foi capaz de sentir algo pelo garoto albino antes de eliminá-lo.
Houve uma pequena pausa antes que ela prosseguisse monocórdia.
— Eu o achava gentil. Sincero, inteligente. E bonito. Tinha olhos lindos. Podia sentir meu coração acelerar só de vê-los.
— Então, você não é defeituosa? Apaixonar-se é um defeito que considero grave em minhas criações, e até agora você foi a única a apresentá-lo.
— Mas só precisei tocar a foice. Depois disso, não senti nada ao arrancar os olhos dele, ou atirar em seu cérebro.
— Portanto, agora é perfeita – ele desdenhou.
— Só existe uma arma perfeita. Não sou eu, e tampouco é esse homem.
O homem que tremia de frio sentiu-se erguido nos braços do Nii-san, repentinamente aquecido pelo calor do peito dele. Mesmo sem seus olhos, podia imaginar longos cabelos roxos, um quimono roxo de textura acetinada contra seu rosto.
Engraçado, pensar que uma criatura de coração tão frio pudesse emanar calor daquele jeito.
— Ele ainda precisa de aprimoramentos– ouviu a voz melódica sobre ele murmurar. – Está na hora de testar as injeções. Também devo ligar as sinapses de seu cérebro a uma arma de corte o mais rápido possível. Armas de fogo são obviamente melhores... Mas é da Rin que estamos falando.
O nii-san levava o homem para o interior do carro, deitando-o no banco de trás.
— Pai, em relação ao Len, não sei se ele irá despertar. – Havia urgência na voz dela agora. – Não deixei mais pistas que o necessário, mas...
— Se ele não estiver desperto quando o encontrar, mate-o e volte ao ponto de encontro – ele respondeu friamente. – Sem dúvidas, Rin a seguirá depois disso.
Ela não respondeu. O homem de roxo subiu ao volante e foi embora, deixando a garota sozinha na neve. Usava apenas um vestido com os ombros à mostra, os pés descalços sobre a neve, as mãos sujas de sangue seco.
Mas como ela mesma disse, não sentia mais nada.
Ele sempre esteve lá. Se sacrificando por você. Morrendo por causa da sua burrice.
Como você iria imaginar? Como alguém imaginaria?
Se tinha alguém que tinha que ter pressentido o perigo, esse alguém era você.
Agora Utatane Piko está morto. O amigo a quem você devia a vida.
E o sangue dele... Está em suas mãos.
Len despertou atordoado. Tinha a mão de Rin agarrada na camisa dele, em seu peito. Ressonava pesadamente. Ele enxugou com a mão um suor frio da testa e olhou ao redor.
Luka dormia do outro lado da fogueira. Perto dela, Meiko montava guarda, a cabeça de Kaito adormecida em seu colo.
— Vou dar uma volta, nee-san– ele murmurou enquanto soltava a mãozinha da Rin.
Não deixou de perceber a preocupação no semblante da moça.
— Fique por perto – pediu ela.
Ele assentiu de volta. Tirou a jaqueta, sentindo a brisa noturna soprar contra o suor doentio que cobria o pescoço e as costas. Subiu a pequena colina por trás de onde eles haviam acampado e encontrou uma formação rochosa, que se erguia em direção ao céu. Ele escalou as pedras até o topo. Não era muito alto, mas o vento frio acalmou seu coração.
Os pesadelos com o amigo perdido iam e vinham. Seus olhos diferentes caídos no chão. Os gritos de dor de quando era apenas uma criança sendo estuprada. Sangue, sangue, sangue... A brisa gelada soprou em seu rosto, soltando um soluço do fundo de sua garganta. Ele não queria. Sua honra, sua teimosia machista o prendiam, mas um segundo sopro daquela brisa o fez soluçar outra vez. Então ele pôs a cabeça entre os joelhos, abafou a boca com as mãos e chorou.
Que mundo miserável.
Ele chorou até suas costelas doerem de tanto sacudirem, mordeu os braços para não gritar de dor. A dor mais profunda, a que corroía sua alma. O que havia de bom em sua vida, um amigo, um irmão, uma esperança. Alguém incapaz de machucar uma criança que apontasse um revólver para ele. Seu único irmão por diversos anos. A sensatez que ele quase nunca tinha, o coração que por vezes lhe faltava. Piko era seu irmão de alma, era um pedaço dele. Um pedaço que lhe foi simplesmente arrancado.
Len deixou que o luto reprimido escapasse e sangrasse por diversos minutos, até que se tornassem horas, sem que ele percebesse.
A essa altura o céu ia ganhando tons claros, e o primeiro vento matinal secou suas últimas lágrimas. Sentia-se totalmente vazio. Os campos arruinados diante dele, o céu cada vez mais aberto. Nada fazia o menor sentido.
Então algo quente foi colocado em seus ombros. Sua jaqueta, com o aroma da Rin.
— Vai acabar resfriado– ela comentou, sentando ao lado dele, e Len passou o braço ao seu redor.
Rin não perguntou como ele se sentia. Se já tinha chorado o bastante, ou o quanto também lamentava a perda de Piko. Era óbvio, desnecessário. Apoiar o rosto no peito dele, fazer sua presença ser sentida ali mais que tudo, era melhor que mil palavras de apoio. Len deitou o rosto sobre a cabecinha dela, o perfume suave dos cabelos invadindo suas narinas, acalmando seus sentidos. Trouxe-a mais para perto de si e ela segurou a outra mão dele na sua.
Quando desceram do rochedo para voltar ao acampamento, ainda estavam de mãos unidas, caminhando bem perto um do outro.
— Essa Ia... – Len indagou numa voz sumida. – Ela é tão forte assim?
Rin o encarou rápido. – Pelo que o Kaito-nii disse, ela não controla muito bem a força com uma arma nas mãos. Mas é bem veloz. Eu perfurei a medula dela e depois ela sumiu num piscar de olhos.
— Velocidade, regeneração, força...
Ela parou. – No que está pensando, Len?
— Eu queria ter essas habilidades. Só assim poderia enfrentar ela de igual pra igual. E ia poder acabar com ela.
A determinação que brilhava nos olhos dele a assustou por um momento, mas estranhamente a encantou logo em seguida. – E você acha que tem algum jeito de conseguir essas...
Rin então lembrou de uma conversa que teve com a capitã, muito tempo atrás. A katana que seu pai lhe deu, que ela usou para matar a Mayu. Que estava enterrada junto com o corpo de sua senpai.
— Era isso que a Ia queria de nós– pensou em voz alta. – Que eu recuperasse minha katana e te entregasse. Pra que você ‘desperte’.
Luka não gostou da ideia. Mas gostou ainda menos de admitir, ao menos para si mesma, que a curiosidade a fez permitir que Kaito e Len cavassem o túmulo de Mayu.
Ela os observava terminar o serviço enquanto Meiko e Rin ajudavam afastando a terra. Logo a cova estava aberta, e as mãos de Len alcançaram a lona que cobria o cadáver de Mayu.
— Estranho – murmurou. – Não sinto cheiro de gente morta.
Kaito se afastou, dando-lhe espaço. Len tomou coragem e puxou a lona, levantando grãos de terra.
— Mas o q...
Não havia nada na parte interior da lona, além de uma estranha poeira cinzenta sobre a qual uma katana havia sido colocada.
— Vocês enterraram mesmo a senpai aqui? – Kaito indagou, confuso.
— O corpo dela era diferente – disse Rin, pulando para dentro da cova. – Depois que morremos, nos decompomos muito rápido. Foi assim que o nosso pai nos fez.
O tom dela era sério, quase como se fosse outra pessoa, pensou Luka. Viu a garota se por ao lado de Len e tocar seu ombro, enquanto ele olhava inseguro para a espada diante dele. Ao sentir a mão de Rin, ele respirou muito fundo. E então, pegou o cabo da katana.
Tudo ao redor dele girou e se desfez no ar por um momento. Quando as coisas finalmente pararam, percebeu que já era noite, e ele não estava mais dentro da cova.
Era um jardim ou bosque, um lugar cheio de grama, arbustos, árvores. Sentia o cheiro do verde, ouvia os sons dos pequenos animais silvestres. Um céu pálido como o cair da tarde aparecia entre os galhos sob sua cabeça. E mais adiante, junto às raízes de uma velha árvore, uma pessoa sentada fazia sinal para que chegasse perto.
Len obedeceu, atordoado. À medida que se aproximava, percebia que aquela pessoa era ele mesmo. Ou uma versão um pouco mais velha de si mesmo. Tinha um ar quase solene, ali sentado sobre as raízes, como se fosse senhor daquele lugar. E Len tinha certeza de que ele realmente era.
— Você demorou – disse o rapaz. Um quimono dourado e lilás o vestia, e seus pés descalços descansavam sobre a grama. – Mais um pouco e encontraria um homem velho em meu lugar.
— Quem é você? – Len perguntou.
— Você sabe a resposta. Preciso mesmo responder?
Viu a sua versão mais velha levantar, espreguiçar-se e caminhar até ele. Então Len notou que ele tinha uma katana presa à cintura, e agora empurrava outra espada junto ao peito dele.
— Não temos tempo para conversar – disse. – Pegue sua arma e lute comigo.
Len estremeceu. Suas mãos tocaram a espada, sentindo seu peso ao segurá-la.
— Mas... – Ele olhou para o outro Len, desnorteado. – Eu não sei...
— Ah, sabe– o mais velho sorriu de lado, desembainhando sua arma. – Você sempre soube. Porque eu sempre soube. Agora, chega de falar. Em posição. Me ataque!

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