Little Last Love Song

27 27 - Um túmulo no roteiro de viagem


Os labradores latiam ferozmente diante da presença de Rin, que vinha trazer comida para eles. Graças a Ia, mais alguns dos soldados de Luka também tinham sido pegos pela foice assassina, de modo que o contingente estava menor e o trabalho, sempre a ser feito.

Seus olhos reluziram avermelhados por um momento. Os cães se encolheram no fundo da jaula, lamuriosos, enquanto ela despejava os restos da cozinha no tacho largo, e trocava a água dos potes por uma mais limpa e fresca.

— Bons garotos– ela afagou a orelha de um cão negro enquanto ele comia vorazmente.

Tinha sido avisada de que era bom não mexer com os cães enquanto eles estivessem comendo. Mas sabiam que eles não lhe fariam nenhum mal.

— Queria ficar mais tempo e ensinar uns truques– ela ergueu-se e passou as mãos pelo avental. – Mas terei que sair em viagem e... Bem, não tenho muita certeza de que nos veremos outra vez.

O céu estava pesado e cor de zinco, de modo que ela puxou a cobertura de lona sobre as jaulas dos animais e se afastou antes que a chuva começasse a cair.

Na tenda de Luka os preparativos iam a todo vapor. Ninguém a incomodava; ela já havia colocado seu segundo em comando para cuidar do batalhão, enquanto os aliados tentavam formar um grupo de capitães para cuidar do exército. À parte dos problemas militares, a Megurine decidia com os órfãos como se daria a viagem.

— Ao que parece, Ia quer nos levar para perto da fronteira com os aliados– ela mostrava o mapa da região. – Seu traço foi bem específico ao nos mostrar qual estrada pegar. Len, você esteve por aqui ao resgatar a Rin, lembra?

— Sim– ele murmurou. – Por que esse caminho?

— Talvez haja algo lá que ela queira que vocês vejam.

— Não tem nada lá– Rin exclamou ao entrar na tenda. –Além do túmulo da Mayu-senpai. Será que ela deixou algo pra nós lá?

– É possível – Luka suspirou. – Bom, seguiremos esse caminho, com o máximo de cuidado que tivermos. Kaito e Meiko, armas de fogo além das lâminas. Rin, a katana além das pistolas. Len, os melhores fuzis que encontrarmos no arsenal.

— Sim, senhora– os quatro bateram em continência.

Luka olhou para eles. – Mas que diabos...?

— Estamos sob o seu comando a partir de agora, capitã– Meiko explicou sorrindo.

— Mas... –ela sacudiu a cabeça, constrangida. – Vocês são mais velhos, mostrem um pouco de compostura a essas crianças!

— Entendido– Kaito ergueu a cabeça e enrijeceu ainda mais sua posição, levando as palavras dela literalmente a sério.

Os ombros de Len tremiam enquanto ele escondia uma gargalhada.

— Retiro o que disse– Luka bufou, cansada. – Kiyoteru criou verdadeiras pestes.

Num batalhão onde as únicas mulheres eram Luka, Meiko e Rin, era comum as três tomarem banho juntas, separadas dos homens. Mas naquela noite Luka decidiu ir apenas depois de fazer um inventário do arsenal, e Kaito pediu gentilmente a Rin para trocar de lugar com ela no lavatório, pois queria alguns momentos com a esposa antes de saírem em viagem.

Ela atendeu ao pedido ruborizada e foi ao lavatório masculino, sentando-se num cantinho do lado de fora enquanto todos se banhavam. Fora da varanda a chuva caía pesada, e ela esperava ao menos que o monte de gente lá dentro gerasse um bom calor pra quando ela fosse entrar no recinto. Estava morrendo de frio.

Em alguns minutos os homens começaram a sair e atravessar o corredor para dentro do acampamento. Bruno estava entre eles e arregalou os olhos ao ver a garota encolhidinha na penumbra da varanda. Rin tinha certeza de que ele vinha na sua direção e fazer alguma gracinha como sempre, mas o que ele fez foi voltar correndo para dentro do lavatório.

Sem entender, ela se pôs de pé ao ver que os últimos homens tinham saído. Restava apenas Bruno, que lhe fez um sinal de positivo com o olhar enquanto exibia um sorriso brilhante.

Ao entrar no lavatório, no meio de uma nuvem de vapor, ela percebeu que Bruno não tinha sido o último a sair.

Len estava numa das tinas de água quente, os cabelos soltos, sem olhar para ela.

— Oh– ela arquejou, dando um passo para trás. – Me desculpe...

— Pode entrar– ele disse numa voz estremunhada. – Aquele Bruno safado armou pra cima de mim.

— Eu achei que estivesse vazio...

— Tá tudo bem Rin. Eu não vou sair daqui. Nem vou olhar pra você nem nada pervertido. Pode ficar a vontade.

Ela deixou os ombros caírem. Não sabia se ficava tranquila ou decepcionada com aquela declaração. Óbvio que não queria nada pervertido acontecendo ali; já não bastava o que estava acontecendo no lavatório feminino... Mas era quase se Len não desejasse a presença dela ali.

Bom, não é como se fosse culpa nossa, ela pensou. Sacudiu os cabelinhos louros e resolveu arranjar logo uma tina para tomar banho. Ao puxar a água do reservatório, no entanto, percebeu que ali não tinha o bastante nem pra lavar os pés.

— O cretino esvaziou antes de sair– Len explicou, ainda de má vontade. – Todas as tinas estão mais ou menos sujas, já que uns três ou quatro homens entram nelas de cada vez. Como estou de luto, eles me respeitaram e deixaram eu ficar sozinho o tempo que eu quisesse... Então...

— A água mais limpa aqui é a da sua tina – ela concluiu, engolindo em seco.

Eles dois, na mesma tina de água? Era uma banheira de madeira relativamente larga, onde caberiam mais três pessoas e sobraria um espacinho no meio. Mas... Mesmo assim...

— Por que não foi pro lavatório feminino? –Len indagou curioso. – O que o Bruno fez pra te convencer?

— Não foi ele, foi o Kaito-nii– ela respondeu amuada. – Ele e a Meiko-nee...

— Já, já entendi. Nem precisa completar.

Ele ficou ali, abraçado aos joelhos enquanto a água morna alcançava seus ombros. Ouviu o rufar das roupas de Rin caindo no chão. Primeiro o casaco militar, depois o vestido, depois... Baixou a cabeça, lembrando o constrangimento no jipe, na noite em que Rin dormiu em seus braços.

Pena que eles já fossem embora na manhã seguinte. Assim ele não ia ter a oportunidade de partir a cara do Bruno em duas.

— Uoooh!!– Rin surpreendeu-se, entrando na água lentamente. – Estava tão frio lá fora! Isso aqui é muito bom!

— Mesmo? – Len sorriu. – Bom que gostou.

Ela cruzou as pernas em lótus, imergiu a cabeça e sacudiu os cabelos molhados, salpicando a água em Len. Antes de começar a passar a toalhinha molhada sobre o corpo ela fez tudo o que pode dentro do pequeno espaço. Deitou a barriga para baixo e sacudiu as pernas como um peixe, moveu-as como bicicleta debaixo d’água e, aproveitando que Len não via, espreguiçou o corpo pequeno e brincou de boiar na superfície.

Ele balançou a cabeça, sorrindo. Aquela menina às vezes parecia ter cinco anos.

— Isso é um banho ou um ataque epiléptico? –gracejou.

Rin atirou água nele em reposta. Com o desnível repentino ela então reparou numa marca fina e avermelhada, subindo pelos ombros dele.

— Len – ela imediatamente estendeu a mão, mas não conseguiu tocar.

Sentiu que não podia. Ele nunca havia lhe falado a respeito, então talvez não quisesse que ela soubesse, certo?

Em resposta, o rapaz se pôs de joelhos sob a água, o bastante para expor as costas. Cicatrizes longas e avermelhadas percorriam a pele clara das costas, cruzando-se, intercalando-se. Dez delas.

— Pode tocar se quiser –disse ele. – Não dói mais. Faz muito tempo que não dói.

Sentiu os dedos pequenos de Rin percorrer a textura das cicatrizes. Ela não dizia nada, não perguntava quem tinha feito aquilo, o motivo, o momento. Apenas o tocava, primeiro com os dedos, depois com a mão aberta.

Uma carícia afetuosa e gentil.

— Tem coisas que você não conta pra mim– ouviu-a dizer num murmúrio. – E tem coisas que eu não conto pra você. Somos um segredo um pro outro, de certa forma. Mas temos nossos motivos pra isso.

— Eu sei – ele respondeu, uma sensação estranha de ardência por trás dos olhos.

— De qualquer maneira, eu quero ficar do seu lado. Sempre que você quiser me contar alguma coisa, eu quero ouvir. E quero que você faça o mesmo por mim.

— Eu vou– Len prometeu. – Vou ficar do seu lado, sempre que quiser.

Ela sorriu. Pegou a toalhinha e começou a passar pelas costas dele. –Já que esteve sozinho até agora na tina, ninguém te lavou, não é?

— Verdade.

— Então eu vou ter que lavar seu bumbum também?

— Ei! – ele exclamou indignado. – Ninguém lava a bunda de ninguém aqui não! Peraí– olhou de esguelha para a jovem. – Como é que são esses seus banhos com a Meiko-nee e a capitã?

— Fica quieto e deixa de ser pervertido– ela atirou a toalhinha na cara dele.

Depois que terminou, ela virou-se de costas para que Len a lavasse também. Sua pele parecia uma porcelana rosada, esguia e sinuosa. Tão limpa que ele nem sabia o que limpar ali. Mas poder tocar nela era algo que dispensava motivos. Depois da noite passada, aquela visão era quase um alívio para sua alma cansada.

Quase a abraçou em agradecimento, com carinho, mas teve medo que seu corpo não reagisse de modo discreto ao contato, e preferiu se concentrar na tarefa.

Quando estava afastando os cabelos do pescoço da garota para lavá-lo, um barulho de madeira batendo veio do lavatório vizinho. Era ritmado a princípio, mas foi ficando mais e mais rápido, até que ouviram a madeira se partir em pedaços, junto com o som de água jorrando.

— Pfft– Len zombou. – Eu achava que eles fossem discretos.

— O que houve? – Rin indagou confusa. – Eles estão bem?

— Ah sim, eles estão mais do que bem. A tina é que não está.

Ela voltou para dentro da água, vermelha dos pés a cabeça. – Esses detalhes do aniki e da aneki... Tomara que não aconteça nada assim durante a viagem!

— Nah, acho que hoje foi só uma exceção– Len a tranquilizou. – Vem cá, olha pra mim.

Rin voltou-se para ele devagar, os bracinhos cruzados sobre o busto. Os olhos reluziam, grandes e azuis como Len os conhecia, gentis e inocentes.

Ele sabia que eles podiam ficar rubros a qualquer momento, mas podia lidar com isso. Explicou isso a Rin horas mais cedo, e nunca viu um sorriso tão feliz no rosto da garota.

E embora não exibisse, aquela felicidade ainda residia no peito de Rin. Len confiava nela. Ele a amava. Depois de uma noite tão terrível, saber disso também era um alívio intenso na alma dela.

Ela não tinha palavras, nem ele as buscou. Apenas inclinaram os rostos e os juntaram suavemente, o bastante para seus narizes se tocarem, para seus lábios se encontrarem.

Uma discussão acalorada do outro lado do lavatório os fez partir o beijo, rindo baixinho.

— Vocês não têm vergonha nenhuma? Esqueceram que ainda estamos de luto?

— Sentimos muito, Capitã.

— Vamos passar a madrugada consertando a tina, Capitã.

— Os dois, sozinhos? Pra corrermos o risco de vocês destruírem o lavatório inteiro antes de partirmos? Não, obrigada. Meiko conserta a tina, Kaito limpa a bagunça, o Bruno fica de olho em vocês. E durante a viagem, não quero os dois juntos no banco de trás do meu jipe DE JEITO NENHUM!!!

Mais tarde naquela noite, depois de se lavar numa das tinas masculinas, Luka verificou os olhares infelizes de Kaito e Meiko enquanto Bruno zombava deles no lavatório feminino e seguiu em frente, satisfeita.

Na verdade, era bom ter aquele tipo de bobagem animando o acampamento. Deus sabia como precisavam, depois da noite anterior e o luto recente e pesado pela perda do Utatane. Ela avistou Rin, que levava a katana pendurada à cintura e algumas caixas de rações militares nas mãos, para abastecer os suprimentos da viagem.

— Parece que vou estar ‘segurando vela’ nessa missão– Luka suspirou ao examinar o casaco que a garota vestia. Continha o sobrenome KAGAMINE bordado no peito, revelando muito bem quem era o seu dono.

— Ah, isso? – Ela exclamou, toda sem jeito. – O Len me emprestou o dele, já que acabei molhando o meu quando, quando...

— Tomaram banho juntos– Luka revirou os olhos. –Bruno ainda vai pagar por essas gracinhas idiotas dele. E sim, eu sei que não houve nada demais. Vocês dois são lentos como tartarugas.

— Hmm. – Rin baixou a cabeça, ruborizada. Um selinho realmente não era nada demais, certo?

Nada como quebrar uma tina de banho, pelo menos.

— Escute garota, quero que durma com o Len essa noite.

Ela ergueu os olhos para a capitã, surpresa.

— É a primeira noite desde a morte do Utatane. Não quero que ele fique com insônia ou deprimido. Leve-o para sua tenda e tente deixá-lo calmo. Só não quebrem nada, pelo amor de Deus.

Rin arregalou os olhos novamente, vendo Luka acender um cigarro. –Preciso mesmo dar um tempo desse batalhão. A convivência com o Bruno está me influenciando mal.

A cama de Rin era pouco mais larga que um banco traseiro de carro, logo ela não precisava ficar em cima de Len dessa vez.

O que era ótimo, pois a garota não se sentia muito a vontade para isso. Mesmo depois de tomarem banho juntos, mesmo depois de se declararem e até se beijarem, parecia que aquela intimidade crescente estava lhe deixando cada vez mais constrangida.

Mas Len é claro, estava bem à vontade. Deitado e relaxado diante dela, brincava com uma mechinha dourada de seus cabelos.

— Para de mexer comigo– ela resmungou doce, sem querer que ele realmente parasse. – Assim nenhum de nós vai dormir.

— Você podia ter apagado a lamparina pra começar. Eu só durmo no escuro.

— Sei lá o que mais você faz no escuro.

— Por que, quer descobrir? – O sorriso de lado dele fazia seus ouvidos fumaçarem.

— Ah, Len...

— Tô brincando, sua boba. Não vou fazer nada. Só segurar sua mão. Posso?

Ela pensou por um momento breve e assentiu. Então Len ergueu-se e apagou a lamparina.

Sua mão se entrelaçou à pequenina dela, que ele acariciou por um momento, beijando os dedos um a um.

— Len...

— Ah, desculpa.

— Não é isso... – Ela apertou os dedos ao redor dos dele, querendo mais daquela carícia. –Eu só estava pensando. Por que o túmulo da Mayu? Foi lá onde nos reencontramos, certo?

— É... Não faz muito sentido pra mim também. Talvez a gente entenda quando chegar lá.

— Hm...

Os pensamentos dela continuaram indo e voltando, enquanto Len acariciava sua mão cada vez mais lentamente, já prestes a dormir. Luka tinha razão, a presença dela ali fazia Len não pensar tanto na morte do companheiro.

Utatane Piko, o menino maduro demais pra sua idade. Albino, olhos de cores diferentes, cabelos brancos e lisos, com uma ponta em forma de foice que insistia em ficar de pé, assim, como no cabelo da irmã gêmea Miki...

A foice de Mayu. Não afetou Rin, mas bastou Ia tocá-la para se tornar um monstro. Nesse caso, a katana de Kiyoteru-sensei também serviria para que Ia despertasse? Bastava que fosse uma arma pertencente a um guerreiro valoroso, ou precisava ser uma em específico?

Ela afastou aqueles pensamentos e tentou dormir. Tinham uma viagem longa a fazer. Os soldados iam ficar ainda mais desfalcados sem eles, quando até alimentar os cães era uma tarefa perigosa.

Lembrou-se sorrindo de como ‘a outra Rin’ estava cada vez mais cooperativa, lhe ajudando em tarefas corriqueiras como aquela.

Outra Rin, refletiu.

Na penumbra da sua tenda podia distinguir o rosto bonito de Len, já adormecido. E um pensamento acendeu em sua mente, como a pequena chama da lamparina.

“Vai ver a gente é mesmo irmão, Rin. Mas não é como irmão que eu te amo.”

Mas se eles fossem irmãos...

Será que também haveria um ‘outro Len’?

Notas finais
Será? Será que eu vou ter que escrever sobre ooooutro Quarto Branco? Acho que não, dá pra provar que sou uma escritora mediocre de varias maneiras, não só repetindo cenários. Aguardem! Enfim... Aos que ainda não puseram meu nome no macumba.net pela morte do Piko, meu muito obrigado por terem lido até aqui. Podendo deixar um comentário que tenha qualquer coisa menos spoilers de Game of Thrones eu agradeço de coração. E... Como o Kaito e a Meiko conseguiram quebrar uma tina de banho de madeira? Essas coisas costumam ser reforçadas com ferro ou outro metal. Qual terá sido a posição deles... DESCUBRA! Enfim, valeu por ler e acompanhar. Deixem reviews plis!!! Bejas e té maisinho :****