Little Last Love Song

26 26 - Na noite dos labradores


Com o fim da guerra próximo, defender e atacar eram dons cada vez mais dispensáveis. Teriam que ser substituídos por habilidades úteis. Cuidar, tratar. Curar.

Meiko entendeu isso na primeira vez em que viu as macas vagas na enfermaria do acampamento. Quantos não estariam perecendo em campo, agora mesmo, sem alguém que pudesse ajudar? Ela falou com Bruno, que prontamente lhe cedeu todos os livros de enfermagem rudimentar e todo o conhecimento que poderia passar para ela. Kaito logo se interessou pela ideia (e embora não quisesse admitir, não gostava da ideia de Bruno sozinho com sua esposa). E assim, enquanto Rin se aperfeiçoava no treino de tiros, Meiko e Kaito aprendiam a arte da cura.

Naquela noite os dois estudavam sobre ferimentos na região facial, quando Kaito deixou escapar um risinho.

— O que foi? – Meiko indagou.

— Nada, é só que eu tive que mostrar essas gravuras de lábios feridos pro Len entender mais ou menos como funciona um beijo.

— Sério? – ela riu surpresa. – Mas são imagens horríveis. Não tinha outro jeito?

— Eu não ia deixar ele praticar com você. E de jeito nenhum ele quis praticar comigo. Então...

A moça levou um tempo até parar de rir. – Coitado. Ele não mudou nada desde que tinha três anos... Sempre querendo ser mais adulto do que era.

— Bom, eu tentei ajudá-lo. Disse que não era tão difícil, ele só precisava sentir o momento... E a pessoa diante dele.

— Hmm. – Meiko deixou o livro por um instante, sua mão envolvendo a face de Kaito. – Foi assim com você?

— Não, eu tava morrendo de medo – ele confessou num sorriso, tocando o rosto dela também. – De fazer alguma besteira e você não gostar. Mas foi só a primeira vez.

Eles trocaram um selinho afetuoso. Que quase cresceu para um beijo mais quente, quando um estrondo e o som de gritos os fizeram se separarem, sobressaltados.

— Mas o que... – eles murmuraram confusos.

Um soldado entrou na tenda deles. – Não saiam daqui. Ela...

O rosto desesperado do homem permaneceu congelado, enquanto sua cabeça rolava no chão. Um fino raio de luz cortou a abertura da tenda. Kaito e Meiko se puseram de pé imediatamente, as mãos voando para as armas à cintura.

— Eu fico– Kaito sussurrou.

— Você não é bom atacando– Meiko sacudiu a cabeça. – Vá e veja o que houve lá fora, enquanto eu tento conter essa coisa.

— Sei que sou melhor me defendendo... Mas acontece que eu conheço a arma que está fazendo esse estrago melhor que você.

O olhar de Meiko lhe pediu uma confirmação séria e ele assentiu determinado. Trocaram um beijo rápido antes que Meiko sumisse nos fundos da tenda.

— Você deve ser um guerreiro valoroso– ele se posicionou com a wakizashi em guarda, ouvindo os passos do inimigo se aproximarem e mais pedaços de madeira da tenda sendo cortados. – Mas acho que a Mayu-sensei não voltaria dos mortos só pra me dizer um oi.

— Não sei quem é essa Mayu-sensei.

A voz era jovem, anasalada e delicada. Kaito imediatamente reconheceu-a como uma das enfermeiras do exército aliado, a que parecia interessada no Utatane. Utatane! Esperava que ao menos ele estivesse bem. Cruzou os braços sobre a cabeça quando o teto da desabou sobre ele, e a portadora da foice de Mayu surgiu à sua frente. A pequena e doce enfermeira Ia.

— Não achei que houvessem outras de você– Kaito exclamou, saltando quando a foice girou perigosamente em sua direção. –Pelo que Mayu me contou só são duas. Uma era ela, a outra... Não era pra ser você.

— Essa Mayu parece ter lhe ensinado a lidar com essa foice – a garota rodopiou o cabo por entre as mãos, numa manobra que fez a ponta da lâmina aterrissar entre as pernas de Kaito.

— Pode crer que sim. A melhor mestra que eu poderia ter tido, pra lidar com alguém como você.

Enquanto atiçava a jovem com palavras, Kaito observava os movimentos dela. Diferente de Mayu e mesmo de Rin, Ia não parecia lidar naturalmente com a arma que tinha em mãos. Era como se a força e agilidade que possuía tivessem sido adquiridas havia muito pouco tempo. Então, ela tinha recebido as tais injeções já depois da infância? Será que era a primeira vez que seu poder despertava?

Nesse caso, a vantagem era dele.

— Diga o que deseja, moça – ele gracejou enquanto desviava da lâmina outra vez. – Pode ser que consiga o que quer, sem precisar desgastar um corpo tão frágil e bonito.

Pelo canto do olho via soldados se posicionando para atirar. O embate entre os dois era rápido demais, por isso não queriam acabar acertando em Kaito. Aos poucos Ia recuou, ainda movendo-se rápido com a foice, de modo que as balas não acertariam pontos vitais seus.

— Uma coisa eu já tenho– ela girou a foice ao seu redor, fazendo o ar zunir e os soldados gritarem de pavor.

Ninguém fazia ideia de onde a lâmina iria parar, mas logo ficou claro quando ela soltou o cabo, deixando que a arma voasse como um bumerangue mortal, ceifando as vidas de um pequeno grupo que parecia buscar abrigo fora do acampamento.

Dentre eles, o general Zeeu.

— Próxima coisa – ela se atirou na direção de Kaito com as mãos nuas, usando uma delas para repelir o cabo da wakizashi. – Um recado, a quem possa interessar. Os mais novos protegem os mais velhos.

Kaito estremeceu com a força da mão dela apertando a sua. Ia já levantava a outra na direção de sua garganta, quando ele conseguiu virar o corpo dela na direção dos atiradores, e um deles acertou as costas da jovem. Os dedos dela afrouxaram e ela caiu no chão na mesma hora.

— Não atirem – ele gritou. – Pode ser que ela volte ao normal.

— Ela não vai voltar ao normal.

Rin surgia diante deles como uma aparição, a camisola branca sacudindo ao vento, olhos vermelhos, a katana em mãos. Ele engoliu em seco.

— Você conhece ela?

— Já vi outras como ela– a garota dizia, numa voz seca e grave que não parecia ser sua. –Projetos que não deram certo. Depois que despertam, ficam assim até morrerem.

Ela enterrou a lâmina da katana no local onde o tiro havia lhe acertado, e girou o cabo da arma. O corpo se contorceu sobre as tábuas de madeira, e sangue começou a jorrar, manchando os cabelos longos e claros. Rin puxou a lâmina de volta e a sacudiu no ar, observando o resultado de sua ação por um momento.

O corpo de Ia se contorceu por alguns segundos antes de se aquietar por completo. Então seus braços se ergueram, apoiados nas mãos, e seu tronco levantou-se da tábua, fios de sangue escorrendo dos lábios e misturando-se aos cabelos. Ela voltou a cabeça para Rin e esboçou um sorriso de dócil insanidade.

— E uma última coisa... Se quer me pegar, vai ter que vir atrás de mim.

Ela puxou algo de dentro do vestido e jogou mais adiante. Naquele momento Len acabava de chegar atrás de Rin, esbaforido. Uma das coisas pousou aos seus pés, a outra, aos de Rin.

— Kaito– Meiko gritou ao chegar. Sua expressão era de completo pesar e horror.

Len se abaixou para ver o que era a coisa no chão. Um olho humano, de íris verde. Trêmulo, ele voltou-se para Rin, que lhe estendia um olho de íris azul.

Ambos manchados de sangue.

— Rin... – Len murmurou trêmulo.

Seus olhos tinham voltado ao azul de sempre e a voz era a sua. Lágrimas de dor e raiva caíam pelo rosto. Ela olhou para a madeira, de onde o corpo de Ia tinha sumido sabe-se lá para onde.

— Vocês a ouviram– ela sussurrou. – Vamos atrás dela.

Ia parecia realmente ter gostado de Piko, já que a única coisa horrenda que fez a ele foi arrancar seus olhos. O corpo estava inteiro, exceto por alguns cortes leves em seu peito. A arma que ele segurava estava descarregada, mas àquela altura todos sabiam que tiros não podiam ferir o corpo de Ia.

Um dos tiros tinha sido desferido pela própria, dentro da boca dele, na direção do alto da cabeça. Uma morte rápida e certa. Ninguém sabia ao certo se foi antes ou depois de ele ter os olhos arrancados. Se o rapaz estivesse vivo, analisando aquela situação de fora, sua intuição com certeza resolveria o mistério.

Os pedaços de corpos de diversos soldados haviam sido recolhidos, e depois que Ia desapareceu, rápida e misteriosamente, aquela noite de horror havia chegado ao fim.

O cadáver do Utatane era velado numa pequena tenda, afastada das outras. Bruno pôs um lenço branco sobre seu rosto e um lençol sobre o corpo, e então abriu deixou que os mais próximos fossem dar seu adeus, antes que o caminhão fosse leva-lo para ser enterrado junto com as irmãs no cemitério.

Meiko contou numa voz sumida que só precisou seguir a trilha de pedaços de corpos para saber onde ela começava. Ali encontrou Piko já morto, os cabelos brancos tingidos de sangue, as órbitas vazias. Ela tinha chamado reforços e corrido ao encontro de Kaito, como medo do que pudesse acontecer a ele. Estavam abraçados agora, consolando um ao outro. Mais um irmão havia sido perdido, sem que pudessem fazer nada a respeito.

Len e Rin estavam de mãos dadas, cada um em seu próprio mundo. Ele, arrasado com a perda do seu parceiro de tantos anos, furioso consigo mesmo por ter encorajado o rapaz a se aproximar de Ia. Mesmo que ela tivesse disfarçado tão bem, ele tinha que ter adivinhado. Tinha que ter protegido aquele que o protegeu por tanto tempo. Aquilo era simplesmente injusto demais.

Rin lamentava a morte do irmão mais velho. Lamentava não ter chegado a tempo.Toda a dor e pesar se misturavam ao fato de que havia perdido o próprio controle na frente de Len, e agora tinha certeza de que ele jamais confiaria nela novamente. Podia sentir uma barreira fina e gelada se erguer entre eles, e isso fazia seu coração doer como nunca. Mal sentia as lágrimas escorrerem pelo rosto, o olhar perdido no interior da tenda, sem conseguir encarar o corpo do irmão que não foi capaz de salvar.

— Aqui– ela sobressaltou-se de leve ao ouvir Len diante dela com um lenço. Enxugou suas lágrimas num tocar do tecido, e trouxe-a para junto de seu peito, afagando seus cabelos.

Ela sentiu a barreira romper-se, podia até ouvi-la estilhaçando no chão. Len confiava nela? Claro que sim. Ele disse que a amava, não foi?

— Senhores– Luka apareceu diante deles, trajando o uniforme negro de luto. Tinha os cabelos rosados presos num coque, e manchas negras sombreavam seus olhos. – Sendo a única família de Utatane Piko, devo a vocês meus pêsames. Meus respeitos. E minhas sinceras desculpas. Fui eu quem encorajou o rapaz a seguir até o deposito de armas, acompanhado daquela que era a mais perigosa arma do quartel. Se já não tinham algum antes, vocês têm o melhor dos motivos para me odiar agora.

Ela retirou a luva de couro de uma das mãos e pôs sobre a mão pálida do Utatane, exposta sob o lençol. – Sinto muito – murmurou. – Sinto muito por ele. Tinha esperanças de que o conflito acabasse de uma vez, pra que ele pudesse enfim viver como um homem normal.

Meiko não pôde conter um soluço. Len abraçou Rin um pouco mais forte e olhou para Luka.

— Capitã– disse, chamando sua atenção. – Já discordei da senhora um monte de vezes, mas nem mesmo naquela vez do... Dos labradores – ele nunca contou a ninguém sobre as chibatadas que recebeu, nem mesmo a Rin. – Nunca a odiei. Acho que ninguém aqui tem motivos pra isso. O sensei confiou o Piko e eu a senhora porque sabia que era a melhor pessoa pra cuidar de nós, depois dele. E até hoje, ele nunca mostrou estar errado.

Eles observaram a mulher passar a mão por trás do pescoço, as faces rosadas, os olhos piscando rápido. Ela então limpou a garganta e retirou o quepe militar, e o segurou junto ao peito.

— Vamos orar em silêncio por ele– disse, totalmente recomposta. –Pela alma de Utatane Piko. Para que encontre Furukawa Miki e suas outras irmãs no outro mundo, e para que descanse em paz com elas.

Len nunca a viu tão solene e tão triste. Perder Piko devia ter sido um golpe duro para Luka. Além do mais, ela provavelmente já tinha se apegado a ele, a Len e Rin, e mesmo a Kaito e Meiko, depois de ouvir tudo o que passaram até se reencontrarem.

Rin se aconchegou mais em seu abraço e ele afagou seus cabelos. Não queria que pensasse que ele iria lhe recriminar de algum jeito, só porque deixou ‘a outra Rin’ assumir o controle. Ela o fez porque pressentiu o perigo, ela não machucou ninguém, e assim que viu que não havia nada a se fazer, voltou ao normal. Parecia que Rin estava conseguindo entrar em acordo com sua parte mais poderosa e sombria, e isso o deixava realmente orgulhoso por ela. Iria lhe dizer tudo isso, assim que aquele momento de luto pesado amainasse um pouco.

O pessoal do batalhão de Luka também foi se despedir quando o caixão foi encaminhado para o caminhão. Era muito querido entre todos os soldados, desse a simples infantaria até os de patente mais alta. Deixaram flores, fotos, bolas de beisebol autografadas, medalhas, entre outros presentes. Len pôs ao lado do ombro do amigo uma caixa de ração militar, e do outro lado, Rin deixou um desenho que ela fez do orfanato, com todas as crianças, Kiyoteru-sensei e até a capitã Megurine e seu jipe.

Bruno entregou a Luka uma caixinha comprida de madeira, que ela depositou por baixo da mão de Piko.

— Aquela psicopata até que tentou– Luka sussurrou no ouvido do rapazinho. – Mas você não vai para o outro mundo sem eles.

Todos ainda acenavam em despedida até que o caminhão se perdeu de vista. Então a capitã voltou-se para Len e Rin, para Kaito e Meiko.

— A família está em luto, e eu também– disse. – Mas preciso imediatamente da ajuda de vocês para traçar um plano particular.

— Como assim? –indagou Len.

— O general Zeeu está morto. É óbvio que esse era um dos propósitos de Ia, ou de quem a enviou junto com o exérc...

— Não, como assim– ele a interrompeu. – A capitã também é nossa família.

As faces de Luka ruborizaram de novo e ela suspirou impaciente. –Apenas obedeça e me siga, Kagamine.

Primeiro, o recado. Um que apenas uma criança do orfanato entenderia.

Depois, a morte do general. Não se sabia de desavenças entre a Imperatriz e seu irmão, logo a morte de Zeeu devia ter tido outro motivo.

Por último, um ultimato. Seguir Ia, nem que fosse por vingança.

— Nosso mais inteligente membro não está mais entre nós, então devemos resolver esse quebra-cabeças sozinhos – disse Luka, tirando um pedaço de papel do bolso e depositando-o sobre a mesa.

Os outros se inclinaram para observar, sem entender. Um X marcava uma linha tortuosa que seguia por vários centímetros, até encontrar um ponto pequeno e, mais adiante, um maior.

— Ao fazer a autópsia do Utatane, Bruno me chamou a atenção para os riscos no peito dele – Luka explicou. – Copiei o traçado e o comparei a um mapa de nossa região. O ‘X’ é onde estamos, obviamente. E este é o caminho que Ia quer que façamos até encontrarmos algo. Que seria ela... Ou algo maior.

— Os maiores protegem os menores... – Kaito voltou-se para Meiko. –Fomos os primeiros a ouvir isso antigamente, lembra? Da sua mãe. Pouco antes de ela partir.

Meiko franziu a testa, preocupada. – Aquela pessoa... Que ficou com a Rin esses anos todos e que... Conheceu minha mãe...

— Esperem– Luka disse. – Então há mais coisas na história de vocês que eu não sei. Para o nosso bem, é melhor todos saberem agora.

Hesitante, Meiko contou sobre seu encontro com Kamui Lily. Rin sentiu o peito apertar ao ouvir aquele nome, mesmo sem saber o motivo.

— No fim das contas, Ia não quer só que nos vinguemos dela– disse Kaito. –Tem algo mais que ela quer que a gente encontre. Algo que pode nos esclarecer as intenções do criador da Ia, do criador da Mayu, do homem que deixou Rin solta no mundo. Algo que tem a ver conosco. Apesar de que, não sei onde matar o general entra nisso...

— Mas é verdade– Luka assentiu. –Talvez apenas uma distração, algo para deixar os aliados desestruturados enquanto tentamos resolver essa bagunça. A questão é: o que a Ia quer?

— Além de uma surra e um esquartejamento, nem imagino– Len resmungou, e então parou de repente. – Espere. A senhora lembra do que me disse, na noit... Na noite dos labradores? Sobre o porquê do sensei ter partido?

— Encontrar a Rin– a capitã murmurou. – Ter noticias de Kaito e Meiko, se pudesse. Descobrir o sentido disso tudo, se pudesse.

Ela levantou-se da poltrona e foi até a abertura da tenda. Dali era possível ver a garagem militar, onde havia estacionado o seu jipe.

— Um ano, Hiyama Kiyoteru – murmurou e acendeu um cigarro. –Acho que está na hora de te trazer de volta pra casa.

Notas finais
Hmmm... Sobre mortes de personagens. Elas são necessárias, os autores sabem o quanto. Não queremos sair matando todo mundo. Mas às vezes, o empecilho pra história andar é o fato de que certa pessoa está viva, logo... Não me matem, por favor. Mas a caixa de reviews é livre até pra xingamento, eu tô tão carente de comentário que até isso tô aceitando TT Mas não me deixem no vácuo, não agora que a fic tá finalmente se encaminhando pro desfecho dela... Bem, é isso. Bom feriadão, obrigada a você que leu, deixe o que sentir vontade no comentario e nos vemos em breve! Té maisinho :***