Little Last Love Song
25 25 - O que você não vê nela
Lábios doces, pequenos e macios. Foi um beijo suave, mas que Utatane Piko jamais esqueceria como o primeiro de sua vida. O primeiro que recebeu de Ia.
E também o último.
Ia baixou o rosto, faces vermelhas que se viam no escuro. Ele respirava muito rápido, o coração acelerado, ainda sem entender o que acabava de acontecer, ou sequer acreditar. Percebeu que a garota queria lhe dizer algo mas só conseguia arquejar, então decidiu como homem tomar o controle da situação.
Se conseguisse, claro.
— V... Você está bem?
Ela balançou a cabeça para cima e para baixo, sem encará-lo. Piko se levantou e estendeu a mão a ela, fazendo com que finalmente olhasse para ele. Ia segurou-a e Piko a levantou-num puxão leve, de modo que a garota foi parar em seus braços.
Ficaram daquele jeito por um tempo, um nos braços do outro, Ia acariciando o seu rosto com mãozinhas delicadas e trêmulas.
— Seus olhos– murmurou. – São tão lindos.
— As pessoas sempre acham eles estranhos. Sabe, por não serem da mesma cor.
— Por isso mesmo são lindos.
A voz dela era delicada e doce, como toda ela. Piko podia se perder em seu encantamento por ela pelo resto da noite, se o toque de recolher não tivesse acabado de soar por todo o acampamento.
Numa despedida silenciosa eles entrelaçaram as mãos, sorrindo um para o outro, e então se separaram.
— Parece que alguém passou da conta no vinho – Len comentou quando o viu entrar na tenda.
Era uma tenda nova, construída na parte do acampamento que não tinha sido atingida pelo combate recente. Eles poderiam ter escolhido qualquer outro lugar para ficar, mas por questão de comodidade, resolveram continuar a dormir na mesma tenda. Afinal haviam passado uma vida inteira roncando um ao lado do outro, não havia por que mudar isso agora.
Pelo menos não enquanto não houvesse um bom motivo.
— Espera – ele largou a revista que estava lendo e analisou bem as feições do amigo. – Não foi só o vinho. O que mais aconteceu?
— Nada que te interesse– Piko se largou na cama ao lado, mas sem conseguir tirar o sorriso do rosto.
— Deixa de ser panaca – Len atirou o travesseiro nele. – Conta aí! Deu uns pegas na capitã, foi isso?
— Hein? – a ideia pareceu tão absurda que acordou Piko de seu torpor. – Tá maluco?
— Então quem foi? Espera – Len pôs a mão no queixo. – Quem poderia... Ah! A gata da enfermaria! Foi ela, não foi? Até que enfim, cara!
— Ah, cala a boca– Piko jogou o travesseiro de volta e deitou novamente, a cabeça nas nuvens.
Normalmente ele comentaria alguma coisa sobre Len não dar sequer um passo adiante em relação a Rin, mas não havia espaço para eles em sua mente agora. Para mais nada, além de Ia.
O dia seguinte se arrastou. Limpar as armas, ajudar Len no treinamento da Rin, exercícios físicos. Piko viu Ia algumas vezes, enquanto ela ajudava a entregar as roupas limpas aos batalhões ou mantinha a enfermaria esterilizada. Sempre que se riam, sorriam um para o outro, cientes do segredo que partilhavam. Ou melhor, que Len e Bruno tinham feito questão de espalhar pelo resto do acampamento.
Às seis da tarde ele tinha que voltar à tenda da capitã, para verificar se a quantidade de bebida daquela noite tinha o potencial de deixá-la inconsciente. Como ele já esperava, Luka não tinha o menor traço de ressaca da noite anterior. Bebia um cálice simples de uísque enquanto fumava, sentada numa poltrona velha, ainda usando o uniforme militar. Parecia tão digna e imponente quanto aquelas pinturas de generais antigos. Piko bateu continência ao vê-la e entrou na tenda.
— A garota deve saber– disse, assim que viu o rapaz. – Devia perguntar a ela.
— Perdão...?
— A enfermeira– Luka soprou a fumaça do cigarro. – Onde ficam os locais mais secretos do acampamento aliado. Provavelmente a arma se encontra lá. Aproveite a oportunidade, Utatane.
Aquilo nunca passaria pela cabeça de Piko, nem em um milhão de anos.
— E o que eu digo pra Ia? “Que tal irmos nos encontrar no arsenal do seu exército e, já que vamos estar por lá mesmo, checar pra ver se não tem nenhuma arma superpoderosa por lá?”
A capitã estreitou os olhos azuis e Piko imediatamente curvou a cabeça. Não podia falar de qualquer jeito enquanto Luka estivesse sóbria.
— Com todo o respeito – acrescentou ele. – Mas não vejo como isso pode ser possível.
Ela deixou escapar um suspiro profundo. – Bom, era pra você ser o estrategista e não eu, mas vejamos... Quando firmamos nossa aliança, Zeeu pediu que nosso arsenal fosse adicionado ao dele. Praticamente todo o nosso estoque de armas se encontra lá. Já que estamos treinando a Rin, você poderia ir dar uma olhada e ver se encontra uma arma mais apropriada ao treino. Acha que essa desculpa pode funcionar com a garota?
Piko estava impressionado.
— Com certeza. Ela já me viu ajudando nos treinos. Mas será que não há guardas no arsenal? Guardas do exercito de Zeeu?
— Claro, ele não é idiota. Por isso você deve levar a doce e inocente enfermeira para despistá-los, além disso.
Ela lhe estendeu um rolo de papel. Era uma autorização assinada pela própria Luka, permitindo que o arsenal de seu exército pudesse ser vistoriado.
— Mas isso não vai me dar acesso ao arsenal deles, certo? –Piko notou.
— Bem– Luka sorriu de lado e recostou-se na poltrona. – Já bolei estratégias demais por hoje. Agora é a sua vez. Se vire.
Quando ele ia saindo, a voz da capitã avisou-o: – E não confie na garota. Em momento algum.
Aquilo meio que doía em seu peito, afinal ele sentia algo por Ia. Amor? Não, era cedo demais para isso. Gostava dela. Um afeto intenso, quente, agradável. Podia virar amor um dia, quem sabe? Mas mesmo assim, ela ainda era do exercito de quem eles desconfiavam. Logo, Ia também não era de confiança.
— Desculpa te chamar em sua hora de descanso– Piko murmurou ao vê-la chegar, horas depois.
— Não, eu quero ajudar– Ia sorriu.
Ele tinha lhe contado a historia que Luka lhe instruiu e Ia acreditou sem hesitar, dispondo-se a ir com ele ao arsenal dali a algumas horas. Piko também notou o vestido que ela usava, mais feminino que o uniforme costumeiro, com um decote que deixava os ombros à mostra. Havia até uma cor mais avermelhada em seus lábios. Ele sorriu, sentindo o coração aquecendo. Parecia até um encontro. E ela tinha se arrumado assim para ele?
Tentando afastar as ideias românticas da mente, ele seguiu Ia pelo quartel aliado, que era gigantesco. Havia tendas a se perder de vista, a maioria iluminada por dentro, mostrando silhuetas de soldados dormindo, lendo, conversando, fazendo flexões. A tenda de Zeeu era ligeiramente maior que as outras, mas como Luka costumava fazer, tinha se erguido em meio à dos soldados da infantaria. Parecia estar acontecendo uma reunião ali no momento. Ia puxou Piko pela mão e os dois se esgueiraram por uma esquina, até avistarem os galpões de mantimentos e a construção que servia de arsenal.
— Eles vão nos deixar passar, certo? – Ia murmurou, olhando para a outra mão de Piko, que segurava a permissão de Luka.
— Vamos torcer para que sim– ele lhe deu um sorriso nervoso. A sensação da mão dela na sua o acalmava.
Havia pelo menos dez guardas vistoriando a entrada dos galpões. Um deles leu a permissão que Piko lhe entregou e fez sinal para outro soldado acompanhá-los.
Isso não é bom, Piko lamentou. Não bastava eles não poderem ver o arsenal alheio, ainda iam ter alguém na cola deles?
O interior foi iluminado com uma lamparina a óleo pelo soldado. Dispostas em caixas e prateleiras de acordo com o tipo e calibre da arma, todas estavam organizadas melhor do que Piko esperava.
— O que é aquilo? – curiosa, Ia apontou para um grande objeto encostado junto à parede.
— Não sabemos se é uma arma ou não. – O soldado deu de ombros. –Deu trabalho trazer pra cá.
Piko olhou melhor e entendeu. Eles estavam falando da foice gigante de Mayu.
— Ah, não tente pegar– ele exclamou, vendo a mãozinha de Ia se encaminhando para o cabo da arma. – É muito pesad...
Ele então perdeu a fala.
Ia ergueu sem dificuldade a foice, como Rin havia feito. Ela experimentou levemente o peso sobre as mãos, como quem pesa uma criança. E então girou a lâmina.
— Não!! –Num reflexo Piko se atirou ao chão, escapando da lâmina.
O soldado não teve a mesma sorte. Antes que soubesse o que estava acontecendo foi partido em dois, suas vísceras despejando-se no chão enquanto ele caía de joelhos.
Ia voltou-se para Piko, os olhos azul-claros inflamados num vermelho vivo, sangue respingado em seu rosto. O rapaz estava encolhido contra uma das caixas de pistolas, tendo conseguido apanhar uma delas sem nem mesmo pensar.
— Utatane Piko... – A voz doce era como o som de uma assombração, enquanto ela lhe sorria sem o menor sinal de sanidade no rosto. – Eu realmente acho seus olhos lindos.
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