Little Last Love Song
23 23 - A parte divertida
— Quem é você?
— Eu sou você. Só que mais má. E muito mais forte.
Rin estava no quarto branco outra vez. Paredes brancas, teto branco, lençol branco. Não havia portas ou janelas. E de pé diante dela, uma outra Rin. De calça e botas negras, e uma sarashi branca escondendo o busto. Um laço negro sobre os cabelos. E sangue vermelho manchando seu rosto e a pele descoberta.
Ela olhou para si mesma, recostada na cama. Ainda usava a camisola da enfermaria. Sua mão estava cheia de sangue e cacos de vidro, mas ela não sentia dor alguma.
— Não lembra mesmo de mim? – a outra Rin torceu os lábios num biquinho de decepção. –Eu te ajudei tantas vezes. Retalhei aquele desgraçado no porão do orfanato, o que machucou o Piko-kun. E hoje mesmo, acabei com aqueles caras que queriam matar você e o Kaito-senpai.
— Você quase matou o Kaito– Rin lembrou-se, estremecendo. – Também matou a Mayu-senpai. É, eu lembro de você.
— Nós tínhamos que matar a Mayu, foi a ordem que recebemos. Quanto ao Kaito-senpai... Bem, foi um erro de cálculo. Passei tempo demais parada, pra conseguir me controlar tão de repente. A culpa foi sua, se pensar bem.
— Por que eu estou aqui?! –ela atirou os cacos de vidro no chão, uma irritação crescente lhe tomando. – Por que você apareceu?
— Porque você é uma pequena franga depenada. Gostou dessa? “Franguinha”– ela imitou uma galinha, e lhe deu um sorriso zombeteiro. – Acha que consegue salvar todo mundo com o poder da amizade? Sem mim você não é nada, só uma franga chorona e pronta pro abate. Ou não, já que é tão magra e pequena. Nem pra isso você serviria...
— Por quê...? –Rin exclamou com raiva.
— Pare de brigar comigo, franguinha. É uma luta perdida. Eu estou na sua mente, controlo os seus poderes. Você precisa de mim pra proteger essa sua carcaça magra e inútil. Precisa da minha força pra proteger os seus amigos. Você nem sabe usar a droga de uma arma, pelo amor de Deus.
— Se eu deixar... Se você assumir o controle, eu não vou mais voltar, não é? Vou ficar aqui pra sempre...
“Como até pouco tempo atrás”, ela lembrou-se. Logo quando deixou o orfanato. Esteve dopada, dentro daquele quarto, vendo a vida passar diante dos seus olhos.
E dali de dentro, a vida era um eterno banho de sangue.
— Na verdade, esse quarto é meu– a outra Rin sentou-se na ponta da cama, olhando ao seu redor. –O pai o criou pra mim, dentro da sua cabeça. Eu devia levar uma vida sossegada aqui dentro, hibernando feito um urso. Mas você não dá conta das coisas sem mim. Então eu tive que sair e, claro, alguém teve que tomar meu lugar. Se não fosse você, quem mais seria? O seu irmão?
— Irmão...? –Rin murmurou temerosa.
— Ah, não se faz de besta, franguinha. Todo mundo vê que você e o Len são irmãos. Qual o problema com isso? Tá com medo de gostar dele como homem?
— Eu...
Ela se encolheu na cama, indefesa, enquanto a outra Rin se debruçava na direção dela, seu sorriso maldoso no rosto. – Não vem com história pra cima de mim. Eu sei o que você sabe. Sinto o que você sente. Pergunta pra Meiko-chan o que ela sente quando o Kaito-senpai toca nela. É a mesma coisa que você sente com o Len.
Ela baixou a cabeça. Era errado, não era?
— Olha só, você matou pessoas. Tá com medo de gostar de um cara só porque ele nasceu junto com você?
— É tudo tão simples pra você, não é– Rin resmungou.
— Claro que sim – a outra se largou de costas na cama. –Só tenho que sair daqui, fazer meu serviço e voltar. Matar e dormir, de consciência tranquila. A bomba tá nas suas mãos, franguinha. Trate de dar um jeito nela, ou ela vai explodir e levar um bocado de gente junto.
Rin olhou para as paredes brancas de sua mente. Então era ali que habitava a sua ‘parte má’. Não imaginou que seria um lugar tão limpo e pacífico. Mas então, percebeu que havia algo de perturbador ali.
Não havia saída.
— Como eu faço pra voltar? –indagou, levantando-se da cama.
— Sei lá– a outra se espreguiçou. – Pra falar a verdade, nem eu sei como chegamos aqui juntas. Você surgiu do nada, por acidente. Deve ter colapsado, depois que lembrou que quase matou o seu querido irmão mais velho.
Rin tateou as paredes gélidas, em busca de uma rachadura, uma fresta, qualquer coisa que lhe tirasse dali. As quatro paredes eram rijas, sólidas como blocos de gelo. Desalentada, ela voltou para a cama, jogando-se ao lado da outra Rin.
— Se estamos aqui, quem está lá?
— No seu corpo? Ninguém, é óbvio. O pessoal lá está esperando você recobrar a consciência. Sinceramente, eu também estou. Essa cama é pequena demais pra nós duas, e eu trabalhei demais hoje.
Rin levantou novamente e se jogou contra uma das paredes, escorregando até ficar no chão. –Vai, pode descansar. Desculpa por ocupar o seu espaço.
— Você pede desculpas com uma frequência irritante. –Ela se esticou toda na cama, os lençóis brancos manchando-se de vermelho ao tocar o corpo sujo dela. – Essa é só uma parte do seu problema.
— Meu problema?
— Você não me aceita. Acha que pode viver como uma dona de casa o resto da vida, mesmo que esteja acontecendo uma guerra ao seu redor? Você foi feita pra lutar, querendo ou não. E enquanto insistir em ficar de braços cruzados, eu vou ter que interferir sem avisar sempre. Hoje eu quase levei o Kaito-senpai. Da próxima vez pode ser o Len. O que acha disso?
Ela recolheu os joelhos junto ao corpo. – Não sei se posso confiar em você. Você pode querer me trancar aqui de novo.
— Não franguinha, eu não trancaria você aqui. Por um motivo simples, eu nunca tranquei você aqui. Gosto do meu quarto. Foi o pai quem trocou a gente de lugar por todos aqueles anos. Não pense que eu gostei de ficar na sua pele por tanto tempo.
— Então... – Rin ergueu o olhar para sua contraparte. – Se eu voltar...
— Quando você voltar– ela lhe corrigiu. Deitou-se de lado, a mão apoiada na cabeça, olhando de volta para ela. – Arranje um jeito de sair daqui, porque eu é que não vou.
— Tudo bem – a garota respirou fundo, decidida. – Não vou mais ter medo. Vou aprender a me defender e defender meus amigos. E quando eu precisar matar, vou chamar por você.
— Assim é que se fala. – Ela se jogou de volta na cama. –Deixe a parte divertida comigo. Mas agora, você precisa sair desse quarto. É sério. Quanto mais tempo você fica, mais o seu corpo lá fora enfraquece. Eu não posso trabalhar com um corpo fraco.
Rin baixou a cabeça, derrotada. Não tinha ideia de como sair dali. Naquele quarto só estavam elas duas e a cama. Nada de frestas, maçanetas, passagens secretas. Ela só tinha a si mesma, literalmente.
— Como foi que você saiu da última vez? Eu não lembro daquilo, mas foi a Mayu, não foi?
“Foi... Ela cantou uma música.”
Ela abriu os olhos devagar. Havia algo quente, perto de seu ombro. Rin virou-se para o lado e encontrou o rosto adormecido de Len. Ele tinha sentado ao seu lado na maca e pego no sono ali mesmo, a cabeça derreada sobre o colchão fino.
Meu irmão, ela pensou, acariciando os traços do rosto dele. Eram mais compridos e masculinos agora. A outra Rin tinha razão, pensou. Aquilo que sentia quando o tocava, não devia ser coisa de irmãos. Mas no fim das contas, eles nem foram criados como tal. O próprio Len dizia que era só coincidência eles serem tão parecidos. Talvez aquela ideia o deixasse perturbado também...
Ela sentiu o rosto esquentar. Engoliu em seco e recolheu a mão que o tocava, o coração aos pulos. Por que Len se perturbaria também? Ela não podia dizer, mas se fosse pelo mesmo motivo que o seu... O que faria dali em diante?
Len despertou devagar, piscando os olhos, e então virou-se para Rin, assustado. –Você tá bem?
— Sim... –ela murmurou hesitante. Estava mesmo?
— Que bom– Len suspirou aliviado, e pegou a outra mão dela, que estava toda enfaixada. – Você deu um belo susto na gente. A enfermeira quase enfartou quando te viu com a mão ensanguentada.
— A Ia-chan...?
Ela lembrou-se da garota, e então percebeu que Len estava de banho tomado, usando um pijama branco da enfermaria. Teve que se controlar para não perguntar quem havia ajudado ele a se lavar. “É isso que chamam de ciúmes?”
— É, aquela menina nova. Acho que o Piko gostou dela. E o Bruno acha isso também, porque já tá pegando no pé dele, igual ele faz comigo...
O rosto dele corou e ele desviou o olhar. Rin não entendeu o motivo, mas de repente se sentiu constrangida também. Mas não de um jeito ruim. Um calor suave se instalava em seu peito, crescendo e tomando seu corpo aos poucos.
— Seu joelho está melhor? –indagou, fazendo com que ele se voltasse.
— Ah sim– ele ergueu a perna do pijama, mostrando uma série de pontos que costuravam o ferimento em seu joelho. – Eu tô parecendo o Frankenstein, mas tirando isso, nem dói muito. O Bruno falou que nenhum ligamento foi rompido, então eu vou só vou mancar por alguns dias, depois volto ao normal.
— Que bom.
Len soltou o pijama e apanhou a mão machucada entre as suas. – E você, Rin? Sabe como isso aconteceu?
Ela lembrou-se do reflexo no copo de vidro, da força repentina que sua mão adquiriu ao quebrá-lo. No fundo, ela sabia que aquela outra Rin existia. Talvez seu inconsciente a tivesse levado para lá, para que elas finalmente tomasse satisfações uma da outra e se reconciliassem. Pelo menos chegamos a um acordo, ela pensou.
— Acho que perdi a noção da minha força.
Sentiu as mãos dele estremecerem levemente, mas elas não soltaram a sua. – E agora, como você se sente?
— Melhor.
Rin ergueu a mão enfaixada diante de seu rosto. – Len... Eu preciso ir a um lugar. Vem comigo?
Já estava amanhecendo sobre o acampamento. A chuva havia apagado os incêndios, e por toda a parte havia grupos de soldados recolhendo cadáveres, juntando destroços, fazendo o inventário das tendas que restavam de pé.
Len e Rin usavam jaquetas militares sobre as roupas da enfermaria. Os outros estavam ocupados demais para notarem os dois. Ele seguia a passos curtos e lentos por conta do joelho, o braço apoiado nos ombros de Rin, que segurava a sua cintura.
— A tenda do sensei ficava no meio das dos outros soldados– Len contou a ela, enquanto passavam por destroços enegrecidos e fumegantes. – Ele sempre preferiu ficar no meio do batalhão. A Megurine-san gostava de ficar perto da tenda de comando, por isso o dormitório dela era afastado dos soldados.
— Como era ter dois capitães no quartel? –Rin indagou curiosa.
— Ah, era tranquilo. O sensei e a capitã não se falavam muito, mas se entendiam bem. Ele cuidava do treinamento dos recrutas, enquanto ela comandava os soldados no campo de batalha. Nunca vi nenhum problema entre eles dois.
— A Luka-san é uma boa pessoa– a garota comentou. –Não vivi tanto com ela como vocês, mas acho que ela só é durona porque tem que ser.
— Isso é verdade. E olha que eu passei um bom tempo convivendo com ela...
Eles chegaram a um agrupamento de tendas que não foram tocadas pelas bombas. Alguns soldados estavam por ali recolhendo seus pertences, e fazendo o inventário das tendas cujos donos morreram no combate. Len mostrou uma das tendas e Rin foi com ele até lá. Era absolutamente igual às outras, exceto pelo fato de que havia algo debaixo da cama de Kiyoteru.
Rin puxou dali uma caixa muito comprida, feita em madeira. Len havia cansado da caminhada e sentou-se na cama, observando o que a garota fazia.
— Isso é...?
— Aquilo que você e o Piko trouxeram, quando foram resgatados do orfanato.
Ele viu assombrado a tampa da caixa ser erguida, revelando a lâmina longa, que cintilava na penumbra da tenda. Esticou-se até o criado-mudo e acendeu uma lamparina a óleo, que iluminou o recinto por completo.
— Tive medo de olhar pra ela– Rin murmurou, ajoelhada diante da caixa. –Medo de tocar nela outra vez, e perder o controle de mim mesma. Fazer coisas ruins. Machucar vocês.
Seus dedos vacilantes hesitaram, a meio caminho da arma.
“Deixe a parte divertida comigo. Viva a sua vida.”
Ela suspirou muito fundo e fechou os olhos, e seus dedos envolveram o cabo da katana.
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