Little Last Love Song
24 24. O que ela vê em você
Era tão óbvio que chegava a dar agonia, Piko pensava.
Len correu pelo campo com certa dificuldade, caindo com o joelho machucado no chão. Piko conhecia o amigo bem o bastante para saber que ele não se deixaria cair daquele jeito. Mas o ato foi bastante para levar Rin ao chão também, para fazê-la examinar o ferimento com preocupação. Suas mãos se tocando, seus olhares se encontrado, o vermelho tomando suas faces.
Deus, como aqueles dois eram lentos.
— Vocês deviam arrumar uma tenda vazia pra vocês dois – Piko provocou.
Rin olhou para ele, piscando sem entender. – Por quê?
— Deixa esse besta pra lá, Rin – Len bufou irritado, o rosto ainda mais rubro que antes. – Vem, sua mira ainda não tá boa o bastante.
Sentado ao pé do caixote de armas Piko observava os amigos. Seus irmãos, praticamente. Junto com Len ele viu e viveu coisas que os tornaram homens rápido demais, talvez muito antes do tempo devido. E Rin, a criança meiga e gentil que desapareceu nas chamas anos atrás, obviamente já não era mais uma criança.
E por mais que ele sentisse seu coração acelerar só de vê-la, era óbvio que era com Len que ela devia ficar.
Piko não tinha ressentimentos por isso, de jeito algum. Acima de tudo, amava aqueles dois como seus irmãos mais novos. Já tinha se sacrificado por eles antes e o faria de novo. Faria qualquer coisa por eles, mesmo que para isso tivesse que passar por cima dos seus próprios sentimentos.
Ele deixou escapar um suspiro desalentado, e então percebeu que não estava sozinho.
— Oh, desculpa se o assustei – ela exclamou desculpando-se.
Piko achou graça. Ela é quem parecia estar assustada.
— Tudo bem – sorriu, deixando-a tranquila. –Só tô vendo como anda o treinamento da Rin. Se não estiver ocupada, pode ficar aqui se quiser.
— Ah, faz tempo que não fico ocupada – a jovem puxou a saia longa do vestido ao sentar-se perto dele. – Desde que as tropas do nosso general partiram, as coisas vem andando muito calmas na enfermaria.
— Isso é bom, não é?
— Nossa, com certeza!
O sorriso dela parecia deixar o dia ainda mais brilhante.
Piko não sabia quase nada sobre ela. Devia ser um ou dois anos mais velha que ele. Chamava-se Ia. Trabalhava como assistente de enfermagem. Tinha se alistado voluntariamente nas tropas quando houve a convocação em seu país. Inteligente, prestativa, tímida e um pouco atrapalhada às vezes. E linda, tão linda que quase podia competir com a Rin naquele quesito, na opinião de Piko.
O que mais o surpreendia, no entanto, era Ia parecer estar interessada nele. O rapaz podia se contentar em apenas admirar de longe o rosto angelical dela, o corpo pequeno e delicado, os olhos azuis, os cabelos longos e claros enfeitados por duas trancinhas soltas. Mas Ia era completamente alheia à atenção dos outros homens, e sempre que Piko estava sozinho ela dava um jeito de aparecer e lhe fazer companhia. Mesmo que sua timidez a impedisse de até mesmo puxar um assunto banal, estar ao lado de Piko parecia ser algo de que ela gostava muito.
“Ela tá na tua”, Bruno insistia com ele. Não em tom de brincadeira, mas realmente cobrando dele uma atitude. Até Len lhe dizia a mesma coisa, mas quando Piko indagava o porquê de ele e a Rin ainda serem ‘só amigos’, o loirinho dizia que aquilo não tinha nada a ver e mudava de assunto. E era como o próprio Utatane encarava a situação. Estavam num acampamento militar, esperando a decisão que diria se aquela guerra acabava ou não. Aquilo não era hora para bancar o adolescente apaixonado.
Mas... Poxa...
— Eles se dão bem juntos – Ia comentou, e Piko concordou num aceno.
Observava as mãos de Len segurarem com firmeza as de Rin para ajustar a mira de sua arma. Ou, talvez não com tanta firmeza assim, já que mesmo daquela distância era possível ver as mãos do loiro estremecerem só de tocar a pele dela.
— Na sua terra natal, tem alguma pessoa com quem você... – A vozinha doce dela estremeceu. – Com q-quem você se dê bem assim...?
Piko voltou-se e deu de cara com uma Ia tão graciosamente desajeitada, que ele precisou se conter muito para não abraçá-la ali mesmo. Estava corada, torcendo as pontas do avental entre os dedos, sem encará-lo de maneira alguma.
Poxa...
O que ela vê em mim afinal?
— Não, Ia– ele murmurou suavemente. – E você?
Ela sacudiu a cabeça negativamente. Ainda sem olhá-lo ela levantou-se e saiu correndo, como se tivesse vindo ali só para lhe perguntar aquilo.
O que ela vê em mim afinal?
Não era uma questão de baixa autoestima. Piko apenas tinha um sexto sentido para certas coisas, e quase sempre pressentia quando havia algo errado. Não à toa Luka o mantinha por perto como conselheiro, mesmo sendo praticamente um moleque em comparação ao resto dos estrategistas. Mais estranho era ainda ser conselheiro quando não se havia nada a aconselhar, aparentemente. A guerra estava nas mãos de Zeeu e seria decidida em questão de meses.
O que ele tinha a fazer na tenda de uma capitã que sequer possuía uma tropa ativa para comandar?
— Encha o seu copo, moleque. Não é possível que tenha matado homens e seja derrotado por uma dose de uísque.
Bem, aquela era a nova função de Piko. Cuidar para que sua capitã não entrasse em coma alcoólico.
— Achei que a senhora só fosse viciada em cigarros – ele comentou distraído. Já havia bebido um bocado também e sua sobriedade sofria para protegê-lo; mas no estado em que a capitã se encontrava, dificilmente ele seria mandado para o tronco por dizer alguma besteira.
— Nunca gostei de fumar– ela cuspiu as palavras antes de tomar um gole generoso da bebida. – Mas acabei me acostumando. Uma das várias coisas que aprendi, convivendo com aquele imprestável.
Piko parou seu copo a meio caminho da boca. Era o terceiro que tomava e não via a hora da capitã simplesmente cair no sono e deixá-lo em paz. Mas aquilo lhe chamou a atenção.
— Que é? – Luka indagou rudemente, percebendo o interesse dele. – Sabe de quem estou falando. O seu querido ‘sensei’. Sabe quantos dias faz desde que ele partiu?
O Utatane se pegou surpreso, percebendo que não fazia ideia da resposta. No quartel o tempo era uma coisa muito relativa, e não parecia funcionar como em qualquer outro lugar. Pelas contas dele, já tinha um certo tempo quando Kaito e Meiko chegaram. Então...
— Um ano– ela esvaziou o copo. – Saiu daqui pra procurar noticias da Rin, mas pelo jeito se desencontraram. E sabe o que mais? O traste ainda disse que era pra eu ir atrás dele, se passasse tempo demais sem dar notícias. Agora já faz um ano. Mais precisamente, hoje. O que devo fazer, Utatane? Você é meu conselheiro. Me aconselhe.
Ela largou o copo na mesinha e começou a beber do gargalo mesmo. Por sorte era uma garrafa pequena e Piko também havia bebido uma parte, embora não tanto quanto ela.
— Bem – disse ele. – Não sei quanto à capitã, mas eu não confio nesse Zeeu. Chegou do nada, encostou nossas tropas, assumiu o controle e não deu nenhuma explicação a mais. Não sei se países aliados deveriam agir desse jeito.
— Nisso você tem razão– ela resmungou. – Um filho da puta arrogante, isso é o que ele é. Se bem que algumas coisas ele explicou, pelo menos.
— Que coisas?
— Algo como a ‘guerra já estar ganha’. Uma arma secreta do lado deles ou algo assim. Quem vai saber. E por que você quer saber afinal? Alguém te nomeou general por acaso?
Piko suspirou fundo e tomou mais um gole do uísque. Só bebendo mesmo.
Apesar de ouvir reclamações infinitas, ele conseguiu extrair algumas coisas bem interessantes de uma capitã mergulhada na bebida. A tal arma secreta era a ameaça definitiva para vencerem a guerra. Não tinha vindo com as tropas de Zeeu, mas ao que parecia, havia um protótipo no acampamento aliado. A curiosidade de Piko estava a mil, mas nesse momento Luka afundou na poltrona de vez. Ele pôs uma manta sobre a capitã e apagou a lamparina da tenda. Teria que esperar por outra oportunidade de descobrir novas informações...
... Ou não.
Acabava de sair da tenda da capitã quando deu de cara com a Ia. Foi repentino demais para seus reflexos o acompanharem, de modo que ele praticamente caiu por cima dela no chão.
— Ahhh... Ia, me desculpa! – Ele se ergueu sobre as mãos, o corpo ainda sobre o dela. Sabia que tinha que sair dali de cima, mas o corpo não obedecia a mente.
— T-tudo bem– ela estava surpresa, mas não exatamente chocada com a situação. Ou incomodada. Sem tirar os olhos dos dele ela ergueu seu tronco devagar, na direção do ele...
— Utatane-kun...
— Hm?
— Você... Andou bebendo?
Ele não controlou um riso, e finalmente saiu de cima da garota. – Sim... Minha capitã meio que me obrigou. Você tá bem mesmo, não se machucou?
— Não... Pode não parecer, mas sou bem forte.
Piko sorriu. Não parecia mesmo. Ela era a criatura mais meiga que ele já tinha conhecido. Em vez de força, tudo que ela lhe inspirava era vontade de cuidar dela. De abraçá-la. De...
— Utatane-kun...
Ele não respondeu dessa vez. Nem precisava. As mãozinhas dela se encaminharam trêmulas para seu rosto, afastando as mechas brancas e longas que o cobriam. Piko pôs sua mão sobre a dela contra seu rosto, sentindo sua maciez, seu calor.
O Utatane quase podia ouvir a voz da capitã Megurine em sua cabeça. ‘Não era possível que tivesse matado homens e fosse incapaz de beijar uma garota.’
Era tão linda, ele pensou. Seus olhos cristalinos o fitavam ansiosos, fechando-se a medida que ele aproximava seu rosto, ainda crente de que aquilo tudo era um sonho.
O que ela vê em mim?
E o que isso importava afinal?
Rin guardou a pistola dentro do coldre, num banquinho ao lado da cama. Desde que o acampamento foi reerguido diversas tendas ficaram vazias, já que a maioria delas foi destruída pelo ataque. Rin preferiu reconstruir a antiga tenda que ocupou com Luka, embora a capitã já estivesse no novo acampamento. Preferia ficar sozinha, olhando para as estrelas à meia noite, contemplando os destroços do quartel antigo. Era estranho como se sentia em paz num lugar tão desolado.
E de um jeito estranho, era bom ter aquela paz abalada quando Len aparecia do nada para visitá-la. Vinha às vezes no meio da noite, trazendo castanhas ou sobras da cozinha (agora havia bastante), e ficava com ela até bem tarde. Às vezes conversando, às vezes brincando com uma bola de couro velha, ou na maioria das vezes só ao seu lado, olhando para as estrelas. E Rin percebia, olhando para ela também.
Ela percebia, porque fazia o mesmo.
Naquela noite ela talvez ficasse sozinha. Meiko e Kaito estiveram recolhendo lenha durante a tarde e Len fez questão de ajudá-los, para provar que não era mais o menininho de três anos que tentava carregar toras maiores que ele. Devia estar bastante cansado, ela pensou. Trocou a calça camuflada e o casaco por uma camisola leve, junto com um sobretudo quente que Luka havia lhe dado. Ainda não era tão tarde, então ela decidiu ficar fora da tenda por um tempo.
Não demorou muito e Len apareceu. Juntou-se a ela no capô de um carro destruído, de onde costumavam admirar as estrelas. Dessa vez ele tinha trazido um pacotinho de damascos secos. Comeram em silêncio, como de costume. Silêncio entre os dois era uma coisa quase orgânica, não havia desconforto, nem necessidade de preencher o ar com palavras desnecessárias. O silêncio era algo só deles, algo que compartilhavam sem medo.
Mas naquela noite, Len precisava preencher aquele silêncio. Porque se não o fizesse, ele explodiria.
— Te amo.
Rin olhou para ele de lado. Tinha sido a brisa, certo? Não foi a voz dele. Então notou as faces avermelhadas dele, mesmo na pouca claridade, e seu queixo caiu.
Ela era ingênua e totalmente inexperiente. Mas sabia muito bem o que acabara de ouvir.
— Não precisa responder nada– ele disse rapidamente, sem olhá-la. – Não agora. Você sabe o que as outras pessoas dizem, que a gente parece irmão. Vai ver a gente é mesmo, eu não conheci meus pais, você mal sabe quem são os seus... Mas eu não te vejo como irmã, Rin. Não é como irmã que eu te amo.
Cada vez que ouvia aquilo ela sentia o coração retumbar no peito, como se quisesse arrebentar seu corpo. Agarrou a camisola num reflexo e encarou Len, que finalmente a olhava de volta, tenso como ela nunca o viu antes. Imaginava o tanto de coragem que ele teve que reunir pra lhe dizer todas aquelas coisas. Será que Kaito e Meiko o aconselharam? De toda forma, ele merecia uma resposta à altura.
E merecia agora.
— Também não é como irmão que eu te amo– afirmou resoluta.
Len piscou devagar. – É sério, não é?
— Não sou eu quem costuma brincar com coisas sérias aqui– ela gracejou.
Ele riu, de felicidade mesmo, e Rin nunca o achou tão bonito como naquela noite. Seus ombros estavam mais largos do que ela lembrava também. Apoiou-se em seus braços enquanto ele lhe deitava com cuidado sobre o metal frio do capô.
— Então – sussurrou. – Posso provar que eu tô falando sério agora?
Ela apenas o aguardava, todo o seu rosto, o seu corpo, tão convidativos como sempre. Len respirou fundo, ansioso. Era o primeiro beijo deles, o primeiro de milhares, de tantos até que perdesse a conta. Acarinhou seu rostinho, vendo-a fechar os olhos sob o toque dos seus dedos. Como a amava, pensou. Ficar tanto tempo achando que aquilo era uma atração passageira só fez tudo ficar mais forte. Mais incontrolável.
Então os olhos dela abriram-se repentinamente, vermelho-luminosos.
Len pulou para trás num susto. Rin ergueu-se do capô como se estivesse possuída, a cabeça erguida enquanto seu olhar focava num ponto distante, além do quartel.
— Rin...?
Ela não respondeu. O sobretudo pendeu frouxamente do corpo e caiu, deixando-a apenas com a camisola fina. Mas ela não parecia sentir frio. Nem qualquer outra coisa.
O rapaz tomou coragem e foi até ela, sacudindo-a pelos pequenos ombros.
— Rin. Rin, me escuta! O que tá acontecendo? Me responde!
Começava a se desesperar. A mão dela, pequena e delicada, afastou as suas como uma tenaz de aço. Ele já tinha visto aquilo acontecer. E da última vez que aconteceu, Rin sumiu por anos.
— Rin! – ele berrou.
A garota voltou o rosto em sua direção, sem se incomodar em mover os olhos para ele.
— Minha katana– disse numa voz fria. – Na minha tenda. Vá buscá-la.
Ela então seguiu seu caminho, descalça como estava, o vento noturno balançando sua camisola e o laço sobre os cabelos louros.
— O que tá acontecendo? – Len perguntou. Uma mão gelada parecia esmagar seu coração.
Rin parou por um breve momento, os olhos vermelhos fixos no quartel.
— A arma – disse. – Ela despertou.
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