Um quarto branco. Teto, paredes, cama, lençóis. A mesinha ao lado. Havia um vaso de vidro cheio de água, e ao lado dele, um jarro branco com violetas roxas.

Kiyoteru sentia o corpo pesado, a mente lenta. Não sabia que lugar era aquele ou como chegou ali. Percebeu que estava sem os óculos, mas conseguia enxergar normalmente sem eles.

Aquilo estava errado. Ele era míope de nascença. Até os dedos dos pés ficavam borrados quando ele tentava enxergá-los sem os óculos, mas agora podia vê-los perfeitamente, sem nem precisar se sentar.

Não que ele conseguisse, agora. Estava completamente entorpecido.

Lembranças de uma dor dilacerante lhe vinham à cabeça. A língua era um músculo dormente e borrachudo em sua boca, mas ainda podia movê-la. Seus molares tinham sido arrancados. Buracos profundos sulcavam o locam de onde eles nasceram. Olhando bem para os pés e mãos, notava que eles estavam sem unhas, e uma carne marrom e ressecada as substituía agora.

Ele ergueu o braço com dificuldade, sentindo o membro pesar e desabar sobre o pescoço. Seus dedos tatearam a pele, sentindo lacerações recentes ali, ainda se fechando, da nuca ao pomo de adão. Devia ter sido estrangulado com garrotes ou algo do tipo, mas não lembrava. A dor parecia algo distante, mesmo que ainda presente. Marcas semelhantes envolviam seus pulsos e tornozelos. Ele suspirou e pôs a mão de volta à cama, decidindo que era hora de tentar levantar-se.

E então, percebeu algo que realmente o deixaria aterrado, caso sua mente não estivesse tão entorpecida. Ele podia sentir suas pernas e pés, mas não podia controlá-los.

– Vejo que recobrou a consciência, sensei– um homem entreabriu a porta branca.

Quando ele entrou no quarto, foi como uma explosão violenta de roxo. A cor vibrava em seus cabelos lisos e compridos, e no kimono que arrastava uma cauda atrás dele. Seus olhos tinham um tom delicado de lilás, olhos agudos e intensos num rosto alongado. Ele era muito alto e jovem, embora Kiyoteru não soubesse discernir a idade dele. O homem apanhou um copo na mesinha e encheu com a água do jarro. Depois foi até Kiyoteru e ajudou-o a se recostar na cama para beber do copo.

– Sua garganta está melhor agora– disse, em sua voz cheia e musical. –Logo vamos poder conversar como amigos, ou até mais que isso.

Kiyoteru bebeu em silêncio, sentindo a agua destravar algo em sua garganta. Os modos daquele homem eram elegantes, refinados. Ele devia ser o chefe de alguma família nobre ou algo do tipo.

– Quem é... você? –indagou, as cordas vocais vibrando dolorosamente, até se acalmarem.

– Oh– o homem sorriu, baixando o olhar. – Sempre começamos pela mesma pergunta. Você não se recorda, mas essa é uma constante em nossos diálogos. Sempre começa com um “quem é você?”. E sempre termina com você me chamando de monstro. Interessante, não?

O homem falava de forma cordial, até meio melancólica. Kiyoteru não via motivos, muito menos forças, para se indispor contra ele. Resolveu então mudar o rumo da conversa.

– Mas... Você sabe quem sou eu, não sabe?

O homem de cabelos roxos ergueu o olhar de volta para ele. A melancolia ia dando lugar a um sorriso ameno.

– Claro que sei, Hiyama Kiyoteru-sensei. Esses últimos meses foram bem instrutivos, mas a maioria das coisas que sei sobre você, já as sabia há bastante tempo.

“Seus segredos inconfessáveis, eu os sabia desde eras. A mulher com quem você manteve relações escondido de sua noiva. O homem com quem você brigou, numa noite de bebedeira, que ameaçou contar do seu caso à sua mulher. O primeiro homem que você matou. E mais tarde, redimindo-se de seus pecados, cometendo outros. Apenas o dinheiro do exército não sustentaria um homem adulto com sete crianças para criar. Você matou e roubou por eles, o que não deixa de ser uma atitude nobre, no fim das contas. Ao menos, foi mais nobre do que matar um homem que iria arruinar seu casamento, certo?”

Kiyoteru balançou a cabeça devagar. Sim, era verdade. Ser o pai amoroso daquelas crianças não era uma redenção. Nada o redimiria de ter sido um pai ausente com seus próprios filhos, ou de ter traído a esposa, ou de, num ato de fúria, ter matado um homem inocente. Vidas não se pagavam com vidas. Vidas simplesmente não tinham preço.

– Que homem detestável... Eu sou– murmurou, fechando os olhos.

– Bem, eu tenho o direito de discordar, certo? Não o acho detestável. É até bastante forte e tem uma boa tolerância a dor. Para não falar da incrível lealdade que deve às crianças que criou. Julguei você um tolo obstinado, mas meu julgamento foi incompleto. Você é mais que isso. É um pai, um pai de verdade, até as últimas fibras do seu ser. É nisso que você acredita, em ser o pai daquelas crianças. Você foi uma criança adotada também, não foi?

Sim. Fui adotado, assim como ela foi.

Ela foi criada por um policial, eu, por um descendente de samurais. Aprendemos com eles o valor de servir e proteger.

Mas eu não servi a ninguém, e não protegi nada... Não até que os escombros de minha casa esmagassem a minha mulher e meus filhos.

Não até que aquelas crianças desabrigadas viessem até mim.

– Pois então, claro que o conheço, sensei. Como não haveria de conhecer? Duas criaturas preciosas para mim foram confiadas a você. Duas faces de um mesmo espelho. Destinadas a permanecer unidas até o fim, ou se chocarem e se quebrarem. Esse destino dependeria de quem iria cuidar dessas criaturas, e devo dizer que tive sorte. Manipular você e as circunstâncias que o cercaram esses anos todos foi fácil... Mesmo agora, que pretendo manipulá-lo pessoalmente, não encontro nenhum obstáculo em meu caminho. Tem a sua consciência, é claro, mas a mente humana é umas das marionetes mais fáceis de controlar.

Kiyoteru abriu os olhos. O homem de roxo havia trazido uma cadeira de rodas, e agora ajudava Kiyoteru a sentar-se nela.

– Vamos dar um passeio– disse ele, empurrando-o cuidadosamente para fora do quarto.

– Minhas pernas estão esquisitas– Kiyoteru comentou, casualmente.

– São os seus ligamentos. Eu rompi e extraí todos de suas articulações, e substituí por uma matéria mais resistente. Vai levar um tempo até seus nervos se acostumarem com ela. E quando isso acontecer, suas pernas terão força e agilidade sobre humanas. Então irei romper os ligamentos dos membros superiores e repetir o processo.

– Por que...?

– Porque algumas injeções não vão adiantar num indivíduo que passou dos trinta anos– ele explicou suavemente. – Os métodos precisam ser mais... Invasivos. Mas isso não tem importância. Por mais efêmera que se torne a sua força, ela só vai ser necessária uma vez. Até lá, tudo o que você deve fazer é se preparar.

Corredores longos, enfeitados por tapeçarias e quadros dos mais diversos estilos, passavam lentamente pela cadeira de rodas. O homem de roxo parou diante de uma grande janela de vidro, de onde se viam jardins extensos e verdejantes. Kiyoteru tentava assimilar o local, as imagens e as palavras enigmáticas de seu...

Do que deveria chamá-lo? Mesmo lhe tratando tão gentilmente, o homem o mantinha indiscutivelmente cativo. Afirmou aquilo quase com todas as letras, e usou mesmo de violência física e mental para coagi-lo.

Mas porque não conseguia sequer se revoltar conta ele?

Estou sendo controlado, Kiyoteru conformou-se. Preso àquela cadeira, tendo o corpo e a mente manipulados ao bel prazer do homem, tudo o que ele podia fazer era assistir. E esperar.

E quem sabe, tentar entender o que estava acontecendo.

– Também não tenho mais unhas– murmurou, como quem dá pela falta de um botão na camisa. – E tenho uns buracos no fundo da boca, onde costumava haver dentes.

– Isso... Bem, você não foi muito cooperativo quando chegou aqui. –O tom dele era quase culpado. – Sempre que eu tentava explicar sobre meus projetos de vida, você se tornava particularmente violento, então não tive muita escolha.

– Bom... Não há como eu me tornar violento agora– Kiyoteru ergueu os ombros com dificuldade. –Meu corpo está pesado e eu nem posso andar. E minha mente... Mesmo ela parece estar lenta. Não me imagino tendo um rompante de violência no momento.

O homem de roxo veio para a sua frente, sentando-se no beiral da janela. Tinha músculos esguios e rijos em sua figura esbelta, transparecendo pela abertura frouxa do kimono. Ele olhou para os jardins, e a luz do fim de tarde lançou-lhe um belo matiz dourado sobre o tecido e os cabelos longos.

– Faces de um mesmo espelho... Kagamine– murmurou. –Era para ter sido a magnum opus, a minha maior obra. Quando soube que eles vinham ao mundo, preparei tudo para que fosse o projeto perfeito, o acerto entre todos os meus erros. E quando soube que um deles era um garoto, minha euforia foi imensa. Os projetos anteriores eram garotas, e você sabe como meninas podem ser voluntariosas e possessivas. Trabalhar com um garoto seria uma grata novidade, uma novidade que a minha voluntariosa e possessiva irmã tirou de mim.

Era o menino, Len. Kagamine não era um sobrenome, era o título de um projeto.

– Nasceram gêmeos, compartilharam a mesma placenta. Mas a desgraçada não teve escrúpulos de separá-los assim que nasceram.

Eles eram irmãos.

Às vezes, a verdade mais difícil de enxergar era aquela que estava bem diante de seus olhos.

– Tive de engolir a derrota e seguir em frente com o projeto. Com as faces separadas, só me restava usar o que eu tinha em mãos. Diferente dos outros projetos, que acabaram resultando em pequenas aberrações, tive o cuidado de encerrar as habilidades da garota dentro de si mesma, e fiz com que ela desenvolvesse uma personalidade à parte, capaz de usar essas habilidades. Ela se tornou um espelho dentro de outro espelho. Foi só o que me restou a fazer, já que não tive nenhum acesso ao garoto.

Mas a garota voltou, não foi? Logo depois que os poderes dela se manifestaram, você a quis de volta. Por quê?

– Ela era uma lutadora perfeita, uma assassina perfeita. Mas passou tempo demais com você, com outras crianças, com a outra parte do espelho dela. Estava quase perdendo o controle sobre si mesma. Não foi à toa que ela só manifestou as habilidades para salvar seus irmãos do orfanato. Eu a trouxe de volta ao habitat dela, onde sua mente podia se libertar, onde sua lâmina seria afiada novamente. Quando ela estava no ponto certo, eu a enviei de volta ao seu país, onde deveria eliminar um antigo projeto meu. Uma garota forte e talentosa, mas degenerada além do ponto e extremamente rebelde. Foi um empecilho para mim até o último momento. Antes de morrer, fez com que a personalidade de Rin se dividisse novamente. E agora... Agora aquele pequeno espelho está refletindo apenas a si mesmo. E você sabe o que vai acontecer em seguida, não é?

Vai se quebrar. Para sempre.

Era uma vez uma menina chamada Rin, a menina que a tempestade nos trouxe.

Era uma vez uma menina louca.

– Você está aqui porque meus esforços foram vãos, sensei. Todos os projetos que tentei criar depois dela falharam. Então, só me restava tentar o impossível. Usar a pessoa que mais ama a Rin no mundo para matá-la. Todas as habilidades que desenvolvi na Rin vão se perder, caso ela supere a própria loucura e assuma o controle de si mesma. Vai se tornar fraca, meu projeto terá sido um fracasso. Então, terá de ser você a encerrá-lo.

Esse é o meu novo objetivo na vida. Me tornar o Super Homem que vai matar uma de minhas crianças.

Ele estremeceu, os joelhos colidiram-se. O homem de roxo pareceu gostar do que via.

– Autocontrole é a chave para o poder– disse, descendo da janela. –Você está se saindo bem, sensei. Não posso dizer o mesmo da garota... Mas não é como se fôssemos ter que nos preocupar com ela pelo resto de nossas vidas.

Não, porque eu vou matá-la.

E assim que eu fizer isso, volto aqui e mato você.

– Como devo chamá-lo? –Kiyoteru indagou, erguendo o rosto para o homem que empurrava a cadeira.

– Pode me chamar de nii-san– ele lhe sorriu. –Eu sempre quis ter um irmão. Irmãs são... Bem, acho que já lhe falei de todos os problemas que minha irmã me trouxe. Sou só alguns anos mais novo que você, mas me sinto como seu irmão mais velho, sabe?

Kiyoteru se pegou sorrindo de volta, como se ganchos invisíveis puxassem os cantos de seus lábios. Como se ele tivesse se tornado uma marionete.

O homem de roxo era mesmo um perfeito manipulador.

– Certo... Nii-san.

Notas finais
Ano novo, vida nova, frase velha! o/ O capítulo aí de cima foi um que me deixou mal depois que escrevi, o Kiyoteru-sensei sofreu um bocado -.- Quanto ao Nii-san, não quis fazer dele um simples vilão sádico super do mal e tals. Ele é bem sem noção, claro. Mas ele acredita muito em suas motivações e faz qualquer coisa pra alcançar um objetivo. As melhores pessoas são assim, mas as piores também =( Enfim, meu muito obrigada a quem ainda acompanha essa bodega. Comentem por favor, preciso saber se tem algum problema pra continuar seguindo em frente com a história. Já escrevi um bocadinho, mas to sempre revisando, corrigindo os personagens e tals e é... Não dá pra fazer direito se eu não tiver uma opinião de fora. Então me ajudem pls! Té maisinho e feliz ano novo :****