Little Last Love Song

21 21 - A quarta lápide.


Rin abriu os olhos devagar. O barulho de tiros e explosões chegava vindo de muito longe. Ela sentou-se alarmada, olhando ao redor.

– Tá tudo bem– uma voz conhecida e reconfortante fez seu coração desacelerar, voltando a bater normalmente.

Então ela percebeu que o barulho não era de tiros, mas pesadas gotas de chuva caindo sobre o teto de zinco. A mão de Len acariciava os cabelos sobre a testa dela. Ele estava com o rosto manchado de terra, assim como a calça camuflada e a camisa, que estava ensopada.

– Estive ajudando a montar umas barracas de emergência– ele deu de ombros e sorriu. – O acampamento tá quase todo no chão. Pelo menos estamos livres da escala da cozinha por uns dias.

Rin engoliu em seco, uma vontade enorme de chorar.

Por um momento, quando foi raptada e teve a lâmina fria em sua garganta, sentiu medo de nunca mais voltar a ver seus amigos. E quando viu o acampamento ser consumido em chamas, tudo em que conseguia pensar era que não foi capaz de proteger Len.

– Desculpa– ela murmurou, a voz embargada. –Sou uma inútil mesmo...

As lágrimas caíam pelo rosto delicado, ainda manchado de sangue seco. Len sentou ao lado dela na maca e a abraçou, desajeitado a princípio, depois com mais força e carinho.

– Você não tem nada de inútil– sussurrou. –O Kaito-san contou sobre as coisas que você fez. Foi como naquele dia no orfanato. Mas dessa vez, você não foi embora.

– Eu prometi que ia cuidar de você– ela arfou entre soluços.

– Você prometeu que nunca mais ia sumir. E, olha você aqui.

Ela ergueu o rosto para Len, que lhe sorria sob a lama seca no rosto, os olhos azuis cintilando. “Tão bonito”, ela pensou.

– Dá um descanso pra namorada, ô Kagamine– Bruno entrou na tenda animadamente, trazendo um carrinho com uma bandeja de medicamentos. – Falei que não era pra forçar o braço, daí você vai e me arranja um joelho lascado.

– É o que acontece quando a gente é pego desarmado, no meio de um confronto surpresa– Len resmungou, jogando-se numa cadeira diante da maca. – E para de dizer que a Rin é minha namorada.

– O que é “namorada”? –Rin perguntou, inocente.

– É uma coisa que você não é– Len olhou feio para Bruno, que deu um risinho e começou a trocar o curativo no ombro dele.

Uma tenda de comando nova havia sido armada no meio do acampamento das tropas de Zeeu. Com o final do confronto, os inimigos haviam sido rechaçados de volta para a fronteira, mas o antigo quartel estava inutilizável por conta dos estragos sofridos. Havia cadáveres, fogo e escombros para todos os lados.

– Nossas baixas foram diversas– Luka relatava ao general. – Vai levar o resto do dia para recolhermos os corpos. A equipe de comunicação está preparando as cartas para os familiares deles.

– Mandarei um grupo de homens para ajudar na remoção. Vocês vão ficar em meu acampamento por enquanto, até que possam reerguer o quartel e voltar. De qualquer forma, minhas ordens são de permanecer ao lado de vocês por tempo indeterminado.

Depois que a tenda esvaziou e Luka se viu a sós com o general, ela fechou a porta e se aproximou da mesa armada que servia de gabinete.

– “Kagamine”? –sussurrou. –Está falando do Len?

– E da garota– Zeeu retorquiu. –Achei que fossem irmãos.

– É o que todos acham... Enfim– ela cruzou os braços. –Essa guerra já acontecia bem antes desses dois nascerem. Por que o nome do Len está envolvido nisso afinal?

– Alguém está usando os seus inimigos para capturá-lo de volta. E à garota também. A pessoa que fez isso, que quer essas crianças, poderia ter usado o meu exército contra vocês. O capitão Hiyama fez a coisa certa ao investigar a origem de Kagamine Len, ou a essa hora, estaríamos nas mãos desse homem.

– E que homem é esse?

– Kamui Gakupo. Um milionário excêntrico e doente, que acha que pode brincar de Deus. Você deve conhecer o tipo, mas espero que nunca tenha tido o desprazer de ter que lidar com um.

Luka suspirou, desanimada. – Foi esse tipo de pessoa que o Kiyoteru foi procurar? Até agora não tive notícias dele.

– Nem eu, capitã. Nesse caso, devemos presumir o pior. Quanto às crianças, não deixe que saiam do acampamento sem a companhia de soldados. Elas estão sob nossa proteção agora.

– Por quê? –ela indagou, cansada.

Zeeu lhe deu um de seus sorrisos breves. – A garota. Você viu o estrago que ela fez nos homens que invadiram o acampamento. Em tempos de guerra, não é de se estranhar que alguém assim esteja sendo procurada... Quanto ao garoto, ainda não tenho informações concretas. Só sei o que o capitão me relatou.

– Ele lhe relatou bastante coisa, pelo visto.

– Suas informações estão seguras comigo. Pode confiar em mim, capitã.

Luka franziu a testa. Ia responder, mas achou mais sensato bater continência e ir embora.

O vale se estendia por vários quilômetros abaixo de onde Kaito, Meiko e Piko estavam. Pontuando o gramado, dezenas, centenas de lápides erguiam-se no horizonte. Em várias delas havia famílias orando e depositando flores nos túmulos.

– As delas ficam por aqui– Piko conduziu os dois a uma seção ampla, reservada a heróis de guerra.

Numa pequena quadra rodeada por um cercado de madeira, quatro lápides permaneciam destacadas das outras. Hatsune Miku estava escrito numa delas, Nakajima Gumi em outra e Furukawa Miki na terceira.

– Furukawa? –Meiko se surpreendeu. – Achei que vocês fossem gêmeos.

– Mas somos– Piko explicou. – O sensei disse que os refugiados que nos trouxeram deram a cada um de nós sobrenomes diferentes, dos nossos pais. Eu fiquei com o da kaa-san.

– E essa quarta lápide? –perguntou Kaito.

Havia um pequeno nome nela, mas havia sido riscado no cimento e agora era só um borrão.

– Era da Rin.

O albino pensou se a garota não devia contar sua própria história. Além do mais, havia detalhes nela dos quais ele não gostava de lembrar. Mas os irmãos que ele julgava perdidos estavam bem ali com ele, depois de tantos anos, enquanto Rin estava na enfermaria.

Eles precisavam saber, e era melhor não perturbar Rin fazendo-a lembrar de tudo. Então, Piko contou como ele e Len foram salvos pela garota.

– No final, só encontraram os corpos das meninas nos escombros do orfanato – ele concluiu taciturno. – Mas o da Rin não estava lá. Fizemos uma lápide assim mesmo, porque levou muitos anos até a gente encontrar ela de novo. Até esse ano, ela ainda estava desaparecida. O sensei partiu do acampamento bem antes de acharmos ela.

Kaito e Meiko estavam de joelhos diante dos túmulos, as mãos dadas. Piko se agachou ao lado da mulher, fitando o túmulo de Miki.

– Eu venho aqui de vez em quando– contou. –O Len veio no dia do enterro, depois passou anos sem voltar no cemitério. Ele só veio quando encontramos a Rin. Acho que ele não queria acreditar que ela tinha morrido... Mas eu vim assim mesmo, sozinho. Converso com as meninas. Sei que elas estão num lugar bem melhor, e agradeço todos os dias por elas terem se sacrificado por nós. A vida que elas nos deram, estou fazendo de tudo para que ela valha a pena.

Notou que Meiko estava soluçando, e assustou-se ao ver Kaito consolando-a, os olhos marejados.

– Tudo bem? –indagou alarmado.

– Nós sentimos muito– Kaito murmurou, e Meiko balançou a cabeça, enxugando o rosto. –Naquele dia, a Meiko fugiu porque foi ameaçada. Se ela não fosse servir no templo, todos nós seríamos entregues ao inimigo.

– E mesmo assim, isso aconteceu– ela fitava as lápides, trêmula.

– Ela foi embora pra nos proteger– Kaito continuou, os olhos baixos. –Mas eu fui atrás dela por um motivo egoísta. Eu queria ela de volta. Se eu tivesse ficado, junto com vocês e o sensei... Só naquele dia, pelo menos...

– Talvez todos nós estivéssemos mortos– Piko ponderou, fazendo os mais velhos se virarem para ele. –Sabe, o sensei falou isso pra mim e pro Len. Não adianta pensar no que podia ter acontecido ou não. As meninas fizeram a parte delas até o fim, e nós que restamos, precisamos viver bem essa vida que nos foi dada. E você, Kaito-senpai, só fez o que todos no orfanato fazíamos. Os maiores cuidam dos menores. Ninguém mais podia proteger a Meiko-senpai além de você. E que bom que vocês conseguiram voltar pra nós!

Meiko o abraçou, deixando as lágrimas rolarem livremente, e Kaito também. Juntos eles fizeram uma oração silenciosa pelos espíritos das três órfãs, e então saíram do cemitério.

Quando entravam na caminhonete de volta para o acampamento, Meiko teve a impressão de ver as garotas sentadas nas lápides, acenando de longe para eles. Então sorriu, verdadeiramente feliz.

Os irmãos do orfanato estavam juntos de novo.

– Seria bom se o sensei voltasse logo– Kaito comentou enquanto dirigia. –Sério que ele não disse a você nem ao Len pra onde ele ia?

– Pois é– Piko deu de ombros. – Mas o Len e eu achamos que ele queria ir embora desde o começo. Ele só queria se certificar que íamos ficar bem sem ele, por isso passou os últimos anos preparando a gente pra guerra.

– Você acha que pode ter alguma coisa a ver com a Rin?

Piko olhou para ele, curioso. – Não sei. Você acha que sim?

Kaito estava concentrado na estrada à frente, embora seu pensamento não estivesse ali. –Hoje mais cedo, eu tive uma amostra do que a Rin fez anos atrás. Ela não só matou homens armados, soldados de guerra, com o dobro do tamanho dela e em número bastante pra trucidar o acampamento inteiro. Ela usou minha wakizashi como se fosse de brinquedo, e retalhou aqueles caras. Mesmo os que já haviam morrido, ela continuou a abri-los um a um, como se precisasse ver as entranhas deles pra acreditar que estavam mortos. Se eu não tivesse jogado aquela granada e distraído a atenção dela, acho que nem eu estaria aqui.

Meiko estava voltada para ele no banco ao lado, aterrorizada.

– Você não me contou isso– murmurou.

– Não contei a ninguém– ele respondeu cansado. – Só à capitã, porque ela quis saber como aqueles homens acabaram daquele jeito... Ela não pareceu surpresa quando falei da Rin. Mas gostaria que isso ficasse entre nós. Não sei se a Rin vai lembrar quando acordar, mas... Era como se não fosse ela, naquele momento. Era como um monstro. Se ela não lembrar, talvez seja melhor que continue assim.

Eles ficaram em silêncio, imersos em seus próprios pensamentos, até que as primeiras tendas do acampamento apontaram ao longe.

– A busca do sensei levou ele até o país vizinho– disse Piko. –A general Seeu falou pessoalmente com ele. O que será que ele encontrou lá?

– Algo grandioso o bastante pra mover o exército de Seeu até aqui– Meiko disse. – Mas até onde isso envolve a Rin e o sensei... Essa história está muito complicada.

– E muito perigosa– Kaito completou.

A cortina da enfermaria entreabriu-se. Uma garota da idade de Rin aproximou-se da maca com uma prancheta em mãos. Era linda, Rin pensou. Os olhos eram azul-claros, os cabelos muito longos cor de marfim, caindo em tranças soltas pelo colo. Usava uma camisola branca de enfermeira, com uma jaqueta militar por cima, que parecia caber duas dela.

– Se sente melhor? –indagou numa voz doce. – Vim levar você para o seu banho.

Rin então olhou para si mesma, percebendo que suas roupas e seu corpo estavam cobertos por uma crosta seca e escura. Sangue, ela pensou, a pele arrepiando-se.

A garota era enfermeira da tropa de Seeu. Chamava-se Ia e tinha sido encarregada dos pacientes menos graves, por conta de sua inexperiência. Bruno, que tinha mais tempo cuidando de feridos de guerra, foi transferido para outra ala da enfermaria.

– Vou tomar conta do seu irmão também– Ia contou enquanto conduzia Rin a um cubículo de madeira, onde havia uma tina de água morna e um banquinho.

– Não somos irmãos... –Rin murmurou, sem entender o porquê de aquela ideia lhe incomodar um pouco agora.

– Oh, me desculpe– Ia exclamou, muito envergonhada. –Eu não sabia...

– Tudo bem, a gente é parecido mesmo. Todo mundo fala isso.

Ela tirou as roupas sujas e as deixou num canto. Sentou-se no banquinho e a garota foi derramando a água morna sobre sua cabeça, enquanto Rin passava sabão freneticamente e se livrava de todas as crostas escuras. Em contato com a água elas ficaram vermelhas novamente, e logo parecia que Rin estava tirando um monte de sangue do próprio corpo.

– Você está bem– ela ouviu a voz de Ia lhe dizer. – O sangue não é seu. Não tem nem um arranhão em seu corpo, fique tranquila.

“Gostaria de ficar”, ela pensou, vendo o líquido vermelho escoar para fora do cubículo. “Mas tem arranhões o bastante em minha mente.”

Ia ajudou Rin a entrar na tina, onde ela ficou mergulhada por vários minutos, até que a água começasse a esfriar. Ali, com a cabeça imersa na água, era como se todas as lembranças que possuía não fossem dela. Quando se sentiu bem o bastante ela saiu e enxugou o corpo, alvo e limpo novamente, e vestiu uma camisola simples de hospital.

–Na verdade, você nem parece tanto assim com o Kagamine-kun– Ia sorriu, como que tentando se redimir.

– Mesmo? –Rin disse surpresa. – Mas agora o meu rosto tá limpo.

– Então, dá pra ver que você é mais... Feminina que ele– a garota sacudiu a cabeça. Parecia estar sempre medindo as palavras antes de falar. – Deixei algumas frutas e um analgésico perto da sua cama. Agora tenho que avisar ao Kagamine-kun que é hora de ele tomar banho.

– Você... –ela não parecia acreditar. –Você vai dar banho no Len?

Ia olhou para a prancheta, e então seu rosto ficou rubro. –Oh não, ele... Ele é um garoto, eu não... Tenho que achar um enfermeiro pra ele. Qualquer coisa é só me chamar, certo, Rin-chan?

– Certo– ela sorriu de forma encorajadora. Ia devia estar se sentindo totalmente perdida naquele mar de pacientes para cuidar. – Muito obrigada!

A garota curvou-se levemente e saiu feito um foguete, a procura de um enfermeiro homem. Rin decidiu que, assim que estivesse bem, iria ajudá-la.

“E por que eu não estaria bem?”

Afinal, mesmo com as perdas, a maior parte do batalhão estava salva. Len e Piko, e a capitã Megurine, e muitos dos soldados que ela conhecia. Um exército mais poderoso estava lutando ao lado deles agora. Até Kaito e Meiko haviam voltado, tantos anos depois. Só faltava o sensei para ela sentir que sua família estava completa.

“Kaito...”

Ele era sua família. Seu irmão mais velho, agora um homem forte e bonito, e habilidoso com aquela espada curta. Meiko o amava desde que Rin conhecia os dois. Eles deviam se amar desde sempre. Kaito, o mais velho de todos, gentil e protetor.

Naquela manhã cinzenta, Rin havia se voltado contra seu irmão mais velho, a espada curta cheia de sangue nas mãos dela. Um assassino reconhece o outro só pelo olhar, seu pai dizia. Kaito não era um assassino. Mas estava de pé, diante dela, e aquilo era o bastante para que seu corpo se movesse na direção do dele, com a intenção de destruí-lo.

Se podia se descontrolar a ponto de matar seu irmão querido, o que mais ela poderia fazer? Rin se encolheu na cama, trêmula. Lembrava claramente, a lâmina afiada rasgando aquelas pessoas, expondo suas vísceras. Lembrava de não ter controle algum sobre si mesma, até que Kaito a dominasse e lhe fizesse apagar. Ela sentou-se e pegou o comprimido, assim que sentiu uma leve pontada na cabeça. Tomou um gole de água e então observou seu reflexo no copo.

Não era o seu reflexo. Aquela Rin tinha um sorriso maníaco no rosto distorcido.

– Você não está maluca– disse o reflexo. – Só está se tornando... Normal.

Ela estremeceu, a mão apertando com força o copo, até que ele trincasse.

Ia ouviu um barulho de vidro estilhaçando e correu para o quarto de Rin. Encontrou-a caída na cama, desacordada, a mão cheia de sangue e cacos de vidro.

Notas finais
Obrigada a todos que lêem e comentam e acompanham essa fic. O apoio de vocês é muito importante pra que eu continue motivada a escrever e postar a história! No próximo capítulo teremos... Ele, que está sumido há quase dez capítulos e possivelmente se meteu numa enrascada. Ele, o diretor de orfanato mais querido depois da Carolina do Raio de Luz! (pra quem não é tão velho quanto eu, a referência é de Chiquititas) Por favor, continuem a acompanhar e comentar. Só tenho a agradecer a você que leu! Deixe sua opinião e responderei com prazer. Té maisinho e um feliz 2016! :*********