Little Last Love Song

20 20 - Reunião de família.


Uma nova explosão sacudiu o acampamento, vinda do barracão de suprimentos. Len caiu e arrebentou o joelho num destroço em chamas. Gritou de dor, bateu no tecido da calça até o fogo apagar, e se pôs dolorosamente de pé. Não havia como entrar no que restou da cozinha sem ser consumido pelo incêndio.

Mas não era uma coisa pequena como um incêndio que iria pará-lo.

– Len! – a vozinha fina dela o fez estancar.

Não vinha de dentro da cozinha, e alguém havia lhe tapado a boca antes que ela falasse mais. Ele olhou ao redor, tentando se situar no caos de fogo e gritos que o cercava. Mais uma explosão atingiu o estande de tiros, e Len percebeu que os projéteis estavam se encaminhando para a tenda de comando. Queriam render a capitã, ou matá-la pelo menos, antes de destruir o acampamento completamente.

– Len– Rin gritou por ele, antes que ele ouvisse uma pancada seca.

Estava bem próxima dali. Ele mancou entre as tendas caídas e as outras que começavam a pegar fogo, graças ao vento que espalhava as chamas do barracão. O depósito de suprimentos mais perto dali era o de armas, um que certamente o inimigo não destruiria antes de saquear por completo. Len se esgueirou entre as barracas restantes, até finalmente avistar um grupo de homens bem armados, usando fardas do exército inimigo. Um deles estava atirando granadas nos campos ao longe. Outro tinha Rin em suas mãos, uma faca encostada junto à garganta dela.

A visão o fez estremecer de ódio. Antes de dar um passo imprudente na direção do depósito, uma sombra marrom passou galopando por ele, e alguém o apanhou pela cintura numa velocidade que ele mal pôde acompanhar.

– Ela vai ficar bem– disse uma voz vagamente conhecida.

Len olhou para baixo, e então para trás. Estava em cima de um cavalo, e quem o galopava era...

Rin não lutou ou se debateu, pois sabia que era inútil. Estava desarmada e agora amordaçada, uma lâmina encostada em seu pescoço. Pouco antes de explodirem a cozinha, aqueles homens tinham lhe raptado e trazido até ali. Ela não reagiu quando um deles puxou suas mãos para trás do corpo, tentando amarrá-la. Precisava manter a cabeça fria para achar um jeito de sair dali. Talvez Len tivesse sido pego numa das explosões, mas ela não queria pensar no pior. Chamou o nome dele antes, apenas para que quem passasse soubesse que havia pessoas indo para o depósito de armas, e que eles iriam saqueá-lo dali a pouco.

De repente, um esguicho quente e metálico lhe banhou o rosto. A garganta do homem à sua frente acabava de ser cortada. Um vulto se movimentou entre a aglomeração de soldados, evitando as balas disparadas contra ele com uma agilidade surpreendente. Rin mal pode divisar a arma que ele usava, uma katana – não, algo mais curto, melhor para combates num recinto fechado.

Mas viu os olhos do homem de relance. Azul escuro. Ela o conhecia, e seu peito se encheu de esperança.

Quando todos haviam sido abatidos e jaziam no chão, o homem correu até ela, desamarrando suas mãos e libertando sua boca. Os mesmos cabelos e olhos, ainda com leves traços do garoto que já era muito alto quando ela o conheceu.

– Kaito-senpai– sorriu admirada.

Ele lhe sorriu de volta, pondo a mão grande sobre a cabecinha loira dela. Também estava feliz em revê-la depois de tanto tempo. Então voltou-se para trás em alerta, e Rin também olhou adiante. Mais soldados haviam chegado, muitos a mais do que os que estavam no depósito. Tiros se ouviam a distância e o confronto já havia começado no resto do acampamento, mas eles dois não sairiam dali sem passar por aquele pequeno pelotão armado até os dentes.

– Entre no depósito– Kaito sussurrou, desembainhando a wakizashi.

Sentiu a pequena mão de Rin sobre a sua e olhou-a, admirado.

– Se você for sozinho, vai morrer– ela disse séria, encarando os inimigos. – Por favor, me deixe usar sua espada. Se puder, pegue um rifle no depósito e me dê cobertura.

– Você também vai morrer se for lá– ele disse, sem entender.

Rin lhe encarou com uma expressão indistinta, diferente de qualquer outra que ele lembrasse de já ter visto na garota. Era vazia, e ao mesmo tempo cheia de determinação.

Ela estava pronta para matar.

– Vou lhe dar cobertura– Kaito lhe entregou o cabo da wakizashi. –Tome cuidado.

– Você também.

A espada era curta e de manejo tão leve, que seria como um piscar de olhos. Rin correu na direção dos homens, desviando das balas como Kaito fizera, mas a uma velocidade que ele não pôde acompanhar. Escondido numa barricada ele ia eliminando um a um os alvos mais distantes, mas então percebeu assombrado que o rifle não chegava perto da habilidade de Rin.

Ela lutava contra eles sozinha, banhada em seu sangue, e a visão de uma garota que tinha a força e agilidade de um monstro fazia os soldados esquecerem como usar suas armas. Rin continuou a cortar e retalhar, mesmo quando todos já estavam no chão. Kaito então largou o depósito e correu até ela.

– Vamos embora, Rin-chan!

Os olhos que se voltaram para ele eram tão ferozes que Kaito não conteve um arrepio de medo. – Já terminamos aqui. Vamos atrás dos outros.

Rin então levantou-se do meio de corpos onde havia se enfiado. Mas não parecia disposta a seguir Kaito. Em vez disso, sacudiu o sangue da wakizashi e apontou na direção dele.

Mesmo sem entender, o homem intuiu que a garota estava fora de controle. Alcançou no bolso uma granada que havia pego no depósito, soltou o pino e atirou-a para não muito longe, apenas perto o bastante para sacudir o chão e fazer Rin perder o equilíbrio.

– Me solta– ela exclamou, debatendo-se, quando Kaito recolheu sua espada e a agarrou pela cintura.

– Sinto muito por isso –ele murmurou, dando-lhe um golpe de mão por trás da cabeça.

O confronto continuava no meio do acampamento.

Luka estava furiosa. A fronteira que haviam deixado segura no dia anterior havia sido destruída, e os soldados inimigos seguiram o pelotão até a base, onde pretendiam destruí-los. Como conseguiram forças e informações para aquilo, ela não sabia. Só tinha certeza de que o acampamento não tinha forças o bastante para rechaçá-los, e se as tropas de apoio demorassem muito para chegar, todos seriam aniquilados.

– Que péssima hora pra um reencontro– Piko murmurou pesaroso, enquanto mirava nos inimigos por trás de uma tenda semidestruída.

– É bom lutar com vocês, de qualquer maneira– Meiko respondeu, carregando balas no tambor do revólver. – O Kaito logo vai trazer a Rin de volta.

– Ela tá bem, não tá? –Len indagou aflito. – Eu mato aqueles caras, se fizerem alguma coisa com ela...

– A essa altura eles já estão bem mortos. Não se preocupe.

Longe dali Luka gritava ordens de comando, e canhões de guerra avançavam contra os soldados inimigos. Ela viu um homem segurando uma garota coberta de sangue e parou, atônita.

– Capitã Megurine– ele se dirigiu a ela, ofegante. – Meu nome é Kaito. Shion Kaito. Fui uma das crianças que o Kiyoteru-sensei cuidou.

– Lembro de você– Luka olhou para Rin. –O que houve com ela?

– Ela tá bem. Esse sangue todo não é dela.

A expressão dela amenizou um pouco. Luka gritou para os tanques seguirem e voltou-se para Kaito. – Depois conversamos. Leve ela pra junto dos outros.

– Sim, senhora.

Granadas explodiam por todos os lados, como se ali fosse um verdadeiro campo minado. Kaito conseguiu evitá-las e correr para trás do que foi uma longa mesa de refeitório. Vários soldados a usavam como barricada para atirar.

– O que houve com ela? –Um deles, um soldado moreno, aproximou-se alarmado.

– Não é sangue dela– Kaito explicou.

– Ainda bem– ele suspirou aliviado, voltando à sua posição. – Já basta eles ferrarem nosso quartel. Se levassem a Rin-chan eles iam se ver com a gente.

Mesmo com os tanques e toda a munição do depósito sendo usada, a situação não dava sinais de melhora. Piko subiu numa das torres de observação e anunciou a capitã que um grande exército inimigo estava do outro lado do acampamento, pronto para esmagá-los.

Ela subiu até a torre para ver a situação por si mesma. Piko e outros soldados da equipe de planejamento esperavam pelas ordens dela.

– Não recuem –Luka exclamou com firmeza, a resolução brilhando em seu olhar. – Eles estão dispostos a morrer para tomar nosso território. Não deixem que avancem nem mais um passo em nossa direção!

Todos gritaram numa selvageria infernal, que fez até os inimigos estremecerem. A linha de frente avançou, apoiada pelos tanques. Foi quando vária explosões atingiram o lado inimigo, vindas de muito além do acampamento. Piko apanhou o binóculo e correu o perímetro da área, até que algo o fez parar.

– Capitã Megurine, desde quando o país vizinho é nosso aliado?

Ela já pegava o binóculo para ver a situação, quando alguém a chamou de baixo da torre. Ao descer, deu de cara com um homem jovem, de cabelos louros e cacheados e o uniforme de alguém de alta patente.

– General Zeeu– apresentou-se, e Luka e os outros bateram continência. – A Imperatriz soube por meio do capitão Hiyama como se encontrava a situação, e ordenou que eu trouxesse nossas tropas para ajudar a rechaçar o inimigo.

Luka fitou-a surpresa. – Kiyoteru-san pediu reforços diretamente à Imperatriz?

– Não exatamente. –Ele olhou ao redor. –Ordene aos seus soldados que recuem enquanto avançamos. Terão tempo de cuidar de seus feridos enquanto isso.

– Sim... Senhor.

Ela repassou a ordem aos outros soldados. Estava confusa, mas naquele momento, qualquer ajuda era bem vinda.

– A propósito– Zeeu tocou seu ombro, falando de modo que apenas ela ouvisse. –Belo discurso lá em cima. Mas não é a esse território que o seu inimigo quer.

– E o que é? –a capitã indagou.

– Kagamine.

O louro lhe deu um sorriso breve, antes de subir num poderoso tanque de guerra e avançar, passando por cima dos escombros do que havia sido a cozinha horas mais cedo.

Notas finais
Hai! Demorei mas voltei. E como presente de natal (atrasado) e ano novo, estou postando dois capítulos de uma vez. Ho ho ho! Nos vemos no próximo cap. Comentários são bem vindos! Té maisinho :**