Little Last Love Song
19 19 - Sobre confiar.
“Você é fraca e sabe disso. Esqueça tudo.
Deixe que eu assuma o controle.”
– ...Não– Rin gemeu, a aflição pesando em seu peito. O fôlego parecia ter sido sugado de uma vez de seus pulmões.
– Não!!!
Luka observou-a despertar bruscamente, apavorada, respirando com dificuldade.
– Tome aqui.
Sua voz serena pareceu chegar de uma terra distante. Rin ergueu o rosto para a mulher, que lhe estendia uma caneca d’água. Ela suspirou fundo e bebeu um gole, trêmula, forçando-o garganta abaixo.
Luka estava sentada na cama ao lado. Quando Rin finalmente se acalmou e lhe devolveu a caneca vazia, a capitã levantou-se.
– Vista um casaco e venha à tenda de comando– ordenou. –Piko e Len estão esperando.
A garota apanhou a jaqueta camuflada, que lhe cobria até os joelhos. Encolhida de frio, ela atravessou o acampamento deserto. O sol ainda não tinha nascido direito e uma chuva bem fina caía, deixando tudo cinzento e triste.
– Acham que vale a pena continuar?
– Ela é quem devia decidir...
Piko parou de falar ao vê-la. Rin entrou na tenda, encarando os amigos e a capitã ansiosa.
– Algo errado? –indagou num fio de voz.
– Sim– Luka adiantou-se. –Está tendo pesadelos desde que começou o treinamento, não é?
Ela baixou a cabeça. Já tinha uma semana que começou a aprender a usar armas de fogo. Desde então, todas as noites, aquele pesadelo sufocante a atormentava.
– Era melhor nem ter começado– Len opinou, sua expressão grave enquanto fitava a garota. –Depois de tudo o que ela passou, como esperava que ela ficasse bem?
A capitã ponderou por alguns segundos, e voltou-se para Piko. –Como avalia o desempenho dela?
– Mal– ele respondeu. –Ela está abaixo do esperado pra uma iniciante. Precisa de mais tempo pra se acostumar a manusear uma arma.
– Por que ela precisa disso afinal? –Len se exasperou.
– Não sei Kagamine, talvez porque estamos no meio de uma guerra– a capitã replicou, olhando enviesado para o rapazinho.
– Mas nós podemos protegê-la – ele insistiu. –Eu posso.
– Sim, nós podemos. Você pode. Mas não estamos aqui para proteger uma pessoa em particular. Nossa missão é defender nosso território. Entre termos uma menina indefesa e uma completamente descontrolada com uma espada em mãos, prefiro o meio-termo. É melhor a Rin aprender a se virar sozinha.
Ela olhou nos olhos de Rin, incisiva.
– A questão é: você acha que pode continuar?
A menina engoliu em seco.
Não precisava encarar os dois colegas para saber a opinião deles. Len, é claro, foi contra desde o começo. Piko também se preocupava com as consequências, ainda mais depois que os pesadelos começaram. Mas ele achava a decisão de Luka razoável, e concordou em treinar Rin apesar de tudo.
Não quero ser um fardo, ela pensou decidida.
– Eu posso.
A capitã assentiu. –Assim que estiver pronta, pode voltar ao treino.
Nenhum deles lhe perguntou como eram aqueles pesadelos, algo que Rin agradecia intimamente. Não gostaria de ter que falar sobre eles. Não gostaria nem de lembrar. Só tê-los já era o bastante.
Ela sabia de um tempo, num passado recente, em que não sonhava. Apenas fechava os olhos e apagava, sua mente se desligando de tudo. Nessa época, ela não tinha que se preocupar com muitas coisas.
Apenas com o sangue que banhava sua espada.
Tudo estava frio e enlameado. O cheiro de pólvora se concentrava no ar denso e úmido, enquanto Rin municiava o tambor de um revólver. Seu alvo estava preso numa árvore a dez metros de distância. Rin já sabia mirar e aguentar o coice da arma, mas combinar as duas coisas ainda era muito complicado.
– Você ainda pode melhorar– Piko tentou animá-la.
– Considerando que sou pior que uma iniciante, não tenho tanta certeza...
– Bom– ele sorriu, sem graça. – Verdade que seu desempenho não é lá dos melhores, mas não é por isso que você devia desistir. Pelo contrário. Eu sei que você consegue.
Rin tentou sorrir de volta, mas estava deprimida demais para isso. A chuva, os pesadelos, as lembranças ruins, nada daquilo lhe ajudava.
E para completar, Len não estava ali.
– Mantenha seu corpo desse jeito– Piko se aproximou por trás dela. Corrigiu a postura dos ombros e do cotovelo, e então segurou em sua mão. – Não deixe o dedo tensionado no gatilho, nem fique pensando no que vai vir depois do disparo. Só pense em seu alvo.
Ela tentou concentrar-se novamente. O calor do amigo lhe acalmou um pouco, de modo que ela conseguiu fazer a mira, e desceu o dedo sobre o gatilho. O disparo estrondou em seus ouvidos, e o recuo atirou seu corpo contra o peito de Piko, que a aparou prontamente.
– Bom, é mais ou menos isso– ele riu. –Só precisa de um pouco de força nas pernas.
– Elas estão bambas– Rin murmurou, rindo. Então, reparou algo na clareira adiante. – Len?
Piko olhou na mesma direção, mas o rapaz havia sumido. Rin fez menção de ir procurá-lo, mas ele a impediu.
– Deixe que eu falo com ele.
Len seguia a passos duros de volta ao acampamento. Diminuiu a velocidade ao perceber que estava sendo seguido. Quando viu que era Piko, ele parou e voltou-se.
– Rin sentiu a sua falta.
– Sério? – Len disse. –Não pareceu.
O albino arqueou a sobrancelha. – Não, cara. Ciuminho adolescente não.
– Não é ‘ciuminho’, é a verdade. A Rin se dá melhor com você. Tanto é que a Luka escolheu você como tutor dela, não eu.
– E porque ela devia escolher você?
– Ora... –ele limpou a garganta. –Sou melhor franco-atirador que você. Isso devia ser alguma coisa, não?
– Não. Você é cabeça quente demais pra ser um tutor. E nem queria a Rin pegando em armas, pra começo de conversa. Mas mesmo assim... Ela sente sua falta lá. Quer você por perto, mesmo que seja pra aguentar sua energia negativa. – Piko baixou o olhar. –Eu não posso competir com isso...
– ...Utatane? –Len indagou, sem entender.
Ele ergueu a cabeça e lhe deu um peteleco no rosto. –Meu turno acabou por hoje. Vá chamar a Rin, temos que preparar a janta do batalhão.
Len voltou para a clareira, ressabiado. Encontrou a Rin limpando o revólver distraidamente. Ela jogou a flanela longe e tentou fazer a mira novamente, do jeito que Piko havia acabado de lhe mostrar.
Ele ficou observando-a por um momento, antes de chamá-la. Rin estava indo realmente mal nos treinos, mas era tão persistente e decidida... E por mais que ele não concordasse em vê-la lutando, sabia que ela fazia aquilo por eles. Para se defender, e para ajudá-los.
Só que o risco de perdê-la fazia tudo perder o sentido para Len.
– É nosso dia na escala da cozinha– ele exclamou, chamando sua atenção.
– Sim – ela guardou a arma e as munições. –Melhor irmos logo.
Seguiam em silêncio para o acampamento. Rin mordeu o lábio, doida para quebrar aquele maldito gelo, mas não tinha certeza do que dizer. Estava fazendo a coisa certa em aceitar aquele treinamento. Por que Len fazia aquilo parecer tão errado?
– Desculpa– ouviu ele murmurar.
A garota olhou-o sem entender.
– Você está se esforçando muito– Len explicou, de cara amarrada. – Mesmo tendo esses pesadelos, você ainda segue em frente. Eu respeito isso, e confio em você. Então... Desculpa a minha má vontade esses dias. Vou te ajudar mais daqui pra frente.
Ele a espiou de lado. Rin tinha a cabeça baixa, um sorriso tímido desenhado em seu rosto.
– Obrigada– respondeu baixinho.
A cozinha estava cheia da fumaça e do aroma de sopa e café.
– Deixa eu ver isso aqui– um rapaz puxou Len para o lado, examinando o curativo em seu braço. Tinha sotaque e feições latinas, pele bronzeada e cabelos negros ondulados. Chamava-se Bruno e trabalhava originalmente na enfermaria, mas como quase todos os soldados ali, ele cumpria mais de uma função no quartel. –Vai precisar trocar daqui a pouco. Tente não fazer força com esse braço.
– Eu podia só ficar dormindo– Len reclamou. –Não estava forçando o braço enquanto estava na cama.
– Mas aí você não ia poder ver a sua namorada– Bruno piscou o olho para ele.
Len voltou-se para Rin, que estava mais adiante ajudando a carregar os pratos, e não parecia prestar atenção neles.
– Vocês são rápidos na fofoca, hein– disse, o rosto vermelho. – Vamos trabalhar que é melhor.
Os soldados faziam fila diante da janela comprida da cozinha, onde recebiam pão com pratos de sopa e copos de café bem quente. Aos poucos as mesas da tenda se encheram, e o cheiro de café e sopa se erguia no céu escuro e pesado de nuvens.
– Vai ser uma bela noite– Len comentou irônico, mordiscando um pedaço de pão.
Havia terminado de distribuir o desjejum e estava sentado na ponta de uma das mesas, junto com Piko. Logo Rin se juntou a eles, trazendo uma tigelinha de sopa. Notou o pedaço de pão de Len e a meia xícara de café de Piko, e então sorriu.
– Parece que a gente vai ter que compartilhar as sobras de novo hoje– disse.
– A cada dia nossa refeição fica maior– Len mostrou o pão que segurava, animado. – Hoje eu consegui uma metade exata. Se as coisas continuarem assim, na próxima escala teremos um banquete.
– Não é como se fosse culpa de alguém– Piko disse. Estendeu seu café a Rin, que tomou um gole, e pegou um pedacinho do pão de Len. – As rações que chegam aqui são sempre muito poucas. Ou a gente dá prioridade aos soldados que vão pra guerra, ou todos passamos fome.
– Bom– Len engoliu uma colherada da sopa de Rin– se estamos na escala dos serviços de hoje, é porque não vamos sair por enquanto. Mas os nossos estômagos não vão ficar menores por causa disso.
– Viver com fome ou morrer de barriga cheia– Bruno comentou. Estava sentado próximo a eles, e sua ração se resumia a raspas do tacho de sopa e algumas migalhas de pão. – Nossa capitã tem prioridades nobres, vocês têm que admitir.
Rin estendeu ao enfermeiro o que sobrou do café, quando sua mão parou no meio do movimento. – A capitã. Não ficou nada pra ela.
– Tudo bem– Piko tomou um pouco de sopa. – A Megurine-san se alimenta de cigarros.
– Não– a garota levantou-se, preocupada. – Tenho que fazer pelo menos um café pra ela.
Eles a viram se apressar na direção da cozinha e continuaram a comer, descontraídos.
– Ainda bem que ela só vai fazer um café.
– Por quê, Kagamine? –Bruno indagou interessado.
– Bom, você viu que ela não leva muito jeito pra cozinhar. Se fosse tentar preparar a sopa, era capaz de ela explodir a coz...
Um estrondo crescente fez o chão estremecer, pratos e talheres caírem no chão. Antes que alguém gritasse para saírem dali, o barracão onde estava instalada a cozinha voou para todos os lados, pedaços de madeira em chamas caindo pelo gramado, pela terra batida e em cima dos soldados mais próximos. Alguns foram atingidos seriamente e caíram no chão, desacordados.
– Me ajudem aqui– Len ouviu Bruno gritar em algum lugar próximo dele.
Viu o enfermeiro tentando arrastar um soldado para longe dos destroços, e então olhou para o barracão em chamas. Tinha certeza que Rin entrou ali, poucos segundos antes de ele explodir.
– Kagamine– Bruno exclamou.
– Piko– Len puxou o albino para o lado. Ele também olhava para a explosão, sem saber o que fazer. – Tira o Bruno daqui ou ele vai morrer com os outros. A gente não pode ficar sem enfermeiro a essa altura.
– A Rin tá lá dentro– Piko murmurou olhando para as chamas.
– Eu sei. Eu vou tirar ela de lá.
O rapaz olhou para Len, assustado. – É como no orfanato. Igual aquele dia.
– Não Utatane, não vai ser igual. Dessa vez eu não vou deixar a Rin ir embora. Confie em mim.
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