Little Last Love Song
18 18 - O fim da inocência.
Uma semana intensa de combates na fronteira estava chegando ao fim. Usando estratégias de guerrilha e emboscada, o batalhão de Luka conseguiu expulsar os soldados inimigos e reaver o território deles.
Parte do batalhão estava a postos, caso o inimigo voltasse, e faria o chamado de emergência para a companhia mais próxima ajuda-los. Enquanto isso a capitã estava preparando o transporte para os soldados feridos e abatidos. Em alguns dias estariam de volta ao quartel.
– Len– Piko foi chamá-lo, no alto de uma torre de observação. –Hora de reagrupar.
Ele estava deitado sobre os tijolos caídos, onde se apoiava junto ao tripé do seu rifle. O rosto estava colado na mira da arma. Dali podia avistar o outro lado da fronteira, e alvejar quem quer que se aproximasse.
– Meu turno não acabou– respondeu sem se mexer.
– Já tem franco-atiradores o bastante de olho na fronteira. A capitã mandou que os mais cansados se retirassem.
– Não tô cansado.
– Três dias sem sair daqui, e você não tá... – Ele sacudiu a cabeça. – Enfim, não importa. Todos os que vieram no começo da semana vão se retirar. Estando cansados ou não.
Len suspirou fundo. Então fechou a mira do rifle e sentou-se, esticando os braços.
– Tem alguma coisa de comer aí?
O albino atirou uma barra de cereais para ele. Parecia mais um aglomerado disforme de aveia seca e uvas passas, que Len mordeu com vontade. Aquelas rações de soldados eram duras como pedra.
Piko o observava enquanto o companheiro comia. – Nunca ficamos tanto tempo longe, desde que a Rin-chan voltou. Ela deve estar preocupada com a gente.
Ele não respondeu, mastigando a barra devagar.
– Por que seu braço tá amarrado?
– Uma bala de raspão. Fica tranquilo, eu vou sobreviver. –Len buscou água no cantil, mas ela já tinha acabado.
– Que bom pra você– Piko lhe estendeu o próprio cantil e abaixou-se para desamarrar o ferimento, examinando-o. –Mas vai precisar de uns pontos aqui.
– Ok.
Len bebia da água, encostado na parede em ruinas da torre. Olhava para o território que se estendia além da fronteira, distraidamente.
– A Rin deve tá sozinha, mesmo– murmurou. – Melhor você voltar logo pra lá.
– E você também.
– Vai na frente, Utatane. Qual o problema em eu ir depois?
– Você leva uma eternidade pra chegar, esse é o problema. Fica aí agarrado nesse fuzil, sem comer nem beber direito, até que o capitão em comando decida que o território foi pacificado e lhe mande embora. Enquanto isso eu fico lá no acampamento, esperando, sem saber se você tá vivo ou morto.
– Pensei que você já tinha se acostumado...
– Não, eu não tinha. E agora a Rin tá com a gente. Ela vai ficar duas vezes mais preocupada, porque ela só lembra de nós dois como duas crianças indefesas. E... tirando aquele dia no orfanato, é só como lembramos dela também.
– E daí?
– Daí que você podia conversar um pouco mais com ela. Desde que ela voltou, tudo o que você faz é correr de missão em missão. Parece até que tá fugindo dela.
– Fugindo? –Len riu nervosamente, e se engasgou com a água. –Eu não... Não tô fugindo de ninguém. Fui eu quem trouxe ela de volta, se você não lembra.
– Então faça o favor de prestar um pouco mais de atenção na coitada– Piko retirou o cantil das mãos dele. –Converse com a Rin. Ela sente sua falta.
– Você é melhor que eu nessa coisa de conversar, Utatane– Len disse.
– Pode até ser, mas é a sua voz que ela quer ouvir. Além do mais, a ordem de retirada veio da Megurine-san. A menos que você esteja com saudades do tronco, é melhor obedecer.
O acampamento voltou a ficar cheio depois que o batalhão retornou. Aquilo deixou Rin eufórica, a ponto de nem se importar com o serviço triplicado que teria que fazer agora, a quantidade de roupas para lavar, comida para fazer e armas para limpar e vistoriar. Seus amigos estavam de volta, e assim que ela terminasse tudo e tivesse uma folga, poderia vê-los.
Encontrou Piko enquanto o rapaz saía da tenda de planejamento. Não tinha uma cara muito boa, já que esteve ajudando a fazer a lista dos soldados que perderam naquele combate. O sorriso radiante de Rin fez sua expressão amenizar um pouco.
– Não tive a oportunidade de dizer mais cedo– ela falou. –Seja bem vindo de volta!
– Obrigado... Você anda muito ocupada ultimamente, não é?
– Pois é... –Rin cruzou as mãozinhas enrugadas de tanto lavar pratos. Usava um lacinho negro nos cabelos, vestido e avental escuros e longos, e coturnos por baixo deles. –Prometi a Luka-san que faria qualquer serviço no quartel, desde que não precisasse ir lutar.
– Bem, mas você está fazendo todos os serviços do quartel.
– Quero me certificar de que estou sendo útil– ela deu um risinho, e olhou ao redor. – O Len não está com você?
– O Len... É que, depois que a gente volta de um confronto que dura vários dias, ele gosta de ficar sozinho um tempo. Se fosse por ele, tinha ficado na fronteira mais um pouco até.
– Mas... Por quê?
– Eu não sei. Esse tipo de coisa ele não fala comigo. Talvez se você...
Rin fitou-o incerta. – E se ele me expulsar? Você disse que ele gosta de ficar sozinho...
– Ele não vai te tratar mal– Piko sorriu. – O Len sabe o que eu faço se ele se atrever a isso.
Àquela hora as mesas a céu aberto já estavam vazias. Depois do jantar os soldados que não estavam encarregados da guarda se recolhiam em suas tendas, exaustos. Apenas Len estava ali; havia subido numa das mesas e deitado as costas, contemplando o céu com as mãos por trás da cabeça.
– Por que não vai descansar? –Rin indagou, sentando no banco ao lado.
– Estou descansando– Len respondeu. – É você quem devia ir.
– Tem razão...
Ela ficou em silêncio, e pouco depois Len sentiu o calor dela ao lado do seu corpo. Rin havia deitado na mesa como ele.
– Não estou te atrapalhando, estou?
Len limpou a garganta discretamente. –Não, tá tudo bem.
– Seu braço tá bem? –indagou preocupada, olhando o curativo dele.
– Foi só uma bala de raspão. Vai sarar logo.
Ela assentiu em silêncio.
“Ele sabe se cuidar”, pensou. “Está na guerra desde muito tempo antes de eu chegar aqui.”
“Não posso interferir.”
“Mesmo que eu esteja gritando por dentro.”
– Len... Tudo bem mesmo, eu ficar aqui enquanto vocês lutam?
– Achei que a gente já tinha falado sobre isso, Rin.
O tom dele não era de impaciência, de modo que ela resolveu insistir um pouco mais.
– É que as coisas podem acabar se complicando... Nesse caso, eu teria que...
– Você confia em mim?
Rin olhou para ele. O rapaz fitava as estrelas com um ar pensativo.
– Sabe, quando você salvou a mim e ao Piko naquele porão, foi a primeira vez que vi tanto sangue em minha vida. Desde aquele dia, tudo o que venho fazendo é pra ver se essa guerra acaba logo. Mas tudo o que eu faço é derramar ainda mais sangue. Ás vezes me pergunto se faz alguma diferença... É como se eu nunca tivesse saído daquele porão.
A jovem engoliu em seco, angustiada.
– Mas as coisas mudaram desde que encontrei você– Len virou-se para encará-la. –Ter você aqui me lembra que o orfanato existiu um dia. Que nós já fomos felizes. Que vale a pena lutar essa guerra maldita, se no final a gente puder encontrar a paz outra vez.
Rin ergueu-se da mesa, descendo até sentar-se no banco. Len observou-a lhe dar as costas, os ombros pequenos encolhidos sob o vento noturno, o lacinho balançando sobre a cabeça loira.
– Acontece que eu não desapareci naquele porão, Len– ele a ouviu dizer. – Aquele sangue não foi o último que derramei em minha vida. Você viu o que fiz à Mayu-senpai. Naquele tempo, tudo o que eu queria era ser útil. Deixar meu pai satisfeito. E o único jeito de fazer isso era derramando sangue alheio, com a minha espada.
– Esse ‘pai’... Você não lembra muito dele, né?
– Acho que eu preferi esquecer a maioria das coisas.
Len suspirou fundo, e então desceu da mesa, indo fazer companhia a Rin no banco. Ela levou alguns segundos para erguer os olhos grandes e azuis para ele.
– Você entende, Len? –indagou ansiosa. –Eu não sou inocente. Eu sei lutar, e eu posso lutar. E eu sei que você tem medo que eu perca o controle quando pegar numa arma, mas... se eu puder te proteger...
Ela parou bruscamente, quando o rapaz puxou o corpo dela para si num abraço.
Len a envolveu completamente, agoniado. Se a perdesse outra vez, o que faria de sua vida? Deixou-se levar um momento pelo calor do corpo dela, familiar, acolhedor. Era ali onde ela devia ficar, refletiu num fio de pensamento. Nos braços dele.
– Por favor– murmurou. –Não lute outra vez. Fique aqui. Fique comigo.
Rin estremeceu, suas mãos agarrando as costas dele.
– Eu fico, Len– respondeu.
O rapaz soltou-a do abraço, o bastante para encará-la, e Rin ergueu a mão, tocando seu rosto. Percebeu os olhos dele turvos, fitando intensamente seus lábios. Ela estremeceu, sentindo o coração galopando em seu peito, os olhos fechando-se devagar.
– Toque de recolher, pombinhos! –Um dos guardas gritou ao passar por ali e avistá-los.
Rin ficou rubra enquanto Len baixava a cabeça, frustrado, e dava espaço para a garota sair. Ela ajeitou o vestido e o lacinho do cabelo, e sorriu para Len. – A propósito, seja bem vindo de volta.
– Obrigado– ele enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e se afastou. –Melhor ir descansar.
– Tudo bem!
Enquanto ela ia tranquilamente para a tenda da capitã, Len a observava se afastar, pensativo. E naquela noite, depois de se recolher à tenda com Piko, pela primeira vez em muito tempo ele não sonhou com os fantasmas do passado, ou com os horrores da guerra.
Em vez disso, seus sonhos tinham o cheiro de Rin e o calor dela, e a sensação imaginária dos lábios dela nos seus.
– Garota– Luka disse ao ver Rin entrar na tenda. – Precisa dormir cedo, se quiser estar inteira para o serviço de amanhã.
– Eu sei– ela tirou o vestido e deslizou apressadamente a camisola de dormir pelo corpo.
A capitã jogou a ponta de cigarro fora e fechou a porta. – E vai precisar aprender a atirar.
– Mas... –Rin estremeceu, assustada.
– Não para matar ninguém. Apenas em caso de ter que se defender. Todos aqui sabem usar uma arma de fogo. Daqui a alguns dias o Utatane irá lhe dar as instruções.
– ...Certo– ela deitou-se na cama devagar, imaginando como Len receberia aquela novidade.
Luka observou-a. – Sabe, não vejo você fazendo serviços pesados no quartel. Como erguer pedras ou algo do tipo.
– É que eu não sou tão forte assim– ela sorriu sem graça, pondo a mão por trás da cabeça. –Naquele dia eu só ergui a foice da Mayu porque ela pertenceu a uma guerreira habilidosa.
– E com seis anos, você também ergueu uma katana com o triplo do seu tamanho.
– Ela devia ter sido de guerreiros valorosos também.
– Foi uma herança de Kiyoteru. Uma longa linhagem de samurais.
– Isso explica, então.
Luka se recostou na cama dela. – Aquela katana, a que usou. Os garotos conseguiram trazê-la com eles quando foram resgatados. Kiyoteru manteve a espada nos aposentos dele desde então, numa caixa de madeira, debaixo da cama. É onde ela se encontra agora.
Rin franziu as sobrancelhas, confusa. –Por que está me contando isso?
A capitã lhe deu um sorriso breve, e então virou-se de lado, dando-lhe as costas.
– Apenas para que você saiba.
Ela lembrava do peso da espada em sua mão. O equilíbrio e o perigo na lâmina rija, bela e fria. Lembrava do zunir do ar ao seu corte perfeito, do sangue esguichando, manchando o metal liso como água. Os golpes que causavam lacerações das mais variadas. Cabeças, membros, corpos inteiros. Era para isso que ela havia sido feita. Para isso suas mãos existiam, ela pensou, mexendo os dedos, abrindo-os e fechando-os na escuridão.
Eram feitos para matar.
Não, ela exclamou para si mesma em pensamento, apertando os olhos.
Não podia ser. Podia fazer muito mais do que segurar uma katana. Podia abraçar e ser abraçada. Podia fazer bonecos de neve. Cozinhar, lavar, limpar. Consertar coisas. Ajudar pessoas.
E podia tocar o rosto de Len.
A lembrança da pele dele contra seus dedos, o contato suave e quente, fez com que ela se acalmasse. Ficou em silêncio, tentando lembrar do rosto de Len sobre o dela naquela noite. Desejou muito que ele chegasse mais perto do dela, mas não entendeu bem o motivo. Ela encolheu as mãozinhas junto ao peito, e finalmente caiu no sono.
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