Little Last Love Song
17 17 - A costuradora de cadáveres
A mordaça na boca a impedia de falar. Não que Meiko quisesse. Estava amarrada num canto da caverna, enquanto os ladrões discutiam o que fariam a fazer a seguir.
Devia ficar quieta e esperar. Gostaria de exibir um olhar apavorado para ser mais convincente, mas já fazia tempos que ela perdeu o medo de qualquer coisa.
– Ei, miko-chan! – Um dos ladrões se aproximou e se agachou perto dela. – Miko-chan! Pode ler o meu futuro?
Ela murmurou algo abafado pela mordaça. O homem, achando aquilo divertido, resolveu puxar o pano um pouco para baixo, de modo que ela pudesse falar.
– Você não vai ter um futuro– sorriu.
Pôde ver de relance os olhos azuis, poucos segundos antes de ele aterrissar nas costas do homem, enterrando a lâmina da espada na base da espinha dorsal. O homem cuspiu sangue antes de desabar no chão, manchando o rosto de Meiko. Mas ela não se importou. Kaito ajudou-a cortando as cordas num piscar de olhos, e assim que ela pôs as mãos em sua tantou novamente, o resto do bando estava condenado.
– Estamos melhores a cada dia– comentou ela enquanto seguiam pela mata.
– Você está melhor.
– Não sei se sou muito convincente como a isca nas emboscadas... Preciso fingir que sou uma presa frágil, mas é difícil.
– Imagino – Kaito parou, segurando a mão dela, e limpou as gotas de sangue que restavam no rosto dela. – Se tem uma coisa que você não é, é frágil. Nunca foi. Desde que te conheci.
– É o que você pensa– ela sorriu, baixando o olhar. –Mas me sinto forte ao seu lado. Capaz de qualquer coisa. E ao mesmo tempo...
–O quê?
– Ás vezes, tudo o que quero é que você me abrace.
– Mesmo? –ele sorriu, fazendo-a se arrepiar de leve. – Agora é um desses momentos?
– Não– Meiko o empurrou, pegando sua mão e puxando-o consigo. – Agora a gente tem que arrumar um lugar pra passar a noite. A taverna mais próxima ainda deve estar a quilômetros daqui. Não podemos ficar ao relento se uma tempestade de neve cair.
– Tudo bem, vamos em frente. Eu deixo pra te abraçar mais tarde.
– Aff, eu devia ter ficado calada...
Ela ouvia seu riso e olhava para ele, ainda um tanto incrédula.
Estava mesmo ao lado dele.
O menininho gentil de cabelos e olhos negro-azulados, que cresceu com ela, que a beijou pela primeira vez, que a fez mulher, que quase a fez mãe. Quando foi que ele se tornou um homem tão bonito? Meiko já o achava atraente antes, mas agora que o via, era capaz de perder o fôlego só de ele tocá-la. Ele estava muito mais alto que ela, seu corpo esguio era rijo e musculoso. O rosto de traços afilados era o de um homem agora, e seus olhos carregavam a sombra de quem tinha visto coisas demais. Sua voz, seu cheiro, eram o de um adulto, mas Meiko podia reconhecer neles a pessoa que viveu ao seu lado e por quem se apaixonou.
Ele era um homem agora, e era dela.
Apenas uma lamparina iluminava o pequeno quarto da taverna, o bastante para que pudessem se olhar nos olhos. Estava frio e não havia cobertores o bastante, mas eles sabiam há muito tempo qual o melhor jeito de esquentar seus corpos.
Só não sabiam que ele ficaria ainda melhor com o passar dos anos.
Meiko suspirou extasiada com a visão do seu amado se debruçando sobre ela, luzes e sombras sobre o corpo nu dele. Estava ansioso para amá-la, para fazê-la se sentir amada. Era parte do prazer dele, Meiko sabia. Gemeu baixo sob o calor da boca em seu seio, descendo pelo abdome, indo até seu ventre. Havia marcas da cirurgia grosseira feita ali. Não doíam, mas ela sempre se frustraria ao olhá-las, pois sabiam o que representavam para ela. Além do mais, achava-as horríveis.
Mas não Kaito. Ele a amava por inteiro, cada parte do seu corpo. Porque ela estava viva e havia lutado, e havia esperado por ele. Acreditou nele. Aquelas marcas não significavam perda; eram a prova da coragem dela, de alguém que sofreu e não desistiu. Ele beijou as cicatrizes, desceu pelos lábios aveludados e acariciou-a com a língua, fazendo o corpo dela se arquear na cama enquanto ela gemia e arfava, ansiosa. Queria o peso do corpo dele sobre o seu. Queria se agarrar a ele. Queria-o dentro dela.
Os longos anos de abusos que sofreu a fizeram abominar a ideia de fazer sexo novamente naquela época. Mas ao se livrar de seus agressores e finalmente viver sozinha e em paz, ela voltou a sentir a falta de Kaito. Do seu toque gentil e amoroso, tão íntimo do corpo dela. E agora o tinha para si, e agora o desejava ainda mais ardentemente.
Ele também havia sentido sua falta, e ela percebia isso na ansiedade que vinha com as carícias dele. Na urgência de possuí-la. Na força de seus braços, que a prendiam junto a ele, como se ele tivesse medo que ela escapasse a qualquer momento.
Mas se havia algo que ela não faria, era escapar dos braços dele.
Ela estremecia, sentada em seu colo, os quadris subindo e descendo sobre ele enquanto os dois suspiravam juntos. Adorava sentir as mãos grandes e possessivas agarrarem com força suas nádegas, suas coxas, subirem pela sua nuca e puxá-la para um beijo faminto, cheio de vontade. E quando Kaito a derrubava na cama e ela o sentia ir mais forte, mais fundo dentro dela, ela não se importava em gritar de prazer, e pouco ligava se alguém a ouvisse. Quando sentia o mundo parar, a mente rodopiar e então Kaito desabar sobre ela, exausto, ela o abraçava e sorria de felicidade. Sentia que merecia aquilo, verdadeiramente. Ambos mereciam.
Vários meses se passaram, desde que Kaito e Meiko desceram a montanha.
A viagem se tornou mais rápida depois que arranjaram cavalos. Apenas Kaito tinha uma pequena noção de como montá-los, mas eles não demoraram a pegar o jeito. Logo as terras pacíficas ficaram para trás, e o cheiro de fumaça e o som de disparos ocasionais passou a preencher o ar ao redor deles. Por precaução evitavam as áreas próximas ao campo de batalha, o que implicava em eles precisarem dar uma imensa volta até chegar aonde queriam – o quartel onde Megurine Luka estava instalada.
Depois de muitos campos secos e paisagens desoladas e sem vida, encontraram um acampamento grande e bastante movimentado. Chegaram à noite, quando soldados faziam a guarda, e estes explicaram que ali era um refúgio de velhos, mulheres e crianças, além de soldados feridos. O quartel de Luka ficava a três dias de viagem dali, de modo que os dois resolveram passar a noite no acampamento. Kaito foi ajudar a distribuir sopa aos refugiados, enquanto Meiko foi ver o que podia fazer na tenda da enfermaria.
A situação ali era caótica. Não apenas soldados, mas civis também estavam estirados nas macas improvisadas, cada um numa situação pior que a do vizinho. Havia amputados por toda parte, gemidos de dor e súplicas desesperadas por mais morfina. Meiko não soube o que fazer diante daquela visão , enquanto enfermeiros e ajudantes se viravam em quatro para atender a multidão de pacientes.
– Aqui– uma mulher chamou-a, lhe conduzindo a um cubículo separado do resto da tenda. Usava um lenço branco cobrindo os cabelos e outro sob o nariz e a boca, abafando sua voz.– Venha trocar de roupas e se desinfetar. Temos que diminuir o risco de infecção por aqui, já que ele já está muito alto.
– Certo– Meiko a acompanhou.
Vestiu uma camisola de mangas longas, amarrou um lenço nos cabelos e outro cobrindo parte do rosto. Depois de lavar as mãos com álcool, foi levada pela mulher até uma das macas, onde um soldado acabava de chegar. Tinha perdido muito sangue de um ferimento a bala em seu peito, e seu rosto estava pálido. Ele já havia chegado inconsciente; a mulher olhou brevemente para Meiko e balançou a cabeça. Ela franziu as sobrancelhas, então a mulher mandou que pegasse pinças e gaze.
– Aqui– ela lhe entregou os instrumentos. – Parece que ele está em choque, não é?
– Não – a mulher abriu a camisa do uniforme dele, expondo o local do ferimento, e limpando a área com gazes e álcool. – Retire a cápsula do corpo, depois suture. Sabe fazer isso?
– Eu... Não tenho certeza– Meiko hesitou.
– Tudo bem– a mulher pôs a mão em seu ombro, falando apenas para ela ouvir. –Ele não vai se importar.
A mulher foi até outra maca, onde um soldado trazia as pernas destroçadas numa bagunça de sangue, carne e tecido enegrecido. Cheirava a queimado, e também estava inconsciente. Meiko voltou-se para o paciente e tomou-lhe o pulso, e então entendeu quando a mulher disse que ele não se importava mais. Tristemente, ela pegou uma pinça e procurou pela bala no interior do peito dele.
Os pacientes seguintes se encontravam na mesma situação. Poderiam ter alguma chance se estivessem num hospital equipado, mas ali, pouco se podia fazer. A maioria chegava sem os sentidos, mas um ou outro estava consciente, e certo de que não teria chances.
– Deixe isso de lado, moça– gemeu um deles, enquanto Meiko tentava inutilmente juntar as partes de pele rasgadas de seu abdome. – Meu estômago foi atingido também, e já começou a envenenar o resto do meu corpo... Se quer fazer algo útil, me leve daqui antes que eu comece a gritar de dor e incomodar os outros. Ou melhor. Me arranje uma pistola.
Ela engoliu em seco, o suor escorrendo pela testa, o cheiro de sangue e morte lhe enevoando os pulmões.
– Moça– o homem insistiu.
Meiko piscou rapidamente. Então largou a agulha de sutura e cobriu o homem com um lençol, para evitar que suas entranhas ficassem expostas. Ele grunhiu de dor enquanto ela puxava a maca para fora da tenda.
– O que está fazendo? –a mulher reparou nela, sem parar de costurar um dos cadáveres.
– Ele disse que não se importa– Meiko respondeu. – Vou ajudá-lo.
A mulher apenas balançou a cabeça.
– Faziam isso nos tempos antigos– ela contou ao homem enquanto empurrava as rodinhas da maca para longe da enfermaria. – Os guerreiros que quebravam a lei tinham que cometer suicídio, enterrando uma adaga em seus estômagos. Mas se eles tivessem sido guerreiros valorosos, alguém lhes cortava a cabeça, e eles não precisavam sofrer até a morte.
– Parece bom– o homem sorriu. – Queria ter lutado naquele tempo.
– Conheço alguém que pode parar o seu sofrimento. Ele ainda tem uma espada daquela época.
Ela parou com a maca, consultando o homem com o olhar. O soldado suspirou. – Sorte minha. Talvez meus companheiros que estão chegando gostem de saber disso também.
Meiko assentiu e foi buscar Kaito. Com a autorização da mulher eles arranjaram uma tenda vazia, onde instalaram a maca. Ela segurou a mão do homem, que agradeceu e fechou os olhos, e Kaito desceu a wakizashi sobre seu pescoço.
Não foi o primeiro daquela noite. Todos os que chegavam conscientes e sabiam que não podiam ser salvos, escolhiam uma morte honrosa a incomodar o resto da enfermaria. Os corpos eram queimados num fosso longe do acampamento, e as labaredas erguiam-se alto contra o escuro da noite.
– Trabalharam bem– a mulher disse a Kaito e Meiko, enquanto eles pararam para descansar, observando a fogueira ao longe.
Eles estavam em silêncio. Era a primeira vez que matavam pessoas boas, e o faziam porque elas pediam. Não sabiam se o que estavam fazendo era um bom trabalho, só sabiam que não tinham o menor orgulho dele.
– Acho que conheço você– ela falou com Meiko. – Acaso já esteve em algum templo?
Meiko sobressaltou-se por dentro, mas não deixou que ela percebesse. Sua mão segurava a de Kaito e ela a apertou suavemente.
– Não que eu me lembre– disse.
– Com aquelas roupas, achei que viesse de um.
– São só roupas.
– Você me lembra uma sacerdotisa que conheci– a mulher prosseguiu sem se incomodar. – Meu pai dizia que o corpo dela era uma porta de salvação para os pecadores. Essa mulher viveu um tempo conosco, mas acho que era só uma prostituta qualquer. Só sei que o meu pai não se salvou de coisa nenhuma.
– Isso faz muito tempo? – Meiko indagou, tentando parecer desinteressada.
– Oh, sim. Eu tinha uns dez anos, e o meu irmão também. E ele também não foi salvo.
Ela prestou um pouco mais de atenção na mulher. Tinha olhos e cabelos dourados e era bastante pálida, com um ar abatido que parecia ser a aparência geral do acampamento. Mas havia algo nela que lhe pareceu ligeiramente familiar.
– O que houve com essa sacerdotisa? –Kaito indagou.
– Minha mãe ficou com ciúmes e a matou. Ela nunca bateu bem da cabeça. Também se matou depois disso.
A mão de Meiko voltou a apertar a de Kaito, dessa vez com mais força, e ele a segurou de volta. – Sentimos muito– disse ele.
– Pois eu não – a mulher dirigiu um sorriso estranho aos dois, e voltou à enfermaria.
Eles armaram uma tenda apenas para se proteger do frio. Em poucas horas estariam de pé e pegariam a estrada novamente.
Meiko estava deitada sobre o peito de Kaito, e ele a mantinha abraçada bem junto ao seu corpo. Estavam nus, apenas porque gostavam de ficar assim quando dormiam juntos, da sensação calorosa de uma pele na outra. Não havia nem forças nem ânimo para fazer mais nada além de ficar abraçados agora.
– Pode ter sido outra pessoa– ele comentou, preocupado com o silêncio dela. – É um mundo grande, afinal.
Ela apenas se encolheu mais junto ao corpo dele, as pernas se entrelaçando nas suas. Kaito não soube mais o que dizer, tudo o que lhe vinha à mente parecia tolo e desnecessário. Então apenas acariciou os cabelos dela, beijou sua testa, seus braços a envolvendo com carinho. Tudo o que podia fazer era ficar ali com ela. Por ela.
Meiko pensou em sua mãe, em como ela lhe deixou aos cuidados de Kiyoteru anos atrás. Não faria aquilo se não tivesse confiado no homem. Ela pensou nas coisas que sua mãe devia ter passado no templo, e em tudo que enfrentou depois que se separou dela. Tanto sofrimento, para ter sua vida tomada por uma pessoa enlouquecida.
Então lembrou-se de si mesma, de seu próprio sofrimento, e estremeceu. Kaito está comigo agora, ela tentou dizer a si mesma em pensamento, mas as lembranças terríveis não paravam de vir à tona.
– Kaito –murmurou numa voz embargada– lembra quando você disse que, se tivesse qualquer coisa que eu precisasse contar, eu devia contar a você?
– Sim– ele respondeu.
– Posso não contar nada dessa vez, e só chorar? Promete que não vai perguntar nada? Promete que só vai me abraçar e ficar comigo até eu pegar no sono?
Ele sentiu um nó na garganta, e a abraçou com mais força. – Tem certeza que é só isso que eu posso fazer?
Meiko assentiu e começou a soluçar baixinho, abafando o choro nos braços dele.
Kaito sentia-se prestes a desabar também, mas tinha que ficar de pé para segurá-la. Imaginar sua amada sofrendo era um suplício. Ele guardou as lágrimas para si e permaneceu junto a ela, enquanto Meiko chorou por muito tempo, até poder dormir em paz.
Eles pegaram os cavalos na estrabaria assim que o sol raiou. Haviam recebido alguns suprimentos para viagem dos administradores do refúgio, como agradecimento pela ajuda da noite anterior.
– A mulher da enfermaria– Kaito indagou a um dos guardas, antes de saírem dali. – A loura. Ela é do mesmo batalhão que vocês?
– Na verdade, ela não é do exército– o guarda contou. – É uma médica estrangeira que chegou trazendo alguns refugiados. Está conosco há quase um ano. Acho que foi na época em que esse acampamento começou a ser montado. Ela não fala de si mesma, então ninguém sabe muito sobre ela. Mas é uma boa médica. A menos que o paciente chegue aqui à beira da morte, ela pode fazer qualquer coisa pra salvá-los.
– Percebi isso– Meiko disse. – E, como é o nome dela?
– Lily. Kamui Lily.
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