Little Last Love Song
1 1 - O que a tempestade nos trouxe.
Quando os primeiros flocos de neve caíam naquela época, era hora de fechar todas as portas e janelas do orfanato.
Hiyama Kyoteru havia acostumado os garotos da casa ao ritual. Reunia provisões, um bom estoque em lenha e diversos agasalhos durante boa parte do ano com a ajuda dos órfãos, apenas para aquele período do ano. Eram longos dias e noites de neve, granizo e chuva intercaladas, onde a temperatura baixava a alguns graus depois do zero e ir lá fora era um perigo mortal. A casa inteira era fechada e seus habitantes ficavam ali dentro, seguros e aquecidos, até que a pior parte do inverno passasse.
Kyoteru era o único funcionário daquele lugar. O orfanato era uma das poucas construções a resistir de pé, naquela cidade devastada pelas guerras. As crianças que ali viviam eram filhas de soldados, refugiados e da população vitimada pelos ataques aéreos. Kyoteru também tinha perdido toda a família, e cuidar daqueles garotos era a única coisa que o motivava a seguir em frente. Com a ajuda dos garotos mais velhos cuidava dos pequenos como podia, e apesar das guerrilhas acontecendo em vários pontos da cidade o prédio tinha resistido bem aos últimos três invernos.
Naquele ano os conflitos pareciam ter cessado. Kyoteru mantinha contato com o mundo exterior através de um velho rádio e das informações que recolhia de viajantes. A guerra tinha acalmado por um tempo, e naquele inverno a única ameaça real à segurança de todos eram os primeiros dias de neve, cujas noites eram marcadas por violentas tempestades.
Depois de fecharem a casa e protegê-la completamente do vento congelante, as crianças seguiam para seus afazeres. Kaito e Meiko, os garotos mais velhos, desciam ao porão buscar a lenha que tinham preparado antes, e da qual já tinham usado algumas toras para alimentar a lareira — o tempo sempre esfriava muito antes da neve cair. Tinham treze anos e eram responsáveis pelos outros órfãos: Gumi e Miku de seis anos, Piko e Miki de cinco e Len de três. Gumi e Miku estavam na cozinha, ajudando Kyoteru a fazer uma grande panela de sopa, enquanto Piko e Miki arrumavam agasalhos para todos na lavanderia.
O pequeno Len ainda não tinha idade para ajudar no serviço, então fazia a única coisa que podia — corria pela casa inteira, tentando gastar sua energia infindável e se aquecer ao mesmo tempo. Os mais novos se enervavam com a irriquietude do garoto, mas Kaito e Meiko eram extremamente pacientes com ele — razão pela qual Len os seguia para todo canto.
― Isso aí é maior que você― Meiko ria ao vê-lo tentar erguer uma enorme tora de madeira.― Deixe aí, você vai se machucar.
― Quero ajudar― ele dizia resoluto, tentando puxar o pedaço de lenha de baixo de uma pilha de toras.
Não percebia que, mesmo que tivesse força suficiente para completar seu intento, a pilha inteira desabaria por cima dele. Mesmo assim, Kaito tirou a tora das mãos dele e ergueu o garoto no ar.
―Você é mesmo um menino bonzinho― disse.― Mas ainda é um tampinha. Cresça um pouco mais e vai poder trabalhar como a gente.
― Eu queria agora― Len amarrou a cara, fazendo um biquinho inconformado.
― A gente sabe― a garota se aproximou e fez um carinho na cabeça dele.― Vá lá em cima ver se o ojii-san precisa de ajuda, certo?
Ele suspirou resignado e Kaito o pousou de volta ao chão. Quando Len ia subindo pelas escadas percebeu que tudo tinha ficado silencioso lá embaixo e esgueirou-se nos degraus, pensando se não havia acontecido algo. E então viu seus senpais muito próximos um do outro. A mão de Kaito acariciava o rosto da menina, que retribuía passando a dela pelos cabelos azulados do rapazinho. Então seus rostos ficaram muito próximos, e suas bocas também.
“Estranho”, Len pensou. “Parece que eles estão se comendo!”
Mas era uma criança sem absolutamente nenhum tipo de malícia. Via que Kaito e Meiko estavam sempre juntos e gostavam bastante um do outro; apesar de estranho, aquele carinho que eles trocavam lhe era totalmente natural.
Kyoteru parecia ser da mesma opinião.
Sabia do envolvimento crescente dos dois mais velhos e não fazia muito a respeito. O filho de refugiados e a última descendente dos guardiões de um templo arruinado estavam irremediavelmente apaixonados, e numa época onde não se podia ter certeza do amanhã, o mínimo que Kyoteru sentia que devia fazer era deixar os garotos viverem aquele romance em paz. E exceto nas noites geladas de neve, quando todos passavam a noite na sala da lareira, permitia que os dois dormissem juntos num quarto reservado apenas para eles, perto do sótão.
O aroma que emanava da panela fumegante logo atraiu todos para a cozinha. Era um recinto pequeno e bem quente por conta do fogão, que também era a lenha. Os garotos se reuniram ao redor da mesa baixa e rústica, e a refeição foi servida. Depois do jantar eles arrumaram a cozinha e debandaram para a sala da lareira, onde se reuniam no tapete de lã crua e grossa que cobria o assoalho. Os irmãos Piko e Miki iam para o colo de Kaito e Meito, dando espaço para o pequeno Len, que ficava aninhado no meio deles. Gumi e Miku, que adoravam Kyoteru, empoleiravam-se cada uma nos braços da poltrona velha em que o tutor se sentava.
Len já estava bocejando àquela altura. Sentia-se aquecido, satisfeito e sonolento, e quando Kyoteru abriu seu livro de histórias e começou a ler, seus olhinhos azuis pesados de sono foram se fechando lentamente. A cabeça derreava sobre o colo de Miki, que lhe acariciava os cabelos e o acalentava ainda mais rápido. Em poucos minutos estava adormecido.
Quando a noite avançou, todos se recolheram debaixo de edredons, almofadas e lençóis. A sala parecia um grande ninho branco, iluminado pela lareira acolhedora. Kyoteru continuava na poltrona, coberto por uma manta que Gumi estendeu sobre ele, uma xícara de café numa mesinha próxima. Ela e Miku improvisaram suas caminhas aos pés da poltrona, onde ressonavam tranqüilas. As outras crianças estavam dormindo juntas. Kyoteru contemplou a cena satisfeito, e então seu olhar tornou-se apreensivo ao fitar a vidraça da janela.
Ele não conseguia dormir em noites de tempestade. Foi numa noite como aquela que ele perdeu a esposa e os filhos. Ele dizia às sete crianças que permanecia acordado para vigiá-las naquelas noites, mas a verdade era que os fantasmas do passado o impediam de pregar o olho. Suspirou resignado e apanhou a xícara, já fria àquela altura. Pelo jeito, ia carregar aqueles fantasmas por todas as noites de tempestade que houvesse pela frente em sua vida.
Quando pousou a xícara sobre a mesinha, o som da louça batendo de leve na madeira foi abafado pelo reboar de um trovão. O susto quase o fez derrubar a xícara. Pela janela pôde ver o clarão dos raios, seguido pouco depois por novos trovões, fortes e violentos, que fizeram o chão estremecer. Os garotos acordaram sobressaltados.
― Tudo bem, pessoal― ele tentou acalmá-los, levantando-se da poltrona. A lividez em seu rosto não ajudava muito.
Len esfregou os olhos, atordoado, e então viu o clarão lá fora pela janela. Esfregou os olhos outra vez e tentou ver novamente. E então levantou-se das cobertas e correu até a janela, intrigado.
― Venha pra cá, Len-chan― Meiko o chamou.
― Olha― ele apontou com a mãozinha para a vidraça.― Olha lá fora!
Miku e Gumi se aproximaram correndo, e logo os outros garotos se amontoavam diante da janela. Kiyoteru veio atrás deles e olhou para a rua deserta, varrida pelos vendavais que precediam a tempestade. Quando o clarão de um novo raio iluminou os escombros de uma casa na esquina, percebeu o que Len havia visto. Um vulto muito pequeno, todo encolhido dentro de farrapos de pano, agachado junto à parede em ruínas. Pensou que era um animal abandonado, um cachorro ou algo assim. Mas ao fixar o olhar, percebeu que se tratava de uma criança.
― O que ela faz lá fora?― murmurou ele sem entender. Será que era o filho de alguém nas vizinhanças? Mas as únicas crianças num raio de quilômetros eram as que viviam no orfanato.
Quando mais um trovão reboou ele apanhou o sobretudo, as galochas e foi até a porta, decidido.
― Fiquem aqui― disse.― Vou ver de que se trata. Kaito, Meiko, cuidem dos meninos.
Os mais velhos assentiram e correram para a janela, assim que a porta oi fechada. Viram o tutor atravessar a rua, chegar à esquina e se abaixar perto do pequeno vulto. Ele demorou bem pouco a examiná-lo, apanhou-o nos braços e voltou correndo para a casa, quando as primeiras gotas de chuva grossa começaram a cair.
― Está viva― ele exclamou ofegante quando chegou. ―Parece ser uma menininha. Temos que cuidar dela, pessoal, ela está com muito frio.
Os garotos imediatamente se espalharam. Piko e Miki foram arrumar agasalhos, enquanto Kaito e Meiko esquentavam a sopa e água para um banho.
Kiyoteru depositou a menina no tapete, bem junto ao fogo da lareira. Ela tremia da cabeça aos pés. Tirou a manta rota que cobria a cabeça dela, enquanto Gumi e Miku lhe esfregavam as mãos e pés.
― Ela está fria como gelo― Kiyoteru a examinava apreensivo. ―Não tenha medo, menininha. Vamos cuidar de você.
Ela olhava para todos, muda e assustada.Tinha o rosto coberto de fuligem e sujeira, assim como os cabelos. Seus olhinhos azuis e cristalinos fitavam tudo ao redor com uma expressão apavorada.
― Ei― Len estalou os dedos na frente dela, fazendo-a voltar-se na direção dele.― Não é pra ter medo, ouviu?
A garota parecia ter ouvido exatamente o contrário, pois seu rostinho sujo se contorceu numa feição de choro.
Kaito gritou lá do andar de cima que a banheira estava pronta. Kiyoteru apanhou a menina nos braços rapidamente e subiu as escadas, seguido por Miku e Gumi. Len foi atrás delas, mas não conseguiu entrar no banheiro, que era um cubículo apertado. Então ficou na porta enquanto os outros se movimentavam freneticamente, passando esponjas e escovas e vasinhos de sabão entre si. Kiyoteru pediu a todos que ficassem ali dentro, para aumentar o calor do recinto e aquecer a menina o máximo possível.
O vapor da água quente envolvia o banheiro numa névoa úmida. Len tentava ver por entre a afobação das outras crianças, até que elas soltaram uma exclamação de surpresa.
― Ela é...― Miku e Gumi falaram ao mesmo tempo, assombradas.
― Ela é...― Piko e Miki repetiram, ainda mais surpresos.
― ...Igual ao Len― Kaito e Meiko completaram, sem fôlego.
Len arregalou os olhos. Como assim, igual a ele? Entrou à pulso no banheiro, acotovelando os amiguinhos até ficar diante da garotinha.
Ela estava envolta numa toalha felpuda enquanto Gumi lhe enxugava os cabelos. Eram louros e fininhos, o mesmo tom dourado dos de Len. Seus olhos azuis e traços do rosto eram igualmente parecidos.
― Haha, é igualzinha mesmo― Kaito riu admirado.
Kiyoteru estava estarrecido diante dela. A semelhança era muito grande para que não se dissesse que eles eram ao menos parentes, mas Len era filho único pelo que ele sabia. Não havia uma explicação racional para aquilo.
― Como é seu nome?― Len lhe indagou muito sério.
A menina lhe fitou de volta, deixando escapar uma nuvenzinha de vapor entre os lábios. Ainda estava com bastante frio. Ergueu os ombros em resposta, mirando-o com um ar de dúvida.
― Acho que ela não sabe― Kiyoteru observou. ―Vamos arranjar um para ela.
― Quer se chamar Rin?― Len exclamou para a garota.
Todos se admiraram com a decisão rápida do menino.
― Por que Rin?― Miku indagou interessada.
― Parece com o meu nome― ele explicou com ar professoral.― Igual ela parece comigo.
― Acho que faz sentido― Piko sorriu. Voltou-se para a menina. ―O que você acha?
Ela não tirava os olhos de Len. E embora sua expressão ainda fosse de medo, seus lábios apertaram-se no princípio de um sorriso e ela acenou com a cabeça em concordância.
“Rin, a menina que a tempestade nos trouxe”, Kiyoteru pensava sorrindo, horas mais tarde. Estava de volta à sua poltrona, ouvindo a torrente rugir lá fora. A provável nova habitante da casa estava vestida num pijama de Len e envolta em diversos agasalhos e lençóis. As crianças tinham deitado ao redor dela, para que pudessem lhe dar seu calor. Com a ajuda delas, da sopa quentinha que ela tomou mais cedo e do fogo da lareira, a cor havia voltado aos poucos às faces da menina. Estava cansada, e não demorou a cair no sono.
As crianças tinham se empolgado bastante com a chegada repentina de uma nova companheira. Mas o mistério que a envolvia não deixava de intrigar Kiyoteru. Como podia uma menina tão pequena ter sido deixada naquela região desolada? Quem seriam seus pais? Como teria chegado até ali?
A única coisa de que tinha certeza era que cuidaria dela, não importava o que acontecesse. Assim como faria a todas aquelas crianças sob sua guarda.
Enquanto pensava nisso ele se sentiu sonolento, e naquela noite tempestuosa os fantasmas do passado dele finalmente o deixaram dormir em paz.
Fale com o autor