Little Last Love Song
2 2 - O destruidor de bonecos de neve.
A pior parte do inverno tinha enfim passado.
Os garotos puderam sair de casa e contemplar a rua coberta de neve. Logo estavam brincando no meio dela, e Kiyoteru sorriu tranquilo ao vê-las se divertirem. Haviam acumulado bastante energia nos últimos dias, e precisavam urgentemente extravasá-la.
Miku e Gumi carregaram Rin e começaram a montar bonecos de neve. A pequena garota já tinha se familiarizado com todos do orfanato, e demonstrava um fascínio especial por Len, sempre buscando a companhia do menino. Este por sua vez já havia superado a novidade que era a chegada de Rin. Já não via nada de especial nela, e o que era pior, parecia estar criando um tipo de antipatia pela garotinha.
Ela terminava de empilhar três bolas de neve de tamanhos diferentes, ao lado das de Gumi e Miku, quando Piko se aproximou.
― Uau, que boneco legal você fez― disse para a loirinha, que sorriu feliz.
― Só tá meio pequeno― Miku desdenhou.
― Olha o tamanho da Rin― Gumi replicou impaciente.― Queria que ela fizesse um boneco maior que ela?
Rin olhava incerta para seu boneco, sua segurança visivelmente abalada pelo comentário de Miku. A menina de cabelos azuis se aproximou com um monte de neve fofa em seus bracinhos.
― Aqui, Rin― chamou-a.― Esse seu bonequinho aí tá bom pro começo. Que tal a gente fazer um gigante agora?
Os olhos dela brilharam, animando-se novamente.
― Certo!
Kaito e Meiko estavam do outro lado da rua, ocupados numa guerra de bolas de neve. Miki e Len estavam com eles, e Piko estivera no meio da guerra, até que saiu para ver os bonecos de neve das garotas.
Rin tinha voltado a fazer bonecos pequenos como treino para um maior enquanto Gumi e Miku preparavam as bolas gigantes. A loirinha tinha montado um boneco quase da sua altura, com a ajuda de Piko.
― Esse tá melhor, né?― indagou a ele, que lhe acenou em concordância num sorriso.
Enquanto ela admirava a pequena escultura, viu a cabeça dela ser explodida por um projétil de neve, respingando seu rosto de flocos brancos.
― Quem fez isso?― Miku exclamou indignada para a rua adiante.
Kaito e Meiko olharam para ela sem entender. Miki estava montando bolas sobre as ruínas de uma casa na esquina. Apenas Len estava logo à frente, rodeado de bolas de neve.
Era evidente quem tinha sido o autor do crime.
― Eu queria acertar o Piko― ele resmungou em justificativa. ―Ninguém mandou ele ficar no meio desses bonecos feios.
O garoto albino sacudiu a cabeça. Len andava meio mal-humorado nos últimos dias, por algum motivo desconhecido. Disse para as garotas continuarem brincando e resolveu ir fazer companhia a ele, antes que causasse algum estrago.
No entanto, nem sua companhia foi o bastante. Minutos depois Len voltou a mirar na calçada do orfanato e lançou uma bola com uma força admirável para um garotinho de apenas quatro anos. O projétil acertou outro boneco que Rin havia acabado de fazer. A garota olhou para ele sem entender, ainda mais quando ele lhe deu língua e saiu correndo.
― O que houve com esse, Rin-chan?― Gumi indagou, apontando o boneco desfeito na neve.
A garotinha percebeu que ela e Miku não viram o que havia acontecido e sacudiu a cabeça, murmurando algo sobre não ter grudado direito as partes. Miku olhou para ela desconfiada. Murmurou algo para Gumi e as duas continuaram seu trabalho, mas agora de olhos fixos na garotinha.
Foi quando uma terceira bola a pegou, acertando dessa vez em sua cabeça. As garotas atravessaram a rua revoltadas e foram até Piko, que já tinha imobilizado Len. O menininho havia dado antes um jeito de se esquivar do mais velho e lançar as bolas na direção de Rin. A menina jazia na neve, esfregando o lado dolorido da cabeça.
― O que deu em você?― Gumi exclamou. ―Qual o seu problema com a Rin?
― Ela tava no caminho― ele tentou justificar, mas Miku agarrou na gola do seu casaco, quase erguendo o garotinho no ar.
― Tá doido é? Podia ter machucado ela!
― Peça desculpas a ela, Len― Piko disse num tom severo.
O garotinho baixou a cabeça, sob o olhar duro dos companheiros e atravessou a rua com os punhos cerrados. Rin havia se levantado do chão. Uma lagrimazinha escorria de seu olho, mas ela a enxugou rapidamente.
― T-tudo bem― ela murmurou ao ver Len se aproximar. ―Não precisa se desculpar...
― Eu sei― ele lhe deu um sorrisinho travesso.
Abriu uma das mãos, onde havia uma pequena bola de neve escondida. Rin olhou-a sem entender, e antes que desse por si Len tinha tomado distância e a atirou em cheio no rosto da menina.
Ela tossiu e engasgou com os flocos de gelo. Sua visão embaçada pelas lágrimas lhe mostrou Len correndo para longe, sendo perseguido por todos os garotos.
Kiyoteru, que vinha passando pela janela naquele momento, percebeu o que acontecia e resolveu intervir. Len não costumava ser tão agressivo, ou pelo menos nunca tinha sido com ninguém do orfanato.
Súbito, ouviu um rumor distante de um veículo, aproximando-se dali. Então lembrou-se de que dia era aquele e ficou mais tranquilo; sabia exatamente do que se tratava. Ele foi até a porta e chamou todos para dentro.
Pôde ver ao longe Piko agarrando Len e lhe dando umas boas palmadas. O garotinho também não costumava ser violento, ainda mais com uma criança menor que ele. Ordenou que ele parasse, e como ele não parecia disposto a obedecer, Miki e os mais velhos tiveram que intervir e arrastar os brigões para dentro de casa.
― Len e Piko― disse Kiyoteru assim que entraram― me esperem na biblioteca.
Sabendo que um provável castigo lhes esperava, os dois subiram as escadas cabisbaixos. Kiyoteru ajoelhou-se diante de Rin e lhe examinou o rosto.
― Está machucada?― Ela sacudiu a cabeça negativamente.
Recusava-se a falar qualquer coisa, especialmente se fosse para reclamar de Len, mas Gumi e Miku se encarregaram disso.
― Ele tava destruindo os bonequinhos dela...― Miku contava indignada.
― ... E depois começou a acertar boladas na Rin― Gumi completava. ―Não sei o que foi que deu nele.
― Acho que ele pode estar com ciúmes― Kaito observou, fazendo com que todos se voltassem para ele.
― Ciúmes?― Kiyoteru indagou, interessado na teoria.
― A Rin é a mais nova da casa agora― Meiko explicou. ―Ele deve estar pensando que ela veio tomar o lugar dele.
― Eu... Eu não...― Rin olhou para os mais velhos, aflita.
Kiyoteru pôs a mão em sua cabecinha, sorrindo. ― Acho que faz sentido.
― Ele é idiota ou o quê? ―Miki riu.― Será que ele não percebeu que ele e a Rin são do mesmo tamanho?
― Eu não quero tomar o lugar dele― Rin insistia, os olhos trêmulos.
― A gente sabe― Miku foi até a menininha e lhe passou um braço sobre seu ombro.
― Só falta fazer aquele tonto entender― Gumi ajuntou, enlaçando o outro ombro da loirinha.
― Deixem isso comigo. Antes disso, vou precisar dar uma saída rápida. Me esperem aqui.
― Onde o senhor vai?
Kiyoteru lançou um olhar significativo para Kaito e Meiko, que assentiram, ligeiramente apreensivos.
― Quê? Onde é?― Miku indagou olhando dos mais velhos para o homem, confusa.
― Não é da nossa conta, pirralha― Meiko puxou as marias-chiquinhas dela de leve. ― Que tal a gente fazer um chocolate quente até Kiyoteru-sensei voltar?
― Cuidem de tudo― Kiyoteru advertiu os mais velhos. Pegou o cachecol e o sobretudo no cabideiro e saiu.
Não precisou caminhar muito, através dos quarteirões arrasados por bombardeios e cobertos de neve. Ao passar por um posto de polícia abandonado, viu um jipe antigo estacionado no meio-fio, enquanto uma mulher fitava a fachada em ruínas do prédio. Usava calças, botas e casaco num marrom baço, e seus cabelos longos e rosados estavam presos num rabo de cavalo firme. Suas roupas estavam bastante gastas e eram alguns números maior que ela, pendendo de seu corpo e fazendo-a parecer ligeiramente menor do que realmente era.
― Luka-san― Kiyoteru acenou para ela, encolhido dentro do sobretudo.
A moça lhe voltou um rosto belo e sereno, de olhos muito azuis. Seus lábios formaram um pequeno sorriso e ela voltou os olhos para a construção.
Kiyoteru postou-se ao seu lado na calçada, fitando o prédio.
― É hoje, não é?― indagou num murmúrio.― O aniversário do bombardeio.
― Tinha esquecido?―ela perguntou, num tom doce e melancólico.
― Não acho que seja possível esquecer. Embora eu preferisse que fosse.
Luka fitou-o pelo canto dos olhos.
― Gostaria de esquecer sua mulher e seus filhos?
O homem balançou a cabeça.
― Gostaria de esquecer o dia em que os perdi. De ficar apenas com as lembranças felizes.
― Isso seria pedir demais, não acha?
― Tenho certeza que sim.
Ela assentiu em silêncio. Retirou um cigarro do bolso e o ofereceu a Kiyoteru, que recusou num aceno.
― Parei há algum tempo― disse. ― Passo tempo demais com as crianças, faria mal a elas se eu continuasse.
― Interessante― ela comentou enquanto acendia o cigarro. Puxou uma tragada profunda e soprou-a pelo nariz.― Você não tinha essa preocupação em relação aos seus filhos.
― Eu quase nunca podia estar com eles. Vivia trabalhando. Naquela época eu vivia estressado, fumando feito uma chaminé. Praticamente não parava em casa, pelo menos não o bastante pra minha esposa reclamar do vício.
― Foi o que lhe salvou, não é.
― O que?
― Viver fora de casa, a trabalho. Não estava aqui na noite do bombardeio.
― Ah― Kiyoteru suspirou. ―É, é verdade.
Luka voltou-se para trás, observando as ruas arrasadas que se estendiam adiante.
― Sua antiga casa ficava por ali, não era? ―indagou, apontando com o queixo.
Kiyoteru confirmou em silêncio.
― Costuma ir lá em dias como hoje?
Os olhos dele baixaram e perderam-se num ponto desconhecido.
― Não― disse sombrio. ―Só estive uma vez lá. E depois do que vi, jurei que não voltaria. Não por vontade própria, pelo menos.
Ela tragou novamente, voltando-se para a construção.
― Cada um chora seus mortos da maneira que acha correta― disse.
Permaneceram em silêncio alguns segundos. Luka terminou o cigarro e esmagou a ponta com a bota.
― As coisas estão muito difíceis na fronteira?― indagou Kiyoteru.
― Muito― ela disse cansada.― As forças de resistência conseguiram manter a paz por algum tempo, mas a trégua está acabando. Temo que este seja o último ano tranquilo que teremos, antes que a guerra recomece.
― Por Deus― Kiyoteru murmurou.― Isso já era pra ter terminado há muito tempo...
― As coisas não são fáceis assim, Hiyama-san. Estamos fracos. E estamos em menor número dessa vez. Vamos ser esmagados.
Ela lhe voltou os olhos azuis.
― Queria que estivesse conosco, Hiyama-san.
O homem franziu a testa, e seu olhar deslocou-se inconscientemente para a direção do orfanato.
― Outras pessoas precisam de mim agora― disse apenas.
― Pessoas com quem você não tem a menor obrigação― Luka olhou de lado, impaciente.
― Não são laços de sangue que criam a obrigação de uma pessoa para com outra, Luka-san. Achei que você entendia isso.
Kiyoteru fitava a moça tranquilamente, e dela olhou para o posto policial. Luka suspirou resignada.
― Tem razão― admitiu.― Meu tio Al não tinha nenhum parentesco comigo, e no entanto foi o mais perto que tive de uma família... Sua relação com aquelas crianças é bem parecida, não?
― Bastante.
Ela cruzou os braços e se encostou na parede, pensativa.
― Me pergunto se o mundo será um lugar seguro para elas no futuro― disse.
Kiyoteru encostou-se ao lado dela.
― Não posso garantir muito sobre o futuro dessas crianças― murmurou calmamente. ―Mas estou fazendo tudo o que posso pelo presente delas.
Ao chegar na biblioteca, surpreendeu-se ao encontrar Piko sentado na poltrona, com Len adormecido em seu colo.
O albino explicou que tinha resolvido se acalmar e perguntar ao loirinho o motivo de ele implicar tanto com a Rin. Ele lhe respondera simplesmente que estava com raiva daquela menina tão igual a ele, que tinha chamado a atenção de todos e feito com que esquecessem que ele existia. Então Piko lhe perguntou que culpa Rin tinha por ser parecida com ele, e se os outros haviam realmente deixado ele de lado. Len só precisou pensar por um momento para perceber que estava errado.
Kiyoteru sorriu e acariciou os cabelos finos e louros do garotinho. Realmente, nada como uma ameaça de castigo para fazer duas crianças briguentas se reconciliarem.
― Ele terá de pedir desculpas a Rin― lembrou.
Piko assentiu.
― Fiz ele prometer que ia fazer isso― contou.
No dia seguinte as crianças brincavam e corriam pela neve. Apenas Rin permanecia na calçada, montando novos bonequinhos.
Súbito, Len apareceu diante dela, carregando uma grande bola de neve nas mãos protegidas por luvas.
― Sinto muito por ontem― ele disse muito vermelho, o rosto virado para o lado. Ainda sem olhá-la, lhe estendeu a bola de neve.
A menininha lhe abriu um sorriso feliz. Apanhou a bola de neve e a depositou no chão, ao lado das outras que preparara para fazer os bonecos. Sem entender Len a encarou, e levou um tremendo susto quando ela lhe deu um abraço apertado.
― E-ei...― ele indagou sem jeito.― Por que colocou a bola no chão?
― Porque eu não ia conseguir te abraçar segurando ela― Rin revirou os olhos, como se fosse algo óbvio.
― Mas era pra você jogar ela em mim!
― Por que eu ia fazer isso?― ela o soltou, fitando-o confusa.
― Você esqueceu? Eu atirei um monte delas em você ontem!
― Um monte? Não me lembro disso― ela deu um risinho, deixando-o ainda mais sem jeito.― Além do mais, ela é uma bola tão grande e bem feita. Acho que dá uma boa cabeça de boneco, não?
Vendo a expressão animada em seu rosto, Len ficou na dúvida se a menina tinha um parafuso a menos ou simplesmente era gentil demais com um moleque bobo como ele. Resolveu não escolher nenhuma das alternativas e lhe sorriu de volta, tranquilo.
― Então, você quer ajuda?― indagou.
O sorriso no rosto dela pareceu brilhar.
― Claro!
Ela o puxou pela mão, e os dois passaram o resto da tarde construindo bonecos de neve.
Dali em diante passaram a ser grandes amigos, e Len levou algum tempo até achar novos motivo para implicar com a loirinha...
Kiyoteru os observava da porta, enquanto eles brincavam e riam juntos. Ao longe as outras crianças sorriam, satisfeitas com a reconciliação dos menores, e voltaram a brincar na neve.
Eram alegres e despreocupadas, mesmo com todas as adversidades que os cercavam. Apenas o presente e um futuro breve parecia importar realmente a elas. E enquanto as contemplava, Kiyoteru desejou que aqueles dias pacíficos durassem o máximo que pudessem.
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