Little Angel
3 Relutância
Posso ser um simples mordomo como todos os outros. Colocar um terno, realizar meus serviços, elevar minha postura e ficar no canto, recluso, quando não estiver sendo solicitado. Posso ser um simples escravo, alguém que vive para servir os outros, só falar quando lhe for requisitado. Posso ser tudo isso e mais um pouco, sempre à disposição de meus mestres. Porém, por debaixo de todas minhas caras roupas, reside uma alma penada, aguardando o chamado do submundo.
Posso ser um simples mordomo, mas acima de tudo, sou um demônio e tanto.
(...)
Uma tarde calorosa, horário do Jovem Mestre praticar piano. Mesmo que seus pais tenham o sugerido aprender a tocar por estima social, ele não fazia isso por obrigação, e sim, por puro gosto. Eu ficava no canto, somente observando meu pequeno calvário sentado ao lado da fêmea, a gentil Rachel, dedilhando as notas do instrumento.
Sua mãe, bondosa como de costume, adorava passar os finais de tarde com seu filho. Aqueles momentos, raros devido à sua agenda lotada, alegravam o pequeno coração adormecido de meu amo, que mesmo sendo conhecido por passar a maior parte do dia com rosto emburrado e um semblante sério, atrevia-se a sorrir quando estava na presença de sua genetriz, mesmo não passando de um curto riso no canto dos lábios.
Eu, como um mordomo exemplar, não olhava diretamente para eles, porém adorava os observar às espreitas. Ciel, mesmo com tão pouca idade, sabia tocar majestosamente bem, o que deixava ambos pais felizes. A música que saía de seus dedos eram simples, porém melodiosas. Uma doce canção feita para ouvir em um palácio de verão, com uma taça de limonada ao seu lado. Uma canção capaz de fazer espairecer seus maiores problemas.
No mais tardio, tive que interromper meus pensamentos acerca da mãe generosa e filho exemplar, que certamente enchiam meu peito de esperanças e minha mente de desilusão, para realizar minhas outras tarefas. Aquela também era a hora que Vincent costumava estar em seu escritório, então precisei ir até lá, lembrá-lo de sua agenda.
– Conde Vicent Phantomhive. – Adentrei o escritório. – Hoje receberemos a visita da Madame Forence, devo preparar um chá?
– Forence, huh? – Olhou pensativo, distraindo-se com uma caneta, elevando ela até os lábios. – Essa mulher é difícil... creio que um chá possa ajudar, sim.
– Como desejar. – Preparei-me para sair, contudo fui interrompido.
– Ei, Sebastian, me diga uma coisa. Mas não como Mordomo, eu quero sua opinião sincera.
– Sim?
– Semana que vem é o aniversário do Ciel, o que você acha que podemos fazer? Um baile não é muito bom pra uma criança.
– Oh, pensei que iríamos até a casa de veraneio, como todos os anos.
– Mas isso é o habitual, eu quero mudar! Sair da rotina! E se chamarmos a Lizzy? Isso fortaleceria a relação dos dois.
– Pessoalmente, eu não acho que o Jovem Mestre gostaria de passar o dia com ela.
– Tá, mas ela será a futura noiva do meu filho, algum dia eles precisarão passar um tempo juntos, não acha?
– Aniversário é uma data para ser comemorada em família, poderíamos ir ao encontro da Madame Red. Ela possuí um sítio, correto?
– Hm... é uma boa ideia, e assim a Rachel poderia ver a irmã também. Obrigado, Sebastian.
– Com sua licença.
Lizzy é uma pequena garota de cabelos loiros, próxima a idade de Ciel e gosta muito dele. Apesar de todos, inclusive a própria, almejarem um futuro casamento, eu não me preocupo muito. Sinceramente, pelo jeito que Ciel a olha, ciúmes é algo que eu não preciso ter. Um olhar totalmente fechado, não mostrando gostar nenhum pouco da garota.
Pois bem, depois de ter-me retirado do escritório do regente, meu garoto já havia dispersado de sua aula de piano, então seria a hora do banho, antes que a Madame Forence chegasse para o encontro. Fui até o banheiro, preparando a água e, após finalizado, o chamei. Ciel veio até mim e retirei o tecido que cobria seu torso, deixando-o a sós para o banho.
Ao mesmo tempo, passei no quarto de Rachel para dar-lhe as informações do jantar. A fêmea estava sentada, em frente a seu espelho, colocando adereços no cabelo e jóias nos dedos, enfeitando-se precisamente. Aproximei-me, observando todo seu semblante pacífico e puro, sem quaisquer desejos chulos.
– Já preparei o chá para a visita da Madame Forence, ela deverá chegar daqui a pouco.
– Que ótimo, bom trabalho, Sebastian. Você nunca nos desaponta.
– Eu apenas faço meus serviços para com vossa família.
– Mesmo assim, nós exigimos tanto de você. Você faz tudo, recolhe as roupas e nos avisa de nossos afazeres. Deve estar sobrecarregado, não?
– É uma honra servi-los, realizo meu trabalho com prazer. Não precisa preocupar-se comigo.
– Só queria agradecer-te. E o Vicent, já está pronto?
– Está aguardando na sala de jantar. Sobre isso, ele comentou que iria até o sítio de sua irmã, a Madame Red, para o aniversário do Jovem Mestre.
– Oh, verdade? Que notícia boa, o Ciel deve adorar. Sebastian, me diga, qual perfume eu devo usar hoje?
Ela levantou-se, virando de frente para mim e olhando-me com seus profundos olhos azuis, ansiando por uma resposta. Admirei seu traje, as roupas que vestia e sua fina pele, igualmente com o clima noturno inglês, que pedia por uma fragrância de mistério e encanto. Uma amarga e, ao mesmo tempo, apaixonante.
– Chambre de L'orage.
(...)
Quando Madame Forence chegou, levei-a até a mesa de jantar, onde servi um chá juntamente com uma refeição leve, a mando de meu Mestre. Ela é uma mulher elegante, séria e autoritária, o tipo de pessoa que não perde tempo ou desiste antes de conseguir o que quer. Negociar com ela era difícil e eu só assistia Vincent perder o posto.
– Conde Phantomhive, devo admitir que continua tendo um ótimo gosto para a louça da casa.
– Ah sim, eu sempre procuro fazer o melh–
– Ou eu deveria parabenizar o seu Mordomo por isso? – Forence interrompeu totalmente Vicent, que já estava acostumado com seu jeito mandão, e olhou para mim. – Você tem um ótimo gosto. Sebastian, certo?
– Eu apenas procuro atender aos gostos de meu Mestre. – Respondi, querendo deixar Vicent o mais confortável possível.
– Então. – Ele trocou de assunto. – Madame Forence, acho que eu poderia lhe mostrar os novos planos que eu tenho para a empresa agora.
– Ora, Conde, não é muito bom falar de negócios à mesa. Fale-me mais sobre você, Rachel querida.
– Eu? – Hesitou um pouco ao responder. – Ah, eu estou ótima.
– E você, meu pequeno Ciel, como vai? Soube que semana que vem é seu aniversário.
– Sim, nós vamos visitar a minha tia, ela tem um sítio de veraneio.
– Verdade? Isso é ótimo, o seu pai pode te ensinar a cavalgar. Isso se ele não ficar muito preso aos negócios, certo? – Forence olhou para Vicent disfarçadamente, como se fosse uma indireta.
– N-Não se preocupe, eu sei separar a família dos negócios e, por ser aniversário do meu filho, nós passaremos um bom tempo juntos. Certo?
De onde eu estava, apenas observava Vicent ser completamente domado por Forence, que lançou indiretas para deixá-lo mais desconfortável o jantar inteiro. Provavelmente, creio eu, era um ótimo jeito de tirar satisfações nos negócios e ainda conseguir empatia do resto da família. Sem dúvidas, foi uma longa noite.
Por fim, quando todos despediram-se, e também quando Vicent finalmente conseguiu tratar de negócios, fui até o quarto de Ciel, ajeitar suas vestimentas para que pudesse adormecer e entregar-se ao mundo dos sonhos, bem afastado da cruel e enferma vida real. O puis sentado na cama, retirando seus sapatos pesados e meia 3/4, ajoelhando-me diante a ele.
– Sebastian.
– Sim?
Assim que retirei o tecido que cobria sua pequena canela fina, toquei sua pele por uma última vez, levantando-me um pouco para desabotoar sua camisa, deixando-o com o peito desnudo, observando de relance toda extensão de seu tênue estatura. Por fim, o cobri com o pijama de seda que esvoaçava levemente.
– Nada, só senti vontade de dizer seu nome.
– O senhor gosta do meu nome?
Quando terminei de o vestir, levei-o até a cama, tirando o cobertor e deitando seu jovem corpo, apreciando secretamente todos os detalhes de meu amo antes de cobrí-lo totalmente. Ajeitei também seu travesseiro, deixando-o o mais confortável possível para desfrutar uma bela noite de sono.
– Antes de você chegar, nós tínhamos um cachorro com o seu nome.
Seu rosto era tão puro quanto o de outro garoto qualquer com a mesma idade, porém ele tinha algo diferenciado. Sua voz também, levemente grossa, dava-me vontade de conversar consigo e ouvi-la a noite toda. Em tons mais pessoais, talvez. Porém, minha vontade permanecia escondida, afinal, eu era apenas um humilde servo.
– Tenho certeza de que era um cachorro especial.
– Ele não parecia nada com você.
– Então eu não sou especial?
Por fim, desliguei as luzes, mas não sem antes acender um pequeno candelabro, uma vez que meu calvário apreciava uma curta luz em meio à escuridão. E eu simpatizava com seu gosto, seu aspecto jovem ganhava outro semblante misturado às chamas da vela, que permitiam seu corpo ficar em um tom alaranjado.
– Eu não disse isso. Só que você não parece um cachorro, o seu tipo de animal é outro...
– E qual seria?
Sim, eu apreciava cada singelo detalhe de Ciel, já que todos possuíam algo que fazia-me delirar em prantos, enchiam-me de curiosidade. Seu semblante misterioso, o modo com que dava-me ordens e, ao mesmo tempo, dizia palavras completamente aleatórias em noites profundas, sendo iluminado somente pelo fogo em minhas mãos.
– Um gato.
– Um gato?
– Não gostou?
"Eu gosto de tudo que venha do senhor"
– Só fiquei curioso em saber o porque de tal animal.
Seu rosto deitou-se no travesseiro, afogando-se em um infinito. Fiquei o observando, suas bochechas levemente rosadas, seus olhos infantis lutando contra o sono, sua essência ditadora desabrochando-se. Realmente, esse garoto era especial, não era muito difícil notar. Ciel é completamente diferente de tudo que eu já vi.
– Eu não gosto de gatos.
– Não gostas de mim, então?
– Não é isso, eu tenho alergia a eles, mas com você é diferente. De você eu gosto.
Minha vontade era, assim como sempre foi e sempre será, pegá-lo nos braços e fugir para um lugar bem distante, perder a noção do certo e do errado, entregar o pouco que sobrou de bom senso aos céus e, simplesmente, unir-me a ele para sempre, realizar todos os meus sórdidos e enfermos sonhos, independente do que aquilo significaria. Mas não posso.
– Se meu Mestre está satisfeito comigo, então, como Mordomo, eu fico feliz.
– Você me serve, segue minhas ordens sem hesitar. Faz de tudo para agradar seu amo e é confiável.
– Eu o seguirei para o resto de minha vida.
– Espero que sim. Não vou aceitar que você mude de opinião quanto a isso, irá me seguir e me obedecer até que eu me canse de você.
– E não o abandonarei, estarei sempre ao seu lado, não importa o que digas.
– Porque você é meu servo.
– E você é o meu Mestre.
Suas ordens são a essência de minha vida, não poderia nunca negar-lhe algo, não tenho tal força. Se algum dia o perder, terei perdido também toda minha vontade de viver. Não faço nada arriscado para deixá-lo amargurado, com raiva de mim. Não perdoar-me-ia se o fizesse. No momento em que o vi, no momento em que apaixonei-me, entreguei minha razão aos céus e agora, eu não sou nada.
Os ventos gélidos da noite batiam por entre as cortinas, fazendo as chamas do candelabro cambalearem, bagunçando também seus cabelos de cor curiosa, escurecidos, e seu corpo coberto, adormecer finalmente. Fechei a janela, dando a meu Mestre a máxima conformidade, para que pudesse descansar em paz, sem nada o atrapalhando.
Fiquei o observando dormir calmamente. Seus olhos fechados, o curto som que saía de seus lábios semiabertos. Todo o seu calmo espírito estirado na cama, adormecendo, entregando seu semblante aos espíritos que vagavam pelos ares. Não o cansava de observar, sendo iluminado apenas por uma fraca luz de vela.
Abaixei meu corpo, temendo que ele acordasse, mas não o fez. Sabia que era arriscado, mas não iria conseguir deixar seu cerne de lado, sem ousar olhá-lo mais de perto. Aproximei-me, vendo seus traços puros, finos, altamente delicados e fervorosos, razão de ter-me perdido em completo desespero interno, pois sabia que nunca o teria do jeito que sempre quis.
Seu aroma, quanto mais próximo eu ficara, mas ia se intensificando. Um doce odor púbere, envolto com uma fragrância refinada, porém natural, que deixava-me facilmente louco. Seu perfume próprio, capaz de deixar qualquer perfumista com inveja. Eu o olhava de perto, apreciava seus pequenos lábios rosados, avermelhados, almejando sentir o gosto alguma hora de minha vida.
E com esse pensamento, cada vez mais eu transformava-me em um demônio. Já não sabia mais distinguir meu trabalho de meus prazeres, o certo e o errado, o justo e o mal falado. Meus lábios molhavam-se automaticamente, imaginando como era tocar os dele, sentir o gosto de sua língua. Poderia observar esse garoto a noite toda que não me cansaria. Pelo contrário, meus desejos só aumentariam.
Passeei com meu rosto próximo ao dele, meus lábios temiam tocá-lo a qualquer momento. Conseguia imaginar como deveria ser somente em sentir seu aroma, cada vez mais próximo, vendo seu rosto adormecido e sua respiração batendo em minha pele, inocentemente, sem ter qualquer pensamento errôneo. Uma parte de mim dizia-me para abandonar tudo por uma noite, sem temer o dia seguinte. A outra, dizia-me, justamente o contrario, para ir embora e esquecê-lo. O problema é, uma dessas partes era muito mais forte que a outra.
Eu já não aguentaria mais viver sob aquele tormento. Não adianta deixar seus pensamentos aflorarem e lhe transformarem em um monstro cada vez mais, sem tomar quaisquer atitudes. Definitivamente, se eu sabia muito bem o que queria e as consequências, estava na hora de iniciar um plano.
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