Little Angel
4 Benevolência
Por entre a obtusa madrugada inglesa, meu corpo estirava-se na cama, em um quarto clandestino, repousando à espera de adentrar um desses sonhos quaisquer. Falho. Minha mente está tão atormentada que, se algum dia tive um escrúpulo de encanto, saibam que tudo fora transformado em desilusão.
Coloco uma roupa qualquer. Já não importo-me com meu trabalho, o que anseio independe de qualquer cargo elevado. Elevo meus pés, andando sorrateiramente, tal como um rato em meio ao esgoto, e chego até teu quarto. Abro a porta, temendo que acorde, mas não o faz.
Vou mais além, indo até ao lado de sua cama. Você estava ali, adormecendo inconsciente, sem temer nada ou ninguém. Um bebê em um berço. Uso minhas mãos desnudas para acariciar a pele de teu rosto, tocar-te as bochechas inanimadas. As macias maçãs rosadas, tão afáveis. Teu corpo sente meu toque, teus olhos vibram, mas não despertam. Tua boca anseia por uma explicação.
Abaixo-me, ousando apreciar tua feição mais de perto. Você está segura em minhas mãos, sente meus dedos deslizarem por teu semblante, tão calmo e tranquilo, até que viro teu queixo diante à minha pessoa. Meu rosto está perto, sinto tua respiração bater em meu nariz, tão solenemente que até assusto-me.
Meus lábios molham só em admirá-la, dormindo tão profundamente em uma sórdida noite. Teus lábios também estavam na mesma, doces e finos, um pouco abertos, aguardando algo mais. Aproximo-me e, finalmente, sinto sua textura macia. Teu adorável gosto púbere de mel desfazendo-se em meu gosto amargo, grotesco, incapaz de amar de forma arrebatada.
Abro sua boca com a minha, agora o que anseio é tua língua. A delicada e jovem que ia ao encontro da minha, chupando-a e dando-te mais abrigo em meus lábios. Eu beijava teu corpo inconsciente, temendo que você acordasse com o toque. Temendo perder minha vida por uma ação. Meu receio se concretiza, você acorda.
Teus olhos adormecidos vão abrindo-se. O profundo azul deles bate nos meus, admirando-me tomar teus lábios de forma tão súbita. Não importo-me. Intensifico meu beijo, sinto toda tua boca entregue a mim. Teu corpo treme diante o ato tão libidinoso, mas é fraco. Teus braços trêmulos vão subindo lentamente, até tocar os meus cabelos. Você, por fim, abraça meu pescoço e retribui meus instintos carnais.
Beijo-te ainda mais, admirando teus lábios, tua saliva indo ao encontro da minha. Teus braços delicados juvenis, ao mesmo que temem pela nova experiência, entregam-se. Você abraça meu pescoço ainda mais, permitindo que eu faça o que quiser nessa noite tão tempestuosa. Até que, por fim, a cerimônia cessa.
Acordo em minha cama. Tudo não passou de um sonho.
(...)
Um dia tão memorável se inicia. Preparo os cavalos e a carruagem, aguardando o resto da família, pois hoje é aniversário do mais novo herdeiro. Ciel Phantomhive, um garoto de olhos azuis, cabelos arrumados, roupa grossa e aura impactante, hoje estará completando onze anos. Seus pais entram no automóvel rústico e eu vou na frente, guiando a charrete até o sítio de sua tia.
Angelina Dalles, mais conhecida como Madame Red, é a irmã mais nova da consorte de Vincent. Seus cabelos carmesin são contrastados com as roupas da mesma cor, possibilitando seu apelido. Um jeito bruto de agir e, ao mesmo tempo, tão frágil diante ao marido, Barão Burnett, que já falecera. Atualmente possui um sítio, onde estamos indo a seu encontro.
O local era enorme, repleto do mais puro verde. O gramado era regado pelos empregados constantemente, dando-lhe o ar mais brilhante possível. Também havia um riacho próximo que seguia por uma cachoeira longínqua, além de uma enorme casa de veraneio e, por fim, um estábulo.
– Família! – Red exclama, com um sorriso exuberante e um vestido longo vermelho, cumprimentando a todos.
– Ann, como eu senti sua falta! – Rachel a abraça. As irmãs são unidas e felizes juntas, desde a infância.
– É muito bom te ver, Ann. – Vincent a cumprimenta, com um gentil sorriso. Ela volta a atenção para ele e retribui.
– Eu fico tão feliz de ver vocês dois juntos! E Ciel. – Red olha para baixo, em direção a meu garoto, com um ínfimo sorriso de boas-vindas. – É tão bom te ver, feliz aniversário.
– Obrigado, fico feliz sobre a decisão de meu pai em termos vindo aqui lhe ver.
– Então vamos entrar! Eu mesma preparei um chá para vocês.
Adentramos a casa de verão. Não era enorme, mas também não era pequena. Levei as malas para o quarto de Rachel e Vincent, arrumando-as prontamente ao mesmo tempo em que Madame Red estava junto com meu calvário, na sala de estar, provavelmente jogando algum jogo. Depois de tudo arrumado, fui ao encontro deles.
Vincent e sua consorte haviam dito que iriam dar uma volta no sítio, andar a cavalo e explorar o grandioso e verde gramado. Fui para a sala, ficando à postos caso meu Mestre precise de mim para algo. Ciel e Red estavam sentados, um em frente ao outro, jogando uma partida de xadrez.
– Eu não vou pegar leve por ser o seu aniversário, viu? – Ela o desafiou, bem humorada.
– Digo o mesmo. Por você ser minha tia eu deveria respeitá-la, porém não costumo hesitar em um jogo.
– Oh, você tem um lado tão sombrio para alguém de tão tenra idade, mas eu conheço seu lado gentil, é o mesmo da irmã. Você herdou os dois lados de seus pais muito bem, Ciel.
Ambos apreciavam os jogos de tabuleiro indescritivelmente bem. Meu calvário, com seu prodígio dom para desafios e Red, com sua natureza frívola e, ao mesmo tempo, alegre. Mesmo entendendo o motivo de sua tia não admirar seu lado mandão, devo admitir que é o que mais me atrai. Um garoto tão jovem e tão certo de suas ordens, é realmente admirável.
Ficava os assistindo jogar, em silêncio, admirando a face de meu Mestre pensativo, não querendo demonstrar fraquezas de jeito nenhum e sempre almejando ser o melhor estrategista. Suas bochechas aveludadas e seus olhos ríspidos ganhavam outro semblante quando estava diante a um jogo no qual era dominante, até que, por fim, fez sua última jogada.
– Xeque-mate, tia Ann. Mais sorte na próxima vez.
– É, realmente, você é um prodígio nesses jogos. Em pensar que até pouco tempo atrás você corria pelo sítio junto com a Lizzy...
– Hoje em dia eu prefiro jogos que fazem treinar a capacidade intelectual do que "correr pelo sítio com a Lizzy". Acho que todos nós crescemos, uma hora ou outra.
– Mas certos costumes não precisam mudar, certo? Você poderia andar a cavalo com seu pai quando ele retornar, como faziam costumeiramente.
– Pode até ser. Eu vou sair para pegar um ar fresco. Sebastian!
Após o chamado por meu nome eu, prontamente, fui ao seu encontro. Afastei a cadeira onde ele estava sentado para que pudesse levantar, dirigindo-me até fora da casa, junto com meu amado garoto, indo para em frente ao riacho. Coloquei outra cadeira em frente ao rio, para que ele pudesse sentar abaixo de uma árvore, de uma maneira em que o sol não o incomode.
– Deseja algo para beber, Bocchan? – Perguntei em pé, ao seu lado. Ciel admirava as águas do rio correrem lentamente, reluzentes, com pedras em seu entorno e peixes nadando livremente.
– Eu tenho fome, Sebastian. Traga-me algo doce. Qualquer coisa.
– Como desejar. – Puis minha mão no peito, em retribuição à sua ordem e me retirei. Entretanto, assim que dei as costas, fui impedido.
– Onde você pensa que vai? – O próprio me ordenou a ficar.
– Perdão?
– Eu não dei permissão para você sair do meu lado, eu não quero ficar sozinho. Traga-me algo doce, mas sem sair daqui.
– S-Sim, senhor...
Fui tomado por uma súbita contradição. Sei que meu Mestre não gosta de ficar sozinho, principalmente em um meio em que não está acostumado, mas ao mesmo tempo preciso sanar sua fome. Como mordomo correto, tive uma ideia afinal. Na árvore acima dele, peguei uma maçã e, com a faca que guardava em meu terno, cortei-a em fatias.
– Uma fruta doce e saudável, extraída direto do pomar. Está a seu agrado?
– Ótimo, continue seguindo minhas ordens assim.
Permaneci em pé, assistindo meu âmago cruzar as pernas e por as fatias em sua boca, dando pequenas mordidas. O sol, cada vez mais intensificava-se, iluminando tanto seu rosto gracioso quanto as criaturas da natureza. Poderia admirá-lo em silêncio para o resto de minha vida, mas sabia que não poderia. Interrompendo meus pensamentos, os progenitores retornaram do passeio.
– Ciel! – Rachel exclamou, cansada, depois do passeio a cavalo. Ainda estava com o animal ao seu lado, prendendo-o com uma corda em frente ao rio. – Como vai?
– Mãe, pai, os senhores voltaram. Como foi o passeio?
– Foi ótimo! – Ela responde. – O sítio continua lindo e bem cuidado como sempre. Nós vínhamos para cá sempre quando éramos jovens, é tão romântico!
– Quer dar uma volta comigo, filho? – Vincent perguntou. – Acho que o meu cavalo ainda aguenta uma volta ou outra.
– Pode ser, assim aproveito e pratico um pouco. Sebastian, leve-me até minha montaria.
– Como desejar.
O levei, junto com o pai, até o estábulo, onde separei sua montaria. Um equino de grande porte, branco e crina loira, que parecia bem energético e propenso a correr por aí. Ciel o havia escolhido por seu jeito mais selvagem, por ser um desafio montá-lo e não desprender-se. Tirei o cavalo, colocando a cela e finalizei, pondo o jovem corpo de meu mestre acima dele.
Seu pai, em um fim de semana bem distante do trabalho, junto ao filho aniversariante, parecia ser outra pessoa. Já estava alegre pelo passeio com a consorte de manhã, mas ao lado do filho deixava seu porte ríspido e empresário de lado para acompanhá-lo. Deu a Ciel instruções sobre como montar e subiu em seu próprio cavalo.
– Nós podemos ir até a cachoeira, o que você acha? – Vicent perguntou, segurando as rédeas.
– Devagar ou numa corrida?
– Haha, você é muito novinho e tem pouca experiência, não acho que me vença. Vamos devagar mesmo, assim apreciámos a vista.
– Não me subestime! – E Ciel empina sua montaria, fazendo o cavalo relinchar e correr em disparada, deixando seu pai para trás.
– E-Ei, espera aí! – Ele logo fez o mesmo, correndo atrás do filho.
Admirei até o último instante, a personalidade fria e insensível de meu amado calvário, ficar mais branda e propensa a divertir-se. Para ele tudo era um desafio, um jogo. A vida era um tabuleiro em que o vencedor, o melhor estrategista, poderia desfrutar, mexendo os personagens tais como peões. Somente ele conseguia isso, infantilizar um pensamento tão dominante e soberano. Ciel era único.
Partiu com seu pai para além do verde, percorrendo todo o sítio e gramado. Ao mesmo tempo eu, um mordomo asservado, dirigia-me até a casa de veraneio, encontrando-me com as duas irmãs preciosas. Rachel estava tomando um chá com Angelina, amigavelmente, contando boas e humoradas histórias sobre seus maridos.
Meu interesse na conversa alheia era zero, minha mente servia apenas meu calvário. Somente eu era capaz de apreciar cada detalhe de seu corpo que, graças a idade, ia ficando mais acentuado, mais maduro. Logo não iria mais conseguir controlar-me diante a si, por isso precisaria de um plano para tê-lo, não importa o quê.
Existem inúmeras maneiras de conseguir. Poderia usar a generosa e ingênua personalidade de Rachel para conseguir algo, ou quem sabe o lado imprudente de sua irmã. Poderia até mesmo conseguir a confiança maior de Vincent que, como dono da Mansão, colocar-me-ia em um patamar mais elevado, podendo me aproximar de Ciel, mesmo que indiretamente.
De qualquer jeito, todas as alternativas contém seu lado bom e seu lado arriscado. Não atrevo-me a perder tudo o que conquistei, até porque isso afastar-me-ia de meu objetivo principal. Devo continuar o mordomo obediente a todo custo, ficar ao lado de meu amo em qualquer circunstância, nunca fazer nada para machucá-lo de fato.
Apesar disso ser impossível. Uma hora ou outra, ele terá que sofrer um maior impacto.
E é o meu maior temor. Desejo dar-lhe a felicidade maior, mas meus objetivos são tão sórdidos e impuros que seria impossível Ciel não ter nenhum impacto negativo. Devo agir sorrateiramente, obedecendo suas ordens, que são mais importante do que tudo para mim. Um plano cuidadoso, com o menor risco possível e que o coloque em um estado natural de invulnerabilidade. Quero me aproximar, sem fazê-lo odiar-me.
Preciso jogar todo otimismo que existe em mim, todas as minhas ilusões, todo o meu anseio por esperança, no lixo. Queimar tudo em chamas, transformar-me no verdadeiro demônio. O cruel e impiedoso, porém acima de tudo, submisso a seu Mestre.
Adentrei um caminho sem voltas no qual meu maior inimigo era também meu único aliado.
O importante é, o dia já estava chegando no final. Rachel e Red partilhavam laços de irmandade e andavam pelo quintal, até que os dois rapazes voltaram do passeio a cavalo. Vincent estava exausto, limpando o suor de sua testa, e Ciel estava bufando, mas não perdeu seu ar superior. Saíram da montaria e o regente brincou, de forma humorada e simples.
– Hahaha, ele achou que poderia me vencer em uma corrida de cavalo. – Ao mesmo tempo em que se refazia, cumprimentava a consorte e cunhada.
– O Ciel gosta mesmo de competições, não é? – Rachel sorriu de volta, dando um copo de limonada ao marido.
– Não é justo, ele conhecia um atalho. – Defendeu-se, desviando o olhar emburrado, mas parecia tão leve quanto uma criança. Uma infantilidade misturada a orgulho e egocentrismo.
(...)
A noite caiu no sítio de Madame Red. Após terminado meus afazeres, coloquei o pequeno corpo de meu mestre em descanso, dirigindo-me o quarto de empregados, onde ficaria. Deitei na cama e adormeci, colocando um despertador às três da manhã. Na madrugada, iniciaria meu plano de tê-lo comigo. Meu cauteloso plano de me aproximar de Ciel, por bem, ou por mal.
Ao som do despertador, a madrugada já havia caído. Coloquei meu terno e roupa social, dirigi-me em silêncio pela casa, tendo certeza que todos dormiam profundamente e fui até o quarto dos regentes, o de Vincent e Rachel. Abri a porta, ambos estavam desacordados.
Andei um pouco mais à frente, parando ao lado de Vincent. Ele estava olhando para frente, de costas para mulher e com os olhos fechados, dormindo em um silêncio profundo. Eu estava com um pequeno candelabro para iluminar a noite, então ajoelhei-me e olhei o rosto do Conde mais de perto, até chamá-lo.
– Psiu... Conde... – Sussurrei o chamando, não querendo atrapalhar o sono de Rachel e ele logo ouviu-me, abrindo os olhos lentamente.
– S-Sebastian..? – Coçou os olhos, não entendendo meus motivos.
– Fale baixo, por favor, eu não quero acordá-la.
– O que houve? O que deu em você?!
– Perdão, sinto em incomodá-lo, porém é urgente.
– Então me diga o que é...
– Não posso dizer aqui. Por favor, venha comigo.
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