Lirou Lader — Parte 1

2 Uma pequena fagulha de esperança


No dia seguinte, Kate foi uma das primeiras a chegar na escola. Ela se sentou em sua mesa, como de costume, e abriu um livro para ler.

— Nenhum imprevisto hoje, me sinto enganada.

— Está chateada por não ter se atrasado de novo? — Diz Lily, se aproximando da garota.

— Só estou meio decepcionada por minha vida ser tão monótona.

— Sabe o que mais é monótono? A vida de uma formiga. Você sabia que elas trabalham até mesmo a noite?

Kate olha para ela com um rosto pacato, quase que em repreensão.

— Ah, claro que você sabia! Aliás... qual era a velocidade do som mesmo?

— 340,29 m / s ou 1234,8 km / h.

— Quem foi o responsável por criar o monolito de Harkenverst?

— Harkenverst?

— Ah, é mesmo... então... se uma nave viajando a 1234,8 km / h batesse no monolito...

De repente a garota é agarrada por trás com uma gravata.

— Lily! Quantas vezes já te falei para parar de fazer perguntas idiotas para a Kate!

— Me solta seu cabeça de tigela!

— Tsuhiko, para com isso! Você vai machucar a Lily desse jeito!

— Ela é líder da equipe de caratê da escola, ela não vai se machucar!

— Ele não conseguiria me machucar nem se tentasse a sério... — Lily se curva para frente, jogando Tsuhiko no chão, fazendo-o soltar seu pescoço.

“Que golpe lindo...” pensou Kate, se sentindo culpada por admirar a cena.

— Ei vocês dois! Querem ganhar uma suspensão?! — Gritou Lucy, entrando na sala nervosa com a cena.

Lily corre até a mulher e a abraça repentinamente, assustando-a.

— Diretora Lucy, você está bem! Fiquei sabendo do seu acidente ontem!

— A-acidente?!

— Sim! A Amanda me disse que você tinha batido sua moto e que nem viria para a escola hoje!

— Ah, aquilo não foi nada! — Diz a mulher, hesitante.

— E pensar que eu quase fui para o mesmo lugar que você ontem! Ainda bem que a reunião do conselho me salvou! Se eu tivesse me acidentado também não sei o que faria no seu lugar!

Lucy solta uma interjeição de nervosismo, dando um cascudo em Lily logo em sequência.

— Então é isso, Loreley?! Você só estava preocupada com seu bem-estar! Eu vou garantir que você tenha lições extras durante o resto da semana!

— Não foi o que eu quis dizer!

— Me encontre na diretoria antes de começar a aula!

Ela afasta a garota com as mãos, enquanto ela chorava e tentava abraçá-la, com súplicas para remover o castigo.

— Deixando isso de lado, Kate, como foi a reunião ontem?

— Ah, eu acho que deu tudo certo...

Ela assente com a cabeça com um sorriso orgulhoso.

— Muito bem, nesse caso, Loreley, venha comigo, precisamos conversar!

— Bas eu não piz nhada zenhora Lightning! — Dizia ela aos prantos.

— Não me chame assim! Já te falei isso!

— Bais, bais!

— Sem “Mas”! Vem comigo!

Kate levanta as mãos, em sinal para que parassem.

— Espera, Lily, você disse antes que falou com a Amanda? Sabe onde ela está? Ela não responde minhas mensagens desde ontem...

— Ah... ela teve outro problema com o irmão, ao que parece. Acho que ela não vem hoje.

— Entendo...

Lucy segura a orelha de Lily e começa a puxá-la para fora da sala em uma cena cômica. Ambas então se dirigem para a diretoria. Lucy pede para Lily se sentar em uma cadeira, se sentando logo ao lado dela.

— Precisava ser tão violenta?! A senhora quase arrancou minha orelha ali, sabia?

— Preciso falar algo sério com você.

— Se for por causa do golpe que dei no Tsuhiko...

— Flora morreu.

Lily hesitou, ficando em silêncio imediatamente e mudando o semblante do seu rosto.

— O...

— E não é só isso... Lux está desaparecida.

— A Lux também? Mas...

O clima da sala muda drasticamente. Lily apoia seus cotovelos sobre seus joelhos, colocando as mãos na testa.

— Como?

Lucy suspira.

— Não imagino como aquelas três vão reagir ao descobrirem sobre isso...

Loreley coloca uma das mãos sobre a boca, desacreditada. Ela fica ali, parada em estado de choque por uns bons segundos.

— Escuta, Loreley... você sabe o que aconteceu ontem? Durante a luta?

— Só sei o que a senhora me disse.

— Eu quase morri.

Lily hesita.

— A Amanda está bem?

— Ela não corre risco algum, mas o médico da sede pediu para que ela ficasse em repouso por um tempo...

— A senhora está querendo me dizer que...

— Eu sou a única Lader ativa no momento.

Lily faz silêncio mais uma vez, encostando suas costas na cadeira, esticando sua cabeça para trás e colocando um dos braços sobre o rosto.

— Droga, eu tinha medo de que isso acontecesse alguma hora... o que vamos fazer?

— Eu não posso pedir para que você carregue uma responsabilidade tão grande...

— Hein?! O que está dizendo? — Diz ela quase pulando da cadeira. — Está querendo assumir os riscos todos sozinha?! Eu sou sua aprendiz! Isso significa que sou parte de você também! Se a senhora morrer eu terei que assumir o papel de Lader sozinha! É meu dever! Minha responsabilidade te ajudar, te dar apoio, te proteger!

— Cala a boca Loreley! — A mulher loira grita de forma repreensiva, mas com muito sentimento na voz.

O quarto fica silencioso novamente.

— Você não é um objeto! — Diz ela de forma mais calma. — Você é como uma filha para mim! Se eu te visse morrendo na minha frente eu certamente perderia o controle.

Loreley faz um rosto irritado, com os dentes a mostra.

— A senhora está me dizendo para que eu não lute? É isso? Quer que eu renuncie o fardo de aprendiz?

— Não foi isso que eu quis dizer, preste atenção no que estou dizendo!

Loreley coloca as duas mãos sobre os cabelos, desesperada.

— Droga... a Lux era a mais poderosa Lader... sem ela por perto...

— Lily... eu sei que ela está viva.

— Como pode ter certeza? — Diz ela com uma voz desanimada.

— Eu só sei.

— Da mesma forma que sabe que a Volcano vai voltar? Da mesma forma que diz saber que as Laders não vão sumir? Cai na real "Lightning", as Laders acabaram! Desde que Volcano deixou seu posto a organização não conseguiu nem sequer se manter. Foi uma morte atrás da outra... vocês três eram as últimas da geração de ouro... e agora a Flora morreu... e a Lux...

— A Lux está viva!

Lily se levanta com a cabeça baixa.

— Onde vai?

— Eu... preciso de um tempo para digerir tudo...

Lucy fica em silêncio, olhando para sua pupila.

— Escuta... eu sei que você está com medo agora, mas vai ficar tudo bem. De qualquer forma, a sede disse que está enviando um grupo de elite para nos auxiliar vindos de Nova Mork. Eles têm lutado contra os corruptores mesmo sem um amuleto. Estão até chamando-os de “Lirou Clow”.

Lily dá uma leve risada de deboche.

— Garras ferozes... sem um amuleto não passam de idiotas tentando ganhar algum holofote. A senhora sabe que os corruptores de Nova Mork não são nada comparados com os daqui. Quanto mais próximo da zona de convergência, mais poderosos são os corruptores, foi por isso que a base das Laders se instalou aqui no país de Mahuji.

Lily se vira e vai em direção a porta. Ela segura a maçaneta e olha de relance para trás.

— A senhora pode brigar comigo quanto quiser depois, mas eu não vou entregar o mundo nas mãos de pessoas como eles. A responsabilidade de lutar contra os corruptores está nos amuletos. É responsabilidade das Laders, a senhora me disse isso tantas e tantas vezes...

— Loreley...

Antes que Lucy pudesse dizer algo, a garota abre a porta e sai, batendo-a com certa força ao fazê-lo. Lucy coloca a mão sobre o rosto com um suspiro, se encostando na cadeira com um rosto tenso.

...

Amanda se recuperava bem. Na enfermaria da Sede, ela permanecia acordada, sentada no leito enquanto olhava para o teto, pensativa. O rapaz, o mesmo que estava com elas no dia anterior, entra na sala segurando dois copos de café.

— E então, se sentindo melhor?

— Quem não se sente melhor com uma xícara de café?

O rapaz riu e entregou o copo para a garota.

— Você me parece preocupada.

Amanda desvia levemente o olhar do rapaz.

— Você não está?

— Sabe, eu sirvo a organização já há um bom tempo. É difícil pensar que nós entramos em uma crise dessas só por causa de uma pessoa...

— O que quer dizer?

— Você não é burra, Amanda. Tudo isso começou depois que a Volcano desertou. As lutas se tornaram mais difíceis, as garotas perderam muito foco... no fim das contas, indiretamente, a culpa foi dela.

— Mas é como você disse, é difícil pensar que foi tudo culpa dela.

— De fato. É por isso que prefiro pensar que a culpa é de toda a organização, por não termos feito nada descente esse tempo todo, por termos deixado chegar a este ponto. Não gosto de jogar minhas responsabilidades em cima dos outros.

A garota ajeita o cabelo e segura a xícara com as duas mãos, levando-a até a boca. Ela toma um gole e logo em seguida sorri para o rapaz.

— Sabe, esse tempo todo e ainda não perguntei o seu nome.

— Ah, me desculpe! É verdade, é a primeira vez que eu venho até essa sede. Eu me chamo Larry Lockenheart.

Amanda segura uma interjeição de riso, levando a mão até a boca.

— Larry!

— Qual a graça?!

— Ah, desculpa, é um nome engraçado.

— Não é esse tipo de reação que eu esperava...

Os dois riem e logo em seguida Amanda volta a ficar com seu ar sério e preocupado.

— Escuta, Larry, a habilidade específica da Volcano, ela era tão incrível assim?

— Segundo os dados ela era sim. Eu não cheguei a ver com meus próprios olhos também, mas os relatos são incríveis.

— Se ela era tão incrível... por que ela desertou?

A sala mais uma vez ficou em silêncio.

...

Kate viu a garota entrar na sala de aula e recebeu-a com um sorriso, embora ela não tivesse a mesma energia, ela sorriu de volta. Foi uma atitude estranha vinda dela, então a garota se levanta e vai até a amiga.

— Algum problema, Lily?

— Ah, não... eu estou bem.

— Não me parece bem.

— Não, é sério, não se preocupe, não é nada demais.

— Hun, se você diz...

Kate se vira para voltar ao seu lugar, mas logo para e se volta novamente para a amiga.

— Você sabia que é possível sim transformar chumbo em ouro?

— Hã?

— É fácil! É só tirar três prótons de cada núcleo de chumbo! O maior problema é que para isso a gente precisaria de um acelerador de partículas grande o suficiente para estabilizar o processo, que geraria energia maior que de algumas bombas atômicas.

Lily olha confusa para o sorriso da amiga, mas logo em seguida começa a rir.

— Ah... de onde veio isso?

— Sou eu tentando te animar!

— Só você mesmo, Kate.

Ela faz um leve cafuné na cabeça de Lily.

— Se precisar conversar, pode contar comigo.

— Obrigada, Kate.

...

Enquanto isso na sede em Mitsury, Lucy e Larry conversavam enquanto esperavam Amanda se vestir em outra sala.

— Ei, tá tudo bem mesmo ela sair?

— Não se preocupe, é só ela se manter longe das batalhas por um tempo. Você ficou bem mais ferida que ela ontem, e aí está você!

— Eu estou bem. As garotas da Lux cuidaram dos meus ferimentos.

O semblante do rapaz caiu um pouco ao ouvir o nome da Lader.

— E como elas reagiram quando você deu a notícia?

— Bem... foi complicado... a Gabriela foi a que mais manteve a calma.

— Ela é bem forte.

— As três eram muito apegadas com a Lux. É difícil pensar que a Lux foi a única que conseguiu manter um número tão elevado de aprendizes.

— Geralmente já é difícil você ter uma, certo?

Ela dá uma leve risada.

— Fala sério, aprendizes dão muito trabalho..., mas... eu estou preocupada com Lily.

— Ela foi sua primeira aprendiz?

— Sim. Mas mudando de assunto, tem notícias do grupo de apoio?

— Eles disseram que virão até aqui daqui umas quatro semanas ainda. Eles têm estado ocupados com alguns problemas em Nova Mork. Pode ser que demorem até mais que isso...

— A zona de convergência era lá antes. É natural que tenham sobrado monstros poderosos lá.

— Eles estão tentando limpar o local o máximo possível antes de deixar as coisas nas mãos da organização de lá.

— Entendo.

Nesse momento Amanda entra na sala, vestindo seu uniforme escolar padrão.

— Podemos ir? Estou perdendo aula.

— Que aluna aplicada você tem aí, hein Lucy?

— Ela é uma boa garota, sim.

...

O dia avança e Kate mal percebe as horas passando. Já era quase a hora do intervalo para o almoço quando Kate vê Amanda chegar acompanhada da diretora. A garota se curva levemente para o professor e entra na sala, sem fazer barulho.

— É assim que se chega atrasada, viu Kate?

A sala inteira riu com a colocação do professor, enquanto Kate escondia o próprio rosto. Lucy suspira frustrada, encarando Kate.

O dia percorre normalmente. Assim que a aula acaba, Kate rapidamente se levanta e vai em direção à Amanda.

— E aí, está tudo bem? Você atrasou bastante hoje.

— Ah, sim... eu tive que fazer umas consultas hoje.

— Mas está tudo bem?

— Não se preocupe, foram só exames de rotina.

Kate puxa uma cadeira e se senta nela, enquanto Lily se aproxima das duas.

— Mas e você, senhorita certinha? — Diz Lily, de forma implicante, cutucando a bochecha da garota. — Por que se atrasou ontem?

— Eu? — dizia Kate apontando para si. — Acabei dormindo demais!

Lily se senta na mesa de Amanda, cruzando as pernas.

— Você?! Dormindo demais?! Justo você?! Eu lembro quando a gente saiu de férias para aquelas cabanas no monte Alvar, você era sempre a primeira a acordar!

A garota riu sem graça.

— É que eu acabei virando a noite passada.

— Ei, Loreley! Está sentada em cima do meu caderno!

— Ah, me desculpa Amanda.

Ela puxa o caderno enquanto Lily se levanta por um segundo.

— E por que virou a noite? — Pergunta Amanda.

— Vocês sabem que eu fui para a praia durante minhas férias, certo?

— Sim.

— Durante as férias eu achei uma coisa esquisita, tipo um artefato. Ele tinha umas inscrições que eu nunca tinha visto antes, então fiquei a noite tentando decifrar as escritas.

— Nossa, e você conseguiu?

— Não, são escritas diferentes de tudo que eu já tinha visto antes.

Lily se impulsiona para cima de Kate, com um rosto curioso.

— E eu posso ver?! Você tá com ele aí?

— Ah, sim, eu o trouxe para a escola, estava tão curiosa que não aguentei.

Ela começa a mexer na bolsa, a procura do objeto.

— Nunca tinha visto escritas assim, como uma boa estudiosa de línguas eu não resisti e tive que tentar decifrá-las. É um achado e tanto.

Ela retira o objeto da bolsa e, instantaneamente, o semblante de suas duas amigas muda.

— Isso...

— Não pode ser... ei, onde exatamente você achou isso?!

Era uma espécie de medalhão vermelho. Ele possuía um pequeno símbolo de algo parecido com uma espada no centro, e em volta vários glifos antigos e estranhos.

— Ér... Eu achei em uma das minhas explorações pela praia. Era uma pequena caverna... Pode parecer estranho, e acho que vocês não vão acreditar..., mas eu vi um brilho vermelho saindo da caverna, então fui investigar...

— E quando você se aproximou ouviu uma voz?

— Ah, como você descobriu?

— E essa voz te disse algo como “Faron Lirou Lader”?

Kate fica surpresa com a reação da amiga. Ela não imaginava ouvir algo tão preciso vindo de Amanda.

— Nossa Amanda, você é boa com adivinhações! — Diz ela de forma jocosa, e com um pouco de hesitação. — Mas espera... como você fez isso?

Amanda e Lily se encaram pasmas e com quase sorrisos.

— Loreley, vai chamar a Lucy agora! Fala para ela ir até a sala do conselho estudantil.

— É pra já!

A garota dá um pulo da mesa, fazendo-a balançar, e começa a correr para fora da sala.

— Ei, calma aí, o que significa isso?

Amanda sorria como se tivesse acabado de ganhar um presente.

— Você vem comigo, Kate! Primeiro guarda isso bem guardado na sua bolsa e vem comigo.

Amanda começa a puxar a amiga que não entendia o que estava acontecendo.

— Ei, será que você pode me explicar o significado desse desespero todo?

— Você quer descobrir o que está escrito nesse amuleto? Eu posso te dizer se quiser.

— Hein? O que quer dizer?

— Conhecendo você, aposto que vai querer descobrir sozinha! Então não vou contar ainda.

Ela andava apressada pelo corredor, rindo e puxando Kate.

— Nossa, Amanda, você está agindo estranho demais! Por acaso não está me levando para algum local de tortura ou sacrifício humano né?

Amanda para no meio do corredor, que no momento estava vazio.

— Esse objeto que você achou é algo muito importante, Kate! Você não tem ideia! É a solução para grande parte dos nossos problemas!

A garota começa a ficar receosa, abraçando a bolsa com um pouco de medo.

— O que quer dizer?

Amanda suspira, tentando retomar um pouco do seu ar sério.

— Eu acho que acabei te assustando... desculpa. Mas é que... você logo vai entender. Apenas confie em mim.

Kate encara a bolsa e logo em seguida volta seu olhar para a amiga.

— Tudo bem, eu confio em você.

Amanda acena com a cabeça para ela, com um sorriso.

De repente elas escutam uma explosão vinda de fora da escola, assustando ambas. Logo em seguida vários gritos.

— O que foi isso?!

Elas correm até uma das janelas e veem uma cena assustadora. Uma flor negra emergia do chão, criando tentáculos e muita poeira negra.

— Um... foco? Aqui na escola? Como?

— Amanda, o que é aquilo?!

“Droga, isso é ruim... Por que justo agora? Eu tenho que fazer a contenção daquela coisa, ou isso pode ficar ruim. Mas por que um foco apareceria no meio do pátio da escola desse jeito?”

Amanda então vislumbra um vulto e levanta por reflexo seus olhos para um dos telhados da escola, vendo uma figura a encarando. Era um homem vestindo um terno escuro, com uma capa vinho bem escura balançando com o vento. Ele cobria os olhos com uma máscara, e segurava a ponta de sua cartola, tampando parte do rosto e impedindo a visão dele.

“Quem é ele?”

O homem parecia estar olhando para ela. Subitamente ele desaparece no ar, envolto em poeira negra.

— Amanda! Olha para aquilo!

A flor começa a se mexer freneticamente, emergindo três criaturas de dentro dela.

Amanda segura o pulso de Kate com força e começa a correr para dentro do prédio.

“Ele está atrás da Kate? É isso! Aquele homem... ele estava nos observando esse tempo todo? Ele estava esperando uma oportunidade?”

— Kate, você mostrou isso para alguém?

— O que?

— Responde!

— Não! Vocês são as primeiras pessoas para quem eu mostro.

“Isso significa que ele estava me espionando..., mas por que não senti a presença dele antes?”

De repente Amanda dá de cara com Lucy e Lily no corredor.

— O que está acontecendo?

— Um foco apareceu no meio do pátio da escola.

— O que? Justo agora?!

Lucy encara Kate, com bastante seriedade.

— Me mostre.

— Te mostrar? Fala do...

Ela assente com a cabeça.

Kate abre a bolsa, hesitante, coloca a mão dentro e puxa o objeto vermelho, fazendo os olhos de Lucy brilharem.

— Guarde isso bem, Kate.

— Eu não estou entendendo direito o que está acontecendo, será que vocês poderiam me explicar?

Rapidamente elas são interrompidas por uma explosão que abre parte da parede do corredor onde estavam. Amanda e Lily se colocam na frente e encaram a criatura que acabara de aparecer.

— Diretora Lightning, leva a Kate para um lugar seguro! — Grita Lily.

— Ei, estão loucas? Estão querendo encarar aquele foco sozinhas?

— Você pode ser a mais experiente aqui, — diz Amanda, — mas nossa prioridade é garantir a segurança da Kate. E eles não estão atrás dos outros alunos. De qualquer forma, a maior parte deles já saiu da escola nesse ponto.

Lucy hesita, mas rapidamente segura o pulso de Kate, puxando-a para além do corredor.

— Não esqueça Amanda, não use o amuleto.

— Espera! O que elas vão fazer?

— Ganhar tempo. Agora o mais importante é te deixar em um lugar seguro!

— Mas...

As duas começam a correr pelos corredores da escola, mas são surpreendidas por um ser humanoide preto musculoso, com chifre e uma calda. Kate o encara assustada. Lucy rapidamente solta a garota e dá um giro com o seu corpo, derrubando a criatura com um chute certeiro que destrói parte da parede no processo.

A garota fica boquiaberta com a cena.

— Que... chute incrível.

Lucy segura a mão de Kate novamente e começa a correr.

— Pelo menos me dá uma visão geral da situação! Droga!

— Essa coisa que você achou se chama Dogoy Kusha. É um antigo artefato criado há muitas eras. Existem sete deles. — Lucy pega seus óculos e retira-os do rosto, transformando-os em seu amuleto. Ele era como o de Kate, tinha um formato de um medalhão, era amarelo e possuía um símbolo de um arco no centro. Em volta várias escritas similares as do de Kate.

Dogoy Kusha?

— Isso. Eu e Amanda, cada uma temos um. Eles foram criados com um objetivo em comum: proteger o mundo dessas coisas que estão atrás da gente nesse momento.

— E o que são essas coisas?

— Corruptores. Seres das sombras que tentaram dominar o mundo uma vez. Não se sabe de onde veem, o que querem... a única coisa que sabemos deles é que são violentos e atacam qualquer coisa no caminho.

— E por que Amanda disse que eles estão atrás de mim?

— Porque você é a nova Lader Volcano.

Lucy entra em uma grande porta dupla, levando-as para o ginásio esportivo da escola. Elas param no meio do ginásio, Kate levemente fatigante.

— O que é isso?

— Corruptores não costumam agir com tanta coordenação assim... eles devem estar sendo controlados por alguém.

Lucy segura seu amuleto com as duas mãos e grita as palavras de transformação.

Jay! Lirou Lader!

Kate fica perplexa com a cena. As roupas de Lucy se desintegram e seu uniforme de Lader reaparece no lugar.

— Pode sair daí, eu já te vi.

Do fundo do ginásio, em meio as sombras, um homem se revela. Vestindo seu terno e sua capa vinho ele retira sua cartola e se curva para as duas garotas.

— É um prazer finalmente conhecer as heroínas desse mundo.

— Quem é você?

Ele gira sua cartola, colocando-a na cabeça antes de se endireitar.

— Se vocês são as heroínas... podem me chamar de vilão.

— O que você quer?!

— Um pouco de amor, não é óbvio?

Lucy segura Kate e puxa a garota, desviando de um ataque de uma criatura negra.

— Kate, se afaste.

— Mas... aquela coisa...

— Eu seguro esses dois, agora sai daqui.

A criatura avança para cima de Lucy, mas antes de se aproximar o bastante é jogada para longe com uma voadora de Lily, que aparece de repente.

— Sai de perto da minha mestra! Coisa ridícula!

— Lucy, vocês estão bem? — Diz Amanda se aproximando.

— Vocês não iam segurar essa coisa?

— Tivemos que cuidar do foco também, ou eles não iam parar de aparecer! E eu não posso usar meu amuleto, esqueceu? Isso deixa as coisas ainda mais difíceis.

Elas se posicionam na frente de Kate, com Lucy a frente de todas.

— E então, quem é a figura?

— Hun, decepcionante, — diz o homem, — três lutadoras, duas Laders, mas apenas uma capaz de se transformar. Acredito que mesmo assim, não deve estar em sua forma plena, estou certo?

— Desista! Você está em desvantagem aqui!

O homem ri, colocando a mão esquerda dentro de sua capa.

— A meu ver, vocês é que estão em desvantagem aqui. Tendo que carregar um peso morto, com um amuleto inútil... eu não preciso explicar a situação.

Lucy se impulsiona, em meio a raios e energia. Ela desfere um chute que destrói a parede atrás do homem, mas ele se esquiva rapidamente.

— Como pensei, você é rápida! Mas sua velocidade não é tão bem direcionada quanto daquela mulher de branco.

— Fala da Lux?!

— Sim! Era esse o codinome dela! Lembro da de verde gritando isso enquanto eu esmagava seu peito com minha espada!

Lucy se enfurece; ela gira a metade do seu arco, formando uma espécie de espada de lâmina dupla, desferindo uma sequência de golpes no inimigo, mas o rapaz consegue se desviar de todos eles, tudo isso com a mão ainda dentro de sua capa. Ele então desfere um chute na mulher, que a joga para longe; Lucy se desequilibra, mas permanece em pé.

— Ele é forte... então foi você que derrotou a Flora?

— Na verdade... mais ou menos. Foi um dos meus amigos... é meio complicado de explicar... vocês não têm neurônios o suficiente para entender. Mas vou mostrar uma coisa legal para vocês; é uma mágica!

Ele retira sua mão da capa, puxando um objeto junto. Era uma espécie de cajado de madeira, no topo dele uma pequena esfera de cristal verde que brilhava. No mesmo instante as três garotas ficam perplexas e sem reação.

— Aquilo é...

— A arma da Flora!

— Como isso é possível?! — Lucy cerra os dentes em fúria. — O amuleto deveria voltar a sua forma original depois que a Lader é incapacitada!

— É... então, como eu posso explicar... isso é tão vergonhoso... — Ele faz um rosto de culpa enquanto coça a testa, — eu meio que sou a nova Lader!

— Para de falar asneiras! Apenas mulheres podem ser Laders!

— Ah, é... então eu acho que trapaceei! — Ele desaparece no ar, reaparecendo logo atrás de Kate, segurando seu braço.

— Kate!

— Essa daqui vem comigo.

No mesmo instante o homem é derrubado com um chute certeiro no rosto.

— Não vou a lugar algum! Seu tarado!

Kate o derrubara no chão com um golpe rápido e preciso. O homem rapidamente se afasta, meio cambaleante.

— Bem... isso foi... inesperado.

— Eu tinha quase esquecido desse detalhe sobre você, Kate. — Diz Amanda com um sorriso.

— Que detalhe?! — Grita Lily perplexa com a cena.

— Os pais da Kate tinham um dojo, na verdade mesmo depois da morte do pai dela, a mãe dela ainda mantém o lugar de pé. E a Kate atualmente dá aula lá também.

— Caramba, nem eu sabia disso. — Diz Lucy, com um rosto surpreso.

Kate se abaixa levando a mão até o seu pé, com um rosto levemente de dor. “Mas por que o rosto desse cara é tão duro?”.

— É, tá bom, ela sabe lutar também, grandes coisas... Agora passa os amuletos para cá! Cansei dessa brincadeira!

— Parece que seu humor mudou um pouco depois de levar um fora, que tal um consolo?

O homem cerra os dentes, mas logo em seguida sorri.

Lily se aproxima de Lucy e estende as duas mãos em sua direção.

— Anda logo, mestra! Não me faça implorar!

Lucy suspira frustrada, mas segura as mãos de Lily com um pouco de hesitação. No mesmo instante as duas começam a brilhar e uma roupa parecida com a de Lucy aparece no corpo de Lily, mas sem as partes de armadura. Os cabelos de Lily, que já eram loiros e curtos, tomam uma cor ainda mais brilhante e amarelada. Lucy reparte seu arco transformando-o em adagas e entrega uma para a garota e, no mesmo instante, Lily desaparece no ar envolta à raios, aparecendo logo em seguida atrás do homem.

— Rápida! — Grita ele se esquivando de um ataque horizontal desferido pela garota.

No meio do ar, no entanto, ele se depara com Lucy, desferindo um segundo golpe que ele é obrigado a defender. O homem é jogado para o centro do pátio, caindo com os dois pés no chão, e no mesmo instante Lily aparece atrás dele novamente.

“Um ataque sincronizado?” pensou ele.

Mais uma vez ele se esquiva de Lily, sendo surpreendido por Lucy novamente.

— Incrível... — Comenta Kate.

— Sim... elas têm uma sincronia absurda... espera, você está conseguindo enxergar a luta?

Kate acena com a cabeça. Amanda vê que a garota está sofrendo com uma dor no pé e se abaixa para analisar.

— Está vermelho, isso foi por causa do chute?

— Sim...

“Deve ser por causa da aura mágica dele. Kate atacou o rosto dele sem usar uma, então o pé dela acabou absorvendo boa parte do impacto”.

Amanda coloca suas duas mãos sobre o pé avermelhado de Kate e recita as palavras “Mey Maer”. No mesmo instante, um brilho azul celeste cobre o local e Kate começa a sentir um alívio.

As duas continuam seus ataques até que Lucy finalmente acerta um golpe no homem, fazendo-o se afastar delas. A mulher coloca a mão direita sobre o abdômen, sentindo uma dor aguda.

— Mestra, não se esforce, você ainda não está cem por cento.

— Lily, nós precisamos acabar com isso rápido, você sabe disso, não é?

— Tenho noção.

O homem solta um estalo com a língua em sinal de indignação, ele então se endireita e pragueja para si mesmo.

— Tá bem! Vocês estão com sorte hoje, garotas! Parece que eu vou ter que me retirar mais cedo. Mas não se preocupem, e agora é hora da frase clichê: Nos encontraremos novamente em breve!

— O que quer dizer?!

Ele sorri e é envolto em fumaça preta. Lily avança e ataca a nuvem inutilmente, dissipando-a; mas o homem já havia desaparecido.

Amanda segura os ombros de Kate com bastante preocupação.

— Você está bem?

— Sim... só um pouco assustada...

— Um pouco você diz..., mas imagino que seja mais que “Um pouco”.

...

As quatro são recebidas por um grupo de homens que as dirige até uma sala com uma grande mesa redonda. As paredes do lugar tinham uma coloração azul celeste, e pareciam quase serem feitas de luz; era um ambiente que exalava tecnologia. Kate foi convidada a se sentar em uma das cadeiras na mesa, e Amanda se sentou ao seu lado. As demais se sentaram e começaram a explicar para ela o ocorrido.

— Então deixa eu ver se entendi. Esses amuletos se chamam “Dogoy Kusha”, que significa “Distribuidor de amor”?

— É... um nome um pouco mais filosófico que isso...

— Ok, e eles escolhem pessoas, mulheres, para serem suas portadoras.

— Nós ainda não entendemos direito os critérios de escolha, mas geralmente sempre escolhe mulheres jovens.

— As escolhidas ganham habilidades de combate e têm o dever de lutar contra aqueles monstros. Isso é insano.

— Eu sei, também foi difícil para mim aceitar tudo isso.

Larry se aproxima do grupo e entrega uma caneca com café para cada uma delas.

— Obrigada, senhor Larry. — Kate então toma um gole do café.

— Pode me chamar só de Larry. Então, Kate, você agora é uma Lader, o que me diz sobre isso?

Kate coloca a caneca sobre a mesa, segurando-a com as duas mãos.

— É... estranha essa sensação... eu não sei bem o que dizer.

— No fim das contas, nós não podemos obrigá-la a nada, mesmo que o amuleto tenha te escolhido...

Kate encara Loreley, que a olhava com um sorriso sincero.

— Mas por que ele me escolheria, no fim das contas? Por que não escolher a Lily, por exemplo? Ela já tem treinamento e experiência.

— Dois motivos: o primeiro é porque a Lily já foi escolhida pelo meu amuleto. Os amuletos não escolhem um único portador. Eles as vezes escolhem mais de um portador, e se a Lader atual for forte o suficiente, ela é capaz de repartir o poder dela com a outra portadora, transformando-a assim em sua aprendiz.

— Então a Lily é sua aprendiz?

— Sim, foi por isso que ela foi capaz de se transformar parcialmente naquela hora. Mas ter uma aprendiz não é para qualquer Lader. Somente Laders fortes e poderosas são capazes de manter aprendizes. O segundo motivo é que cada pessoa possui uma afinidade diferente a um dos sete elementos. A Lily tem a afinidade ao raio, e não ao fogo.

A garota fica encarando sua caneca, pensativa. Lucy suspira e volta seu olhar para Larry.

— E então, alguma pista sobre o homem da cartola?

— Nada além de imagens borradas de câmeras de segurança. Ele é realmente um mistério.

— E ele está com o amuleto da Flora... o que vamos fazer?

Kate tem uma epifania e vira-se para Amanda, com um rosto curioso e agitado.

— Espera um pouco! Então todas as vezes que você deu a desculpa do lance com o seu irmão...

Amanda fica na defensiva.

— Não foram todas as vezes..., mas sim, eu usava isso de desculpa...

— Então você não tem um irmão doente?

O semblante de Amanda cai, ficando um pouco abatida.

— Vem comigo...

Lucy e Lily fazem um rosto preocupado.

— Ei Amanda, têm certeza de que vai mostrar isso para a Kate?

— Eu não me sinto bem mentindo para minha melhor amiga... essa é a oportunidade perfeita para mostrar a ela.

Amanda leva a amiga até um monitor no corredor da sede e começa a mexer nele. Ela digita um usuário e uma senha e, logo em seguida, abre um aplicativo de câmeras. Depois de alguns cliques ela chega onde queria.

— Esse é o meu irmão. Ele está em uma base menor das Laders à alguns quilômetros daqui.

Kate coloca as duas mãos sobre a boca, aterrorizada.

— O que aconteceu com ele?

— Isso é o que acontece quando corruptores se alimentam de humanos... por sorte eu cheguei a tempo na ocasião, mas... minha mestra morreu enfrentando o monstro que atacou meu irmão; foi aí que eu tive que assumir como a Lader principal. E mesmo o corruptor na ocasião não tendo terminado com meu irmão, ele acabou ficando assim. Por causa disso ele as vezes tem algumas crises e...

— Tá tudo bem Amanda, não precisa me contar todos os detalhes. Eu sei que deve ser difícil para você falar disso.

A garota assente, com um rosto abatido. Lucy se aproxima com um grande suspiro.

— Mas temos um problema agora. Independentemente de você aceitar ou não seu papel como Lader, nós temos que ficar de olho em você de agora em diante. Não podemos te deixar sozinha agora que você se tornou um alvo.

— E já está ficando tarde... minha mãe certamente já deve estar ficando preocupada.

— Nesse caso, eu tenho um plano. Vamos até a sua casa, só eu e você.

Kate assente.

...

As duas chegam até uma grande casa ao lado de um dojo. A casa tinha dois andares, um pequeno jardim na frente e era cercada por um meio muro de um metro de altura. As duas entram pelo pequeno portão de madeira e Kate coloca a mão na maçaneta, mas no mesmo instante a porta da casa abre.

— Kate Esdrans! Você está muito atrasada!

— Me desculpe mãe, eu tive alguns imprevistos...

Lucy encara o rosto da mulher, ficando levemente surpresa. A mulher tinha cabelos escuros e ondulados, olhos azuis e um corpo esculpido. Ela olha de volta para Lucy, reagindo da mesma forma que Lucy.

— Você... é a Lucy?

— Olá, Katherine. Quem diria que a Kate seria sua filha... por essa eu não esperava.

As duas se encaravam com um ar de nostalgia e certo desconforto.

— Vocês duas se conhecem? — Perguntou Kate com curiosidade.

— O que está fazendo aqui com a Kate? — Pergunta a mulher com um sorriso desconfortável.

Lucy ajeita os óculos e limpa a garganta.

— Eu sou a atual diretora da escola de Kate. Será que podemos entrar?