Lirou Lader — Parte 1
3 Uma Brincadeira Perigosa
As duas se sentaram no sofá e Katherine serviu um suco para elas, se sentando logo em seguida.
— Então você está me dizendo que Kate precisa passar uns dias fora de casa por causa dessa pesquisa?
— Se ela se sair bem é bem possível que ela consiga uma bolsa de estudos no exterior. Kate é uma garota inteligente, então eu acho que essa seria uma oportunidade incrível para ela.
A mulher hesita, segurando o copo com as duas mãos.
— Sabe... desde que o pai dela morreu que eu não fico longe da minha menina...
— Vai ser apenas por alguns dias. Eu prometo que ela vai ficar bem.
Katherine coloca o copo em cima da mesa de centro e se levanta.
— Kate, será que você poderia pegar as agendas de aulas no dojo? Eu quero ver se consigo realocar as suas aulas...
— Tudo bem.
Kate se levanta e se retira. Nesse momento a mulher se aproxima de Lucy e se senta ao seu lado.
— E então? Como estão indo as coisas?
Lucy encarava o chão com um olhar triste, enquanto segurava o copo com certa força.
— Bem... estão um pouco complicadas.
— Me conta.
— Achei que você não quisesse ouvir sobre isso.
— Eu só estou curiosa.
Lucy desvia o olhar para o outro lado, ficando hesitante.
— A Liz... morreu ontem.
Katherine faz um rosto triste.
— Entendo... e as outras como estão?
— Katherine, eu sou a última do nosso grupo.
— Não me diga que até mesmo a Ayla...
— Nós não temos notícias da Ayla desde que encontramos o corpo de Liz.
A mulher desvia o olhar, com culpa em seu semblante. Um silêncio intrigante se faz entre as duas.
— A culpa foi minha... — Antes de Katherine terminar a frase, Lucy a interrompe.
— Não foi culpa sua. Nossa organização deveria ser capaz de se sustentar mesmo sem você.
— Mas se eu não tivesse desistido vocês ao menos teriam o amuleto da Volcano por perto... com isso poderiam utilizar aquela habilidade única da flora.
— Não vou dizer que eu preferia que você ainda estivesse atuando como Lader, mas foi uma escolha sua. Ninguém é obrigado a fazer esse tipo de coisa.
Elas ficam em silêncio mais uma vez, Lucy toma um gole do suco e volta-se para Katherine.
— Você se arrepende? De ter desertado?
A mulher sorri, se levantando e colocando o copo sobre a mesa da sala. Ela anda até um quadro da família, na parede. O quadro tinha uma foto dela, de seu falecido esposo e de Kate, com aproximadamente dez anos.
— Eu sei que eu fui egoísta aquele dia, mas... Depois que eu desertei eu segui com a minha vida normalmente. Estudei, conheci ele, me apaixonei... se eu tivesse continuado a trabalhar como uma Lader, talvez eu não tivesse nem sequer o conhecido. — Ela se vira para Lucy com um rosto sério. — Eu não me arrependo.
Depois de alguns segundos, Kate retorna, e elas voltam a falar sobre a situação do dojo. Nesse meio tempo, Lucy encarava o copo, com certa nostalgia da época em que Katherine era uma Lader.
...
Com tudo resolvido, Kate é levada até um quarto na sede das Laders. Era um lugar bem aconchegante, Kate coloca suas coisas em uma mesinha de estudo no canto da sala e volta-se para Lucy, que a acompanhava.
— E agora?
— Bom, vamos começar seu treinamento. Mas antes disso, acho que seria interessante você descansar e se preparar.
— Vocês têm alguma biblioteca aqui?
— Acho que tem uma na ala 3 da base.
— E onde fica a ala 3?
Lucy fica hesitante, colocando a mão no queixo.
— Eu vou pedir para o Larry te levar até lá...
— Não me diga que você nem sequer sabe onde fica...
— Em minha defesa, eu quase não fico dentro da base!
Apesar de estranho, era compreensivo; Lucy realmente não tinha o costume de ficar muito na base, ela sempre estava em missão ou ocupada com seu trabalho de diretora. Kate é conduzida ao local, e assim que chega fica encantada com a quantidade de livros. Era um local muito bem iluminado e com uma grande quantidade de estantes empilhadas de forma simétrica.
— Tem vários livros sobre diversos assuntos aqui. Você pode checar essa área da esquerda para encontrar histórias de fantasia, caso fique interessada.
— Na verdade, eu queria achar uma área com informações sobre as Laders.
— Bom, se era isso que você queria, temos alguns bancos de dados nos servidores...
— Não, eu prefiro ler. Tem algum livro aqui sobre isso?
— Aquela estante ali — diz ele apontando, — tem alguns livros sobre as Laders, mas são bem antigos, e alguns deles nem estão na nossa língua.
Kate se dirige até a estante e começa a mexer em alguns livros. Larry percebe que a garota está bem à vontade e se despede.
— Bom, eu tenho que trabalhar, fique o tempo que quiser.
Uma semana se passa desde o ocorrido, e Kate finalmente começa seu treinamento. A garota é levada para uma sala circular, muito espaçosa e com um teto alto. A sala tinha vidros na parte de cima das paredes, no local atrás deles ficavam corredores, de onde era possível ver a sala inteira. Kate, Lucy, Amanda e Lily entraram na sala, ambas usando roupas mais leves e que permitiam movimento, e Kate e Lucy foram até o centro dela. Vários funcionários do local se reuniam em volta dos vidros para ver o treino delas. Lucy e Kate se posicionaram a uns dois metros de distância uma da outra.
— Pois bem, Kate, vamos ver o que você sabe em questão de luta corporal. Pode vir para cima.
Kate ficou parada, observando Lucy por uns bons segundos, até que subitamente avançou para cima da mulher. Lucy tentou defender o ataque de Kate, mas a garota rapidamente mudou o curso de seu movimento e agarrou o braço direito de Lucy, virando para trás e pressionando-o contra as costas dela.
— Ela subjugou a Lucy?!
Surpresa, Lucy faz um rápido movimento, girando seu corpo e se livrando de Kate, atacando-a ao mesmo tempo com um chute; Kate se esquiva com maestria abaixando e dando uma rasteira em Lucy, acertando sua única perna de apoio, derrubando-a e colocando seu joelho sobre a clavícula de Lucy, segurando os dois braços dela com uma única mão acima da cabeça dela.
— Mas... que merda de estilo de luta é esse?!
Todos no lugar ficaram surpresos com a cena.
— Acho que... lutar não vai ser um problema para você...
Kate sorriu e se levantou, estendendo a mão para ajudar Lucy.
— Achamos a nova campeã da Sede. — Dizia Lily, levantando o braço direito de Kate.
— Foi a primeira vez que eu vi a Lucy ser subjugada desse jeito! Nem a Ayla te derruba tão rápido! Parece que você tá perdendo a prática!
— Foi sorte de principiante! — Dizia Lucy, desconfortada.
— Então, Kate... acho que agora nós deveríamos começar com seu treino mágico...
— Podem pular o básico, se quiserem. — Disse ela com um rosto pacato.
— Não, o básico é importante, sem ele você não vai ser capaz de...
— Siru Saito. — O corpo de Kate, assim que ela diz essas palavras, é coberto em chamas.
— Ah meu Deus! Ela entrou em combustão instantânea! Alguém joga água nela!
— Calma Lily! Isso sou eu usando magia básica.
As três ficam perplexas e sem palavras. Kate desfaz a magia e, surpresa, percebe que suas roupas desapareceram. Em um súbito grito ela rapidamente ativa a magia novamente abraçando o próprio corpo.
— Alguém traz roupas novas para mim!
Lucy começa a rir.
— Isso é o que acontece quando você tenta dar uma de sabida! Mesmo assim, — ela para de rir, mas continua com um grande sorriso, — eu estou impressionada com o fato de você conseguir usar magia Daryana, como conseguiu?
— Eu aprendi na biblioteca, eu achei alguns livros que ensinavam o básico de magia.
— E você leu todos eles?
— Sim.
Lucy e Amanda se encararam surpresas. Larry entra na sala com um conjunto de roupas e coloca no chão, próximo a Kate, que ainda estava em chamas.
— Não precisa nem desativar a magia para vestir essas roupas, são roupas especiais que são resistentes a fogo.
Kate rapidamente se veste e desativa a magia. Lucy, então, começa a falar.
— Bom..., mas mesmo tendo lido nos livros, tem algumas coisas que preciso explicar a você. Primeiro de tudo, você conhece o conceito de aura mágica?
— Pelo que eu li, é um revestimento que o usuário faz em volta do corpo, que o protege de suas próprias magias e de coisas externas.
— Bem, sim. Ela também protege seus equipamentos e é responsável por aumentar sua força física e resistência, permitindo você socar e chutar paredes sem se machucar.
— Por isso o rosto daquele cara estava tão duro.
— Sim, foi por isso. Um outro conceito que você deve aprender é o inventário.
— Uma alocação no seu mana máximo que permite você guardar objetos. Quanto maiores, pesados ou mais afinidade mágica, mais mana é necessário para guardá-los. Se estiver guardando algum objeto, o mana equivalente a ele não poderá ser usado em batalha.
— Tinha isso nos livros também?
— Sim, inclusive, qual é a habilidade específica de vocês?
As três ficam muito surpresas pelo nível de conhecimento da garota. Ela tinha passado apenas uma semana na base e já tinha absorvido tantas informações.
— Quanto tempo você passou na biblioteca?
— Eu fiquei a semana toda lá. Acho que li quase todos os livros da ala de magia.
— E você entende sobre o conceito de habilidade específica?
— Sim. Cada Lader tem uma magia própria, característica dela, e que nenhuma outra Lader é capaz de usar. E tem uma magia que é específica da pessoa, que independente dela ser uma Lader ou não, ela é capaz de usar; isso é, além da magia Elemental dessa pessoa, claro.
— Como que é? Onde você leu isso?
— Em um dos livros da biblioteca.
Lucy encara as outras duas, que dão de ombros sobre o assunto.
— Habilidade específica de cada pessoa?
— Sim, por exemplo, eu li que a habilidade específica da Lader relâmpago é a energia infinita.
— Sim, essa é a minha habilidade.
— E isso significa que você tem uma quantidade infinita de energia que pode usar sem se preocupar em ficar sem; isso enquanto está transformada.
— Sim.
— Mas a habilidade de transferir essa energia para outras Laders pode ser uma habilidade específica pessoal, significa que não é todas as Laders relâmpago que vão manifestar essa habilidade, apenas algumas; embora a maioria acabe manifestando ela também. E significa que outras habilidades podem surgir no lugar também.
Lucy fica perplexa ao ouvir isso.
— Mas... eu nunca tinha ouvido sobre isso antes...
— Vocês nunca leram os livros da biblioteca da base antes?
— Bem...
Elas se olham meio envergonhadas. Amanda começa a rir.
— Só você mesmo, Kate! Até quando é para você aprender algo, você que acaba nos ensinando.
— Não foi minha intenção... desculpa.
— Não to te repreendendo! Eu estou te elogiando!
Nesse instante a porta automática do lugar se abre e três mulheres entram na sala. Ambas vestiam roupas totalmente brancas. A que liderava o grupo parecia mais velha, cerca de trinta anos; cabelos lisos que iam abaixo um pouco do ombro, um rosto asiático e bastante alta, cerca de 1,80 de altura. A segunda tinha um cabelo ondulado em um castanho bem claro, quase loiro, e os olhos em uma cor caramelo, cerca de vinte e cinco anos. A terceira era muito nova, um pouco mais velha que as três estudantes, tinha um cabelo curto e estava com muita olheira, como se tivesse chorado bastante.
— Bom dia, garotas, como estão? — Lucy abre um leve sorriso ao fazer a pergunta. A garota mais velha tenta sorrir, mas o sorriso mal para em seu rosto.
— Já estivemos melhores.
Lucy se vira para Kate e sinaliza em direção as garotas.
— Kate, essas são Takira, Gabriela e Dominic, elas são as aprendizes da Lader Lux.
Kate fica com um rosto bastante impressionado enquanto encara as três.
— Incrível! Três aprendizes... A Lux deve ser muito forte mesmo!
A garota mais nova solta uma interjeição de raiva, mas é segurada pela garota do meio, que faz um sinal de repreensão para ela. A mais velha se aproxima de Kate com um leve sorriso.
— Então você é a nova Lader Volcano?
— Sim, eu me chamo Kate!
— É um prazer. Lucy, precisamos falar com você.
— Bem, eu estou ouvindo.
— Eu gostaria que fosse em particular...
— Tem mesmo a necessidade? E eu já tenho uma boa ideia do que vocês três vão dizer.
Elas se entreolham com certo receio. Amanda dá um passo à frente com um rosto sério.
— Tenho certeza de que é difícil a situação que vocês estão enfrentando agora, mas vocês têm que entender...
— O que diabos você sabe do que estamos passando?! — Gritou Dominic, a mais nova. — O que uma garotinha mimada como você sabe sobre o que estamos passando?! Você se tornou Lader sem nem saber usar magia direito! E nós estamos dando duro aqui e isso acontece!
Amanda respirou fundo, fechou os olhos, e calmamente respondeu.
— Minha mestra morreu na minha frente, por causa de um erro tolo que eu cometi. Se é sobre esse sentimento de culpa, medo e insegurança, eu sei bem do que se trata.
A garota hesita e se acalma, abaixando a cabeça.
— Perdoem a Dominic, ela está...
— Não, tudo bem, eu entendo. Não é fácil ter que aceitar o que aconteceu.
— Mas vocês precisam entender que aconteceu. — Diz Lucy, com um tom nada empático. — Lux está desaparecida, e o que vocês vão fazer agora?
— Era sobre isso que queríamos falar, nós queremos...
— Não, você está certa, vocês "querem". É isso que vocês querem, mas o que vocês precisam fazer?
As três hesitam.
— Imaginem como Ayla se sentiria se retornasse e não encontrasse mais vocês?
— E se ela não voltar?! — Gritou Dominic, mais uma vez.
— Não vai ser uma idiota igual você que vai trazê-la de volta! — Gritou Lily em resposta.
Dominic se prepara para avançar em Lily, mas é segurada por Gabriela.
— Vocês duas, parem agora com isso. — Grita Lucy de forma imponente. — Loreley, cala sua boca, se não vou enfiar meu arco dentro da sua garganta!
Os ânimos das garotas se acalmam um pouco e Takira fecha os olhos com um rosto de choro, abaixando a cabeça.
— A mestra... prometeu que voltaria... e nós confiamos na palavra dela...
— Mas?
Ela hesita.
— Mas eu não acho certo nós ficarmos paradas, sem fazer nada! Eu preciso encontrar ela!
Kate assistia a cena com um rosto triste. Ela então se aproxima da mulher mais velha e segura as suas duas mãos.
— Ei, se ela prometeu que voltaria, tenho certeza de que ela vai voltar.
— Como você poderia saber? Você nem a conhece.
— Eu sei por que ela tem vocês como aprendizes. Não é fácil para uma Lader ter aprendizes, na verdade é a coisa mais difícil que uma Lader pode ter. As aprendizes só demonstram o quão forte uma Lader é. E elas demonstram também o tipo de Lader que ela é. Só de olhar para vocês eu consigo ver; ela é uma mulher forte, com uma personalidade firme e calma.
— Consegue dizer isso só de olhar para nós?
— Sim! E o fato de vocês três estarem tão preocupadas com ela mostra que ela é uma mulher incrível!
Dominic dá um tapa em Gabriela e se solta, avançando para cima de Kate, derrubando-a, segurando em seu colarinho e pressionando ela contra o chão.
— Você não tem permissão para falar da nossa mestra! Eu nem sei quem você é! Uma qualquer que ganhou o título de Lader pelo simples capricho do destino!
Kate faz um rosto neutro perante a situação; rapidamente ela segura os pulsos de Dominic e faz um movimento brusco, derrubando-a e subjugando-a. As outras duas ficam surpresas com a cena. Kate pressionava o rosto de Dominic contra o chão com uma das mãos, enquanto segurava os dois pulsos dela com a outra mão atrás das costas da garota.
— O amuleto escolhe as mais capazes. Eles não cometem erros. Não existem "caprichos" nas diretrizes dele. É por isso que eu deixei você me derrubar, pois se não fosse por isso, eu teria te acertado quando vi você vindo para cima de mim. Você foi escolhida pelo amuleto também, então significa que você tem algum valor.
Amanda tinha um rosto pensativo e curioso enquanto encarava Kate. "Ela realmente leu todos os livros da biblioteca?" pensava ela enquanto assistia a cena.
— Você está se achando demais já! — Dominic começa a brilhar e suas roupas começam a se liquefazer. — Jay...
— Kate, solta ela! — Gritou Lucy, preocupada.
Com um rápido movimento, Kate bate a cabeça de Dominic contra o solo, desmaiando-a e parando a transformação.
— Incrível, vocês são capazes de se transformar mesmo estando longe do amuleto, somente pela ligação entre vocês e a mestra de vocês.
Todas ficaram sem reação com a cena. Kate ajeita a garota em uma posição confortável no chão.
— Como você fez isso? — Takira estava impressionada com a performance da garota. — Você parou a transformação dela tão rápido...
— Enquanto ela se transformava eu percebi; existe um pequeno ponto em que a transformação se torna vulnerável. Nesse ínfimo instante dá para pará-la, se você for rápida o bastante. Mas isso foi um bom sinal; se ela ainda consegue se transformar, mesmo estando tão longe do amuleto, significa que Lux ainda está viva.
As duas se entreolham com brilho no olhar.
— Isso é verdade... nós não tínhamos pensado nesse ponto... e o amuleto teria retornado para uma de nós se isso acontecesse.
Gabriela vai até a companheira desmaiada e a pega no colo.
— Nos desculpe por isso. — Diz Gabriela.
— Tudo bem... — Responde a mulher loira, — não se preocupe. E então?
— Nós... precisamos de um tempo, Lucy. Eu não sei se podemos mesmo simplesmente deixar Lux nas mãos do destino.
— Então façam o oposto, deixem o destino dela nas mãos dela.
As garotas ficam pensativas e saem da sala. Amanda e Lily correm até Kate, impressionadas.
— Como foi que você fez aquilo?! Caramba, eu nunca imaginei te ver nesse tipo de situação!
— O que? Ela que me atacou primeiro! Eu só me defendi!
— Está bem... — Diz Lucy, com um sorriso sem graça, — acho que sou eu que vou acabar pedindo umas aulas com você...
...
No que parecia ter sido um dia um anfiteatro — agora totalmente destruído e completamente sujo — um grupo se reúne; era um ambiente escuro e bastante amplo. O homem que entrava, girando o cajado em suas mãos de forma descontraída, sorria enquanto encarava a mulher sentada no escuro, no centro do palco; ela parecia entediada, com as pernas cruzadas e a cabeça escorada em uma das mãos fechada enquanto seu cotovelo descansava sobre o braço da cadeira.
— Estamos com um problema bem visível agora. — Dizia o homem de cartola.
— Me diga algo mais óbvio, por favor. — respondeu a mulher.
— Não acho que seja um problema tão grande, — Disse uma voz infantil vinda de cima dos dois; uma silhueta pendurada em um pedaço de pano, — Inclusive, acho que essa seria a hora perfeita para tentar um ataque direto! Elas estão fracas, seria fácil roubar os amuletos.
— Precisamos ser calmos e discretos, — disse a mulher no centro do palco, — se chamarmos a atenção demais, podemos arrumar problemas com vocês sabem quem.
— Por que ainda nos submeter àquela pessoa?
— Porque ela é a chave para o sucesso de nossa operação.
— Sem querer ser grosso nem nada do tipo, mas já sendo... eu acho terrivelmente IMBECIL o fato de termos que depender de alguém como ela. E te acho deveras IDIOTA, DISPLICENTE E EXTREMAMente...
A lâmina se cravando no chão logo abaixo de suas pernas fez o homem parar sua sentença exaltada.
— Como ia dizendo?
— Eu acho... que deveríamos ser um pouco mais... cautelosos...
— Deixe-a pensar que está no comando. Ganhamos aliados, ficamos mais fortes... e consequentemente mais próximos do nosso objetivo. Além do mais, não estamos próximos de nosso estado perfeito. Nossa homeostase ainda não está completa, e precisamos nos organizar antes de agir. Sem falar que precisamos economizar energia...
O homem de cartola gira o cajado mais uma vez, fazendo uma dancinha descontraída com ele.
— Sabe de uma coisa, eu poderia facilmente pegar um para vocês duas, se me deixassem.
— Por hora, prefiro que cuide das coisas menores.
Ele faz uma interjeição de raiva, mas logo volta a sorrir.
— É meio decepcionante, mas vou aceitar a minha posição.
A mulher fica o encarando dançando por alguns segundos antes de se pronunciar novamente.
— Meus olhos são os seus olhos, meus ouvidos seus ouvidos; não se esqueça disso.
— Somos um só, afinal de contas...
— Se está entediado, vá brincar com os cachorros no parque.
O homem abre um grande sorriso, se vira em um giro cômico e começa a andar em direção à saída. Assim que ele sai, a mulher vira seus olhos para cima em direção à figura dançante entre as cortinas do teatro.
— Acha que consegue pegar o amuleto da Volcano?
— Com ele servindo de distração? Vai ser como tirar doce de criança!
...
Lucy entrava no quarto branco acompanhada de duas pessoas, ambas usando máscaras. Em cima da mesa jazia algo coberto em um grande pano branco; sua silhueta se assemelhava a de uma mulher.
— Já fizeram a autópsia?
— Sim.
— O que descobriram?
— Nós... ainda não identificamos a causa da morte. — respondeu um deles.
— Nós poderíamos claramente dizer que foi causado pela laceração em seu peito esquerdo, — completou o outro, — mas... algo não parece certo.
Lucy se aproxima do corpo e puxa suavemente o pano até a cintura dele. A mulher deitada ali tinha uma pele escura, mas em um tom bem acinzentado. No peito um grande buraco onde era possível ver o interior do corpo.
— Onde está o coração dela?
— Ela já estava assim quando a encontramos.
— Não é seguro dizer que ela morreu por causa disso?
— Pelo que contestamos, a laceração em seu peito foi feita depois que ela já havia morrido.
— Isso significa que arrancaram o coração dela depois de terem-na matado? Por quê?
Lucy coloca sua mão sobre o rosto gélido da amiga, acariciando sua bochecha. Ela sente um calafrio incomum percorrer sua mão.
— Algo não está certo... eu sinto como se...
— Qual o problema?
Lucy fica com um rosto desconfiado, ela então se vira para os dois legistas e os encara com um rosto sério.
— O corpo dela...
— Sim, também reparamos isso. Ele não está se decompondo de forma comum. Achamos que poderia ser efeito de alguma magia, talvez a magia responsável por a ter matado.
Lucy mais uma vez acaricia o rosto dela e suspira.
— Flora, eu prometo que vou achar os responsáveis por isso.
...
O sinal soava em alto e bom som, enquanto as garotas recolhiam seu material e se preparavam para voltar para casa. Já haviam se passado alguns dias desde o ocorrido.
— Escuta Amanda, tem algo me incomodando.
— O que seria?
— Por que ninguém está comentando o que aconteceu aqui na escola? Sobre os corruptores. Se essas coisas são tão antigas, como ninguém sabe da existência deles?
— Bem... na maioria dos casos, eles acabam não deixando rastros. Desaparecimentos, assassinatos sem solução, avistamento de alienígenas ou coisas sobrenaturais não explicadas... muitas dessas coisas são obras de corruptores. Então não é como se não tivessem comentários. Mas em casos tão abertos e específicos como os daquele dia, a organização tem um método especial para lidar com a situação. Nós temos uma magia especial que substitui memórias; ela não é perfeita, mas usamos ela para modificar levemente a mente das pessoas a fim de que a própria mente delas faça o resto. Como não é lógico para a maioria delas monstros existirem, trocamos o evento por uma explosão acidental, então o que eles viram na verdade não foram os monstros, mas fumaça.
— Entendo... as memórias em si não desaparecem, mas são confundidas de forma que a própria mente da pessoa monte um cenário lógico.
— É mais ou menos isso.
— Mas e então, qual o cronograma para hoje?
— Se refere ao seu treinamento?
— Sim, o que vamos fazer agora?
— Você parece bem animada, não é? E tem treinado com bastante vontade. Mas infelizmente vou ter que te dar um belo de um banho de água fria, Lucy me pediu para ficarmos na escola hoje, ela está bastante ocupada e precisamos terminar os preparativos para o festival.
Kate suspira frustrada.
— Vou começar a ter aquela vida dupla de heroínas agora, não é?
Amanda ri com a colocação da amiga. As duas então sentem alguém se escorando em seus ombros, era Lily.
— Já que é assim, para a sala do conselho! Ou deveria dizer "para o quartel general!"?
— Falando nisso, Lily, como estão as coisas com as barracas? — Pergunta Kate.
Ela solta as duas e se posiciona de frente a elas com um grande sorriso e gesticulando bastante.
— A turma 1B confirmou que vão fazer um churrasquinho! A turma 3A ficou responsável por montar uma barraca de tiro ao alvo! E depois dessas duas já temos a lista completa! — Ela puxa um pedaço de papel e entrega Kate.
— Você é mesmo uma pessoa eficiente.
— Como a homeostase do corpo humano! A propósito...
— Não! — Interrompe Amanda. — Já deu Lily, sem perguntas idiotas para a Kate!
Elas ouvem alguém se aproximando.
— Ora vejam só, as três estão bem animadas hoje, não é? — Dizia a voz doce e suave da garota que chegava até elas.
— Mikaela! — Loreley se impulsiona a abraçá-la. A garota faz leve carícias na cabeça de Loreley em resposta, dizendo "pronto, pronto", quase como faria com um animal de estimação.
— Estão indo para o conselho estudantil?
— Vamos organizar alguns papéis, quer vir junto?
Mikaela bate as mãos em entusiasmo e abre um enorme sorriso.
— Adoraria!
Elas começam a caminhar em direção à sala; Loreley e Mikaela andavam na frente. Amanda aproveita a oportunidade para perguntar algo a Kate, em baixo tom.
— A propósito Kate, já conseguiu usar seu amuleto?
— Ainda não... essa coisa é bem mais complexa do que pensei.
— Você dizendo isso, eu estou surpresa.
— Bem... existem certas coisas que nem os livros são capazes de ensinar. No fim das contas, mesmo tendo decorado tantas palavras daryanas, a única magia que consegui aprender foi aquela que usei mais cedo.
— As magias daryanas não dependem apenas de pronúncia, você precisa ter a real intenção de usar elas, ou então elas não funcionam. Têm vários requisitos para que elas funcionem; a fala é apenas o passo inicial.
— Isso é até uma boa coisa, imagina se você acabasse usando uma magia sem querer só porque falou o nome dela. E aliás, por que falar o nome? Denuncia completamente o que estamos prestes a fazer...
— É como eu disse, as palavras são uma espécie de comando, a magia não funciona sem elas.
— Por que vocês duas estão cochichando aí atrás? — Pergunta Mikaela, se virando e fazendo um rosto curioso e sarcástico.
— Ah, não é nada! É só uma série que estamos assistindo.
— Eu adoro séries! Me conta!
Elas começam a se atrapalhar com as palavras.
— É aquela que tem... aquele vilão... e tem aquele herói de armadura... e eles lutam com aqueles bichos que... eu esqueci o nome.
— Os guerreiros de safira! — Grita Lily. — Eu adoro essa série também!
— Ah, eu não sou muito próxima de séries de heróis. — Dizia Mikaela aos risos, de forma suave e gentil.
— Aposto que você assiste séries românticas, tem a sua cara! — Disse Lily de forma jocosa.
— Eu gosto de séries de mistério, tipo Detetive Carvalho.
— Eu estou surpresa!
Mikaela faz uma pose da série com um sorriso fofo, fazendo uma arminha com os dedos; ela tentava parecer durona, mas o efeito foi completamente o oposto.
— Você está preso, em nome do meu distintivo!
Lily coloca as duas mãos no rosto com um rosto encantado.
— Tão fofinha! — Ela se atira em Mikaela, abraçando-a. — Você é a coisa mais fofa do mundo!
Amanda e Kate suspiram aliviadas e se entreolham.
— Acho que devemos ter mais cuidado em conversar essas coisas dentro da escola.
Kate assente com um sorriso aliviado. Elas chegam no local e começam a ajeitar o lugar. Amanda retirava e mexia em alguns papéis enquanto Mikaela e Lily juntavam quatro mesas no centro da sala. Nesse momento um bipe começa a tocar no bolso de Amanda, ela rapidamente coloca os papéis em cima de uma mesa junto a sua bolsa e coloca a mão em seu bolso, puxando seu telefone.
— Han... Amanda? — Perguntava Kate preocupada, desconfiada.
— Eu... preciso sair. A diretora acabou de me mandar uma mensagem.
— Tudo bem, acho que posso cuidar das coisas aqui.
— Lily, será que você poderia vir comigo?
A garota faz uma cara de tédio e começa a fazer birra.
— Ah, mas eu queria ficar com a Mikaela!
— São ordens da diretora, ela disse que é sobre aquele mágico que estávamos querendo contratar.
Lily faz um rosto sério na mesma hora.
— Tudo bem em deixar as duas sozinhas aqui?
— Não se preocupe com a gente, — comenta Kate, — nós damos conta de alguns papéis.
— Desculpa de verdade, Kate, Mikaela! Prometo que vou compensar isso depois.
As duas saem com bastante pressa da sala, e Mikaela fica com um rosto levemente confuso.
— Bem, parece que agora somos só eu e você.
— Ora..., mas que coisa. — Diz Mikaela em tom jocoso. — Acabei sendo puxada para trabalhar e elas jogaram as coisas na minha mão assim.
— Ei, eu to aqui!
— E ainda tenho que fazer tudo sozinha!
— Isso meio que machuca...
Mikaela começa a rir.
— Eu estou brincando sua boba. E então, por onde começamos?
Enquanto isso, Lily e Amanda corriam em direção ao centro da cidade, que não era muito longe dali.
— Detalhes Amanda. É aquele cara de novo?
— Sim, ele está com um grupo de corruptores leves. Ele está de fato os controlando.
No parque, um homem lutava contra algumas criaturas negras parecidas com lobos. No topo da fonte que ficava no centro do parque, o homem mascarado encarava-o com um sorriso no rosto.
— Quem você está querendo enganar? Você nem ao menos é uma mulher para ter um amuleto! E ainda quer lutar contra eles?
— Eu posso não ser uma Lader, mas não vou fugir e deixar que você faça o que bem entende!
— Tão corajoso! Tão altruísta! Você é de fato um homem e tanto! Vamos, me dê seu nome, preciso saber!
— Larry! — Gritou Amanda, se aproximando e se colocando entre ele e os lobos.
— Você está ferido! — Lily se abaixa para atender o homem, que estava ajoelhado segurando o ferimento no braço direito.
— Deixa o resto com a gente.
O homem no centro do parque começa a rir.
— Olha, de fato! Ele estava fazendo um ótimo trabalho... vocês tinham que ver!
Amanda começa a olhar em volta e vê algumas manchas pretas no chão, como se fossem poeiras.
— Você conseguiu derrotar alguns deles?
— Eu fiz o que pude para segurá-los enquanto as pessoas fugiam. Ele apareceu do nada com essas coisas, por sorte eu estava por perto e consegui ligar para Lucy avisando sobre a situação.
— É, pois é! E aí eu e ele começamos a dançar juntos, mas ele não conseguiu me acompanhar e machucou o braço! Fazer o que né.
— E por que não dança comigo agora?! — Grita Lily de forma asquerosa.
— Você nem ao menos consegue acompanhar meu ritmo! Não lembra da última vez?
— Da última vez ela te deu uma surra. E dessa vez eu não sou um peso morto também.
Ele faz um rosto de deboche e tédio.
— É sério isso? Não, vocês estão realmente achando que estão em vantagem? Vou mostrar para vocês que eu não sou um corruptor qualquer...
Ele gira o cajado em suas mãos e aponta ele em direção à Amanda que em resposta se esquiva, desviando de uma vinha que subiu ferozmente do chão.
— Ele está usando o cajado da Flora!
— O que é você?! — Grita Lily.
— Eu sou os olhos e ouvidos dela.
— O que?
— A máxima apreciação do ser! O incrível personagem da grande obra de teatro do viver! A episteme da verdade absoluta!
— Esse cara tem uns parafusos a menos, Amanda.
— Eu já reparei isso.
— Já sincronizou?
— Falta pouco.
Ele ataca as duas novamente com vinhas, enquanto os lobos negros vão para cima delas.
— Lembram-se da última vez?! Vocês fizeram isso também! Ataques coordenados! — Ele começa a rir desenfreadamente, mas é interrompido por uma voadora surpresa que acerta sua costela; era Lucy que já estava transformada. O homem cai no chão em meio a tosses e grunhidos.
— Cheguei atrasada, me desculpem. — Ela segura o pulso esquerdo de Lily e no mesmo instante a garota se transforma.
— Caramba... que chute desgraçado de doído... você faz academia?
— De vez em quando. Tenho que manter meu corpo em forma.
— E de fato, que corpo. — Ele se levanta meio cambaleante.
...
— Ah, preciso de uma pausa...
— Mas a gente mal começou!
— Desculpa Mikaela, eu tô muito cansada...
— Ficou a noite acordada por acaso?
— Não... é que eu estou treinando muito ultimamente... digo, para o dojo.
— Entendo. Dar aulas não deve ser fácil.
Kate se levanta e vai até a porta.
— Eu já volto, vou só tomar uma água.
— Não demore, temos três pilhas para preencher ainda!
Kate faz uma cara de desânimo e pensa "Por que eu ainda não aprendi a lutar?".
Ela anda até o corredor e se espreguiça, fazendo seu caminho até os bebedouros. Ela se aproxima de uma das torneiras e toca no botão, mas não o aciona. Ela fica ali parada por uns cinco segundos antes de virar levemente seu rosto para o lado esquerdo.
— Hun, percebeu minha presença? Talvez você não seja tão ruim quanto parece...
— Quem é você?
— Eu não acabei de responder essa pergunta? Ah, não foi eu... então, — a garotinha na sombra limpa a garganta e se revela, — eu sou a máxima apreciação do ser! O incrível personagem da grande obra de teatro do viver! A episteme da verdade absoluta!
— Você é uma boneca falante?
— Uma marionete, para ser mais exata.
Ela tinha um metro e cinquenta, seu corpo inteiro era feito de madeira e com um vestido vitoriano listrado em vermelho e preto. Uma maria Chiquinha em seu cabelo e um pequeno chapéu do lado esquerdo de sua cabeça. Seu rosto era pintado com uma maquiagem que fazia ela parecer ainda mais uma boneca.
— O que faz aqui?
— Vim pegar seu amuleto.
— Hein?
Com um rápido movimento Kate se esquiva de um ataque que destrói todo o bebedouro e paredes.
— Mas que merda foi isso? — Dizia a garota enquanto se recuperava do susto.
Os dedos da boneca agora pareciam navalhas, ela os mexia com bastante energia enquanto sacudia o corpo retirando os estilhaços dele. Seus movimentos eram meio robóticos e travados, parecia literalmente uma marionete.
— Vamos brincar, quero ser sua amiguinha!
— Sai pra lá demônio! — Gritou Kate com um rosto cômico.
— Se você me entregar o amuleto pacificamente, pode ser que eu te deixe viver...
— Prefiro não confiar na probabilidade do seu "pode ser".
— Então, nesse caso, vamos brincar...
...
Amanda coloca gentilmente Larry escorado em uma arvore.
— Você vai ficar bem, foi só um arranhão.
— Sim... volta pra lá e acaba com ele.
— Antes preciso tratar esse seu braço, você perdeu muito sangue.
— É... me desculpa por isso.
— Mas como é possível... ele tem o cajado da Flora, e consegue usar os poderes dele...
Enquanto curava Larry, a garota percebe um pequeno furo em sua camisa, na região do abdômen. Larry percebe os olhos preocupados de Amanda sobre seu abdômen e começa a sorrir.
— Isso não é nada demais, foi só um golpe que ele me deu com o cajado da flora. Vê? — Ele levanta a blusa e mostra a ela um pequeno ponto vermelho próximo a sua costela, uma contusão leve.
— Ah, achei que poderia ser algo sério. Bom, de qualquer forma, deixe-me resolver isso para você, ainda deve estar doendo.
Ela leva uma das mãos até o local e recita novamente a sua magia de cura.
Enquanto isso, Lucy se esquivava de mais um ataque ao mesmo tempo que Lily se posicionava atrás do homem, mas antes que pudesse fazer algo uma vinha a acerta e a derruba no chão.
— Droga, isso não tá indo para lugar nenhum...
Ele começa a rir novamente.
— Eu tô adorando isso! Vocês são hilárias!
— Escuta, esquisitão, será que posso te fazer uma pergunta?
— Han? Tá, pode. Fala. — Ele faz uma cara de desinteresse.
— Por que arrancar o coração da Flora depois de matá-la? O que vocês queriam com o coração dela?
Ele abre levemente a boca e vagarosamente um sorriso se forma.
— Amor.
— Amor?
— O que mais um homem iria querer depois de roubar o coração de uma mulher?
Lucy morde sua resposta ao homem com fúria.
— Mestra Lightning, se acalma, ele está apenas te provocando.
— Eu sei. O problema é que está dando certo.
...
Kate fugia das investidas enquanto corria pelos corredores da escola; a cada ataque eram mais destroços e poeira que voavam.
— Qual o problema? Não gosta de brincar de boneca? — Ela tinha uma risada esquisita e aguda, totalmente descontrolada.
Kate se esconde dentro de uma sala escura que servia de depósito. A boneca entra olhando em volta e começa a caminhar calmamente pela sala escura.
— Aqui gatinho, psiu, psiu, aqui.
Seus passos faziam um som que preenchiam o silêncio do ambiente.
— Pode correr, mas não pode se esconder! Ou pode se esconder, mas não pode desaparecer! Ou pode até sumir, mas... aí eu não teria falhado na minha missão? Acho que estou pensando demais.
A boneca então chega em um corredor com duas estantes cheias de aparatos esportivos. Ela continua andando até chegar em uma caixa suspeita, que parecia ter sido revirada. Ela vê um sapato saindo levemente de baixo da caixa e abre um sorriso.
— Te achei!
— Achou o caramba! — Gritou Kate do lado de fora da sala. A boneca não tem tempo de virar seu rosto para o corredor, pois logo após ouvir Kate, é atingida por uma explosão que abre um grande buraco na parede, desmoronando aquela parte inteira do prédio.
A boneca se levantava com dificuldade, tentando entender o que aconteceu.
— Uma armadilha? Por que teriam explosivos em uma escola? Espera, eram fogos de artifício?
Kate se afastava do local com bastante pressa, nesse momento ela esbarra em alguém e cai no chão, derrubando a pessoa também.
— Kate, o que está acontecendo? O que são esses barulhos todos?
— Mikaela, não tenho tempo para explicar, só vem comigo.
Ela agarra o pulso da amiga e começa a correr.
— Espera, você está sangrando.
— O que?
Kate coloca a mão no rosto e percebe que ele estava todo vermelho, ela tinha um corte na testa.
"Droga... eu esqueci de ativar minha aura mágica... pensando bem, se a Mikaela acabar se envolvendo nisso ela pode ficar em um pior estado que o meu. Eu não posso simplesmente pedir para ela fugir, aquela coisa pode ir atrás dela... e eu não posso ficar mantendo-a comigo, ela pode acabar se machucando... o que eu faço?"
...
— Tá bom, eu vou contar. Considerem um presente de despedida, já que vocês vão morrer aqui mesmo. E não faria diferença vocês saberem ou não, de qualquer forma...
Ele desabotoa a camisa e abre o lado esquerdo dela, revelando seu peito.
— Ei... aquilo é... não me diga que esse é o coração da Liz.
— Eu sei! Eu sei! Eu sei exatamente o que vocês estão pensando! Nossa que clichê! O vilão revelou seu ponto fraco assim de graça?! Mas calma, não é bem assim... Vejam bem, — ele bate com os dedos na proteção de vidro em volta do peito, — Esse é um vidro mágico criado a partir das cinzas de um dragão ancião, ou coisa do tipo... bom, ele é bem forte, mais forte que minha própria pele. Então mesmo que vocês me atingissem aqui não poderiam destruir o coração. E mesmo que o destruíssem, bom... ele não é meu. Então que se dane, não é? O máximo que aconteceria seria eu perder os meus poderes de Lader.
...
Kate e Mikaela são paradas pela boneca, que parecia bem irritada, girando a cabeça em 360 graus.
— Você me machucou, e eu tenho que te dar os parabéns por isso!
— Kate, que coisa é essa?
As roupas da boneca estavam bem gastas e queimadas, e era visível o coração pulsando no peito de madeira da boneca.
— Fica calma, eu sei exatamente o que fazer. Se afasta um pouco Mikaela.
Kate fecha os olhos e seu corpo começa a ficar quente. Ela segura seu amuleto com as duas mãos.
— Essa eu quero ver. — A boneca começa a rir enquanto se aproxima lentamente das duas.
— Jay Lirou Lader!
Nada acontece, e a boneca parte para cima das duas. Kate empurra Mikaela e defende o ataque da boneca, sendo jogada contra uma parede e destruindo ela.
— Kate!
A poeira subiu e cobriu todo o corredor. Mikaela se afastava tremendo, enquanto tentava ver algum sinal da amiga.
— Corre! Foge!
— Mas...
— Anda logo! Você só vai me atrapalhar se ficar aqui! Liga para a diretora Lightning do meu telefone, ela vai saber o que fazer! A senha é fogo!
Kate segurava os dois pulsos da boneca, que ria desenfreadamente.
— Você até que é fortinha! Me enganei sobre você!
...
— Ertei Saer! — Lucy atira várias pedras energizadas em direção ao homem, que defende com um galho de arvore que aparece em sua frente.
— Não se garante na porrada e já começa a tacar pedras!
Vários raios começam a circular o lugar onde as pedras se cravaram e Lucy abre os braços gritando a palavra "Tchera!". As pedras vão para lados completamente opostos, se repulsando, separando e destruindo o galho. Quase que instantaneamente Lily aparece na frente do homem com as duas adagas de Lucy e desfere um ataque certeiro, cravando-as no estômago dele.
— De novo isso... um ataque de distração para... abaixar minha guarda...
— E você caiu de novo.
— Pois é, eu não sou muito bom... com essas coisas...
Lucy começa a brilhar e aponta para os dois. Então Lily grita as palavras.
— Violous Ertei!
Um raio vindo de Lucy atinge os dois e uma grande explosão de luz e eletricidade os circundam. No mesmo instante Lily se destransforma, fazendo as duas adagas sumirem e aparecerem nas mãos de Lucy.
— Se afasta Loreley!
A garota recua e se reúne à sua mestra, enquanto o homem se ajoelhava no chão, fraco. Sua risada fraca e sem ar quebrou o silêncio e o clima voltou a ficar tenso.
— Vocês são muito interessantes... eu gosto disso. É mesmo uma pena eu não ter sentido tanto esse ataque.
Ele se levanta como se nada tivesse acontecido.
— Mas que droga... como ele...?
— Um epílogo em nossa luta! Vamos ver, e se eu matasse vocês agora? Será que teria problema?
— Esse cara tá muito roubado, — Grita Loreley, — eu não to gostando disso!
— Calma Loreley, mantenha o foco.
— Mestra, eu...
— Eu sei, mas não tem o que fazer.
Amanda se aproxima das duas já com sua armadura.
— O que aconteceu?
— A Lily usou o trunfo dela, ela não pode mais usar os poderes de Lader por hoje.
— Que droga... o que podemos fazer contra essa coisa?
Lucy recebe uma chamada em seu comunicador.
— Droga, não posso atender agora. Quem está ligando? — Ela olha para uma pequena tela em seu pulso e vê o número de Kate.
— É a Kate? Por que ela está ligando?
— Eu não sei..., mas ela não ligaria se soubesse que estamos em batalha... a menos que...
Lucy coloca a mão no comunicador em seu ouvido e atende a chamada.
— Alô, Kate?
— Diretora Lucy, sou eu Mikaela! Por favor! A Kate!
— Ei, se acalma, não consigo entender nada do que está dizendo Mikaela.
— A Kate está sendo atacada por alguma coisa! É uma coisa estranha!
O homem suspira entediado.
— Ah droga... a diversão acabou. Eu estou realmente desapontado com ela.
— Mikaela, se acalma, eu vou mandar alguém para aí imediatamente!
Elas então veem um raio de luz cruzando o céu e acertando o homem sem nem mesmo que ele percebesse.
— Não será necessário, Lucy. Gabriela e Dominic já foram para lá.
Era Takira, ela tinha acabado de cruzar o peito do homem com uma lança. Ela estava vestindo nada mais que seu uniforme padrão.
— Takira, como você...?
— Ei, eu sou a aprendiz da Lader Lux, esqueceu?
Ela retira a lança, e o homem rapidamente se afasta com cambalhotas.
— Droga, você é bem rápida... quase tão rápida quanto a mulher de branco.
— Então eu estava mesmo certa. Você viu a minha mestra.
— Veja bem, "ver" é uma palavra muito fort... — Ele fora interrompido com mais um ataque que penetrou seu peito.
— Diga, onde ela está?
— Rápida...
— Takira, ele não morre fácil com ataques comuns!
— É mesmo? Então acho que vamos ter que tentar outros métodos com você.
Ele vira fumaça e se afasta rapidamente delas.
— Tá bom, cansei dessa brincadeira, vou contar para a mamãe!
— Mas que cara chato...
— Ele está usando a habilidade específica da Flora, é por isso que não conseguimos feri-lo.
Amanda e Lucy se entreolham com a colocação de Takira.
— É óbvio... se ele consegue usar os poderes dela, então seria óbvio ele conseguir usar a habilidade específica também.
— Mas ele nem mesmo está transformado...
Lucy fica pensativa e encara o nada.
— Não... ele está sim.
— O que?
— A Flora... ela ainda estava transformada... É como se o corpo dele e o dela estivessem conectados...
— Ah que droga, não é justo, — Gritou ele, — Vocês estão estragando a brincadeira! Tá legal. É o seguinte, to indo embora. A gente se vê.
Ele desaparece em meio a uma fumaça preta.
— Lucy, temos que chegar até a escola!
...
Kate defendia a maioria dos ataques da boneca e se esquivava dos demais. A boneca, no entanto, ria como nunca, como se estivesse se divertindo aos montes.
— Você é muito boa! Eu gosto disso! Você é incrível! Eu quero brincar mais! Eu quero um pedaço seu!
A boneca é interrompida com um chute desferido por Dominic, que faz com que a boneca voasse contra uma parede próxima.
— Ei, será que podemos entrar na festa?
— Quem é você?!
— Caaaaara, deixa só a diretora ficar sabendo disso, olha só o que vocês fizeram com a escola. Torça para só tomar uma suspensão, Kate.
A garota se coloca a frente de Kate sem nem sequer olhar para ela.
— Graças a Deus...
— Ei, descansa um pouco. E antes que diga alguma coisa, ainda estou chateada por ter perdido a luta contra você..., mas eu agi de forma idiota àquela hora, então... me desculpa.
— Tá tudo bem. Eu também fui um pouco agressiva.
— Eu que o diga... — Dizia ela acariciando seu próprio rosto.
A boneca se levanta cambaleando.
— Droga, eu tenho que ir embora...
— Mas a gente acabou de chegar. — Dizia Gabriela, atacando a boneca, que se esquiva rapidamente.
Dominic ataca novamente a boneca com um soco, que defende o ataque com as duas mãos. As lâminas encostavam na pele de Dominic, mas não causavam injuria alguma.
— Sabe, eu gostava bastante de brincar com bonecas quando era pequena.
— É mesmo é?
— Sim, o problema é que eu sempre acabava as quebrando.
A boneca solta um estalo com a língua e faz um rápido movimento com as mãos, se livrando de Dominic e tentando fugir, mas é bloqueada por Gabriela.
— Não vai escapar.
— Ah, ela vai sim, e de forma épica! — A fumaça negra começa a envolver a boneca, que começa a rir.
— Oh, a carona chegou, que bom.
— Nos vemos por aí, garotas.
Antes que Dominic e Gabriela pudessem fazer algo a fumaça desaparece.
— Mas que merda, eles fugiram.
No mesmo instante Takira aparece envolta a um raio de luz.
— Ela fugiu?
— O seu amigo deu uma carona para ela.
— Ainda não somos tão rápidas quanto a mestra.
Kate começa a desmaiar, mas Dominic rapidamente vai até ela em um flash de luz e a segura.
— Ei, calminha. Não vai dormir agora.
— Eu só estou... cansada...
— Isso é compreensível.
...
A mulher permanecia na mesma posição de antes, com os olhos fechados enquanto ouvia os passos dos dois se aproximando.
— Decepcionante! Eu não acredito que fomos escorraçados desse jeito!
— A menina dos olhos azuis era bem esperta...
A mulher no palco solta uma interjeição de riso.
— Agora vocês dois entendem o porquê não estamos prontos ainda?
— Sim, M'lady, eu estava errado, e confio completamente nos seus comandos agora.
— Foi mal mesmo, chefia.
— Mas foi um bom golpe de sorte. Pelo menos agora temos mais noção da força delas pessoalmente. E você conseguiu cumprir o nosso objetivo?
O homem sorri, escondendo o rosto.
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