A diretora permanecia parada em frente ao portão, enquanto os soldados da organização vasculhavam a escola. Kate se aproximava de Lucy com certo receio. A mulher vê a garota se aproximando e suspira aliviada.

— Graças a Deus você está bem.

— Sim..., mas...

Lucy suspira, encarando o cenário a sua volta.

— Como diabos vamos explicar isso?

— Eu sinto muito.

— Tá tudo bem, a culpa não foi sua. É exatamente como Takira me disse; assim que ela ficou sabendo do ocorrido no parque ela desconfiou que era uma armadilha para te deixar sozinha. Foi algo óbvio, eu deveria ter desconfiado também.

Amanda e Lily se aproximam das duas e Lily pula em cima de Kate a abraçando.

— Eu deveria ter ficado com vocês!

— Ei, calma Loreley, eu estou bem! Droga.

— Lucy, e o que vamos fazer em relação à Mikaela? Vai ser... difícil sobrescrever as memórias dela, ela acabou vendo demais.

Lucy encara a garota que estava sentada em um canto conversando com um médico da organização.

— Nem me fale... e vamos ter que suspender as aulas..., mas como explicar essa destruição toda?

— Nos últimos anos têm ficado cada vez mais difícil esconder isso da humanidade.

Lucy anda em direção à Mikaela, juntamente com as outras três garotas.

— Então... — Dizia Mikaela com um falso sorriso. — Eu acho que vi algo que não deveria, não é?

Lucy sorri, desconfortável.

— Como se sente?

— Bom... eu ainda estou um pouco assustada, mas estou bem.

— Nós... vamos ter que bloquear suas memórias sobre o que aconteceu aqui, você entende isso, certo?

— Bloquear? Tipo lavagem cerebral?

— Mais ou menos isso... não é tão romântico quanto parece, mas sim.

Mikaela entrelaça seus dedos e fica pensativa. Kate se senta ao lado dela e encara seu rosto.

— Ei, eu preciso te agradecer.

— Me agradecer?

— Você salvou minha vida! Se não tivesse ligado para a diretora Lucy eu estaria com sérios problemas.

— Na verdade, — diz Lily, — as meninas da Lux já estavam vindo para cá então... — Ela é interrompida por uma cotovelada de Amanda, — Aí, que foi?

Lucy se vira para a escola e suspira tensa, ela então pega seu celular e começa a digitar um número nele. Amanda vê a mulher fazendo isso e se aproxima com um rosto preocupado.

— Para quem está ligando?

Lucy ignora a garota e coloca o celular no ouvido. Depois de alguns segundos a pessoa atende.

— Alô? Eu gostaria de falar com o Coronel George, diga que é Lucy Evans.

— Lucy! O que você está fazendo?!

O grito de Amanda chamou a atenção das outras garotas para o momento.

— Alô? Coronel? Sim... — Ela fica em silêncio por alguns segundos, fazendo uma cara bem desagradável enquanto ouvia o homem falando.

Amanda suspira colocando as duas mãos no rosto.

— Sim, senhor... não... na verdade eu queria pedir um favor... droga, digo, claro. Escola Secundária de Mitsury. Alô? Filho da mãe, desligou na minha cara...

— Lucy, você sabe que a gente não pode confiar nesses caras!

— Então me dê uma solução melhor, Amanda.

Ela fica em silêncio encarando a diretora.

— O que está acontecendo? — pergunta Kate de forma inocente.

— A Lucy acabou de chamar o governo.

...

Em poucas horas vários soldados começaram a ocupar a área da escola. O céu já estava escuro e apenas a luz das lanternas dos veículos e das luminárias colocadas estrategicamente pelo lugar iluminavam o ambiente. Lucy e as demais meninas permaneciam no lugar, encarando toda a movimentação, com exceção de Mikaela, que já havia sido conduzida para casa.

Um homem de mais de sessenta anos se aproxima delas com um rosto sério; ele vestia um uniforme militar de alta patente, em seu peito várias insígnias e tinha um ar bem ameaçador.

— Obrigada por ter vindo até aqui, Coronel.

— Veja só se as aberrações não decidiram nos ligar novamente, não é?

Lucy engole um palavrão que quase soltou ao ouvir o homem dizer isso.

— Senhor, não é muito educado falar assim com as pessoas. — Comenta um dos soldados que o seguia.

— Elas não são pessoas, são monstros que mantemos em coleiras. O que diabos vocês estavam fazendo aqui? Isso era para ser uma escola, não um campo de batalha.

— Eu peço desculpas por isso, mas isso fugiu completamente do nosso controle.

— Fugiu do controle, você diz... e para que vocês existem no fim das contas?

Lucy mais uma vez se segura para não falar nada indevido.

— E vejam só, parece que temos mais uma aberração por aqui. — diz ele olhando para Kate.

— Ei, eu não sou uma aberração! Eu sou só uma garota do colegial!

— Que é capaz de destruir uma montanha com um soco, isso para mim é a definição de aberração.

Kate faz um rosto de indignação ao ouvir isso, mas antes que pudesse responder um soldado se aproxima do coronel e cochicha algo em seu ouvido.

— Se me derem licença, preciso verificar algo.

Ele se afasta e Kate suspira se virando para Amanda.

— Nós não somos capazes de fazer isso mesmo, somos?

— O que? Destruir uma montanha com um golpe? Não, estamos longe disso... apesar de que... — Diz ela olhando para a escola destruída.

— Ei, eu não destruí a escola... foi aquela coisa!

— Você explodiu o depósito da escola com fogos de artifício.

— Ah... isso... meio que é verdade.

— Bom... eu disse que nós não somos capazes de tal coisa, mas tem uma de nós que talvez seja.

— Sério? Quem? A Lucy?

— Se eu tiver bem motivada talvez, — diz Lucy em tom cômico, — mas não, ela está falando da Lux. Se bem que eu duvide que seja com apenas um golpe, mas ela consegue sim destruir uma montanha.

O coronel se aproxima novamente delas e se dirige a Lucy.

— Onde está a aberração militar?

— Fala da Ayla? Ela...

— Ela está em missão. — Completa Amanda.

— Isso é uma pena. Ela é a única de vocês que eu consigo manter uma conversa... saudável. Vai ter que ser você mesmo, lamparina.

Lucy morde a própria língua, mais uma vez.

— Por que você tem que ser tão desagradável com a gente?! — Grita Kate, não se segurando mais.

— Como é que é garotinha?

— Você fica falando assim com a gente desde que chegou aqui! Sua mãe não te deu educação?

— Eu falo como eu quiser com aberrações como vocês! Vocês só existem com um propósito, que é lutar com aquelas coisas. Se eu pudesse, eu colocaria vocês em gaiolas e só as usaria nos momentos em que realmente precisássemos!

— Seu...

— Kate! Cala a boca! Ou vou te dar uma suspensão!

A garota fica surpresa com o grito de Lucy, e decide se acalmar.

— É bom saber que ao menos uma de vocês têm bom senso. Agora vamos direto ao assunto, pois estou perdendo muito tempo com vocês. Ultimamente temos achado muitas reservas de gás natural nessa região, e uma delas acabou ficando instável, e estava localizada justamente nessa escola. Agora, vamos ter que fechar o lugar para mais inspeções de segurança, está bom para você?

— Sim, obrigada novamente.

— Espero que lembre disso da próxima vez que fizer contato com aqueles idiotas de Oriana.

Ele se afasta e desaparece do raio de visão das garotas. Lucy então se vira, anda alguns passos e encara o céu noturno, puxando uma grande quantidade de ar e finalmente gritando.

— FILHA DUMA PUTA!

As outras ficam surpresas com o palavreado dela. A mulher se acalma e volta-se para as garotas com um sorriso falso.

— Vamos para a base!

...

— Aquele velho desgraçado! Se não fosse pela situação eu teria dado um belo de um chute no meio daquela cara enrugada dele!

— Eu duvido muito, bem provável que você agiria da forma que agiu.

Elas entraram em uma sala com apenas uma grande mesa e cadeiras, e alguns monitores nas paredes. Elas se sentaram, mas Kate permaneceu em pé.

— Por que deixá-lo falar daquele jeito com a gente?

— Política, Kate. Apenas o que você deve saber.

— Tá, mas por que ele disse que a Ayla é a única que consegue ter uma conversa amigável?

— Porque a Ayla tem bolas! — Gritou Lily com um sorriso.

Amanda suspira decepcionada com a colocação da amiga, se propondo a explicar.

— Se ele falasse daquele jeito com ela, a Ayla simplesmente se transformaria, caso já não estivesse transformada, e então só encostaria a ponta da sua lança na garganta do coronel, sem dizer uma só palavra. Daí o exército dele apontaria armas para ela e, em um piscar de olhos, as armas deles desapareceriam... então chegariam mais soldados e a cena se repetiria... ela continuaria naquela posição até o coronel ser mais gentil ou até ele se mexer e ela cortar o pescoço dele... é isso que aconteceria.

— Caramba...

— É, agora você entende o porquê do sumiço dela ser tão preocupante.

— E isso me leva a pensar... se é tão preocupante, por que não fomos atrás dela ainda?

As três encaram Kate como se ela tivesse acabado de fazer uma pergunta idiota. Era óbvio que o que quer que ela estivesse fazendo, as meninas não seriam capazes de ajudar. Talvez fosse exatamente por isso que Ayla tivesse se afastado, para proteger as outras garotas.

— Ah... tá, eu entendi. Não precisa me falar.

Lucy coloca as duas mãos sobre o rosto, escorando os cotovelos na mesa e solta um longo suspiro tenso.

— Que droga, Ayla... onde você tá?

Elas ouvem neste momento um chamado vindo dos auto falantes da base; era Takira.

— Garotas, estão ocupadas? Queremos que vocês venham até a sala de autópsia, preciso discutir algo com vocês.

Elas se dirigem ao local e as três aprendizes de Lux as esperavam.

— Qual o problema?

— É sobre aquele homem estranho de antes, tenho algumas análises que preciso compartilhar com vocês.

O corpo de Liz permanecia descoberto em cima da mesa. Kate, assim que entrou, virou o rosto e tampou a boca com as duas mãos.

— Você ficando enjoada em uma situação dessas? Nunca pensei ver isso com meus olhos.

— Não, eu to bem. — Diz ela se recompondo.

Takira coloca sua mão sobre o rosto do cadáver, encarando seu corpo; a garota estava usando luvas e tinha um ar completamente analítico.

— Eu achei estranho a forma como aquele homem manipulava os poderes da Lader Flora, então decidi analisar mais cautelosamente o corpo dela. Foi quando descobri alguma coisa, e é isso que quero compartilhar com vocês.

— Desembucha.

— Ela está realmente conectada àquele homem. É uma magia especial que nunca tinha visto antes, apenas ouvido falar. Veem? Flora ainda está transformada, em seu uniforme padrão de Lader. O corpo dela não se decompôs, apenas ficou pálido devido o sangue não circular, mas é quase como se o corpo ainda estivesse vivo.

— Está dizendo que ele está extraindo o poder diretamente dela?

— É como um parasita, o que interliga, no entanto, é o coração. E tem mais uma coisa...

— O que seria?

Takira faz silêncio enquanto encara o rosto da mulher na mesa.

— A Flora ainda está viva.

As garotas ficam surpresas com a colocação de Takira.

— Tem certeza?

— Absoluta, eu consigo sentir sua aura. Se ela emite uma aura mágica, significa que ainda está viva. De outra forma aquele homem não conseguiria extrair poder dela. No entanto...

— No entanto?

— Eu não faço ideia de como reverter esse estado.

Lucy suspira preocupada.

— Isso é um problema.

Kate mais uma vez encara o cadáver e coloca a mão na boca.

— Isso é nojento...

— Kate! — repreende Amanda. — Não fala assim! Ela é uma preciosa amiga!

— Eu sei... é que... só é nojento.

Elas se despedem e cada uma vai para seu quarto, porém Kate para Amanda no corredor para conversar.

— Amanda, estou confusa sobre algo, por que eu não consegui me transformar?

— Você tentou se transformar?

— Sim, durante a luta contra aquela marionete eu tentei usar meu amuleto, mas não consegui.

— Bom, a resposta pode ser simples e complexa, depende de como estava o seu estado mental no momento. O que me diz, se lembra de possuir algum sentimento específico?

— Sentimento específico? Bom... eu estava preocupada com a Mikaela.

— Só isso?

— Sim. Eu geralmente consigo ficar bem calma durante uma luta.

— Então está explicado. Você é uma pessoa muito racional, Kate. A sua preocupação com Mikaela poderia ter servido de gatilho para a transformação, se ela fosse uma preocupação real.

— Ei, está dizendo que eu não estava preocupada?

— Não foi isso que eu quis dizer, mas o fato de você não ter conseguido se transformar demonstra que seus pensamentos não estavam totalmente vinculados ao bem estar dela ou ao seu no momento que disse as palavras de transformação.

— Não entendi.

— Pense bem, Kate, vamos voltar àquela conversa que tivemos sobre as palavras daryanas. Eu disse na ocasião que era preciso mais do que palavras para se usar uma magia. A situação é exatamente essa aqui. A transformação exige um poder mental e emocional muito forte do usuário para funcionar. Geralmente nós Laders passamos por um árduo treinamento para controlar nossas emoções e vincular elas ao nosso desejo de se transformar quando quisermos. Esse processo se chama "sincronização".

— Eu li sobre isso..., mas não lembro direito.

— Como eu disse, você é racional demais, só se lembra de coisas lógicas e números. Vamos lá, digamos que você esteja em perigo e seu único pensamento seja se livrar daquela situação. Nesse momento você pega seu amuleto e com todas as forças grita as palavras de transformação. Nesse instante você vai se transformar rapidamente e vai poder usar aquele gatilho emocional como impulso para sair de perigo. Agora vamos entrar novamente no seu caso; você estava correndo de um inimigo que não tinha certeza se podia derrotar, tendo que proteger alguém, ainda tendo que se preocupar com a destruição da escola... embora acho que esse ponto não estava muito em cheque no momento...

— Digamos que não. — Diz ela rindo.

— Pois bem, você tinha confusão, medo, insegurança e vários outros sentimentos rondando sua mente no momento. Junto a isso, o desejo de se manter calma em frente a algo tão complexo; esse pensamento talvez tenha sido o responsável por ter impedido a transformação de acontecer. Se você tivesse simplesmente focado em se transformar usando todo o sentimento dentro de você, o sentimento de querer proteger a Mikaela, provavelmente não teria tido dificuldade para se transformar.

— Isso é bem complicado...

— Sim, mas não se preocupe, amanhã vamos começar a treinar a sincronização. É uma técnica que consiste em absorver todo sentimento disperso em seu corpo e acumular ele em seu amuleto, desse jeito, mesmo que você não esteja em situação mental e emocional para se transformar, o que você depositou em seu amuleto já vai ser o suficiente para servir de gatilho para a transformação.

— Entendi. Só mais uma coisa.

— O que foi?

— É sobre os amuletos em si. Você disse que eram sete.

— Sim, são sete; fogo, água, — apontou ela para Kate e para si, respectivamente, — daí tem o da Lucy que é do raio, Ayla é a luz e Liz é o da terra.

— E os outros dois?

— Vento e Sombras. Eles estão guardados, pois não possuem portadoras.

— E como achar as portadoras?

Amanda sorri e dá um tapinha no ombro de Kate.

— Amanhã você vai descobrir. Já conversei com Lucy sobre isso, mas é segredo.

— Hã? Como assim?!

Amanda se vira e começa a andar em direção ao seu quarto.

— Até amanhã Kate, vai dormir, está tarde.

A garota suspira frustrada e começa a andar para seu quarto.

...

A noite parecia calma para o rapaz no caixa da loja de conveniência. Quase não tinha clientes àquela hora da noite, então o homem aproveitava para assistir à um programa de comédia na televisão. Uma figura encapuzada entra na loja e o rapaz rapidamente dá as boas-vindas a ela. A pessoa acena em resposta e vai em direção a uma das diversas prateleiras da loja, e começa a fuçar seus produtos a procura de algo que a agradasse.

O rapaz vê que o cliente está à vontade e volta a assistir o seu programa. Assim que a pessoa vê que o homem está distraído, começa a colocar alguns produtos no bolso de forma extremamente discreta. Nem mesmo as câmeras do lugar seriam capazes de capturar a técnica incrível de roubo daquela pessoa. Mas é quando ela vai até uma das prateleiras mais distantes da loja que ela escuta mais alguém entrando na loja. O Rapaz recebe os dois homens normalmente, mas antes que pudesse terminar a frase, um dos homens puxa uma arma e aponta para ele.

— Todo o dinheiro do caixa, anda!

— Ei, calma! Eu vou pegar, calma!

— Anda logo, têm algum cliente aqui?

— Eu... tem... por favor, não me machuque!

Ele faz sinal para o parceiro e o homem começa a andar em direção as prateleiras mais ao fundo da loja. Ele vasculha o lugar, mas não encontra ninguém.

— Não tem mais ninguém aqui, irmão.

— Tem certeza de que tinha alguém aqui?

— Sim, eu juro, não me machuque!

— E essa pessoa por acaso tinha um casaco rosa com um capuz, parecia meio pequena... magrela...

— Sim, era essa pessoa!

— Ela tá aqui, irmão, não podemos deixar essa oportunidade passar. Acha ela!

— Fica de olho na saída, ela não vai sair daqui viva hoje!

Ele começa a andar cautelosamente pelos corredores da loja com sua pistola em mãos, muito atento a qualquer movimento. Ele começa a passar pelos freezers de olho nos corredores, mas o homem mal percebe a porta de uma das geladeiras se abrindo com violência e batendo contra sua cabeça; o outro homem que vigiava a entrada começa a atirar desenfreadamente em direção as vidraças da parte de frios, mas apenas consegue quebrar vários vidros. A garota rapidamente pega a pistola do homem no chão e desaparece novamente para dentro da loja.

— Essa rata! Ei, irmão! Tá tudo bem aí? — O outro homem não responde. — Droga, ela o apagou.

Ele então segura o rapaz do caixa pelo pescoço e aponta a arma para a cabeça dele.

— Tá legal, Laila, eu sei como você é a favor da vida, então se não quiser que esse cara aqui conheça Deus mais cedo, sugiro que você apareça! — Um silêncio completo se faz e o homem volta a falar. — O chefe tá muito bravo com você, querida! Ele não vai ficar feliz em saber que você ainda tá na cidade! Quando ele descobrir ele vai fazer de tudo para te achar! Quem sabe ele até nos deixe brincar com você depois que ele acabar! Vai ser bem divertido!

Ele vê alguns produtos caindo de uma das prateleiras, no mesmo instante ele afasta o rapaz apontando a arma para ele, falando para ele não se mover, e vai em direção ao local bem devagar, mas ao chegar lá ele não vê nada, apenas o chão coberto de produtos; nesse momento a prateleira a sua esquerda despenca e prende o homem no chão. Rapidamente a garota pega a arma dele e sobe em cima da prateleira, colocando a arma dentro da boca do rapaz.

— Diz para ele que eu não faço parte da gangue mais! E diz para ele que se ele quiser me achar ele vai ter que fazer melhor que só mandar dois imbecis como vocês para me procurarem! A propósito, você quer brincar comigo é?

Ele balança a cabeça negativamente desesperado, sem poder falar devido a pistola em sua boca.

— Por que não? Não foi o que você disse? Eu posso brincar com você se quiser! — Ela pega a outra pistola e aponta na direção do quadril do homem, entre as frestas da prateleira, e ele começa a gemer e a suar com medo. Ela se levanta e entrega uma arma para o caixa e coloca a outra em cima do balcão.

— A polícia já deve tá chegando. Fica de olho neles para mim. — Ela dá um tapinha no ombro do rapaz e corre até a saída.

— Você vai pagar por isso, Laila!

...

Kate fora acordada bem cedo por um dos homens da base. Assim que se arruma e termina de tomar seu café, ela então é conduzida para a sala de reuniões, onde Lucy e Lily esperavam.

— Pronta para o que temos para hoje?

— Sim, vai ser incrível! Vocês vão me ensinar a usar o amuleto?

— Sim, mas tem uma coisa a mais que vamos fazer. Algo que nós temos um costume de fazer pelo menos umas três vezes por semana, mas devido à agitação dos últimos dias não temos feito muito.

Lucy coloca uma pequena caixa de joias em cima da mesa, ela a abre e revela os outros dois amuletos das Laders que não possuíam dono. O primeiro era azul-celeste, e tinha um desenho de um leque que lembrava um machado no centro dele; o segundo era roxo e tinha uma Kusarigama desenhada nele.

— Que bonitos!

— Então, há muito tempo o número de Laders era bem diferente do atual; elas tinham várias aprendizes e mesmo que uma Lader viesse a falecer, sempre havia alguém pronta para sucedê-la. Mas com o tempo nossa organização acabou diminuindo muito, então tivemos que achar métodos para resolver alguns problemas básicos, como a escolha dos amuletos. Nós desenvolvemos uma tradição de sempre andarmos com os amuletos pela cidade, nós passeamos com eles por aí, e é assim que fazemos para achar novas Laders.

— Então o que vamos fazer hoje é um passeio?

— Sim, mas não vá se animando! Isso também vai ser um treinamento para você aprender a sincronizar.

— Entendi. Então quando os amuletos começarem a reagir...

— É porque tem alguma candidata a Lader por perto.

Lucy pega o amuleto azul e Lily pega o roxo. Kate faz um rosto de dúvida.

— Ei, onde está a Amanda?

— Ela não vem com a gente hoje. Ela teve... alguns imprevistos.

— Não me diga que é o lance do irmão dela de novo?

— Sim...

...

A garota se aproximava da cela acompanhada por dois guardas. O lugar tinha um aspecto tecnológico e parecia mais um laboratório. A cela em si tinha uma grande parede de vidro na frente de grossas barras de metal, e lá dentro era escuro e com um aspecto assombrador.

— Obrigada, podem nos deixar sozinhos por um momento?

— Tem certeza?

— Não se preocupem, eu sempre venho aqui, não é?

Eles se encaram e assentem.

— Tudo bem, mas tome cuidado.

Os dois guardas saem e ela fica sozinha no corredor, com a criatura dentro da cela.

— Roger, tudo bem?

O ser dentro da escuridão levanta a cabeça em resposta ao chamado.

— A... manda?

— Sim, sou eu.

— Por quê? Por que veio até aqui?

— Por que uma irmã visitaria seu irmão com problemas? Não faça perguntas idiotas.

— Vá embora, por favor. Não, vá! Eu não sou mais seu irmão!

A garota encara a silhueta dentro da cela com um rosto nostálgico.

— Têm se alimentado direito?

— Não... eles não me dão comida descente... eles só me dão coelhos, porcos..., mas nada de... carne humana.

— Sabe que isso não faz muito bem para saúde... — diz ela com um sorriso, sendo interrompida por um barulho de pancada.

— Então me dê a sua carne! Coloque a mão aqui dentro! Apenas uma mordida! Não! — Ele se afasta novamente da grade e vai até o fundo da sala, batendo a cabeça com força contra a parede. — Vá embora Amanda! Eu não sou mais o mesmo de antes!

Ela fica em silêncio. A garota então coloca a mão dentro de sua bolsa e começa a mexer nela.

— Eu trouxe algo para você. — Ela puxa uma revista. — É a edição desse mês.

— Isso é...

— Os guerreiros de Safira. Eu sei que você gosta. Esse mês apareceu um herói novo.

Ele respira de forma inquieta e se aproxima lentamente da grade. Amanda coloca a revista em uma pequena bandeja no lado direito da grade e aperta um botão, então o objeto é transportado para dentro da cela. A criatura pega delicadamente a revista e a coloca no chão, abrindo-a com seu enorme indicador e polegar que eram tão grandes quanto uma cabeça humana.

— Entendo... então o Jonatas era um vilão.

Eles ficam ali em silêncio por alguns minutos enquanto Roger lia a revista. De vez em quando ele reagia ao conteúdo com uma risada ou interjeições de espanto. Amanda o admirava com um meio sorriso nostálgico. Quando ele virou a última página, Amanda finalmente disse algo.

— Gostou?

— Foi um bom capítulo... eu não podia imaginar que o Jonatas seria o vilão dessa temporada.

— Eu também fiquei surpresa.

— Mas Amanda... por que me trouxe só uma revista?

— Bom, eu não sabia o que você iria querer mais, então eu só pude pensar nisso.

Ele ataca a grade novamente, batendo ferozmente contra ela várias vezes.

— Você sabe bem o que eu quero... chegue mais perto e me deixe tê-la! Essa pele macia! Deixe-me devorá-la!

Amanda sorria enquanto apertava com força a alça de sua bolsa.

— Sabe que minha carne está podre, eu não posso te deixar provar dela.

— Então me deixe ao menos beber seu sangue! Ande logo! Não! — Ele se afasta novamente, batendo a cabeça contra o solo. — Por favor, Amanda! Vai embora! Só vai embora! Eu não quero continuar te vendo como comida! Por favor, se esqueça de mim! Esqueça que eu existo! É tudo que eu te peço! Se ainda sente algum amor por mim, me esqueça e vá viver sua vida!

Ela fecha os olhos e sorri.

— É porque eu te amo tanto... que eu não posso fazer isso.

— Eu... eu fiz coisas horríveis... só me mate... por favor...

— Eu prometo que vou reverter isso, então por favor, espere.

...

Kate descia do carro encantada com a visão.

— Então esse é o centro de Myura!

— É sério que é sua primeira vez aqui? — Pergunta Lily, fechando a porta do carro.

Era um grande centro urbano, cheio de outdoors e muito movimento.

— Eu nunca pude sair de Mitsury, minha mãe sempre foi muito rígida com isso, ela não deixava a gente viajar muito. O máximo que eu fiz foi ir em algumas viagens em família para lugares bem específicos ou aquele acampamento no monte Alvar.

— Então é bem provável que ela ficaria louca se descobrisse que você está em outra cidade. — Diz Lucy com um rosto pacato e bastante sarcasmo. — Me sinto quase culpada por isso.

Myura era uma cidade vizinha de Mitsury, praticamente a cidade principal da região onde se encontravam. Há trezentos quilômetros, ao norte, ficava Oriana, outra cidade importante, mas que estava com um bloqueio para cidadãos comuns devido a uma pequena rixa política.

— E então, o que fazemos agora?

— Conseguiu sincronizar alguma coisa?

— Menos de um por cento ainda...

As duas riem.

— Não se preocupe, logo vai conseguir sincronizar. Até hoje a Lily não sabe sincronizar, e é por isso que eu tenho que transformar ela manualmente.

— Não é que eu não sei sincronizar! É só que é mais fácil para mim deixar você me transformar.

— Sei. Então quer dizer que é tudo preguiça?

— Não foi isso que quis dizer!

— Vou anotar isso; três treinos extras para a Lily por dia, começando a partir de hoje.

— Não foi o que eu quis dizer! Droga!

— Não sabia que as aprendizes também se transformavam usando a sincronização...

— Na verdade, a sincronização para elas funciona de uma forma um pouco diferente. Elas precisam sincronizar os seus sentimentos com a sua mestra. Um outro dia eu explico isso melhor para você.

— Então é diferente da sincronização com o amuleto, entendo.

— Bom, Kate, você tem até o final do dia para fazer o máximo que conseguir. Mas não se cobre muito, Amanda até hoje ainda tem dificuldades em sincronizar.

Elas começam a andar, mas Kate para e começa a admirar algumas pichações em uma parede próxima. Havia vários desenhos diferentes ali, mas um chamou sua atenção; Era uma criatura esquisitinha toda deformada com um olho bem quadrado, uma pintura bem diferenciada do resto ali. Em seu devaneio ela acaba ficando parada quase em um estado de transe; é então que sua atenção é requisitada por Lucy, e ela rapidamente se junta as amigas.

...

Enquanto isso, no anfiteatro, o lugar permanecia com seu aspecto calmo e sombrio.

— Você finalmente chegou. — Dizia a mulher no centro do palco, na mesma posição de sempre.

— Foi bem divertido, devo dizer! Que viagem maravilhosa! Não vai me perguntar como foi?

— Eu já ia fazer isso.

— Eu vi uma águia! Foi a primeira vez que vi uma! Ela estava sobrevoando o pico da...

— Pare de gracinhas antes que eu te desintegre.

— Tudo bem, você está de mal humor hoje, entendi! Será que é o que eles chamam de TPM?

A mulher encara o homem da cartola com um rosto furioso.

— Só estava brincando! Droga, que falta de senso de humor. Eu encontrei o nosso contato!

— E então?

— Como assim? Você já sabe. Aliás, por que você sempre faz isso? Você sempre sabe! Aquele lance de "olhos e ouvidos".

Eles param por um momento e ficam se encarando, em silêncio. O homem coloca a mão direita sobre a testa e faz um rosto de concentração.

— Oh, isso foi uma informação útil.

— Elas estão em Myura.

— Seria uma oportunidade perfeita para roubar quatro amuletos em um único movimento!

— Espere, não mova um músculo, vou mandar outra pessoa fazer isso.

— Mas eu sou o nêmesis delas! Eu tenho a responsabilidade moral de matar aquelas garotas!

— Você vai, mas não você. Deixe-a fazer isso. Afinal de contas, você acabou de chegar de viagem, apenas descanse.

Ele suspira entediado.

— Ela ainda tá chateada conosco, — diz a voz infantil vinda de cima dos dois, — por termos estragado as coisas da última vez.

— Eu percebi.

— Vocês dois tiveram a sua chance. E, também, não quero colocar o amuleto da Flora em risco.

...

As garotas se aproximavam da estação de metrô enquanto Kate encarava o nada, tropeçando em algo e quase caindo.

— Ei, cuidado! Se machucou?

— Não, eu estou bem.

— Você está com a cabeça nas nuvens né?

— É que é difícil sincronizar e se manter atenta ao mesmo tempo...

Nesse instante Kate se lembra da conversa que elas tiveram antes de sair da base; na ocasião, a garota recebia as orientações de Lucy sobre como a sincronização funcionava.

— Então, Kate, a primeira coisa que você tem que ter em mente é que o amuleto precisa estar a todo o instante em contato direto com sua pele. Esse é o primeiro e mais importante ponto da sincronização. Se ele por um único instante sair de contato você vai ter que recomeçar a sincronização do zero. No caso das aprendizes elas apenas precisam que sua Lader esteja em contato com o amuleto.

— Entendo, mas isso significa que vou ter que ficar segurando ele o tempo todo?

— Bem, obviamente isso seria um problema, mas é por isso que nós usamos um recurso especial do amuleto para isso; esse recurso se chama "disfarce", e ele faz exatamente o que o nome sugere. — Ela pega seu óculos e ele se transforma no amuleto. — Os amuletos podem se transformar em vários objetos diferentes, de acordo com a sua imaginação. Mas não se anime, eles apenas podem se transformar em objetos que contenham a mesma massa do medalhão. Aqui, segure meus óculos.

Kate pega o par de óculos de Lucy e fica surpresa.

— Nossa, é o par de óculos mais pesado que já peguei na vida.

— Sim, isso porque não se pode disfarçar o peso do objeto, infelizmente. Mas o medalhão não é tão pesado, então não me sinto incomodada de usar essa coisa no rosto. Entendeu?

— Sim.

— A segunda coisa que deve ter em mente ao sincronizar é que você vai ter que se concentrar, e em nenhum momento vai poder parar a sincronização. A sincronização é como uma jarra furada; se você parar de encher de água, uma hora ela vai acabar se esvaziando por completo novamente. E é por isso que nós não conseguimos manter a sincronização durante todo o dia, pois seria trabalhoso.

— Mas tentar sincronizar durante uma luta não seria problemático? Afinal de contas, você tem que se concentrar.

— A concentração necessária para a sincronização não é tão exigente, você apenas tem que prestar a atenção o suficiente para continuar sincronizando. Mas é bem fácil, na verdade; todas as Laders tem uma boa capacidade de multitarefas.

A mente de Kate voltou então para o presente e ela suspirou.

— Não é tão fácil assim quanto você disse. — Comenta a garota olhando para Lucy.

— Você vai se acostumar. Vai chegar um momento em que a sincronização vai se tornar algo natural para você.

— Assim espero... — Ela volta seu olhar para a entrada da estação e vê uma figura familiar. — Ah, lá está ela.

Amanda se aproxima das três com um sorriso.

— E então, Kate, como está indo o treinamento?

— Chato...

— Imagino que sim.

Kate percebe alguma inquietação em Amanda, mas já imaginando o motivo ela decide ignorar.

— E então, Lucy, para onde vamos?

— Shopping Luz Celeste. Hoje existe uma boa chance de ter algum movimento lá, então acho que seria uma boa ideia tentar cobrir o lugar.

— Não está dizendo isso só por que quer fazer compras, né?

— Eu? Não! Estamos à trabalho, esqueceu?

Amanda encara a mulher desconfiada e com sarcasmo.

...

A garota se aproximava do prédio comunitário com as mãos no bolso, bastante atenta ao seu redor. A rua parecia morta e ela quase não via sinal de movimento por ali, mas isso era comum, pois aquele era um bairro residencial, e ela estava em horário de pico. Ela para uma esquina antes, encarando o prédio com bastante atenção.

"Algo não está certo" pensava a garota.

Ela então começa a analisar os carros estacionados ao redor e finalmente percebe algo. "Eles estão aqui. Droga, eu realmente precisava pegar minhas coisas lá...".

Ela olha para a janela do prédio em direção onde ficava seu apartamento e percebe algum movimento vindo de lá.

"Definitivamente não é seguro entrar lá agora. Sendo assim... preciso fazer dinheiro de outra forma. O problema é que eu não tenho tempo... e meu equipamento...".

Ela fica parada ali divagando com bastante aflição.

"Hoje é o dia do plano... se eu não fizer alguma coisa... todo esse tempo que fiquei aqui e não fugi não vai ter servido de nada... esperei tanto para não conseguir fazer nada." Ela coloca o polegar na boca e o morde, pensativa "Ontem eu realmente dei azar, aposto que é por isso que eles acabaram invadindo meu apartamento. Droga, o que eu faço?"

Finalmente ela se vira e vai embora dali, sem chamar muita atenção.

"Para o Shopping então".