Lirou Lader — Parte 1
13 Uma Batalha Contra o Tempo
O grupo encarava a mulher com bastante cuidado. A sua presença era notória, e seu poder, ainda um mistério. Lucy percebera que todos os corruptores estavam atônitos perante a situação, eles não moviam um músculo sequer, nem mesmo os que estavam no ar. Era como se estivessem congelados no tempo. Os soldados, por sua vez, pareciam estátuas sem vida, sem qualquer reação.
— "Vejo que estão confusas", disse a mulher. Ela se propõe a explicar, então. "Vejam bem, este cenário a sua volta foi-lhes dado como um capricho."
— Um capricho?
— "Um capricho, nada mais que isso", diz ela sem rodeios. "Acontece que meu poder possui certos limites. E estes envolvem a compreensão do inimigo sobre eles. Minha habilidade, o roteiro perfeito, permite-me controlar a realidade como eu bem entender, apenas pela fala. Tudo que eu narrar, tudo que eu falar, acontecerá."
— Como isso é possível?
— "Não acredita? Então vamos demonstrar", diz ela apontando sua mão para a mulher loira e desferindo um ataque de chamas poderoso contra ela...
Lucy, ao ver o fogo se aproximando, se esquiva bem a tempo de não ser atingida.
— Lucy, está tudo bem?
— Sim... esse ataque não foi para me acertar. Ela está brincando com a gente.
— "Brincando", disse a mulher loira, sem saber que o próximo ataque viria de baixo dela; um conjunto de vinhas que a agarraram sem darem chance de ela escapar.
As plantas que cresceram agarraram Lucy, prendendo-a.
— Ela pode mesmo fazer o que quiser? Como ela consegue manipular dois elementos?!
Lucy se solta com certa facilidade das vinhas, contando-as com suas adagas.
— "Meus ataques, porém, não são tão poderosos", dizia ela. "Meus poderes possuem limitações. A primeira delas, é que para que eles sejam efetivos, a plateia e os atores precisam saber que eles existem; o roteiro precisa ser entendido pelo público. Nenhum roteirista pode criar uma peça sozinho. A segunda regra é que quanto mais atores, mais grandiosa será a peça. Quanto maior o número de indivíduos presentes, mais poderosa é a minha habilidade."
— Então foi por isso que você reuniu tantos corruptores e soldados aqui... foi tudo planejado?
— "Mentes fracas como a de corruptores, ou mesmo manas frágeis como desses soldados; tudo isso não pode resistir ao meus poderes", disse a mulher. "A grande limitação é eu não poder usar meus poderes diretamente em seres vivos, mas... graças ao número de atores presentes nesta peça, eu posso fazer ao menos isso; paralisar os soldados. Mas não se preocupem, eles estão bem, e estão até mesmo conseguindo ouvir e entender o que está acontecendo neste momento."
— E você até conseguiu usar o poder em nós mais cedo...
— "Por estarem distraídas, sim." Completou a mulher. "Infelizmente, eu não posso parar de falar como uma narradora enquanto estiver usando meus poderes. Se por acaso eu parar por um instante, minha habilidade se quebra, e eu precisarei iniciar um novo roteiro."
— Lucy, não podemos deixar essa mulher continuar falando...
— Isso é óbvio! — Lucy pula em direção a ela, acompanhada de Takira.
— Por exemplo... — A mulher sorri, parando de falar.
Todos os elementos que ela havia trazido antes para a cena começam a sumir. O fogo, que ainda queimava, se apaga; a parede que ela criara mais cedo some no ar, perante os olhos de todos; as vinhas cortadas no chão simplesmente desaparecem. E por fim, todos os soldados e corruptores voltam a se mover.
— Uma parede aparece à frente da Roteirista, protegendo-a do ataque apressado das duas mulheres.
Lucy e Takira atacam a muralha inutilmente. Elas se afastam com expressões irritadas enquanto se reposicionavam.
— É inútil resistir, Laders.
A parede começa a desaparecer novamente, revelando a mulher com sua pose magistral.
— Entendo... você não pode criar dois objetos iguais na mesma cena, estou certa? É por isso que resetou antes de usar a parede... e é por isso que resetou novamente assim que a usou.
— "Esperta. Sim, está certa. Eu não posso usar dois objetos idênticos, mas posso fazer isso, por exemplo..." Ela para sua sentença e faz um movimento com os braços, fazendo várias armas diferentes aparecerem ao seu redor. Machado, espada, e vários tipos de objetos cortantes diferentes.
— Ela pode fazer isso?!
— Ela pode fazer qualquer coisa, desde que não mexa com seres vivos.
— As armas avançaram para cima das garotas, atacando-as como fantasmas enquanto elas falavam.
As quatro se defendem dos ataques com bastante dificuldade, ainda tendo que se preocupar com os corruptores que as cercavam e atacavam. Elas se juntam afastadas da mulher enquanto ainda lutavam.
— Dominic, Gabriela, fiquem atentas. Eu e a Takira vamos criar uma abertura para vocês fugirem.
— O que está dizendo, Lucy?!
— Prestem atenção! Se vocês forem até onde as meninas estão, e ajudá-las, vão poder trazê-las para a base. Com todas reunidas vai ser mais fácil lidar com a situação.
Dominic hesitava enquanto ouvia a mulher, mas assente com certo receio.
— Parece que vocês já têm um plano. Bem, deixe-me ouvir o que vão fazer.
— Como se fossemos contar.
— Tem razão. E eu não tenho poder para lhes fazer falar. Bem, tanto faz, posso impedir que realizem o plano mesmo sem saber dele. Toda a peça está em minhas mãos!
...
— Por quanto tempo mais você conseguirá resistir? — Perguntava a mulher com um sorriso.
Kate estava exausta, mas seus movimentos ainda tinham a mesma precisão. Ela se esquivava dos golpes aleatórios desferidos pelo cenário à sua volta; várias arvores e plantas dançantes que a atacavam sem hesitação. A este ponto a garota já vestia sua armadura, mas ela mal conseguia encostar nos objetos, pois sempre que tentava, um outro a acertava.
"Ela realmente se preparou para me enfrentar..." pensava a garota com um rosto preocupado.
— Entende agora, Ruivinha?! Você pode até ser forte, mas de nada adianta se não consegue atacar! Se eu não te der brecha, você não pode fazer nada!
Enquanto se esquivava dos golpes, Kate gira seu corpo com sua espada em chamas.
— Siru Feisher! — Um círculo de fogo se forma ao seu redor, como grandes muralhas maciças de puro calor. As criaturas da Pintora são obrigadas a se afastar.
— Usando fogo em uma floresta fechada, tem certeza de que essa é a melhor ideia? Se continuar erguendo as chamas desse jeito, pode acabar colocando fogo nessa região inteira... eu teria mais cuidado se fosse você.
— Eu não me importo! Se for para acabar com você, eu faço isso com prazer!
A mulher hesitou ao ouvi-la, se afastando de Kate.
— Hikaru, Siru Ferom! — Kate começa a girar ferozmente, produzindo um fluxo de chamas que subiu aos céus, como um grande furacão de fogo.
No mesmo instante, no lado leste da floresta, a pequena criatura acima da copa das árvores vislumbrava o golpe de Kate subindo aos céus.
"Teria sido essa uma boa ideia?" Se perguntava ela com um sorriso hipnótico no rosto. "A menina dos olhos azuis, apesar de uma novata, é bem forte... será que a pintora consegue segurá-la?"
Assim que o ataque cessa, a área em volta de Kate se revela; uma grande clareira em meio a floresta. Todos os objetos vivos do lugar tinham sido queimados, e o cheiro de tinta queimada permeava o ar.
— Não diga isso, M'lady! Eu posso dar conta dela!
Kate encara a mulher com bastante confusão ao ouvi-la soltar aquela frase do nada. A mulher, no entanto, logo volta seus olhos para Kate, recobrando a atenção.
...
O homem de cartola continuava a atacar Amanda; seus golpes pesados rebatiam contra o escudo da garota, fazendo-a se afastar a cada ataque.
— Por quanto tempo você vai aguentar? Essa pergunta está me matando!
Amanda, porém, sabia que era questão de tempo até seus golpes não surtirem mais efeito sobre seu escudo. Ela sentia que cada golpe se tornava mais fraco. Mikaela, que assistia a cena desacreditada, se contorcia enquanto tentava se soltar.
O Mágico girava a arma da Lader flora em sua mão, enquanto rodeava Amanda com um sorriso provocante.
— O que foi? Não me parece bem...
Amanda estava com um rosto levemente cansado, enquanto suava.
"Os golpes dele... estão esgotando minhas reservas de mana. Como ele está conseguindo fazer isso?" é então que a garota tem uma epifania.
O homem percebe o rosto inquieto da menina e começa a rir.
— Finalmente percebeu, não é?
— Essa era uma habilidade que a Flora tinha pouco controle... e mesmo assim, você está conseguindo usá-la desse jeito?
— Como uma planta. Você é mesmo engraçada! Achou mesmo que nós não nos prepararíamos para esse momento? Planta versus água! Quem ganharia, afinal?
"Eu não tenho dúvidas, ele está mesmo usando a Sucção de Mana, eu não deveria ficar surpresa, já que ele até consegue usar a habilidade específica da Flora... nesse caso, eu não posso ficar na defensiva para sempre desse jeito."
...
A boneca descia, atacava e sumia para cima novamente, sem dar chances para Lily sequer revidar. Tsuhiko assistia tudo de camarote, sendo obrigado a ver sua amiga ser espancada pela boneca.
— Lily, por favor! Só vai embora! Você não precisa me salvar!
— Para de falar idiotices! Como eu poderia abandonar você?
A boneca para seus ataques por uns instantes, criando um clima de tensão no ambiente.
— Desse jeito... você vai acabar morrendo.
Lily estava bastante ferida; mesmo usando sua aura mágica, os ataques cortantes da boneca haviam criado um bom estrago em sua pele. Suas roupas já estavam todas rasgadas, e seus braços, avermelhados. Porém, a determinação de Loreley não havia, sequer, diminuído em um ínfimo instante. Ela não iria abandonar Tsuhiko; mesmo que sua vida fosse levada, ela o salvaria.
— Eu não vou te deixar para trás...
O garoto olhava para o chão com certa impotência. Ele então dá um leve sorriso e uma interjeição de riso.
— Entendo... então foi por isso, não foi?
A menina leva seus olhos levemente para a direção do garoto, sem abaixar a guarda.
— Por isso o que?
— Foi por isso que você me rejeitou, por todo esse tempo. Agora eu entendo.
A boneca desce novamente em meio a risos, atacando Lily, que se defende novamente com os braços.
— Você está tentando salvar o garoto que você rejeitou?! Quão engraçada essa luta ainda vai ficar?! Vocês são mesmo hilários!
A boneca, no entanto, não consegue voltar dessa vez. Seu sorriso é substituído por um rosto confuso, enquanto encarava o rosto sombrio e ensanguentado de Lily. Sem sua mestra, a garota estava à mercê dos seus ínfimos poderes e sua pouca habilidade. Ela não conseguia sequer usar os poderes do amuleto por conta própria, como as meninas da Lader Lux. Ela não tinha a mesma habilidade de Lucy; mas havia algo que ela tinha. Ela tinha um dever; de proteger Tsuhiko.
— Você pode até ser feita de madeira, mas essas suas lâminas ainda são de metal, não é?
A boneca tentava se mover, mas suas garras estavam presas sob a pele da menina.
— O que você fez?!
As lâminas começam a se entortar, envolvendo o antebraço de Lily, penetrando em sua pele e abrindo ainda mais o corte, mas seu rosto estava tão determinado que isso parecia não importar. Com um brusco movimento, as garras se soltam dos braços da boneca, e ela some para cima das copas.
As garras caem dos braços da garota, enquanto o sangue escorria, se misturando ao seu suor.
— Loreley!
— Você é louca, menina! Mas eu até que gosto assim!
A eletricidade envolvia todo o corpo da garota, enquanto ela recuperava as garras da boneca que haviam caído no chão. Ela começa a remoldar o aço usando seus raios.
— Eletromagnetismo?
— Sim. É uma técnica que eu estava desenvolvendo em segredo... não achei que pudesse conseguir realmente usar isso em uma batalha real.
A garota começa a mover as lâminas ao redor de seu corpo, sem tocá-las.
— Hora do segundo round, bonequinha.
...
Ao contrário das outras garotas, a luta de Laila parecia equilibrada. Eles se atacavam a certa distância, usando as arvores como escudo e as copas como esconderijo. Laila tinha uma movimentação diferenciada em meio a floresta.
— Vocês fizeram uma péssima escolha em lutar em uma floresta a noite.
— Realmente, mas você está me subestimando, criança.
Assim que Laila pisa em um galho, uma mão de madeira sai dele, agarrando sua perna.
— Você que está me subestimando.
Laila no mesmo instante corta o braço de madeira com sua Kusarigama. Imediatamente, ela arremessa a corrente em direção à uma das árvores, que se enrola em um galho.
— Você se movimenta bem, criança. Quase como uma ninja.
Laila atira várias kunais e shurikens em direção à densa floresta, acertando troncos de arvores a esmo.
— Poderia dizer o mesmo de você.
Ela se defende de alguns ataques vindos do meio das árvores, enquanto atacava a esmo outras.
"Por que diabos esse cara fica sumindo assim do nada?"
A garota pousa no chão em uma pequena clareira, encarando o homem a sua frente, imóvel.
— E então, cansou de brincar de pega a pega? — Diz ele com uma voz calma.
Laila ataca-o com suas kunais, acertando em cheio seu rosto.
— Eu sabia, são esculturas. Achei estranho algumas árvores terem sumido. Então você as usa como matérias primas e cria esculturas vivas.
— Gostou? Minhas obras de arte são mais do que simples pedaços vazios de madeira. Elas têm vida própria.
A voz do homem não tinha um ponto certo. Laila podia ouvi-la vindo de vários lugares diferentes. Era quase como se vários deles estivessem escondidos entre as árvores.
— É bem legal. Mesmo eu conseguindo enxergar você com minha penumbra, eu não posso dizer qual é o verdadeiro. Eu só fico impressionada como você consegue se mexer no meio dessa escuridão.
— O segredo é não ficar parado.
Uma de suas criações se lança para cima de Laila, a atacando pelas costas, mas a garota é salva por algo que segura o braço da criatura.
— Entendo... — Diz ela.
— O que?!
Era outra Laila, que joga o braço do escultor para o chão, enquanto a que fora atacada anteriormente desfere um golpe que decapita o sujeito.
— Um... clone?
— Surpreso? Confesso a você que também estou um pouco surpresa.
— Então nós dois vamos jogar o mesmo jogo?
"Zaira me ensinou essa técnica de clonagem há muitos anos, mas ela não permitia criar clones sólidos. Por algum motivo, no entanto, quando eu uso o amuleto, os meus clones se tornam táteis. O máximo que conseguia fazer antes era criar clones feito de sombras que podiam carregar alguns objetos pequenos, como o que usei para seguir as meninas aquele dia."
Três esculturas aparecem na frente dela, enquanto mais três Lailas se juntam às duas que já estavam ali.
— Vai ser uma boa brincadeira.
...
Os grandes holofotes espalhados por todo o complexo militar iluminavam o campo de batalha, denunciando os vários corpos caídos no chão. Os dos corruptores sumiam vagarosamente em meio a uma fumaça negra, enquanto mais e mais chegavam; por outro lado, os corpos dos soldados das Laders não se moviam, não importa o que acontecesse.
As baixas já eram grandes àquele ponto. Enquanto lutavam, Lucy e Takira não podiam deixar de pensar no azar que tiveram aquele dia. Elas temiam que as baixas ultrapassassem os soldados, pois mesmo eles lutavam e estavam prontos para morrer se fosse preciso. O grande problema era os civis, que poderiam perder a vida enquanto elas falavam. Tsuhiko e Mikaela nada tinham a ver com o caso, mas estavam sendo usados como reféns. Lucy sabia que Lily poderia ser capaz de dar sua vida pela de Tsuhiko, e isso era o que mais a preocupava.
"Nós não podemos, de jeito nenhum, deixar mais uma Lader cair nessa batalha!" Pensavam as duas.
— Se preparem, vocês duas!
Lucy e Takira se movem para flancos opostos, em direção à mulher em cima dos muros.
— A mulher, no entanto, fora revestida por uma caixa forte.
Lucy e Takira param o ataque, enquanto a mulher desfazia sua proteção.
— Vocês foram espertas... como eu pude cair em um truque tão simples.
As duas outras meninas já haviam desaparecido.
— Vamos mostrar que foi um erro de vocês ter nos desafiado. — Diz Lucy, confiante.
— Com a velocidade daquelas duas, elas não devem demorar chegar na floresta. — Completa Takira.
— Isso não importa. Bem, tanto faz. Vocês duas devem estar contando com a ajuda delas, mas o que aconteceria se elas não chegassem a tempo?
Como uma reação à algum estímulo visual, Lucy e Takira encaram o horizonte, com um rosto confuso. Ao vê-las fazendo isso, sua inimiga vira seu rosto também, na mesma direção.
— O que é aquilo?
Elas puderam ver uma coluna de fogo vindo da direção da cidade.
— Kate? — Diz Lucy com certa preocupação.
A Roteirista fecha os olhos e faz um rosto preocupado.
"Talvez não tenha sido a melhor ideia deixar a Pintora cuidando daquela garota."
...
— Não diga isso, M'lady! Eu posso dar conta dela!
Kate encara a mulher com bastante confusão ao ouvi-la soltar aquela frase do nada. A mulher, no entanto, logo volta seus olhos para Kate, recobrando a atenção.
— Qual o problema, já está desistindo da luta?
— Você sabia disso...?
— Eu decorei todos os mapas dessa região. Achei estranho essa área inteira estar cercada de vegetação.
— Maldita... — Diz a mulher suando frio, — você sabia então o tempo todo...
Kate a encara com atenção e concentração.
— Não. Eu só me lembrei há pouco disso. Talvez se você não tivesse me atacado com suas criações, eu nem teria notado.
— Sua...
A mulher começa a desenhar várias coisas aleatórias no ar, enquanto corria em direção a floresta.
— O que ela está fazendo?
Kate começa a persegui-la. Em meio a fuga, a garota evitava chegar perto da tinta flutuante no ar, seguindo o rastro a certa distância.
"Ela está... desenhando uma serpente?"
Mesmo atacando a tinta, Kate percebia que a criatura não sofria danos; sua espada transpassava a tinta, que se desfazia e se remoldava novamente.
A garota se afasta por instinto, quando o enorme amontoado de tinta começa a se mexer. Suas escamas se abrem e vários mísseis começam a sair, indo em direção a Kate, que se esquivava enquanto usava as árvores para se defender.
...
— Maldita Pintora... fazendo o que quer desse jeito. Quem ela pensa que é?
Os sons da batalha de Kate podiam ser ouvidos por toda a floreta, e os tremores provindos da grande serpente podiam ser sentidos por todos ali. O homem da cartola praguejava enquanto atacava Amanda sem dó.
"Ele não parece estar tentando me matar... mesmo com todos esses ataques e a pressão que ele está me exercendo... é como se ele estivesse me usando." Amanda, assim que tem esse pensamento, finalmente entende, se afastando do homem, enquanto levantava uma parede de gelo entre eles.
— Eu finalmente entendi. Você é só um suporte, não é? Por isso eles te deram o amuleto da Flora.
— O que?
— Vocês compartilham uma mesma mente, então para mim não seria estranho se compartilhassem o mesmo mana também. Você está roubando meu mana com esses ataques, mas está mitigando seu dano para não me causar injúrias sérias.
O homem sorri e solta um grande assovio admirado.
— Você sabe pensar? Que legal. Será que M'lady me deixa ter um animalzinho de estimação?
A garota franze a testa, mas logo se acalma, colocando-se em posição de batalha. Seus olhos se enchem de determinação e ela sai de sua posição defensiva.
"Já chega de ser um peso morto. Elas precisam de mim. Mikaela precisa de mim. Porque, se eu não lutar agora... quem lutará?!"
Amanda avança em direção ao Magico, e o homem se prepara para receber o ataque, mas em um brusco movimento, a garota se impulsiona com uma explosão de água que surge no seu pé direito, a jogando para a esquerda; o homem se reposiciona, e ao mesmo tempo a garota pula para cima dele, criando uma explosão de água que a joga para o outro lado.
— O que está fazendo? — Pergunta o homem confuso.
Amanda continua se movimentando com velocidade ao redor dele, enquanto ele tentava acertá-la com vinhas e galhos vindos de todos os lados.
A água começa a se espalhar pelo lugar enquanto Amanda se movia como um animal, veloz, por entre os obstáculos.
"O que essa garota está fazendo?"
Em meio a tanto caos, a menina simplesmente desaparece dos olhos do homem. Ele recolhe todos os galhos e vinhas que espalhou durante o ataque e volta seus olhos para a refém; seu espanto faz com que ele abaixe a guarda por um ínfimo instante.
— Ela fugiu?! Aquela desgraça... — Amanda acerta-o com um chute, fazendo-o derrubar a arma de Flora por entre as árvores.
Vários pedaços de gelo começam a se formar no ar, unido as gotículas de água que Amanda criara com os movimentos anteriores.
— Gigas Keras Fri! — O gelo se molda na forma de várias estacas, centenas delas, todas voltadas para o homem.
A menina permanecia com seus olhos concentrados no Magico caído, enquanto seus braços abertos sustentavam a magia.
— Como conseguiu libertar a garota?!
— Eu não a libertei. Ela simplesmente sumiu.
— O que?!
"Para ser sincera, também estou preocupada com o que aconteceu com Mikaela, mas se ele não sabe onde ela está, isso é um bom sinal. O importante é que ela saiu daqui."
Alguns instantes antes, enquanto Amanda estava ocupada com o Mágico, a menina presa pelas vinhas se debatia com lágrimas nos olhos, enquanto assistia a batalha com medo.
"A Amanda... ela é uma super-heroína? O que está acontecendo aqui? Essas coisas... estão me machucando... socorro! Alguém me salve, por favor!"
Em meio a súplica da garota, os galhos simplesmente começam a se abrir, lentamente, libertando-a. A menina começa a correr em direção a floresta. O barulho que ela ouvia vindo de todas as direções, no entanto, a assustava. Mikaela se ajoelha no meio da floresta, abaixando a cabeça e colocando as mãos sobre os ouvidos, enquanto chorava.
"O que está acontecendo?! De onde vêm esses barulhos?!" Ela se levanta e olha para trás, na direção de onde veio. "Amanda..."
Os ataques de Gelo de Amanda foram lançados com violência contra o homem, que se esquiva no último instante, saindo ileso do ataque.
— Não pense que pode me pegar só por ter tirado o cajado de mim!
Amanda levanta seus braços, fazendo os pedaços de gelo subirem como gotículas de água, se refazendo em gelo novamente no ar. Ela continuava a atirar as lascas de gelo como metralhadoras na direção do Magico, que se esquivava com piruetas e giros enquanto se escondia entre as árvores.
"Preciso recuperar o cajado, onde ele está? Ah já sei! É só o chamar de volta! Simples." Ele se concentra e estende a mão, ficando em silêncio por alguns segundos. No entanto, ele abre os olhos confuso. "Não está funcionando?" Ele sente um calafrio percorrer toda sua espinha quando vê uma luz verde vindo de seu lado esquerdo; Amanda segue a mesma luz com os olhos, desacreditada.
— Não... pode... ser...
...
Lily girava as lâminas no ar ao entorno de seu corpo com bastante velocidade, usando apenas seus campos magnéticos.
— Quero ver me acertar agora, sua marionete de filme de terror.
A boneca praguejava enquanto encarava a grande serpente de cima das copas.
"Com ela usando tanto mana assim, e a M'lady lutando, fica difícil eu poder fazer alguma coisa. Acho que vou só segurar essa menina por enquanto. Tudo bem, M'lady?"
...
"Sim, mas parece que o nosso Mágico teve alguns problemas sérios agora... isso era realmente inesperado."
A mulher lutava usando uma espada em uma mão e uma pequena adaga na outra, sem usar magia. Lucy e Takira, mesmo usando ataques combinados, não conseguiam se equiparar a mulher; nem em velocidade, nem em força. Ela defendia os ataques com maestria, enquanto afastava-as, com ataques fortes o suficiente para arrancar, vez ou outra, as armas de suas mãos.
— Mesmo com nossa habilidade, ela não parece estar tendo dificuldade em lidar conosco.
— Como ela consegue superar minha velocidade desse jeito? Eu posso não ser tão rápida quanto minha mestra, mas isso é ridículo.
Lucy fica pensativa, encartando a mulher.
"E a habilidade dela funciona de uma forma muito específica... eu fico me perguntando, como isso é possível? Ela tem efeitos muito claros, e defeitos equilibrados demais... é quase como se fosse criada especialmente para ela. Eu não entendo como um poder assim pode existir, mesmo sendo uma habilidade específica. Poderia isso ser algum conceito que desconhecemos?"
M'lady fecha os olhos em posição relaxada.
"Crianças, estamos ficando sem tempo. Parem de brincar e façam alguma coisa."
...
Mikaela segurava o cajado com as duas mãos, colado em seu corpo, com uma mistura de medo e agressividade no olhar.
— Era essa coisa que ele estava usando para controlar as plantas, não é?
— Mik... — A surpresa no olhar de Amanda a impedia de falar.
— Sua pirralha...
O homem aproveita o momento de distração para derrubar Amanda com um golpe rápido. Ela é jogada contra uma árvore enquanto o homem avançava calmamente contra Mikaela.
— Agora, seja uma boa garota e me dá esse cajado.
— Mikaela, por que voltou?! Foge agora!
— Amanda... como eu poderia fugir enquanto você se sacrifica desse jeito?!
O homem se aproximava a passos lentos e cuidadosos.
— Se me entregar isso, eu deixo você sair daqui ilesa, garotinha.
Mikaela se afastava com pequenos e temerosos passos para trás.
— Mikaela, corre!
O homem avançava atento à Amanda; ela sabia que se ela tentasse alguma coisa, ele avançaria em Mikaela, e isso seria um problema.
"Tenho que agir com calma... ele não pode usar aquele teleporte dele, bem provavelmente, senão ele já o teria usado em várias ocasiões. Ele claramente está poupando essa habilidade..., mas por quê?"
— Agora, me dá isso!
Ele chega perto o suficiente de Mikaela para alcançá-la com um ataque, e mesmo Mikaela não entendendo sobre essas coisas, ela sabia bem disso. A menina segura o cajado com as duas mãos e o estende levemente para frente.
— Eu te dou o cajado, se é o que você quer... mas deixa minha amiga em paz.
— Boa garota.
— Não, Mikaela!
O homem estende a mão para pegar o cajado, mas antes de alcançá-lo, a garota o move rapidamente para trás, desferindo em sequência um golpe na cabeça do homem, que o derruba no chão. Ela aponta o cajado para a direção do rosto dele, enquanto ele estava caído no chão.
— Não me subestime! Sou campeã de basebol da cidade de Mitsury!
— Péssima escolha, garotinha!
Mikaela fecha os olhos, se preparando para levar o ataque dele, mas Amanda a salva no último instante. Ela leva as duas para dentro da floresta, saindo do campo de visão do Magico, enquanto ele praguejava atrás delas.
— Ficou maluca! Isso poderia ter dado muito errado!
...
Kate corria entre as árvores, desviando dos ataques da grande serpente enquanto tentava achar alguma brecha para atacar. Ela é encurralada, de repente, pelo rosto da serpente; sua cabeça era tão grande quanto um carro, e sua boca podia facilmente engolir uma casa. Kate se prepara para defender, de alguma forma, a bocada do monstro. Ela estende sua mão esquerda em direção ao monstro.
— Hajuri Ha! — Uma enorme explosão e luz e calor vinda de cima afasta a criatura, fazendo-a rugir.
No mesmo instante, algo acerta a cabeça da serpente, derrubando e fazendo-a fugir floresta adentro.
— Meninas!
Eram Dominic e Gabriela.
— Kate, está tudo bem?! Onde estão as outras?
— Elas estão mais para dentro da floresta. Podem ir atrás delas, eu dou conta dessa coisa.
Dominic se aproxima de Kate e dá um peteleco na testa dela.
— Cala sua boca, metidinha! Acha que é quem? A deusa da batalha?
— Cala a boca você! Eu não vou perder para uma cobra!
— Se toca, garota! É mais fácil a gente acabar com essa coisa juntas e ir atrás das outras depois!
— Vocês duas! — Grita Gabriela. — Agora não é hora para brigarem entre si!
Enquanto falavam, a criatura reaparece, soltando rajadas de mísseis para cima das três.
...
Amanda corria com Mikaela no colo, enquanto fugia do Magico sem olhar para trás.
— Amanda, o que é aquilo?!
A menina faz um rosto sério e determinado assim que vê o que Mikaela aponta, se atirando para dentro da massa negra que se estendia a sua frente.
Laila trocava golpes com os clones de madeira do sujeito, enquanto ele criava mais e mais para ir atrás da garota. A menina se assusta quando sente a presença de duas pessoas entrando em sua penumbra. No mesmo instante, ela envia um clone para o lugar para checar.
Mikaela fechava os olhos enquanto se agarrava com força em Amanda, assustada com a súbita escuridão que percorreu seu corpo. Em poucos segundos ela volta a enxergar, e ao abrir os olhos ela vê o rosto familiar de Amanda e de uma outra pessoa.
— Laila?
— Conseguiu salvar ela?
— Ele ainda está atrás da gente! Assim que vi sua penumbra, não pude me conter em alcançá-la. Como está indo?
— Eu estou conseguindo segurar ele nesse exato momento. Eu sou um clone da verdadeira Laila.
— Um clone? Como daquela vez?
— É... mais ou menos. Eu não posso me afastar demais da original, infelizmente.
Do lado de fora da penumbra, o Magico gritava com ódio.
— Sua maldita! Eu vou te matar! Desse jeito, eu não posso simplesmente entrar nessa droga de penumbra... eu seria um alvo fácil lá dentro...
...
"Mudança de planos. Mágico e Marionete, deem suporte para a Pintora. Escultor, continue segurando a garota das sombras."
A mulher continuava trocando golpes com as duas, sem nem seque abrir os olhos.
— Já tem um tempo que ela parou de falar, e continua lutando com a gente com os olhos fechados...
— Por que será? E por que, mesmo com essas condições, não conseguimos acertar um único golpe?!
Lucy se afasta da mulher e faz um breve reconhecimento da situação. O número de corruptores ao redor da base tinha diminuído consideravelmente.
"Loreley... espero que você esteja bem."
...
Os barulhos e tremores começaram a ficar mais fortes, e Lily percebera que a boneca simplesmente parou de atacá-la.
— Será que ela desistiu? — Comenta Tsuhiko com certo receio.
— Não é isso.
Lily corta as cordas que prendiam o garoto, assim o libertando.
— Obrigado...
— Some daqui. Eu preciso ajudar as outras meninas.
O garoto agarra o pulso de Loreley, com um rosto sério.
— Espera, Lily.
— O que foi? Está com medo de andar na floresta a noite, sozinho? Com vários inimigos ao redor querendo te matar?
— Eu não estava pensando nisso..., mas agora você me deixou seriamente preocupado..., mas não é isso. Esculta... eu... eu vou querer conversar sério com você depois, pode ser?
A menina evitava contato visual, enquanto resistia ao segurar dele. Ela desfere uma baixa voltagem na mão do garoto, obrigando-o a soltá-la.
— Foge daqui, Tsuhiko, depois eu penso sobre isso. Preciso ajudar minhas amigas.
— Tá legal, eu vou te cobrar depois.
O garoto dá alguns passos para trás, receoso de deixá-la, mas o faz mesmo assim.
...
As três meninas se esquivavam da grande serpente, enquanto tentavam atacá-la de alguma forma.
— Quanto poder você conseguiu acumular nessa espada, Kate?
— Não muito. Ela não me deu espaço para desferir muitos ataques dessa vez.
— Então seu nível de ataque ainda não está bom... vamos abrir espaço para você conseguir alguns acúmulos nessa cobra.
— Por favor.
Dominic faz um movimento com o braço, fazendo-o brilhar; uma pequena manopla de pano branco com bordas prateadas se forma em sua mão.
— Isso é... — Kate tinha um olhar curioso sobre a garota.
— É uma transformação parcial.
— Aha! Então é assim que a armadura da Lux se parece?!
— Foco, Kate! Isso não é brincadeira!
— Ah, desculpa...
Dominic chama a atenção do grande alvo com pequenas rajadas de luz, que não causam injúria alguma, mas incomodam a criatura. Ela começa a seguir Dominic, enquanto Gabriela monta em cima dela, colocando as mãos próximas aos olhos da serpente.
— Ha Ken Saer! — Uma forte explosão de luz sai dos punhos de Gabriela, machucando os olhos da serpente. No mesmo instante, ela crava suas mãos sobre o focinho dela, repetindo a magia e explodindo a entrada de suas narinas. Assim que a serpente estende sua língua, ela invoca uma lança e corta a língua do monstro fora.
— Agora, Kate!
— Eu? Será mesmo que eu preciso fazer alguma coisa depois disso?!
A garota, mesmo dizendo isso, se atira para cima da serpente, atacando-a com uma sequência de golpes, mas é parada pelo Mágico, que tenta acertá-la, sem sucesso, com um golpe surpresa.
Dominic é golpeada e lançada para longe pela boneca, enquanto Gabriela e jogada para fora da Serpente pela própria Pintora, que aparecera de repente, cuspindo sangue.
— Isso realmente doeu... como ousam machucar minha obra desse jeito?
O homem de cartola começa a soltar interjeições de zombaria para a Pintora.
— Acho que sua serpente já era depois disso, não é?
— Calado! Você acabou de perder o nosso maior trunfo por ficar brincando!
— Se você não tivesse consumido tanto mana igual consumiu com esse brinquedo gigante...
A boneca dá um grito de repreensão para os dois.
— Ei, M'lady não mandou brigarmos entre nós, ela mandou acabarmos com essas meninas irritantes. Não tem problema elas terem conseguido o amuleto de volta, é só roubar de novo.
...
— Essa é uma boa ideia, Marionete...
As meninas ficam em posição defensiva assim que escutam a mulher falando e abrindo os olhos novamente. M'lady encarava Lucy com ameaça.
— Takira, cuidado, ela vai fazer alguma coisa.
— Sim...
A mulher começa a andar calmamente em volta das duas, analisando-as.
— Mágico, traga todos para cá, agora.
...
— Sim, M'lady.
Ele segura o pulso dos dois ao seu lado e desaparece em meio a fumaça.
— O que? Ele sumiu?!
— Para onde eles foram?!
Kate começa a suar frio, sentindo algo embrulhando seu estomago.
— Tenho um mau pressentimento sobre isso...
Lily aparece toda ferida, assustando as garotas.
— Ei, vocês estão bem?
— Olha só quem tá falando! — Grita Kate, desacreditada. — O que aconteceu com você?!
— Cadê aquela boneca maldita?!
— Ela acabou de escapar com o cara do chapéu e a Pintora. Onde estão os outros?
— Tsuhiko acabou de fugir, mas eu não sei da Amanda e da Laila.
Kate encara Lily com certo aperto no coração.
— Meninas, vamos voltar.
— Por quê?
— Tem algo que está me incomodando, temos que chegar até a base, rápido.
...
Laila circulava o lugar, tentando encontrar o rastro do Escultor, enquanto era seguida por Amanda e Mikaela.
— Droga... ele desapareceu? — Comenta Amanda. — Ele deixou essas esculturas de madeira lutando enquanto fugia.
— Eu senti alguma coisa entrando na minha penumbra e desaparecendo, foi tão rápido que mal pude ver o que era. Mas assim que sumiu, a presença dele também desapareceu, assim como as esculturas dele.
Elas se encaravam quando ouviram alguém se aproximando em altíssima velocidade.
— Aqui estão vocês. Precisamos voltar para a base, rápido!
— Dominic? Como chegou aqui tão rápido?
— É a habilidade delas, Laila. Esculta, Laila, pode cuidar da Mikaela? Acho que você é a melhor pessoa para isso, no momento.
A menina encara Amanda com certa relutância, mas assente.
— Tudo bem.
— Dominic, vamos. Mikaela... depois nós conversamos, tudo bem?
A menina balança a cabeça positivamente, meio sem saber como responder.
Dominic segura Amanda e desaparece em meio as árvores.
...
O grupo corria em direção a base, temerosos. Loreley tinha certa dificuldade de acompanhar as garotas, mas se recusava a ficar para trás. Algo em seu peito não a deixava fazer isso. Poucos instantes atrás, ela até mesmo se recusou a receber tratamento de Gabriela e Amanda. Ela precisava chegar até a base.
Assim que saíram da região da floresta elas começaram a alcançar a grande depressão onde a base estava instalada. Elas puderam ver de longe o grande estrago da batalha; o lugar estava completamente destruído. Em volta do prédio principal, que ainda permanecia intacto, vários soldados estavam caídos, grande parte deles mortos. Mas o que mais chamou a atenção delas não foi a destruição do lugar ou o número de corpos. O que mais chamou a atenção foi a cena que elas viram assim que se aproximaram.
Loreley fica sem reação, completamente atônita.
— Mestra...
A mulher segurava Lucy pelo pescoço, de cima do prédio principal do lugar. Takira estava prostrada logo abaixo, cercada de corruptores e presa com a própria lança, que estava cravada sobre suas costas.
Protegendo a entrada, os quatro lacaios da mulher estavam parados, olhando para o grupo que chegava furioso.
— Você... estava se segurando? — Diz Lucy, com uma voz fraca e rouca.
— Não. Eu estava tentando poupar energia. Apenas isso.
Assim que vê a sua pupila, Lucy sorri.
— Loreley... que bom... você está bem...
— Mestra Lucy... Mestra!
Amanda segura o pulso da garota, impedindo-a de agir sem pensar.
— Fica calma, Loreley, nós ainda podemos salvar ela. Estamos em maior número.
— Takira... — Dominic tremia com fúria enquanto encarava a cena.
Loreley dá um tapa no braço de Amanda, com fúria em seus olhos.
— Me solta, Amanda! Eu não vou deixar matarem minha mestra, como você fez com a sua!
— Idiota... — Diz Lucy, de forma fraca, olhando com repreensão para sua pupila.
Amanda solta a garota assim que escuta o comentário, cabisbaixa. No mesmo instante, Loreley avança envolta em raios na direção da base. A grande antagonista encara as meninas com desdém, enquanto tinha um ar completamente enojado perante seus próprios capangas.
— Estou cansada de sua incompetência, Artistas. Como querem provar que valem alguma coisa se nem conseguem lidar com crianças?
— Estamos completamente envergonhados com nossa performance, M'lady...
— Estamos desapontados, e extremamente tristes...
— É, foi mal, chefia...
— Bem, tanto faz. — Continua M'lady. — Agora, vamos acabar logo com isso.
Ela estala os dedos e os quatro despencam no chão, como bonecos.
— O que ela fez? — Questiona Gabriela, enquanto encarava fixamente a mulher.
— Um grande campo de força se estende ao redor de toda a base das Laders, impedindo as coitadas de sequer se aproximarem.
As meninas avançam tentando alcançar a mulher, mas são impedidas pelo enorme globo que se estende ao redor do lugar. Loreley bate seus braços contra a parede de energia com muita raiva em seus olhos.
— "Agora", diz a mulher... "vamos recuperar o que vocês nos tomaram." Ela coloca a mão sobre o seio da mulher elétrica...
— Para com isso! Para agora! — Grita Lily.
— Um pequeno brilho aparece na mão dela, e nesse brilho o objeto mágico aparece, esplendoroso como sempre. O mesmo que deu tanto poder para ela, o mesmo que permitiu a criação dos amuletos. O poder supremo entre corrupção e magia...
— Que... coisa é aquela?
Kate se atira com tudo pra cima do campo de forca, atacando com golpe atrás de golpe, inutilmente.
— "Logo," diz a artista, "Você vai aprender que nem tudo se resolve com força, criança".
— "Você está certa," diz Kate, confiante, "mas eu não quero quebrar o seu campo de força..."
A mulher franze a testa confusa com a atitude de Kate.
"Eu tenho certeza de que consigo fazer aquilo de novo... o que eu poderia fazer para engatilhar aquela habilidade?"
— Os olhos da garota se voltam para a mulher que segurava Lucy, enquanto ela, confusa, a encarava de volta.
— "O que ela está fazendo?" se perguntava M'lady.
— De repente uma pequena fenda se abre no portal que a mulher criara anteriormente, permitindo que a Volcano passasse.
E assim que Kate diz isso, é exatamente o que acontece, surpreendendo não só a mulher, como também suas próprias amigas. A menina dos cabelos ruivos avança para cima da mulher, obrigando-a a soltar Lucy e defender o ataque apressado da menina. O ataque fora forte o suficiente para lançar a mulher alguns metros para trás, mas não forte o suficiente para feri-la.
— "Entendo..." diz a mulher com um rosto sério. "Então é isso que torna você tão especial. Essa força é realmente considerável, não me admira que tenha conseguido derrubar a Pintora naquela ocasião."
As meninas, de fora do campo de força, assistiam a cena com os corações apertados. O pequeno portal que Kate abrira se fechou quase que instantaneamente, assim que ela passou por ele.
— Kate, faz isso de novo! — Gritava Lily desesperada.
— Um novo portal se abre no campo de força da Artista.
Porém, dessa vez, nada aconteceu.
— "Pelo visto" diz a mulher "Você não entende sua própria habilidade ainda."
"Por que não funcionou?" Pensava Kate.
— "Pois bem," continuava ela, "você conseguiu entrar aqui por conta própria. O que pretende fazer agora?"
Lucy tentava manter a consciência enquanto encarava Kate. Seus ferimentos a impediam de se mover direito, mas ela ainda conseguia ao menos ficar de joelhos.
— Kate, por favor... fuja daqui... com as outras...
— Negativo, diretora Lucy.
Lucy puxa o máximo de ar e solta um grito desesperado.
— Vocês não são páreas para essa mulher! O poder dela é diferente de tudo que eu já vi!
Antes que Lucy terminasse, Kate vê sua oponente desaparecer, reaparecendo bem na sua frente em um piscar de olhos. A mulher agarra o pescoço da garota, que tenta revidar com sua espada, inutilmente. A arma de Kate é lançada à metros de distância, enquanto a mulher levantava a garota pelo pescoço.
— "Tudo bem." Diz a mulher. "Se você quer tanto assim morrer para salvar sua companheira, vamos realizar seu desejo. Eu não posso roubar mais de um amuleto por vez, infelizmente, mas ao invés de pegar o do raio... acho que posso me contentar com o do fogo."
— Kate!
O objeto na mão de M'lady era feito de, aparentemente, ouro. Ele reluzia com um brilho dourado enquanto ela aproximava-o do coração de Kate. Sua aparência se assemelhava a uma esfera. Ela o segura por alguns segundos próximo ao peito de Kate, e enquanto o objeto brilhava, algo começara a surgir nas pernas e cintura da mulher. Uma espécie de armadura começa a se formar, preenchendo a parte inferior de seu corpo. As placas da armadura pareciam serem feitas de ouro puro, com linhas que as interligavam feitas de um material branco, tão reluzente quanto o ouro. Na região dos joelhos e da cintura, três espaços que tinham o exato formato e tamanho de um amuleto das Laders.
Kate sentia seu corpo queimar, como nunca sentira antes na vida. Ao mesmo tempo, ela sentia um calafrio, que percorria seu torso em direção ao seu coração. As fisgadas levavam sua consciência para mais distante a cada segundo. Enquanto vagarosamente ela ouvia os gritos de suas companheiras desaparecendo, sua mente se esvaía com pensamentos tristes.
"Desculpa... pessoal... eu não consegui salvar a diretora... mamãe, me desculpa por falhar com a senhora também... Mikaela, Tsuhiko, pessoal da escola... vocês me perdoariam também? Caso eu morresse... será que vocês ficariam bem?"
Um som é ouvido no ambiente. A mulher, em um súbito e rápido movimento, se afasta da garota, soltando-a.
— "O que foi isso?" Se perguntava M'lady, assustada.
"Mamãe... eu realmente não entendo por que esse amuleto me escolheu. Mas uma coisa está clara para mim, ele tem expectativas sobre minha pessoa. As mesmas expectativas que um dia estiveram sobre os ombros de alguém que não as atendeu. Se eu morrer aqui hoje, eu morrerei lutando. Eu não vou fugir."
— Kate... sua... idiota... — Dizia Lucy enquanto a encarava com muita repudia. — Onde foi que você leu sobre essa habilidade das Laders? Esse poder é proibido...
Uma bela canção permeava o campo de batalha, uma música familiar para Amanda, a mesma que sua mestra cantou pela última vez.
— Kate, não faça isso! — Gritou Amanda, desesperada. — Para! Você também não! Não do mesmo jeito que minha mestra!
Ela tinha um som melódico e melancólico, trazendo um ar de paz ao ambiente, mesmo em meio à tanto caos. Todas as outras meninas tinham rostos assustados enquanto assistiam a garota em chamas. Kate estende sua mão para sua espada, e ela volta a suas mãos em um instante. Enquanto cantava a canção, as chamas consumiam seu corpo e abriam feridas que sangravam enquanto ela se movia em direção a mulher.
— Aquela é a canção do sacrifício... — Diz Gabriela, assustada, — eu nunca esperei ver uma novata usando-a assim...
— Ela é uma idiota por fazer isso! — Grita Dominic.
Mesmo M'lady estava tendo dificuldades para se esquivar de todos os golpes de Kate; a velocidade, força, e tudo mais... eram totalmente diferentes de antes.
Amanda se prosta no chão aos prantos, enquanto vislumbrava a cena de sua amiga lutando contra a mulher.
— Não... não de novo...
"Nós mantemos isso em segredo das novatas por maior quantidade de tempo possível... esse recurso nunca deveria ser usado assim." Pensava Lucy com um rosto preocupado. "A canção do sacrifício eleva o poder da armadura ao seu máximo, dando um impulso considerável em todos os atributos da usuária. Mas se usada por alguém inexperiente como ela... não, mesmo alguém como a Ayla, com anos de experiência... isso sobrecarrega o corpo do usuário de uma maneira jamais antes vista."
— "Tudo bem." Comenta a mulher elegante, enquanto se movia e esquivava dos ataques furiosos da garota. "Eu já ouvi falar dessa habilidade, esse poder máximo que corrói o corpo do usuário em troca de um poder excessivo. Eu não pretendo mesmo lutar contra algo assim, eu não tenho tempo para isso."
A mulher se afasta consideravelmente de Kate, saindo do raio de ataque dela.
"Eu não conseguiria lutar contra ela nesse estado. Se eu tivesse mais tempo, certamente conseguiria vencê-la sem muito esforço, mas meu tempo é escasso. Aquela mulher já deve estar chegando perto daqui em poucos minutos. Meu plano deu errado quando eu a deixei usar essa habilidade. Se eu tivesse conseguido o amuleto dela, teria aproveitado a chance de me vingar da mulher de branco, mas não tenho mais tempo para pensar nisso."
A mulher estala os dedos e os artistas começam a se mover novamente.
— Mágico, tire-nos daqui.
— Sim, M'lady.
— Mas antes, vou deixar um presentinho para vocês.
Um pequeno estalo se faz na mente de Gabriela.
— A barreira sumiu, garotas!
Assim que a menina grita, as outras, com exceção de Amanda, começam a correr para dentro da base. Kate sofria em dores, enquanto tentava se manter em pé. Nesse meio tempo, a mulher lança uma pequena semente negra no chão, desaparecendo logo em seguida em meio a fumaça juntamente com o Mágico e seus capangas, que se seguravam no homem.
Gabriela e Dominic foram diretamente acudir sua companheira, que estava desacordada. Lily foi até sua mestra, apoiando o braço dela em sua nuca, enquanto abraçava seu corpo, dando apoio para que ela se levantasse.
— Amanda! A Kate precisa de você! Para de chorar e age!
A garota se levanta um pouco desnorteada e vai ao socorro da amiga. Porém, Lucy e Lily tinham uma clara visão da situação; aquilo ainda não tinha acabado.
O enorme foco que crescia já havia passado do tamanho normal. As duas sabiam bem que tipo de foco era aquele... pelo tamanho, não havia dúvidas.
— Mestra... precisamos fugir.
— Eu... eu sei, mas...
Gabriela e Dominic pareciam assombradas enquanto encaravam o corruptor surgindo.
— Um capitão... é um capitão corrupto!
— O penúltimo nível de corruptor?! Como esses caras...
Lucy grita desesperada para todos ouvirem.
— Escutem, quem estiver vivo e consciente! Fujam para o mais longe que puderem! Não temos como enfrentar essa coisa!
— Foi um desses que destruiu Rosvar durante a Grande Guerra. — Diz Lily, suando frio. — Ele matou todos os habitantes da ilha, e matou três Laders experientes durante o ataque...
O monstro rugiu ferozmente assim que abriu os olhos. Uma grande criatura negra, similar a um dragão, com os olhos vermelhos como o fogo. Seu rugido criara um conglomerado de nuvens que surgiam em uma espiral logo acima do monstro. A criatura já estava maior que o prédio principal da base das Laders, rugindo como um trovão, ensurdecendo as garotas.
Assim que a criatura para de rugir, as meninas escutam uma voz. Em meio ao silêncio, que permeou o ar após o rugido, aquela voz suave era a única coisa que as meninas ouviam. Com exceção de Kate, todas ali conheciam aquela voz.
— Val Drame Danci, Faron Foru Fader, Ferom Hoi Ha.
Uma frase grande, com várias palavras daryanas. A voz calma parecia relaxada e, ao mesmo tempo, confiante. Ela tinha um tom grave para uma voz feminina, mas ainda demonstrava certa delicadeza em meio a sua imponência.
— Ayla... — comenta Lucy, com um meio sorriso.
Uma luz cortou o céu, provinda do leste da base, e acertou a criatura em cheio, derrubando-o instantaneamente. A enorme explosão de luz era como um gigantesco tiro a laser, uma enorme coluna horizontal luminosa que atingiu o monstro e o empurrou contra a parede da base. O monstro se levanta meio cambaleante, encarando a direção de onde o ataque veio, mas não consegue enxergar nada.
— Estás a olhar para o lado errado, lagartinho.
O monstro se vira para encarar a dona da voz, que o encarava de cima do prédio, próxima as meninas que lutavam ali anteriormente. Kate, mesmo ferida e com dores, admirava o acontecido com brilho no olhar. Amanda tentava tratar seus ferimentos da melhor maneira possível, preocupada sobre sua condição. A mulher a sua frente deu uma breve olhada em seus olhos, fazendo-a se intimidar no mesmo instante com a atitude.
"Então essa... é a Lirou Lader mais forte..."
— Towai Drame Fugy. Kui Riukudey!
Um corte de luz atravessa o monstro, criando um efeito luminoso distorcido que fora vislumbrado por todas ali. A própria imagem parecia ter se quebrado, como uma miragem. A mulher havia atravessado o corpo da criatura com sua enorme alabarda.
— É mesmo a mestra Ayla? Como ela está conseguindo luta com aquela coisa?
— Dominic, eu não tenho dúvidas que é ela. Mas veja... ela não está mais lutando. A luta acabou...
A mulher de branco, em pé e de costas para o monstro, permanecia em uma pose imponente e poderosa. Quase tão alta quanto Lucy, apenas alguns centímetros mais baixa, ela vestia um grande vestido medieval de batalha. A parte de cima se assemelhava a um kimono, com grandes mangas compridas; em sua cintura, uma faixa cinza que cobria toda a região do abdômen. A saia da mulher era dividida em quatro partes, sendo separadas na região das pernas, e embaixo de sua saia uma calça branca era visível, colada a pele. Ela usava botas similares as de Lucy, mas totalmente brancas e com um salto alto. Em sua cabeça, seus enormes cabelos brancos estavam presos com uma bela e estilosa presilha, feita de prata com uma aparência similar ao seu símbolo.
O rosto da mulher era jovem, e sua aparência, bela. Kate ficara encantada com a visão, quase se esquecendo de toda a dor que estava sentindo naquele ponto. Enquanto estava deitada, recebendo o tratamento de Amanda, a garota refletia sobre a visão incrível da Lader Lux, enquanto sua consciência vagarosamente desaparecia.
À mão direita da mulher, uma grande alabarda, alguns centímetros maior que a mulher; no lado esquerdo, ela segurava uma esfera vermelha, similar à que M'lady segurava mais cedo.
Lily e Lucy se reúnem as outras duas meninas na parte de baixo do lugar, enquanto o monstro desaparecia em meio a fumaça e poeira negra. Ayla andava calmamente em direção às quatro, com um rosto sério e deslumbrante. Lucy se desapoia de Lily e começa a andar em direção a ela com um enorme sorriso.
— Ayla, você...
— Lucy...
Com um grande calafrio, a mulher loira desfaz seu sorriso e se impulsiona na direção de Ayla, pouco antes da mulher desmaiar em seus braços.
— Ayla! Ayla! Acorda!
Enquanto sua armadura desaparecia, seu rosto jovem era substituído por um rosto mais idoso, cheio de rugas, enquanto seus cabelos brancos tomavam um tom mais acinzentado.
— Mestra Ayla! — Dominic gritava, se aproximando desesperada junta das outras duas garotas, que acudiam a mulher.
Gabriela começa a checar o estado dela, ficando com um rosto sério e preocupado.
— Isso é ruim, Lucy. Garotas, temos que levá-la para dentro da base, ela usou muito mana... ela desmaiou de exaustão. Mas nunca vi ela num estado tão precário...
— Garotas! — O grito de Amanda chamou a atenção de todas. — O coração da Kate... Ele parou!
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