Lirou Lader — Parte 1
14 Reflexões e Confrontos
Amanda corria junto com Lucy e os médicos da base pelos corredores, empurrando a maca de Kate. A garota estava extremamente temerosa sobre a situação. Seu corpo inteiro tremia enquanto eles avançavam com Kate pela base. Amanda mantinha sua magia de cura em constante uso, mas ela não sabia por quanto tempo isso iria funcionar. Elas entraram na sala e os médicos começaram os procedimentos para salvar a vida da garota.
Enquanto isso, o outro grupo formado por Gabriela e Dominic, junto de alguns enfermeiros, tratavam dos ferimentos de Ayla, que não eram muitos. Takira, que estava em um estado pior, já havia sido tratada, e se recuperava. Seus ferimentos não haviam sido fatais, apesar de graves.
— Ela não parece estar correndo perigo. O que mais me preocupa agora é a Kate, será que ela vai ficar bem?
— Eu não sei... não são muitas as Laders que sobrevivem depois de usarem a canção do sacrifício. Por mais que ela tenha usado apenas por cerca de um minuto, foi o suficiente para destruir parte do corpo dela no processo. Ela talvez tenha tido sorte de não ter dado tempo de completar a conjuração.
Elas fazem silêncio por alguns segundos, até que Dominic dá uma leve risada, deixando sua amiga confusa.
— O que é engraçado nessa situação toda?
— Elas são iguaizinhas nesse ponto, não é?
Gabriela dá um leve sorriso, que logo se desfaz.
— Tanto a Mestra quanto a Kate, são duas idiotas.
Depois de alguns minutos, as meninas se reúnem a Lily, que esperava ansiosa sentada próxima a sala de cirurgia. A perna da garota balançava freneticamente, enquanto descansava seus braços sobre os joelhos, segurando suas mãos.
— Nenhuma notícia ainda? — Diz Gabriela, enquanto se sentava ao lado da garota.
— Não...
A menina encara os machucados de Lily, que ainda não tinha recebido um devido tratamento.
— Não vai cuidar disso?
— Você acha mesmo que eu me importo? Isso não é nada se comparado com o que a mestra sofreu. Eu me recuso a receber tratamento primeiro que ela.
Lucy havia entrado junto com Amanda na sala de cirurgia, para ajudar no que fosse necessário. A mulher tinha um grande conhecimento, e isso incluía medicina também. Depois de alguns minutos, elas veem Lucy voltando com um rosto mais calmo.
— Como ela está?
— A situação foi estabilizada. Mas ela ainda corre perigo. Por enquanto, o que nos resta é aguardar. A canção do sacrifício impõe muito estresse sobre o corpo do usuário. Se Kate se recuperar, ela não vai conseguir usar magia por uns bons dias.
Elas escutam passos apressados vindo em direção a elas, era Larry.
— Ei, eu ouvi o que aconteceu, está tudo bem?
— Não muito... — Diz Gabriela, com um rosto abatido.
— E onde você estava durante a confusão? — Pergunta a mulher loira, com certa raiva.
— O que? Eu estava checando a área com um pequeno grupo em busca dos focos, fomos nós que destruímos eles. Se não fizéssemos isso, não pararia de chover corruptores na base.
Ela o encara com certa desconfiança, mas volta seu olhar para as outras meninas.
— Não adianta ficarmos aqui nos matando de preocupação, temos que arrumar a bagunça lá fora. Vamos. — Lucy encara sua pupila e faz um rosto de repreensão. — Loreley, por que ainda não tratou isso?!
— Olha só quem fala! A pessoa que mal conseguia ficar em pé alguns minutos atrás!
A mulher suspira, encarando a garota novamente com um sorriso.
— Tudo bem. Vamos cuidar dos nossos ferimentos então.
— Mestra... a Kate... ela vai ficar mesmo bem?
Lucy percebera a hesitação na voz de Lily. Ela ainda se lembrava das vezes que viu a canção do sacrifício em ação. Lily sabia que era um poder injusto; o que ele tirava da usuária não compensava o poder real que lhe era dado.
— Sim, não se preocupe. — Lucy sorria enquanto acariciava a cabeça de sua pupila. — Se Kate tivesse completado a canção, a história seria outra. Mas não tem por que se preocupar com ela. A Amanda está fazendo de tudo para que ela se recupere.
Loreley apertava suas mãos com força, enquanto evitava contato visual com os presentes ali.
— Eu disse algo horrível para a Amanda...
— Sim. — Diz Lucy dando um peteleco forte na testa da garota, fazendo-a instantaneamente reagir, colocando as mãos na testa.
— Isso doeu!
— E era para doer mesmo! Eu espero que se desculpe direito com ela, depois que tudo acabar!
A menina tinha um leve rosto de choro, misturado com um rosto bravo, enquanto encarava sua mestra. Ela esfrega a testa por alguns segundos, depois, faz uma expressão séria e distante.
— Aconteceu muita coisa em tão pouco tempo...
Todos ali ficam pensativos sobre a fala de Lily.
— Já entraram em contato com a Laila? — Pergunta Lucy, olhando na direção de Dominic.
— Sim, ela disse que está com os outros dois. Ela parecia um pouco irritada no telefone, falando algo como "a Kate tinha razão, vocês sempre deixam para as novatas o trabalho de explicar as coisas", alguma coisa assim.
Um bipe é ouvido vindo da cintura de Larry, era seu comunicador.
— Ah, eu preciso atender isso. Mas acho que eles não podiam ter ligado em pior hora.
— Quem é? — Pergunta Lucy.
— É da base de Amarin. Só um instante.
Ele atende o comunicador, logo ouvindo uma voz masculina elegante.
— Senhor Lockenheart? Está na esculta?
— Sim, essa voz, Lance? É você?
— Poxa, fiquei imaginando se conseguiria falar com você hoje! As linhas da base parecem estar todas em mal funcionamento. Aconteceu alguma coisa? Já é quase meia noite aí, e só agora consegui entrar em contato.
— Bem... sim... aconteceu bastante coisa na verdade... ah, esculta, espera só um minutinho. — Ele muta a comunicação por alguns instantes. — Ei, Lucy, essa é uma ótima oportunidade, acho que podemos aproveitar o momento para fazer uma chamada de vídeo com ele. Não querem vir junto? Acho que vai ser mais fácil para mim se tiver mais gente por perto...
— Por que diz isso?
— Bom, até agora, eles não conseguiram enviar pessoal para cá. Eu fui o único a ser mandado para Mahuji, e minha missão aqui, como vocês bem sabem, é não só auxiliar, mas ajudar a preparar as coisas para a chegada do grupo.
— Não sei o que esses caras têm de tão especial... — Diz Lily com bastante discriminação.
— Por que não vêm? Vocês logo vão descobrir que eles podem ser bem úteis.
— Quem é esse Lance?
— Ele é o atual líder dos Lirou Clow. O que me dizem?
Lucy fica pensativa, encarando suas aliadas. Lily parecia não se importar, Dominic tinha um rosto levemente curioso, e Gabriela a encarava com aceitação, fazendo uma expressão de "por que não?".
— Tudo bem...
Larry assente com um sorriso, voltando-se ao comunicador novamente.
— Lance, ainda na esculta?
— Sim, mas se me fizer esperar mais, vou te obrigar a me pagar uma rodada daquela bebida que costumávamos tomar na faculdade; sabe? Aquela com o logo de búfalo, qual era o nome mesmo?
— Ah, — O homem começa a gaguejar e a fazer uma voz trêmula por alguns instantes, — esculta, agora não é hora dessas coisas. Você está na base? Vou fazer uma chamada de vídeo com você, tudo bem?
— Sim.
Eles se dirigem para uma sala de reuniões. Larry, Lucy, Lily, Dominic e Gabriela. A sala possuía um enorme telão, algumas cadeiras e uma mesa. Mas todos eles escolheram ficar de pé. Larry mexeu em alguns controles próximos ao grande monitor e começou a vídeo chamada. Logo que atendeu, o homem no telão chamou a atenção das garotas. Seu rosto era bem jovem, um porte físico respeitável, e uma boa aparência. Ele tinha cabelos grandes e lisos, totalmente brancos, uma franja estilosa, olhos azuis e um ar maduro e decoroso. Seu uniforme era branco, com bordas azul Royal; um terno branco com as bordas azuis, em cima de uma camisa em um azul escuro e uma gravata azul Royal. Atrás dele, um grande símbolo da organização das Laders.
— Oh, eu não esperava ter mais gente na chamada.
— Lance, essas são Lucy, Lily, Dominic e Gabriela.
O homem tinha um rosto complacente de dúvida, com um meio sorriso no rosto.
— Pelo estado visual de vocês... eu imagino que acabaram de passar por algo grande. O que aconteceu?
— A base foi atacada. Tivemos várias baixas, algumas Laders acabaram se ferindo feio... a situação está bem complicada agora.
— Ah, eu não fazia ideia... têm certeza de que é uma boa hora para conversarmos, então? Se for necessário posso deixar para depois...
— Não, é um momento perfeito. Não é sempre que consigo ter a Lucy por perto por muito tempo, mas levando a situação atual em consideração, ela não vai poder fugir dessa vez.
A mulher encara o rapaz com um olhar penetrante, mas ignora a fala dele. Ela estava com seus braços cruzados, enquanto encarava Larry. Lance da uma leve risada, chamando a atenção das meninas.
— Você ainda não tem jeito com mulheres, Larry. Bom, nesse caso, eu gostaria de me apresentar de maneira mais formal. Meu nome é Lance Howard, sou um ex-soldado de elite do exército de Amarin. Atualmente, atuo como líder dos Lirou Clow, aqui em Amarin. É um prazer conhecê-las, senhoritas.
— É um prazer, senhor Howard. — Diz Lucy com um leve sorriso.
— E eles deixam soldados de elite terem cabelos grandes no exército de Amarin? — Pergunta Dominic.
— Na verdade não, mas eu já não faço mais parte das forças especiais, então...
— Entendo.
— Eu gostaria de me desculpar com vocês pelo enorme atraso que estamos tendo. Recentemente, tivemos muita movimentação de corruptores na região e, também, estamos tendo problemas com um grupo em específico, que têm usado a corrupção como arma para agir.
— Um grupo... não me diga...
— Sim, a ARPA.
Lucy fica surpresa em ouvir o nome da organização.
— Espera um pouco... ARPA?
— Pela sua reação..., esperava outro nome?
— Bom... sim!
Ele sorri, desajeitado.
— Desculpe desapontá-la, mas sim, a ARPA é a tal organização. Tivemos muitas aparições de Corruptores Tiranos pelas redondezas e, embora fossem bastante fortes, mais fortes que Tiranos comuns, eles não criavam corruptores. Eram estéreis.
Elas ficaram surpresas ao ouvirem isso.
— Corruptores Tiranos? Não deveriam ter coisas dessas por aí... a Zona de Convergência está longe demais de Amarin para terem aparições como essas...
— Nós também estranhamos bastante no começo, mas depois de um tempo, acabamos descobrindo o motivo... por bem ou por mal...
— Entendo... ARPA? Corruptores artificiais costumam ser estéreis mesmo.
— Sim. O grupo deles é bastante organizado, tendo bons equipamentos e soldados muito bem treinados. É diferente de qualquer coisa que já vi, se tratando de corrupção. Não entendo o porquê uma empresa tão grande e de renome estaria se envolvendo com corrupção desse jeito. A grande questão é que eles estão nos dando mais trabalho do que esperávamos.
— Bom, e seus homens estão bem? Levando tudo isso em consideração, vocês devem ter sofrido muitas baixas...
— Ah, não se preocupe com eles. Todos nós somos soldados de elite com anos de treino e experiência. Temos bastante convicção de nossas habilidades.
— Falando nelas... ouvi dizer sobre suas habilidades. Vocês realmente conseguiram "copiar" nossos amuletos?
Ele dá uma risada descontraída ao ouvir a mulher.
— Não nos superestime assim. Não, infelizmente, nós não conseguimos ir tão longe. Os amuletos das Laders possuem uma tecnologia mágica muito específica. Nem nossos melhores cientistas conseguem decifrar os amuletos por completo. O que nós fizemos, no entanto, foi uma versão similar ao amuleto de vocês, usando nossa própria tecnologia mágica. Eu espero poder mostrar para vocês pessoalmente algum dia, assim que tudo isso acabar.
— Talvez antes disso, eu suponho...
Ele faz um rosto sério.
— O que quer dizer?
— Ouvir você comentando sobre a ARPA me fez pensar... será que eles estão trabalhando juntos com o grupo que estamos enfrentando?
— É bem provável, sim.
— Bom, se isso acabar se provando verdade, talvez nós tenhamos realmente que acabar trabalhando juntos.
— Mas isso não seria de todo ruim, não é mesmo? Seria um prazer trabalhar com vocês.
Lucy ouve o comentário e fica pensativa, encarando o homem na telona com um rosto curioso.
"Ele me parece uma boa pessoa. E, também..." A mulher começa a ficar corada.
Lily percebe os olhares de Lucy e faz um rosto sarcástico, cutucando-a. A mulher olha confusa para a garota, repreendendo-a.
— Bom, eu não queria tomar mais o tempo de vocês. Sei que devem estar cansadas, depois do que aconteceu. Eu só queria passar este meu relatório. Para encurtar, eu envio o resto por escrito, pode ser, Larry?
— Sim, está ótimo, obrigado, Lance.
— Então é isso. Senhoritas, foi um enorme prazer conversar com vocês. Espero que possamos nos ver pessoalmente em breve.
— Sim, digo o mesmo.
Ele desliga. Lucy imediatamente agarra a orelha de Loreley, puxando-a.
— Vamos lá, hora de tratar esses ferimentos.
— Ah! Tudo bem, mas não precisa fazer mais ferimentos para serem tratados!
...
Amanda permanecia sentada ao lado de sua amiga, preocupada com sua situação. Seus pensamentos estavam tempestuosos; a tormenta que assolava sua mente a trazia de volta à um passado doloroso. Ela se lembrava de como tudo acontecera, e sua dor apenas aumentava ao voltar a si e ver sua amiga naquele estado. Kate já estava praticamente fora de perigo, mas com certeza isso ia causar alguma sequela.
Uma lágrima desceu de seu olho esquerdo, quando sua voz finalmente saiu.
— Sua idiota...
A fala foi curta, mas cheia de sentimento.
Não havia muito mais que Amanda pudesse fazer, apenas aguardar. Ela segurou seu amuleto e o encarou, com muita tristeza.
"De novo, eu não pude fazer nada... eu fui um peso morto, novamente. Mestra Courtney, eu sinto sua falta..."
No mesmo instante que esse pensamento percorreu sua mente, ela ouviu a porta automática da sala se abrindo. Eram três pessoas.
— Amanda! — A garota pulou em cima dela, abraçando-a com força.
— Mi... Mikaela! O que está fazendo aqui?! Laila, por que trouxe os dois para cá?
— Me disseram que eu podia trazê-los. E, levando tudo o que aconteceu em consideração, não seria seguro deixar eles sozinhos, depois de tudo.
— Seus pais não vão ficar preocupados?
Tsuhiko ajeita seus óculos e suspira.
— Não tem problema, meus pais estão viajando a negócios, eles ainda vão ficar fora por algumas semanas. Já a Mikaela inventou uma desculpa, e disse que dormiria na casa de uma amiga. Levando a personalidade dela em consideração, acho que deve ser comum para a família dela.
Os dois olharam para Kate na cama e fizeram rostos tristes. A garota estava entubada, com uma respiração ritmada e fraca. O som dos aparelhos preenchera o ambiente. Mikaela não pôde deixar de derramar lágrimas pela situação.
— Ela... vai ficar bem?
— Eu espero que sim. Eu fiz o que pude para salvá-la.
— O que aconteceu?
— É complicado explicar para vocês dois. Laila, você chegou a contar algo a eles?
— Sim.
Amanda fica em silêncio, fechando os olhos e voltando aos seus pensamentos. Ela encara o grande objeto amarrado nas costas de Laila, curiosa. A arma de Flora, ela reagiu à Mikaela. Amanda tinha medo do que isso poderia causar.
— Eu me lembrei agora, Amanda.
A voz de Mikaela chamou a atenção de Amanda.
— Lembrou de que?
— De como eu consegui a senha do celular da Kate. Eu me lembro bem agora.
A menina faz um rosto triste.
— Entendo.
— Amanda... obrigada por me salvar.
Ela levanta a cabeça e encara o rosto agradecido de Mikaela, ficando com um coração levemente acalentado ao olhar para ela.
"Sim" pensava ela "eu salvei a Mikaela...".
Ela sorriu, sem dizer nada. Amanda entrelaçou os dedos e abaixou a cabeça, enquanto todos permaneciam com seus olhares sérios perante a situação.
...
Lance solta um grande suspiro, enquanto esfregava a raiz do nariz com o indicador e o polegar.
— Eu não imaginava que tinha sido tão ruim...
Ele lia os relatórios de Larry sobre o ocorrido na base das Laders com bastante cuidado, quando ele ouve alguém entrando. Era um rapaz ruivo, menos de vinte anos, cabelos até ombro, com um rosto nada gentil.
— Toma. — Diz o garoto jogando um saco de papel em cima da mesa do homem.
— O que é isso?
— Seu café da manhã. Me pediram para trazer.
— Obrigado? — Diz ele meio sem jeito.
— O que tá fazendo?
— Lendo uns relatórios que o Larry me mandou. Eu acabei de ter uma pequena reunião com ele e algumas das Laders.
— Ah, as princesinhas. — Diz o rapaz de forma presunçosa.
Ele olha com um rosto repreensivo para o rapaz.
— Relaxa um pouco aí, Drake.
Eles escultam risadas e passos vindos do lado de fora, logo veem um garoto de uns quatorze anos entrando, todo animado.
— Ai, Drake, se liga nisso!
Ele mostra algo no celular para o rapaz, que olha com um rosto curioso; logo seu rosto curioso se transforma em um rosto de nojo.
— Urg! Que merda é essa, Oliver?! Qual o seu problema?
— Aha! Não é demais?!
— Isso é nojento, moleque doente! Vai se tratar!
Em meio a risos, ele se aproxima de Lance, mostrando o celular para ele também.
— Ai, Lance, se liga no lance!
O homem olha a tela do aparelho, logo em seguida suspira, entediado.
— Se está tendo tempo para essas coisas, acho que eu posso aumentar sua carga de treinamento.
— Claro! Triplica ai para mim! Não, cinco vezes!
— Vou fazer isso mesmo.
— Eu tenho que mostrar isso para o David e para o Anthony!
Ele sai da sala, da mesma forma que entrou.
— Cara, qual o problema desse daí?
— Deixa ele, ele é só uma criança ainda. Você me preocupa mais que ele, sabia?
— Eu? Eu sou seu melhor soldado. Tá reclamando do que?
— Dessa sua atitude. Ser bom em combate e obedecer a minhas ordens não é tudo. Dentro de alguns dias vamos nos mover para a base das Laders em Mahuji, e eu quero que você se dê bem com elas.
— Pfs, lá vem você de novo com isso.
— Drake...
— Tá, eu já sei! Não precisa repetir! Não se preocupa, não vou ficar fazendo graça quando a gente for para lá. Elas vão acabar percebendo por conta própria a nossa diferença mesmo, então nem é como se eu precisasse.
O homem suspira, irritado.
— Não dá para dialogar com você mesmo.
— Ah, depois que tomar o seu café, o Douglas pediu sua atenção na doca 7.
— Tudo bem, diz para ele que vou assim que terminar de ler o relatório.
— Sim, senhor.
O rapaz sai da sala. Assim que o faz, Lance olha curioso para o saco de papel, pegando-o e abrindo-o. Ele suspira, entediado, enquanto joga o saco em cima da mesa novamente.
— Hamburguer? Quem come isso no café da manhã?
...
Dois dias se passaram desde o ataque a base. Kate já havia se recuperado, e permanecia no quarto, sem o auxílio dos aparelhos. A garota ainda não havia aberto os olhos, mas já estava fora de perigo. Amanda permanecia cuidando dela com afinco, deixando todos os outros detalhes de lado. Para Amanda, Kate era um monstro; sua recuperação estava avançando em uma velocidade anormal. Lucy sorriu quando Amanda contou para ela, e disse para não se preocupar, pois havia um motivo lógico para isso. A qualidade de Kate como nível dragão permitia que a garota se recuperasse mais rápido. A verdade é que, se não fosse seus níveis absurdos de mana, talvez a situação de Kate tivesse piorado.
Não completar a canção do sacrifício implicava que ela não havia trazido todo o poder da canção à tona. Laders com um nível de experiência elevado conseguiam usar um verso da canção, sem correr grandes riscos. Mas o histórico de Laders que sobreviveram à canção completa era tão baixo que era quase impossível especular que essa canção, algum dia, seria segura para ser cantada completamente por alguém. Por este simples fato, por gerações, as Laders vêm escondendo essa canção de suas aprendizes e novatas. Isso era um segredo interno que apenas as Laders mais experientes sabiam. O caso de Amanda e Lily eram diferentes, pois elas já haviam visto a canção uma vez.
Loreley entrava no quarto com um rosto culpado, enquanto se aproximava de Amanda, que estava sentada ao lado da cama de Kate lendo um livro. Ela se aproxima de Amanda sem olhar para ela, puxando uma cadeira e se sentando ao lado dela.
— Posso conversar com você um pouco?
— Claro, o que foi?
Lily tentava não ser muito intrusiva, mas ela sabia que precisava dizer algo.
— Me desculpa.
— Pelo que?
— Você sabe pelo que. Pelo que eu te disse, àquela hora...
— Não se preocupe com isso, você estava de cabeça quente, é normal.
— Não, mesmo naquela situação, eu não deveria ter dito o que disse. Foi idiota da minha parte falar aquilo...
Amanda faz silêncio, enquanto olhava para o rosto pacífico de Kate, que descansava tranquilamente sobre a cama do quarto.
— Sabe, ver a Kate nesse estado... depois de ela usar a canção que matou minha mestra...
— Eu sinto muito por tudo isso...
Amanda balança a cabeça.
— A culpa foi minha, como sempre.
— O que está dizendo?
— Eu não deveria ter tentado te impedir. Talvez se tivéssemos agido antes, todas juntas, sem hesitar, nós teríamos evitado a Kate de fazer essa besteira.
— Não diga idiotices! Você sabe que isso não é verdade... o que poderíamos ter feito? A Kate teria avançado, de qualquer forma. Não tinha como evitar essa situação. Não você sozinha, pelo menos.
— Talvez você tenha razão...
Lily sabia que Amanda estava passando por um momento difícil. Ver sua amiga naquele estado doía seu coração. Mesmo que por um instante, ela queria poder ajudar, nem que fosse apenas um pouco.
— Amanda, não foi sua culpa... o que aconteceu com sua mestra, não foi sua culpa.
— Lily, eu agradeço suas palavras, mas...
— Pare de se culpar! — Grita a menina.
Amanda toma um susto com o grito repentino, sem olhar para Lily, ela continua encarando seu livro.
— Você não pode gritar em um quarto de hospital.
— Desculpa..., mas não foi sua culpa. Eu sei que a Lucy teria feito a mesma coisa por mim. Qualquer uma de nós faria.
— Lily...
— Era o seu irmão ali, o que você...
— Loreley! — Grita Amanda.
Elas fazem silêncio, encarando o chão. Lily se levanta, um pouco trêmula.
— Desculpa. Eu só queria tentar te animar um pouco...
Amanda balança a cabeça, com um rosto irritado. O clima tinha mudado completamente. A voz delas estava bem mais trêmula, e cheia de sentimento.
— Não toque mais nesse assunto, por favor.
— Tudo bem. — Diz Lily, fazendo uma longa pausa. — Mas eu preciso te dizer uma última coisa antes de ir embora. E você vai me ouvir.
Amanda apertou o livro com as duas mãos, com uma expressão de raiva em seu rosto, enquanto encarava o livro sem olhar para Lily.
— Fala de uma vez.
— Você salvou a Mikaela.
A menina levanta a cabeça com um rosto mais ameno, confusa, encarando Lily em sequência. Seus olhos tremulavam enquanto enfrentavam a garota loira, que sorria para ela.
— Eu... — Amanda desvia o olhar novamente, encarando o nada.
— Você salvou a Mikaela, Amanda. Você não é uma inútil. Você recuperou o amuleto da Flora. Você não é uma inútil. Você salv...
Lily é interrompida por uma terceira voz.
— Você... salvou minha vida... Amanda... — Diz a menina rouca, olhando para a amiga.
As duas olham para a garota deitada na cama com surpresa nos olhos.
— Ka...
— Você não... não é uma inútil, Amanda...
A garota de cabelos curtos abaixa a cabeça, com um rosto choroso. Ouvir aquelas palavras fora um choque para ela. Mas era a verdade, Amanda havia conseguido salvar suas amigas, e ainda conseguira recuperar o amuleto da Lader Flora. Lily se debruça atrás dela e a abraça, com um sorriso, enquanto Kate estendia sua mão para alcançar a mão dela.
— Pare de se culpar pelo passado... encare o futuro que está diante de você.
Aquele gesto fez com que seus olhos não conseguissem mais segurar suas lágrimas. Ela chorava copiosamente, em silêncio, com apenas pequenos soluços que podiam ser sentidos por Lily, que a abraçava.
Lucy, de trás da porta do quarto, escorada contra a parede, ouvia tudo com um sorriso no rosto. A mulher, no entanto, desfaz seu rosto feliz e o substitui por um rosto pensativo.
"Courtney, eu me pergunto o que teria acontecido se você não tivesse feito o que fez aquele dia."
A mulher começa a andar para além do corredor, em direção à sala de Ayla, reflexiva sobre tudo que ocorrera com elas nos últimos dias. Ela sentia o peso da responsabilidade sobre seus ombros. Mas com a volta de sua superior, talvez ela pudesse ter algum momento de paz? Era um sonho válido para ela naquele momento, por mais que soubesse que não passava de um sonho. Assim que entrou no quarto, Lucy se senta ao lado da cama de Ayla, encarando-a em silêncio.
— Acho melhor me levar para beber depois que acordar, ou eu vou ficar muito irritada com você, Ayla.
Ela encara o pequeno objeto que a mulher segurava quando desmaiou. Ao lado do amuleto de Ayla, em cima da escrivaninha, a esfera vermelha brilhava, deixando-a curiosa e apreensiva sobre ela.
...
Uma semana se passou. As meninas gritavam com Kate enquanto ela comia como uma louca no refeitório da base
— Você tem que descansar! — Gritava Amanda. — Ainda não está cem por cento recuperada!
— Mas eu perdi dois dias de comida! Eu preciso recuperar isso!
— Você já tá "recuperando" esses dias há quatro dias!
— Ah, me deixa ser feliz! Comer é a melhor coisa da vida! Eu gastei muita energia naquela luta, sabia?
— Kate, qual a circunferência da terra? — Pergunta Lily, de forma descontraída.
— Uns quarenta mil quilômetros. — Diz Kate, de boca cheia.
— Nossa, será que você alcança isso, comendo desse jeito?
— Nossa, já pensou?! Eu ia ficar gigante!
— Mas a Lily já tem quase esse tamanho. — Dizia Tsuhiko, enquanto ajeitava os óculos.
— Calado, cabeça de tigela! Eu não preciso mais esconder meus poderes de você, então quando eu quiser, eu posso te fritar!
— Você pode usar sua magia contra mim a vontade, Capitã Lily, mas nunca vai conseguir me vencer...
— Amanda, ele tá pedindo! Me deixa dar um choquinho nele! Por favor!
Depois do ocorrido, Tsuhiko e Mikaela acabaram passando bastante tempo na base. A situação de Mikaela era bem específica, já que ela havia se tornado uma Lader, mas a de Tsuhiko era diferente.
Assim que ficaram sabendo dos detalhes, os dois se recusaram a voltar para casa. Lucy se reuniu com as outras meninas, enquanto pensavam no que elas deveriam fazer em sequência.
— A Mikaela, querendo ou não, é uma Lader agora. — Pontuava Dominic. — Ela vai ter que lutar para sobreviver, a partir de agora.
Lily tomou a palavra.
— Nós não vamos poder simplesmente usar a magia de memória com o Tsuhiko. As memórias dele sobre o caso foram muito específicas, e envolveram pessoas muito próximas. O bloqueio não vai durar muito.
Lucy permanecia inquieta, balançando a perna.
— Eu tenho uma ideia, mas não sei se vai ser muito boa...
— Estamos dispostas a ouvir qualquer plano, Lucy.
— Vou sugerir que o Tsuhiko se torne um estagiário da base, o que me dizem?
— Que?! O cabeça de tigela trabalhando aqui?! Tá falando sério?! Eu já não tenho que aturar ele tempo o suficiente no conselho estudantil, agora vou ter que aturar ele dentro da base também?!
— Para de show, Loreley, você ficou feliz, não ficou?
— Eu não! — Dizia ela, enquanto corava e virava o rosto, emburrada.
— Estamos precisando de pessoal mesmo, para lidar com a papelada. — Comenta Gabriela. — Acho que não é uma ideia ruim. Tendo uma mão a mais para ajudar, ainda mais alguém com certa experiência em mexer com papéis, vai ser de grande ajuda. Eu tenho certeza de que isso pode dar certo.
A decisão fora feita, e Tsuhiko aceitou imediatamente, assim que ouviu sobre. Lily continuava implicando com o garoto, e os dois trocavam xingamentos e provocações, mas algo estava diferente. Laila olhava para a cena com um leve sorriso.
— O clima entre os dois mudou bastante, não é? — Diz ela em tom baixo para Amanda.
— Você também percebeu?
— Sim. A Lily parece mais leve.
Mikaela, no entanto, permanecia pensativa, enquanto encarava suas amigas.
— Ei, Mike, quer um pedaço? — Diz Kate, segurando um bife próximo ao rosto da garota.
— Não, obrigada.
— Recusando comida? Qual o problema?
Ela apertava suas mãos contra as coxas, de forma tímida.
— Isso tudo é... tão surreal e estranho.
Kate engole o conteúdo em sua boca e para de comer por um instante, ficando com um rosto sério enquanto encarava a amiga.. Ela sorri e volta seu olhar para o nada.
— Eu sei como se sente. Você deve ter ficado com bastante medo, não é?
— Eu não sou como você, Kate. Você é forte, motivada... tem essa personalidade determinada, sempre sabe o que quer fazer. Eu sou só uma garota comum. Não sou tão inteligente, nem sei lutar... então... por quê?
Kate sorri e solta uma interjeição de dúvida, colocando mais um pouco de comida na boca.
— Por que será, né?
Mikaela encara o rosto da menina com bastante curiosidade, voltando seus pensamentos aos momentos de terror que vivenciou na floresta.
— Quando a Amanda veio me salvar... eu fiquei tão confusa.
— Mesmo assim, você voltou para tentar ajudar ela, não foi?
— Sim... — Diz ela, assentido com a cabeça levemente, enquanto voltava seu olhar para suas pernas.
— Entendo. Isso daqui tá muito bom, não quer mesmo um pedaço?
— Como consegue comer tanto?
— É que eu gastei muita energia. Falando em energia, a Lucy já começou a te treinar?
— Sim... é meio confuso. Eu não consigo entender algumas coisas, e parece tudo tão...
Kate dá uma leve risada, seguida de um suspiro.
— Elas me disseram que eu não vou poder usar magia por alguns dias. Eu ainda posso usar o amuleto, mas só em casos de emergência. Por causa disso, eu estou proibida de sair da base ou de lutar. Isso inclui treinos também...
— Essa não, isso significa que não vai poder ir para a escola também?
— Infelizmente. E amanhã vai tudo voltar ao normal por lá.
— Amanhã é segunda feira... o que vamos fazer?
— Verdade, o que será que podemos fazer? Já sei! Mikaela, posso te pedir um favor?
— Claro, qualquer coisa!
— Você pode ajudar a Amanda com as coisas? Eu devo ficar na base por menos de uma semana. Depois disso vou poder voltar para a escola, pelo menos. Pode fazer isso por mim?
— Sim, pode deixar! Eu vou ser o braço direito da Amanda enquanto você estiver descansando!
Kate ri, abraçando-a.
— Eu sabia que podia contar com você, afinal de contas, você é sempre solícita! Sempre que vê alguém com problemas, é a primeira a levantar para ajudar. Se eu fosse um amuleto, também te escolheria.
— Kate...
Kate encara sua amiga nos olhos com um sorriso.
— Os amuletos não escolhem apenas pessoas fortes, eles escolhem pessoas capacitadas. Pessoas que não tem medo do perigo, que encaram as situações de frente, que sempre estão dispostas a ajudar os outros.
— Mas eu não sou assim...
— Sim, você é. Você estava morrendo de medo naquela hora, e mesmo assim, estava preocupada com a Amanda. Você chegou a voltar até onde ela estava, só para ver se estava tudo bem com ela. Essa é você, Mike.
A garota fica pensativa, enquanto o barulho em torno delas aumentava.
— Lily! Já falei para não usar magia no Tsuhiko!
— Foi só um choquinho!
O garoto se levantava meio cambaleante do chão, em meio a risos.
— Belo golpe, não esperava menos de você! Mas você abaixou a guarda de novo...
— O que quer dizer?!
— Dessa vez... — Ele se inclina para trás com uma das mãos sobre a armação dos óculos, enquanto apontava com a outra mão na direção da garota. — Você está usando uma branca, com listras amarelas!
A garota fica vermelha e coloca as mãos sobre a saia, abraçando a si mesma logo em seguida.
— Você vai me pagar, Tsuhiko!
Laila se afastava um pouco junto com Amanda, com um olhar depredativo para cima de Tsuhiko.
— Espero que ele não tenha visto a minha também...
— Você nem está de saia, Laila.
— É mesmo.
— Na verdade, a Lily não é muito de usar saia fora da escola, sabe..., mas por algum motivo, ela sempre usa quando vai se encontrar com o Tsuhiko.
Laila encara Amanda com um rosto confuso após ela soltar essa frase.
— Ela é idiota?
— Mais ou menos por aí.
Depois daquilo, o grupo se separou, indo cada um para um lado. Lily parecia feliz. A alegria no seu rosto, apesar de toda a situação que passaram nos últimos dias, era algo a se admirar. Ela para no meio do corredor, com um longo suspiro. Em meio ao seu devaneio, ela é interrompida por passos e uma voz que veio de trás dela. Ela olha com sarcasmo e provocação para o garoto atrás dela.
— Tá me seguindo, é?
— Ei, Loreley, posso conversar com você um pouco?
— O que foi, Tsuhiko? Quer apanhar mais?
— Não, eu quero conversar sério com você dessa vez, pode ser?
Ela desfaz seu rosto sarcástico e fica com um ar sério.
— Nós não tivemos tempo para conversarmos depois daquilo, não é?
Ele assente.
— Você me prometeu essa conversa, tá lembrada?
— Sim.
— E então?
Ela fica hesitante, segurando o próprio braço em meio a timidez e dúvidas. Um grande silêncio se faz entre os dois. Depois de tudo o que aconteceu, Loreley estava tentando evitar pensar sobre isso, com a esperança de que Tsuhiko também fosse esquecer; mas não era esse o caso. A garota o encara com um rosto sorridente, enquanto tentava disfarçar sua hesitação.
— Será que não podemos deixar isso para lá? O que aconteceu já aconteceu, não podemos ficar remoendo as coisas, não é?
— Loreley, eu não vou "deixar isso para lá". Já faz mais de um ano que eu me declarei para você. Durante todo esse tempo, eu fiquei nutrindo uma esperança de que havia um motivo para você ter me rejeitado. Parece coisa de fracassado dizer isso, mas eu não ia desistir tão fácil. Eu nunca te perguntei, e não queria forçar nada também. Mas no fundo eu sempre quis essa resposta...
— E agora você já a tem. Então você já pode...
— Não. Eu não vou desistir.
— Você tem que saber quando desistir, Tsuhiko.
— E eu sei. E eu sinto que agora não é a hora para desistir. Me diz a verdade, Loreley. Você gosta de mim também, não gosta?
Ela fica em silêncio, encarando o chão.
— Laders não podem se dar ao luxo de amar, Tsuhiko.
— Por que não?
— Nós estamos o tempo todo nos arriscando, lutando contra corruptores. A nossa vida é proteger as outras pessoas da corrupção. Ter alguém, isso só nos atrapalharia de fazer o nosso trabalho.
— Lily, não é diferente do que um soldado faz. Todo mundo tem o direito de amar.
— Não é tão simples assim. A maioria das pessoas não suportariam ter um parceiro que não para em casa, não tem tempo para elas, e que, em muitos casos, precisam esconder segredos o tempo todo delas. Sem falar no fato de Laders não poderem engravidar. Isso está fora de cogitação. Só de pensar que teríamos que ficar meses sem lutar...
— E se eu te dissesse que eu suportaria tudo isso?
— Você estaria mentindo.
— Lily...
— Antigamente, essas coisas eram mais simples. As Laders costumavam se aposentar em certa idade, já que sempre havia aprendizes dispostas a assumir seu lugar. Mas as coisas já não são mais assim há anos.
— Você está me dizendo que se recusa a amar por medo de seu parceiro não suportar o fardo?
Ela fica em silêncio. O garoto suspira, ajeitando os óculos. Ele se aproxima de Loreley, fazendo-a dar alguns passos para trás. O garoto chega próximo o suficiente para a menina sentir a respiração dele.
— Ei... o que está...
— E se eu te provar que suporto?
— Se... o que?
— Se eu te provar que estou disposto a morrer por você, o que você faria?
— Não diga essas boba... — A menina é interrompida com um beijo. Ela imediatamente posiciona suas mãos no peito do garoto, exercendo certa força para empurrá-lo, mas... ela não o faz. Vagarosamente, suas mãos perdem a força, e ela se deixa levar pelo momento. Os dois ficaram parados no meio do corredor escuro por bons segundos, antes da menina desferir um leve choque nos lábios de Tsuhiko, obrigando-o a se afastar. — Não faça isso de novo...
— Tem certeza? Realmente quer que eu não faça de novo?
Ela hesita, desviando o olhar.
— Eu aceito seu desafio, capitã Lily. Eu vou te fazer me aceitar como seu namorado, como seu amante. E quando eu fizer isso, eu vou me declarar novamente, e mesmo que você me rejeite novamente... eu vou continuar tentando.
— Seu... cabeça de tigela...
— Sua bateria de carro ambulante.
A menina sorri, enquanto desvia o olhar.
...
Lucy permanecia sentada ao lado da cama de Ayla, pensativa. Ela esculta alguém entrar, e encara a pessoa com um sorriso.
— E então, já se sente melhor?
— Sim, eu me recupero rápido. Meus ferimentos não foram grande coisa.
— Você foi perfurada com sua própria lança.
Takira ri.
— Eu estou bem.
Ela encarava sua mestra descansando com um sorriso.
— Eu senti falta dela.
— Todas sentimos.
— Quando ela acordar eu vou dar uma bela bronca nela, por ter nos preocupado desse jeito...
Elas ouvem mais alguém no corredor, era Kate. Ela se aproximava do quarto com uma maçã na mão direita e um livro na esquerda.
— Me chamou, diretora?
— Sim. Você está bem?
— Sim, estou melhor, obrigada. Mas por algum motivo... eu não consigo parar de comer...
Lucy ri, encarando Takira.
— Isso te é familiar?
A mulher, com um sorriso, volta seu olhar para Ayla.
— Níveis dragões são mesmo curiosos. Você não seria capaz de estar de pé agora, se não fosse pela natureza do seu mana, garota.
— Essa fome que você está sentindo é causada pela falta de mana. A canção que você usou consome todo o mana do seu corpo de uma só vez, causando um êxtase de poder. Ao mesmo tempo, ele aumenta o fluxo de mana no ambiente, fazendo todo esse poder disperso pelo ar se acumular em seu corpo. O resultado, como você viu, é um acréscimo de poder e habilidade foras do comum. Em contra partida, no entanto, você corre o sério risco de perder sua vida no processo. Kate, você entende a besteira que fez, não entende?
— Se eu não tivesse feito aquilo, era bem provável que eu teria perdido meu amuleto e meu coração, como aconteceu com a Flora.
— Talvez, mas não deixa de ser uma atitude, no mínimo, duvidosa. A sua sorte, foi que...
— ... eu usei só um verso da canção? É, isso foi proposital. Eu não ia ser idiota de cantar a canção inteira.
— Então foi de propósito?
— É como eu disse, eu preferi perder a capacidade de usar mana por um tempo a entregar o meu amuleto para aqueles caras. Foi uma escolha lógica.
Lucy a encara com um rosto sério e pensativo, juntamente com Takira.
— Me diga, Kate, onde aprendeu sobre a canção do sacrifício? Ela deveria ser um segredo de estado das Laders. Nós não revelamos nada sobre ela até que a Lader tenha atingido um grau mínimo de maturidade mágica e responsabilidade para entender seus riscos. Me surpreendeu você saber sobre ela.
— Eu achei um livro com uma espécie de partitura antiga. Ele explicava bem como o poder funcionava, e os riscos também. Eu nunca pensaria em usar aquilo. Quando eu li, eu lembro de ter achado ridículo a existência de algo assim..., mas parando para pensar agora...
— Entendo. Ainda não acredito que você foi capaz de fazer algo assim. Esse é um último recurso, algo que nós nos recusamos a usar, mesmo diante da morte. E mesmo assim, você foi lá e usou, sem nem pensar duas vezes...
Kate encara sua maçã com um rosto pensativo. Ela girava a fruta enquanto refletia sobre a luta que tivera. Foi realmente muita sorte ela ter saído viva, e ela sabia disso. De repente elas escultam alguém falando nos autofalantes da base.
— Senhorita Lucy, será que poderia comparecer na sala de pesquisas por um instante? É importante.
A mulher vai até um interfone em uma das paredes e pega o comunicador dele.
— Do que se trata?
— É sobre o objeto que a Lader Lux trouxe consigo. Não vai tomar mais que cinco minutos, eu prometo.
A mulher suspira, colocando o comunicado novamente no lugar.
— Eu já volto, garotas.
— Pode ir, diretora, eu fico aqui.
— Obrigada, Kate. Me avise imediatamente caso algo aconteça.
— Já que Kate vai ficar tomando conta da Mestra Ayla, acho que vou com você também, Lucy.
Elas deixam o quarto e Kate se senta no lugar de Lucy, enquanto continuava sua leitura. As duas mulheres andavam pelo corredor, pensativas, quando Takira quebra o silêncio com uma leve risada.
— Essa garota é mesmo estranha.
— Você não viu nada.
— Eu só fico impressionada com a dedicação da Kate como Lader. Eu nunca vi, nem durante a era de ouro das Laders, alguém que imergiu tanto no manto igual ela fez.
— E essas qualidades que você está vendo nela como Lader já existiam bem antes dela ser escolhida. Foi exatamente por isso que escolheram ela como a líder do conselho estudantil da nossa escola. A Kate sempre foi assim, energética, proativa... ela sempre foi muito inteligente também. Se um problema surgia, ela sempre corria atrás de, não apenas soluções lógicas, mas as mais eficientes possíveis. E pensar que ela planejou tudo com a canção do sacrifício...
— Ela, definitivamente, não é uma garota normal.
— Não, não é.
As duas adentram no local e são recebidas por alguns cientistas, que logo começam a falar.
— Que bom que chegaram, vejam esses resultados, por favor.
Elas se aproximam dos monitores, curiosas.
— Estão vendo essas leituras? — Continua um outro cientista. — Todos os indícios que temos é que a Ayla realmente usou o poder desse objeto durante a sua última luta. Não foi apenas coincidência, ela realmente estava mais forte devido ao poder gerado por essa coisa. Os primeiros estudos que tivemos mostram que a eficiência energética e mágica vinda desse objeto ultrapassam qualquer tipo de equipamento mágico que já tivemos contato antes.
— São números realmente altos.
— Não são apenas altos. O valor de mana residente neste objeto é, pelo menos, quinze vezes mais alto do que o de todos os sete amuletos juntos...
— Quinze vezes? Como isso é possível?
— Nós ainda não sabemos, mas com os dados que conseguimos durante a batalha, o objeto daquela mulher também era muito similar a este. Eu não sei como a Lader Lux conseguiu a posse dessa coisa, mas seja como for... foi um achado e tanto.
Os olhos de Lucy tremulavam enquanto ela encarava os dados no monitor, com seu rosto sério e assustado.
— Também detectamos um estímulo estranho vindo dos amuletos.
— Estímulo?
— É como se eles estivessem reagindo diretamente a esse objeto, algo como o que acontece quando eles interagem com novas Laders, ou até mesmo com corruptores.
Lucy fica pensativa, encarando o objeto. Ele estava dentro de um invólucro de vidro, preso por uma haste, dentro de uma câmara controlada. Seu brilho singelo era visível, mesmo de onde Lucy estava.
— O que diabos é... essa coisa?
Enquanto isso, Kate comia sua maçã e lia seu livro, descontraída. Ela cantarolava uma música que lembrava muito a melodia da canção do sacrifício. No meio de seu cantarolar, ela para e se auto repreende, enquanto sua espinha arrepiava.
— Eita, ainda bem que essa coisa não funciona assim... me lembrei da conversa que tive com a Amanda, sobre as magias não funcionarem se você não tiver a real intenção de usá-las. Caramba, já pensou se eu saísse usando a canção só de cantar ela? Que perigo...
Enquanto falava sozinha, ela volta seu olhar para além do livro, ficando levemente paralisada. A maçã rola de sua mão, enquanto sua expressão se enche de pânico. A mulher que a olhava tinha um esplêndido ar de autoridade. A imponência em sua postura, mesmo sentada naquela cama de hospital, dava a ela um extremo grau de intimidação. Kate parecia hipnotizada por seu ar de experiência. Quando voltou a si, a garota se levantou da cadeira, abaixou, pegou a maçã, e a colocou gentilmente no lixo, tudo isso sem desviar o olhar da direção da mulher.
— Bo... bom dia?
— Quem é você?
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