Kate acordou, e logo foi surpreendida com um peteleco de Amanda.

— Sua tonta.

A amiga tinha um rosto pacato, mas estava com um leve sorriso.

— O que aconteceu?

— Você salvou o dia, foi só isso.

— Então meu plano deu certo... eu não me lembro de nada.

Kate estava na cama do hotel, enquanto Amanda estava sentada ao seu lado. As garotas ao seu redor pareciam alegres, e o ambiente tinha um ar suave.

— Você nos deve uma explicação, Kate! — Diz Lily pulando irritada sobre a amiga na cama, quebrando o clima de calmaria.

— Ei, Loreley! Sai de cima da Kate! Ela ainda está se recuperando!

— Não quero saber! Como você usou a nossa marca registrada?!

— Marca?

— Você usou nossa magia mais forte! Como isso é possível?! Você tem afinidade com o fogo, então como?!

Lucy segura o pescoço de Lily com um mata-leão, afastando-a de Kate.

— Loreley, se acalma!

Kate, no entanto, permanecia com seu rosto confuso. Ela olha para os lençóis colocando a mão na cabeça.

— Eu não me lembro do que houve depois que a Laila me jogou...

— Não se lembra? — Diz Lucy afrouxando o golpe, enquanto Lily parava de se debater para encarar Kate. A garota aproveita o momento de distração de sua mestra e morde o braço de Lucy, obrigando-a a soltá-la.

— Não. Eu lembro de ver a tempestade de raios de vocês de cima do monstro, e aí tudo ficou branco...

Elas fazem um momento de silêncio, mas Amanda já tinha algo em mente.

— Eu tenho pensado nisso desde aquele momento. Será que isso poderia ser... a habilidade específica da Kate? — Deduz Amanda com um rosto pensativo.

— O que quer dizer, Amanda? — Lucy apertava Lily contra o chão, enquanto perguntava, segurando o braço da garota atrás de suas costas.

— Eu acabei ficando curiosa sobre o assunto, e pedi para Kate traduzir a página sobre habilidades específicas para mim. Eu acabei descobrindo algumas coisas. Segundo o livro, a habilidade específica de cada pessoa é parte da personalidade dela. Existem casos em que até mesmo a habilidade muda depois de uma pessoa mudar de personalidade com o tempo...

— Não estou entendendo seu ponto.

— Olha só, vou explicar na prática. Você descobriu recentemente essa sua habilidade de "enxergar" o mana e tudo mais, esse seu "sexto sentido". Considerando que você é uma pessoa observadora e analítica, faz todo sentido com sua personalidade.

— Entendo.

— Já a Kate, ela é uma pessoa lógica e curiosa. Sempre que vê algo novo ela acaba caindo de cabeça naquilo; adora estudar sobre e se aprofundar mais sobre o assunto... então, talvez... a habilidade dela seja assimilar habilidades que ela vê.

— Mas isso não faz sentido, — grita Lily, se livrando dos braços de Lucy mais uma vez, que a castigava com um golpe de judô. — Se esse lance de habilidade específica existe desde sempre, por que nenhuma de nós acabou descobrindo sua habilidade antes?

— Pelo que eu li, as habilidades se manifestam em situações bem específicas. E não é como se elas nunca tivessem se manifestado. Acontece que algumas são tão condizentes com a personalidade da pessoa que ela nem percebe que é uma habilidade específica. Por exemplo, a habilidade da Lucy; ela sempre foi capaz de sentir mana e essas coisas, houveram diversas situações no passado onde ela usou a habilidade dela e nós nem percebemos, só achamos que era uma habilidade normal de uma manipuladora de raio, mas a situação extrema da habilidade da Laila, onde ela se viu em uma escuridão completa, ela acabou ativando isso em seu estágio máximo.

Lily faz um rosto pensativo, enquanto Lucy voltava a agarrá-la com um sorriso confiante, aplicando outro golpe nela.

— Acho que agora eu entendi.

Laila encarava a cena com um rosto abismado.

— Sério que vocês nem repararam que essas duas estão trocando golpes enquanto vocês conversam?

— Ah, isso? — Pergunta Amanda com um rosto pacato. — Não ligue, é normal.

— Como isso pode ser normal?! — Grita a menina indignada.

Logo em seguida ela suspira e começa a sorrir. Laila tinha um ar de felicidade contagiante. Ela começa a encarar a janela do hotel, vislumbrando a cidade.

— Finalmente acabou.

As meninas a encaram com complacência.

— Mas esse é só o começo. — Diz Kate se levantando e indo até Laila. — Afinal, é agora que as coisas começam a ficar divertidas, certo? Porque você agora faz parte da equipe também.

Ela assente com um sorriso. Lucy, no entanto, faz um rosto triste enquanto volta seus olhos para a janela.

Laila se lembrava de sua despedida com um certo aperto no coração.

— Têm certeza disso?

Robert e Zaira olhavam para a menina com bastante afeto.

— Sim. Eu me decidi.

Lucy se aproxima deles com um sorriso.

— Vocês poderiam entrar para a organização, seriam de grande ajuda.

— Não, eu estou cansado dessas coisas agitadas. Acho que está na hora de me aposentar de vez. Mas e você, pirralha, não quer vir mesmo com a gente?

Laila fecha os olhos, pensativa; ela sorri e volta-se novamente para Robert.

— Eu acho que encontrei um motivo real para lutar.

Zaira se aproxima da garota e acaricia seu rosto.

— Tome cuidado. Se precisar de um lugar para descansar, pode ir nos visitar.

— E para onde vocês pensam em ir?

— Vamos para um país isolado, fora de Mahuji, é um lugar pacato e sem muito movimento.

Robert tinha um rosto mais leve; Laila podia sentir que finalmente o homem tinha entendido os sentimentos de Zefira. Seu olhar suave, no entanto, decai um pouco ao encarar Laila por um breve momento.

— Escuta, ratinha...

— Não me chama assim!

— Tenha cuidado.

Ela faz uma expressão de compreensão, olhando nos olhos do homem.

— Não se preocupe, eu vou ter.

— Tenho certeza de que a cabeça não vai descansar até conseguir nos achar. Os remanescentes da Alcateia também vão ficar loucos por uma vingança. Eu fiz um dossiê completo com todas as informações que eu tinha da Alcateia; por causa disso, eles não vão conseguir continuar andando livremente por aí, mas ainda assim, vai ser complicado fugir deles, você sabe.

A garota assente.

Era só uma questão de tempo até a Alcateia se formar novamente; mais fraca, mas também, mais furiosa. Ambos sabiam muito bem disso. Mas Robert tinha se decidido, ele não ia mais se envolver. A garota, porém, sabia que viria ainda muito trabalho pela frente.

Após toda a movimentação que elas passaram nos últimos dias, elas finalmente poderiam descansar um pouco. O grupo parte para Mitsury. Assim que chegam na base das Laders as garotas são recebidas por Larry, que as esperava de prontidão. A primeira coisa que Kate faz ao chegar é correr para a biblioteca da base. Lily vai para seu quarto descansar, enquanto Lucy mostrava o lugar para Laila. Amanda, no entanto, tinha algo em sua mente; algo que a incomodava. A garota aproveita a oportunidade para iniciar uma conversar particular com Larry. Eles vão para a sala de reuniões; Amanda carregava consigo uma pequena caixinha reforçada de aço, do tamanho de uma caixa de caneta.

— E então, o que queria me mostrar?

— É sobre algo que achamos durante essa missão. Poderia dar uma olhada nisso para mim?

Ela entrega para o rapaz o dardo negro, o mesmo que achara anteriormente no container. Larry tem uma reação inesperada ao ver o objeto, fazendo um rosto surpreso e assustado, intrigando Amanda.

— Onde encontrou isso?

— Em um container da ARPA.

— ARPA?

Larry segura o objeto enquanto fazia um rosto analítico. Ele tinha certeza sobre uma coisa, e Amanda também percebera isso.

— Eu posso fazer uma análise mais detalhada, mas uma coisa já está clara para mim assim que você me mostrou...

— Fede a corrupção, não é?

— Sim. O que uma empresa como a ARPA estaria fazendo com um objeto como esses? Por que eles se envolveriam com corrupção?

— Eu não sei, mas está claro para mim que isso tem a ver com os corruptores artificiais, e o que aconteceu com meu irmão também...

Larry guarda o objeto na caixa e fita os olhos de Amanda.

— Tudo bem. Eu vou pedir para os cientistas do laboratório analisarem isso, mas eu não sei se poderemos fazer muita coisa... uma amostra tão pequena não vai ser o suficiente para conseguirmos uma cura. E levando em conta que o container onde você achou isso foi destruído...

— Eu sei disso...

— Imagino que queira que eu mantenha isso em segredo também, estou certo?

— Se possível.

O rapaz suspira, complacente.

— Tudo bem, mas você fica me devendo um café.

— Obrigada, Larry.

Eles se despedem e o rapaz vai embora. Seu rosto muda um pouco à medida que ele se desloca pelos corredores da base. O homem entra em um dos banheiros da instalação e se debruça sobre a pia, encarando o espelho. Ele lava seu rosto e faz uma expressão preocupada.

"Minhas suspeitas estavam certas?" Pensava o rapaz.

Ele levanta levemente a camisa, na região do abdômen, encarando uma pequena mancha negra do tamanho de uma ervilha que se formava entre suas costelas. Um pequeno ponto que ele encarava com preocupação.

...

Ela fica parada ali por bons minutos... horas... e até dias; dois dias para ser exato. Dois dias se passam e a mulher finalmente se levanta, com um grito, de sua cadeira; ela chuta o objeto e começa a balbuciar palavras de ódio. Após seu surto durar alguns minutos ela se acalma, olhando para os bonecos caídos no chão e estalando os dedos novamente. O homem de cartola é o primeiro a levantar.

— O que... aconteceu? M'lady... nós vencemos?

— Não. A mulher branca fugiu. Ela conseguiu levar o Lemuria.

— M'lady, se me permitir, então, eu posso...

— Não adianta! Ela está esgotada. As duas estão sem mana. Mesmo com o suporte da dançarina... Vai demorar alguns dias para elas voltarem a se mexer. Ela conseguiu prender as duas dentro das ruínas. Como ela consegue ser tão forte?! Aquela velha maldita!

A mulher reposiciona sua cadeira e volta a se sentar em sua pose de sempre, com um rosto mais ameno. Enquanto o faz, os outros membros do lugar se levantam vagarosamente, um pouco cambaleantes.

— Quais são suas ordens agora, M'lady?

Ela fica pensativa.

— Preciso raciocinar... talvez eu devesse entrar em contato com ela de novo...

A mulher subitamente se levanta, descendo do palco e assustando levemente seus lacaios.

— Cansei de ficar sentada esperando. Mágico, me arranje um celular.

— É para já, M'lady.

Ele desaparece em meio a fumaça e, em poucos minutos, reaparece com um aparelho. A mulher pega o objeto e começa a discar um número nele.

— Alô? — A pessoa do outro lado parecia com uma voz cuidadosa.

— Marque uma reunião com todos.

— O que? Co... como sabe esse número? Quem está falando?

— Não reconhece minha voz?

— M'lady? É você?

— Não me faça repetir. Quero todos lá. Você sabe onde.

Ela desliga o telefone antes do homem conseguir dizer algo.

...

Lucy estava com um rosto levemente preocupado enquanto se aproximava da casa. Ela se posiciona na frente da porta, hesitante, mas toma a coragem de bater e esperar a resposta. Assim que ela escuta a maçaneta abrindo, ela ajeita os óculos, sendo atendida pela mulher.

— Lucy?

— Olá Katherine, podemos conversar?

As duas entram e Katherine serve um chá para Lucy, que aceita de bom grado. O clima entre as duas era ameno, apesar do seu passado. Katherine, no entanto, podia perceber uma leve hesitação em Lucy.

— Então, sobre o que quer conversar?

— Ah, é sobre a Kate. Ela está indo muito bem nos estudos.

— Mesmo depois do que aconteceu com a escola, ela não desanimou nem um pouco, imagino.

— Sim. Mas já vamos voltar daqui duas semanas, então está tudo bem.

— Me diga, Lucy, o que houve de verdade? Eu não consigo acreditar na desculpa que o exército deu, tenho certeza de que foi coisa sua, estou certa?

— Bem... mais ou menos.

— Eu sabia. Espero que a Kate se saia bem nessa prova, talvez faça bem para ela ficar longe de tudo isso.

— Sabe, isso me deixa curiosa; por que não saiu de Mahuji? Sei que veio para cá porque gostava do lugar, mas assim que ficou sabendo que a zona de convergência tinha se mudado para cá, deve ter passado pela sua cabeça a ideia de sair, estou certa?

— Sim. Eu não queria deixar Mahuji.

— Por quê?

— Por causa das lembranças, eu acho. E eu sei que minha vida sempre foi sobre fugir das responsabilidades... não queria que esse tipo de coisa atingisse minha família também.

Lucy toma um gole do chá e fica pensativa.

— Sabe, a Kate é uma menina incrível.

— Sim. Minha garotinha é mesmo um anjo.

— Fico pensando... o que você faria se ela se tornasse uma Lader?

Lucy vê a mão de Katherine hesitar ao ouvir a pergunta.

— Eu... o que eu poderia fazer?

— Talvez... não sei.

— Talvez?

Lucy fica hesitante.

— Treiná-la...

Katherine encara Lucy com um rosto sério.

— O que está dizendo, Lucy?

— Ah, não me entenda errado! Eu não estou dizendo nada demais... só fico imaginando se você ainda teria disposição de treinar ela.

— Por que algo assim do nada?

Lucy coloca sua xícara sobre a mesa e faz um rosto sério para a mulher.

— Eu vou te dizer... durante um dos nossos intervalos, eu pedi para Kate me mostrar como ela lutava, já que ela era professora no seu dojo; eu estava curiosa.

— E então?

— Ela usou uma técnica de um tal de "Hoe kon shi".

— Ah, é sobre isso que você quer conversar.

— Me diga a verdade, Katherine, você ensinou magia para a menina sem contar para ela?

Katherine ri.

— Que ideia ridícula, como alguém consegue aprender magia sem usar magia? Ou sem nem sequer saber que está aprendendo magia?

— Mas você fez, não fez?

O sorriso da mulher se esvai, enquanto encarava Lucy com um olhar sério.

— Talvez... eu tenha ensinado algumas coisas para ela. Alguns princípios e conceitos básicos.

— Eu não acredito que você fez algo assim...

— Qual o problema? Magia pode ser um segredo no nosso mundo, mas não é como se fosse proibida para pessoas normais ou coisas do tipo. Existem vários casos de pessoas comuns que usam magia. Artistas, criminosos e policiais... até mesmo atletas usam para "trapacear" em seus esportes.

— Bom, você não está errada.

— Eu só queria que ela pudesse se defender sozinha, de qualquer perigo.

— Eu entendo.

— Mas vamos deixar isso de lado. E como está indo a Kate?

Lucy fica pensativa. Logo após elas conversarem, a mulher agradece e vai embora. No caminho, Lucy pensava em tudo que Katherine revelara, não tão surpresa, mas agora temerosa. O que Katherine faria se soubesse da verdade? Como Kate reagiria ao saber que sua mãe foi a última Lader Volcano? Essas perguntas e muitas outras incomodavam a mulher.

Assim que chega na base, Lucy encontra Takira no corredor. Elas se cumprimentam e Lucy a convida para beberem algo juntas. Ambas se dirigem para a cozinha e Lucy pega algo leve para as duas.

— Como foram as coisas enquanto estivemos fora?

Takira faz um rosto inquieto e pensativo antes de responder.

— Calmas.

— Calmas? Quer dizer que não houve atividades de corruptores?

— Não é que não houve... é só que foram fáceis demais de lidar. Foram tão fáceis que nem pareceram um problema real. Sabe como eles têm sido ativos nos últimos meses? Não é estranho, de repente, um grupo aparecer e não conseguirem fazer nada de problemático?

Lucy fica pensativa

— Entendo o que quer dizer.

— Vocês ficaram longe por quase uma semana e, nesse tempo, quase não tivemos problemas. Mesmo agora que voltaram...

— As atividades deles estão diminuindo do nada. Eu imagino se isso tem a ver com o fato de as atividades daquele grupo estarem concentradas em Myura...

Takira suspira enquanto escora suas costas na parede com o copo na mão.

— E até agora nada sobre como reverter o estado da Flora... eu tenho pesquisado com todos os recursos que temos, mas nada.

Lucy fica hesitante por um momento. A mulher segura o copo com as duas mãos e se força a falar algo.

— Takira... durante...

— O que foi?

— Durante a luta... a mulher... eles citaram algo...

— Lucy, fala logo, o que deu em você do nada?

— A Lux, eles falaram sobre ela durante nossa luta em Myura.

— Falaram?

— Sim. Ele disse que estavam atrás dela, e que ela estava dando trabalho para eles. Eu fiquei preocupada na hora, mas acredito que isso é um bom sinal.

A menina de branco fica pensativa encarando seu copo.

— Entendo... então ela também está lutando.

— Eu só não entendo... por que ela não volta para a gente? O que ela está fazendo?

— Você a conhece melhor do que eu, Lucy. Você sabe como a Mestra Ayla pensa. Ela com certeza tem um bom motivo para estar fazendo as coisas como está.

Lucy encara a mulher com certa curiosidade no olhar.

— Você dizendo isso... não está preocupada?

— Essa é uma pergunta idiota. Você sabe que estou. Mas é como Kate me disse aquele dia... se ela prometeu que voltaria, então ela vai voltar.

— Sim, eu não tenho dúvidas quanto a isso.

— Ficar pensando demais no assunto só iria nos atrasar. Tenho certeza de que a mestra tem um bom motivo para não voltar ainda.

Se o motivo existia, Lucy sabia que não era algo simples. Ayla era a Lader mais forte e experiente do grupo no momento, uma pessoa assim não poderia ser parada com facilidade, mas ambas sabiam que, se havia um motivo para a falta de notícias de Ayla, esse motivo não deveria ser ignorado, com toda certeza.

Enquanto isso, as meninas passeavam por Mitsury, distraídas e sorridentes. Já havia se passado uma semana desde o ocorrido, e elas permaneciam confiantes. Laila tentava se adaptar à nova cidade, enquanto se lembrava de sua despedida.

Robert e Zaira disseram que partiriam para um país isolado, para tocarem suas vidas livremente. Depois do fim da Alcateia, o homem disse que usaria o dinheiro que tinha para sumir do mapa e viver uma vida sem preocupações. Laila, no entanto, recusou a oferta de Robert, e decidiu que seguiria como uma Lader junto das novas amigas. "Teria sido essa uma boa decisão?" se questionava a garota em alguns de seus devaneios.

Elas chegavam juntas à sede das Laders, onde Lucy já as esperava com novidades.

— E então, conseguiu? — Pergunta Amanda.

— Sim. Larry me trouxe agora mesmo.

Elas vão até a sala de reuniões. Lucy se senta em uma das cadeiras e abre uma pequena caixa no centro da mesa.

— Então é isso? Essa coisa é atonita? — Pergunta Lily de forma inocente.

— Um cristal mágico capaz de absorver e armazenar mana. É muito utilizado para criar itens mágicos e coisas do tipo; de todos os cristais mágicos, é o mais barato, mas é eficiente ao que se propõe.

Kate sorria enquanto Amanda a encarava com um olhar desconfiado.

— Tem certeza de que vai dar certo, Kate?

— Não se preocupe, eu tenho certeza sim. Os livros não mentem!

— Claro que mentem, se forem escritos por mentirosos!

— É, mas vocês mesmas disseram que era um bom plano! Por que estão implicando comigo agora?! Eu vou chorar!

— Tá bem, não precisa fazer drama! Nossa...

Lucy dá uma leve risada, retirando a pedra da caixa.

— Eu espero que dê certo. Então, Kate, quer tentar desenhar as runas?

— É sério que vocês vão deixar na mão da novata? Tudo bem que fui eu que montei o esquema das runas..., mas desenhá-las é algo totalmente diferente.

— Nenhuma de nós está acostumada a desenhar runas mesmo, quando precisávamos de coisas assim, era a Lux ou a Flora que sempre faziam...

Kate faz um rosto de decepção enquanto encarava Lucy.

— Eu me questiono como é que você ainda está viva...

— Calada!

Kate pega uma caneta especial com Lucy e começa a desenhar em cima da mesa mesmo. Ela faz dois círculos separados, do tamanho de uma mão cada um, e um círculo menor no centro dos dois, interligando-os, onde coloca o cristal.

— Ficou redondo o suficiente?

— Nós estamos falando de magia, então você consegue concertar isso desse jeito.

Amanda coloca a mão sobre os círculos, fazendo-os brilharem. A tinta começa a se mover, fazendo os desenhos ficarem perfeitamente simétricos e redondos.

— Que legal!

Kate termina os desenhos seguindo instruções de um papel que trouxera consigo, fazendo ligações entre os círculos e criando uma série de símbolos daryanos ao redor deles. No fim, tudo parecia um grande conglomerado de runas e figuras geométricas específicas, como um grande glifo mágico. Kate finaliza fazendo um último círculo bem menor, do tamanho de seus amuletos. Após Amanda reorganizar e deixar os desenhos simétricos com magia, Kate fica pensativa, encarando-os por bons minutos.

— Eu acho que é isso.

— É realmente uma runa incrível. Como conseguiu decorar tantos desenhos assim?

— Eu tenho facilidade com essas coisas... eu peguei alguns livros na biblioteca sobre o assunto e estudei eles.

— Só de pensar que você desenhou runas como essas, usando apenas seu mana, naquela porta na semana passada...

— Pois é... Acontece que eu percebi que criação de runas é meio similar a programação. É quase como uma linguagem de programação, ou construir um circuito eletrônico... você só precisa de lógica.

— Tá bem, — Diz Lily cortando a conversa paralela, — Mas e agora?

— Agora é só a Lucy e a Laila colocarem as mãos em seus respectivos círculos. Assim que se concentrarem, a runa vai fazer o resto.

Kate finalmente preenche o último círculo que fizera, colocando o amuleto azul celeste em cima dele. Lucy e Laila fazem o que Kate sugere, e colocam suas mãos sobre os respectivos círculos. Elas fecham os olhos e começam a se concentrar.

Enquanto faziam, as linhas do circuito magico que Kate criara começam a brilhar, saindo das duas meninas e indo em direção ao amuleto, reluzindo cada vez mais. Em poucos segundos, a sala inteira é iluminada com a luz dos glifos, impressionando até mesmo as meninas mais experientes.

Se o que Kate havia sugerido desse certo, as meninas conseguiriam localizar a candidata da Lader Ventus usando esse método. Ela criara várias runas que combinavam o sexto sentido de Lucy e a habilidade de detecção de Laila, amplificadas usando o cristal de Atonita. O catalizador principal seria o amuleto, sendo assim, qualquer assinatura de mana semelhante a que o amuleto reagiria seria encontrada com facilidade por elas. As duas garotas, basicamente, serviriam como antenas para amplificar a habilidade de detecção do amuleto.

Amanda protegia seus olhos com o braço enquanto refletia na cena.

"Usar as habilidades sensoriais de Laila e Lucy para amplificar a reação natural do amuleto... essa foi uma ideia incrível que ela teve. Eu me lembro de registros antigos sobre coisas desse tipo; em tempos antigos, as Laders usavam métodos similares. Várias formas de detecção como essa foram usadas ao longo da história. Mas a falta de informações, e de uma pessoa com habilidades sensoriais, impedia-nos de tentar fazer algo do tipo."

A mente das duas garotas começa a ser levada para longe, voando pelos céus e cruzando montanhas, mares, até chegar em uma grande floresta ao redor de uma montanha. Assim que abrem os olhos elas se afastam da mesa fadigadas e assustadas.

— Mestra, tá tudo bem? — Lily segura sua tutora com preocupação.

— Sim... Laila, você viu isso?

A menina só assente com a cabeça, com um rosto impressionado.

— O que aconteceu?

— Nós conseguimos... eu não acredito... nós realmente conseguimos.

O amuleto azul celeste ainda brilhava sobre a mesa; enquanto sua luz sumia vagarosamente, as meninas faziam silêncio e se encaravam com surpresa e alegria no olhar. Kate coloca as duas mãos sobre a cintura com um sorriso confiante.

— Eu sou um gênio ou não sou?!

Lucy a fita com um rosto sério, enquanto suava frio. Ela sussurra algo inaudível para Kate.

— Quase tão genial quanto sua mãe...

— Disse algo, Diretora?

— Não foi nada, vamos nos organizar então. O que temos é uma imagem de uma garota, e uma localização com uns dez quilômetros de margem de erro...

— Onde fica?

— Em um país isolado da civilização comum, na região de Afron. Parecia uma vila rural...

— Tão longe assim? O que vamos fazer? A escola volta na semana que vem...

— Eu poderia organizar, talvez, uma excursão...

— Não seria estranho demais levar alunos do ensino médio para um país isolado em Afron?

— Tem razão... então... já sei! Intercâmbio!

— Intercâmbio?

— Eu posso mexer alguns pauzinhos para conseguir uma permissão para sairmos do país legalmente, só nós cinco, no papel vamos estar apenas em intercâmbio. Afron é famosa pela sua agropecuária e pelos conhecimentos medicinais. Mesmo não existindo recursos tecnológicos tão grandes para a população comum, os maiores e melhores remédios atualmente são produzidos nas universidades de lá.

Algo passa sobre a cabeça de Amanda enquanto Lucy falava. "Existem até mesmo rumores sobre uma base da ARPA estar localizada em Afron..."

Kate fica pensativa, encarando a mulher mais velha.

— Diretora, não me leve a mal, mas o problema não é nem sobre nosso social, é que vamos literalmente estar perdendo aula, e temos todo o problema do festival ainda para organizar...

Amanda solta uma grande interjeição de preocupação e susto.

— Kate, é verdade! Nós estamos atrasadas na organização do festival! Acabamos esquecendo completamente.

Lucy fica pensativa com um rosto sério.

— Nesse caso vamos ter que deixar isso para depois. De qualquer forma, eu vou demorar para conseguir organizar esses documentos. Podemos esperar até o festival terminar.

— Eu não me sinto bem em perder aula... — Diz Kate com um tom sério e preocupado.

Lucy faz uma cara de desinteresse para a garota, ficando indignada ao ouvi-la dizer isso.

— Kate, qual a fórmula química do ácido hialurônico?

— Ah, eu acho que é (C14H21NO11)n

— Amanda, cite um hormônio produzido pela tireoide.

— Tiroxina.

— Como diretora de vocês, eu posso dizer que o vestibular de vocês está garantido. Não precisam se preocupar com escola!

— Ouvir uma membra do corpo docente dizer algo assim é decepcionante...

— Nós estamos falando sobre salvar o mundo, lembra? Isso é uma crise mundial!

Lily começa a gritar gesticulando.

— Espera ai! Por que não me fez nenhuma pergunta também?!

Com um rosto jocoso a mulher mais velha começa a bagunçar o cabelo de sua pupila.

— Você é bonitinha, Loreley, não se preocupe! No pior dos casos você vira modelo ou arruma alguém para te sustentar!

— O que quer dizer com isso?!

As meninas riem. Laila interrompe o momento com uma limpada de garganta, chamando a atenção das meninas.

— Eu sei que não é da minha conta isso tudo, mas... por que se importam tanto com escola em dias como os de hoje?

As meninas fazem rostos confusos, mas Lucy entendera a pergunta dela melhor que ninguém.

— Você nunca frequentou uma escola, não é Laila?

Ela confirma a pergunta com a cabeça. Lucy sorri e volta seu rosto para as outras três.

— Vocês três podem não saber, mas nossa escola é uma das única escolas da região.

— Ah, é verdade... — diz Amanda, de forma pensativa, — além da nossa escola, tem a faculdade de Oriana, que também possui ensino fundamental e médio.

— Depois da guerra o mundo mudou bastante. As crianças começaram a ser, em sua maioria, ensinadas em casa. Vocês sabem, só pessoas com uma condição financeira boa podem estudar em escolas hoje em dia.

A verdade é que existiam apenas três países onde a qualidade de vida ainda se mantinha num nível aceitável, e Mahuji era um desses lugares. Depois da guerra, o estrago gerado por ela foi quase irreparável. Países inteiros sucumbiram, e a população mundial diminuiu drasticamente. Países da região de Afron foram os menos afetados, por ser uma região que não se envolveu na guerra, e por não ter uma tecnologia tão presente, eles acabaram sendo abençoados por isso; a tecnologia de Afron era restrita ao uso medicinal e para administração. A última região não afetada foi Amarin, o lugar onde um dia a zona de convergência se instalou. A Sede das Laders já foi lá, e Lucy lembrava com carinho do lugar, mas também carregava consigo as memórias da guerra. Por ter sido o país vencedor do conflito, o lugar acabou se tornando base para empresas no mundo inteiro, tal como taxado de "O Lugar Ideal Para se Viver".

Outro conceito que tem caído em desuso é o próprio conceito de país, pois depois da Grande Guerra, o mundo foi dividido em regiões.

— É exatamente por isso que nosso festival é tão importante. — Comenta Kate.

— O festival é realizado no aniversário do fim do conflito. — Continua Amanda. — A verdade é que Mahuji acabou tendo um papel importante na guerra; o grupo de revolução saiu daqui.

— Os pacificadores? — Pergunta Laila.

— Sim. Eles foram os responsáveis por parar a guerra. Se não fosse por eles, talvez a guerra teria se prolongado mais. Aquela empresa também foi fundada nessa época, a ARPA.

Lucy faz um rosto pensativo e volta seus olhares para o nada.

"ARPA, não é? Será que eles estão envolvidos com tudo que está acontecendo?"

...

— Isso é um absurdo! — Gritava o homem velho e gordo, batendo a mão repetidamente contra a mesa. — Como puderam deixar isso acontecer?!

— Eu sabia que deveríamos ter infiltrado um dos nossos lá dentro da Alcateia! — Dizia outro homem bem magrelo. — Se tivéssemos tomado o controle da liderança dela de uma vez, isso não teria acontecido.

O grupo que conversava estava reunido ante a uma grande mesa semicircular, discutindo e debatendo sobre o assunto. A sala era escura e tinha uma grande tela, onde uma silhueta negra pairava paciente, a frente de um fundo branco, apenas escutando a discussão. Os homens continuavam suas afirmações e perguntas.

— O que houve com os soldados de elite?! Eles não fizeram nada?

— Parece que o Robert pensou em tudo; eles estavam todos fora, em missões.

— E parece que os nossos soldados também não sabiam de nada..., mas que droga!

A voz distorcida vinda da telona chama a atenção dos homens.

Cavaleiros, peço que fiquem calmos. Sei que estão preocupados com a continuidade de nossas operações, mas os planos seguem firmes. O que houve com a Alcateia não nos afetará em nada.

— Você diz isso, mas é bem claro o problema que temos em nossas mãos agora! E o grupo das Laders?! Parece que elas estão com pessoal novo agora!

— Aquelas mulheres não são um problema. Nós temos a vantagem ainda, esqueceram?

Enquanto a pessoa na tela ainda falava, eles escutam a porta automática do local se abrindo. Cinco pessoas entram na sala; a mulher que andava na frente tinha um rosto apático e perigoso. Ela para próxima da mesa encarando a tela.

— Se está se referindo ao Lemuria, pode começar a se preocupar então.

Os rostos dos homens mudam drasticamente ao verem a mulher. Eles ficam quietos e cabisbaixos, evitando o olhar direto.

— M'lady. Como vai? Finalmente a responsável por esta reunião se aproxima.

— Elas pegaram o Pawa Lemuria.

A pessoa no telão solta uma interjeição de surpresa, mas com um tom calmo e relaxado.

Suponho, então, que nossa aposta acabou, certo?

— Errado. Eu vim aqui para propor uma nova aposta. Ou melhor, manter a nossa aposta, mas com umas modificações.

— Hum... — A pessoa atrás da tela parecia interessada na fala de M'lady, — claro, mas antes, como vai a pesquisa de vocês? Já devem ter conseguido resultados interessantes, certo?

— Conseguimos criar um soldado Corrupto.

— Nossa! Isso é incrível! Vejo que sua carreira como cientista solo tem dado certo então. Fico orgulhosa de ter feito você.

— Não me venha com suas falas absurdas.

A pessoa na tela ri.

E então?

— Como eu disse, vamos manter nossa aposta. Quem conseguir o Pawa Lemuria primeiro, fica com os outros dois.

— Eu deixei você ficar com o Letusu Lemuria porque acreditava que você poderia me trazer bons resultados estudando-o. De fato, eu não estava errada; mas acredito que ainda há muito que você precisa fazer para me satisfazer.

— Se me deixasse acabar de vez com aquelas garotas, eu já teria conseguido o Lemuria.

— Os amuletos também são parte importante do nosso plano, esqueceu-se? Precisamos delas vivas para isso. Eu lhe proporcionei o privilégio de capturá-las por conta própria...

— E nós já conseguimos um amuleto.

Sim, e isso é excelente! Mas deixar com que a mulher de branco pegasse o Lemuria foi um ato estúpido. E ela ainda conseguiu atrasar aquelas duas.

Como sabe disso? Eu não disse como aconteceu...

A pessoa ri.

Você me subestima, criança. Por hora, vamos continuar com o plano. Confio em você, M'lady, desde a época em que fazia parte da ARPA. Mas eu claramente não posso lhe entregar o controle da situação ainda. Quanto ao que aconteceu com a Alcateia, senhores, não é motivo de preocupação. Já consegui entrar em contato com todos os membros de elite dela e já reformulei a organização. Em breve teremos uma nova Alcateia, pronta para entrar em ação. Enquanto isso, M'lady...

— Sim?

Vou lhe dar mais uma chance; vou te dar o controle do satélite Andrômeda.

Os homens na reunião soltam uma interjeição de espanto, enquanto suavam frio perante a conversa.

— Por que um ato de confiança tão elevado?

— Só estou interessada em ver o que você vai aprontar com isso em mãos. Outrora eu não faria isso, mas você tem me dado bons resultados, apesar de tudo.

— Nós podemos ser aliadas e tudo mais..., mas não deixamos de ser rivais também. No final das contas, isso é uma competição; então, por quê?

A silhueta faz um silêncio sugestivo.

— Apenas por diversão, eu acho.

A mulher solta um grande suspiro.

— Posso ver você sorrindo atrás dessa câmera...

Eu imagino que sim. Quanto a sua aposta, vou começar a me esforçar mais para ganhar.

A mulher sorri levemente e se vira, indo embora do lugar; seus subordinados a seguiam pacientes e silenciosos em direção a porta da sala.

— Então é isso. Se me der licença, tenho algo importante a fazer agora...

Porém antes de chegar até a porta, a voz na tela fala novamente.

Um momento, por favor... tenho uma última coisa para lhe falar.

A mulher para e se vira, encarando a grande tela novamente.

— E o que seria?

— Tendo em vista que a Lader Lux derrotou seus dois subordinados mais fortes, e que agora está em posse do Lemuria... imagino que você sabe bem o que isso quer dizer, certo?

— Já tenho isso em mente... — a mulher é interrompida no meio de sua fala.

— E é exatamente isso que está indo fazer, certo? Essa é, talvez, sua última chance de conseguir roubar eles.

— A mulher de branco, Lader Lux, não deve demorar retornar à sua base, agora que está com o Lemuria. A chegada dela será, certamente, um problema. Se conseguíssemos ao menos mais um amuleto antes disso acontecer...

Vocês ganhariam uma boa vantagem, sim.

— O que tem em mente?

— Infelizmente, nada. Não foi por isso que te parei. O que quero é te dar um aviso. Você sabe bem do perigo dessa sua jogada, certo? É tudo ou nada. A Lader Volcano já se provou uma oponente digna. E agora elas têm uma nova companheira, que poderá ser um problema tão grande quanto... vocês precisam ser precisos e incisivos em seu próximo ataque, entende o que quero dizer? Se falharem dessa vez, não será apenas uma derrota qualquer, vocês irão perder também a última oportunidade de conseguir os amuletos.

— Acho que já entendi seu ponto. Quer que eu vá com tudo para cima delas, certo?

— Sim. Mas não só isso. Uma boa estratégia que as impeça de agir; um bom local que as impeça de lutar; use o que for preciso. Eu confio em você, M'lady. Se estragar essa chance eu serei obrigada a agir, e se isso acontecer... bem... digamos que nossa aposta será o maior de seus problemas.

M'lady começa a rir.

— Realmente, está confiante, não é?