Lirou Lader — Parte 1
12 A Episteme da Verdade Absoluta
As garotas andavam tranquilamente pela praça do shopping. Laila seguia juntamente com Kate, Amanda e Lily. O lugar parecia tranquilo e sem muito movimento.
— Mas por que eu preciso ir junto?
— Como assim, Laila? — Diz Kate com um rosto triste. — Não gostou de vir com a gente?
— Não é isso, é que... têm certeza de que não vou atrapalhar vocês?
— Não seja boba! É verdade que vamos fazer uma reunião, mas isso também é um passeio. Tem tempo que não nos vemos, então combinamos de comer alguma coisa também. E você vai gostar do pessoal do conselho! Eles são uns amores!
— Principalmente a Mikaela! — Gritou Lily. — Ela é a mais fofa!
— Bom, se vocês estão dizendo que não vou atrapalhar..., mas estou sem dinheiro para pagar um lanche.
Kate agarra o pescoço de Laila com um abraço.
— Eu pago para você! Cinco lanches! Agora para com essa depressão toda!
— Eu acho que não consigo comer isso tudo...
— Eu e a Lily comemos o resto, não é, Lily?!
— Sim senhora, presidente!
Laila tinha um sorriso genuíno em seu rosto; sorriso este que chamou a atenção de Amanda. A garota pensava o quão diferente esse ambiente devia ser para ela; uma garota que passou a vida toda cercada de conflitos e em meio a adultos. Amanda não podia dizer com toda certeza, mas talvez elas fossem as primeiras amigas da mesma idade que ela tinha contato na vida.
Foi durante o devaneio de Amanda que Lily para e encara o nada com uma expressão diferente. Ela faz um rosto sério e começa a correr, assustando as outras garotas; Lily levanta sua perna em direção a um garoto que estava parado de costas; seu chute ia em direção a cabeça do rapaz, mas o garoto rapidamente virou-se no exato momento e segurou o pé de Lily.
— Então você pensou que poderia me pegar desprevenido, não é, capitã Lily?!
A cena pegou as poucas pessoas em volta de surpresa; Kate e Amanda fazem um rosto pacato e sem interesse, com uma clara vergonha alheia, mas Laila parecia preocupada, enquanto suava frio.
— Quem é esse garoto e por que a Lily o atacou?! — Perguntou Laila, preocupada.
— Ah, esse? É só o namorado dela. — Diz Kate, sem interesse.
— Não somos namorados! — Gritou os dois em conjunto.
Lily abaixa a perna e se afasta dele, se colocando em pose de batalha.
— Então, Tsuhiko, "ladrão de almas", parece que eu te subestimei. — Lily fazia uma voz forçada de séries de ação.
O garoto começa a ajeitar os óculos em uma pose épica enquanto engrossava a voz.
— É verdade que aquele golpe que você me deu foi tão forte que me deixou fora de ação por oito capítulos..., mas não pense que vai acontecer de novo. Dessa vez eu treinei nas mais altas montanhas do continente de Afron; tudo por este momento!
As pessoas que estavam em volta começam a andar novamente, sem interesse na cena.
— Oho, não pense que um simples treinamento vai te deixar mais forte! Você continua sendo o mesmo patinho nas minhas mãos!
Laila faz um rosto confuso enquanto encarava a cena.
— O que esses dois estão fazendo?
— Namorando. — Diz Kate de forma pacata.
— Não somos namorados! — Gritam os dois, novamente.
— Dessa vez eu tenho uma arma secreta, Capitã Lily...
— Uma arma?! — Diz ela, com um rosto preocupado e assustado, claramente forçado.
Ele coloca os dedos sobre a armação dos óculos e começa a rir, apontando de forma majestosa para o quadril da garota.
— Amarela.
— Amarela?
— E com um leãozinho desenhado.
Ela fica levemente confusa com a fala, mas logo coloca suas mãos sobre sua saia, com o rosto rubro.
— Seu tarado! Mas... quando?! Não me diga que foi naquela hora que eu te dei o chute?!
— Não subestime os olhos de um homem motivado!
Lily derruba o garoto com um chute certeiro no meio das pernas.
— Não faça isso de novo, seu tarado!
Laila encarava a cena sem saber que tipo de reação esboçar. As outras duas pareciam não se importar nem um pouco. Tsuhiko se levanta com certa dificuldade, segurando o local do impacto com um rosto expressivo de dor.
— Parece que eu venci de novo, Tsuhiko!
Lily começa a rir, mas logo é interrompida por um puxão de orelha que a faz começar a gritar; a garota puxa Lily pela orelha para perto de Tsuhiko e segura a orelha do garoto também. Ela tinha uma expressão fofa de fúria, enquanto levantava sua voz calma em um quase tom de repreensão e repulsa.
— Já falei para vocês pararem de brigar! — Dizia a garota morena.
— Mikaela, você vai arrancar minha orelha desse jeito!
— Como é que é, Lily?!
— Desculpa, Mikaela.
Ela solta os dois, que começam a esfregar a mão na orelha e se olharem com expressão de dor. Mikaela se aproxima das outras três com um sorriso. Kate dá um abraço nela logo que a vê.
— Você não precisava ter parado o namoro daqueles dois, sabia?
— Nós não somos namorados! — Gritavam os dois com voz de choro.
— Ah, como eu estava com saudades disso! Essa agitação me faz falta.
— Nem me fale.
— E você? Você eu não conheço. — Diz ela se aproximando de Laila e pegando gentilmente em sua mão. — Como se chama?
A garota começa a corar e a fazer um rosto envergonhado.
— Ah, meu nome é Laila.
— Muito prazer, eu sou a Mikaela; se precisar de alguma coisa é só falar!
— Obrigada...
Amanda toma a palavra com um sorriso.
— A Laila é uma amiga nossa de Mitsury, que se mudou para cá recentemente.
— Ah, você veio para estudar?
— Sim...
— Não precisa ficar tímida desse jeito! — Diz Mikaela em meio a risos.
O grupo vai até a praça de alimentação do lugar e se senta em uma mesa retangular. O shopping de Mitsury era bem menor que o de Myura, mas também era um lugar aconchegante. Amanda se senta no meio de Kate e Laila, enquanto Tsuhiko, Lily e Mikaela se sentam no lado oposto. Tsuhiko logo coloca uma pasta em cima da mesa e distribui uma folha para cada uma das integrantes da reunião.
— Vão ser só nós hoje? — Pergunta Lily.
— Os outros dois membros não vão poder vir, — responde o garoto, — mas eles não vão fazer falta. De qualquer forma, a composição principal já está presente. E dessa vez temos a presidente e a vice juntas, isso eu já consigo considerar uma vitória.
— Eu sinto muito por não poder comparecer nas últimas reuniões.
— Não faz mal, Amanda, nós sabemos da sua situação. Mas e você, presidente, conseguiu terminar com toda aquela papelada?
— Sim. Eu peguei o aval da polícia e dos bombeiros mais cedo. Também consegui cumprir com os prazos... — Ela continua falando.
Laila olhava para a cena, curiosa, enquanto a reunião do grupo seguia. Aquilo tudo era novo para ela, era a primeira vez que ela via algo como uma "reunião de um conselho escolar". Só o fato de estar sentada em uma mesa com pessoas da mesma idade já deixava ela mais confortável com a situação.
Após alguns minutos a reunião acaba. Fora uma discussão rápida.
— Bom, com isso concluímos por hoje. Segunda feira, com a volta das aulas, vamos poder começar finalmente os preparativos físicos do evento. Vamos pôr a Lily para trabalhar.
— Essa não! — Gritou a menina ao ouvir Tsuhiko falar seu nome.
— Ei, isso tudo é preguiça de trabalhar ou o que?
— Não é isso! É que eu lembrei que esqueci de montar uma equipe!
O garoto ajeita os óculos com um rosto irritado.
— Loreley...
— E... eu juro que isso não vai afetar o andamento das preparações!
Ela olha para as amigas com um sorriso falso e um rosto expressivo.
"A culpa não foi minha dessa vez, e vocês sabem disso!"
Amanda e Kate a olhavam de volta com rostos presunçosos.
"Sim, nós já sabemos." Pensavam elas.
— Escuta, Tsuhiko, — Diz Kate de forma calma, — Não brigue com a Lily, a culpa não foi dela. Você sabe que a escola teve todos aqueles problemas, acontece que não deu para entrar em contato com os outros alunos, foi por isso.
— Isso não é desculpa. Ela poderia ter ligado para alguns para pedir ajuda. Ela tem o número dos membros do time de karatê, por exemplo. Tenho certeza de que se ela pedisse a eles, eles se disponibilizariam na hora.
— Você diz isso..., mas eu ainda posso pedir a ajuda deles pessoalmente, se for assim. Então, por que se importar?!
— Tem razão. Como única garota do time e líder dele tenho certeza de que deve ser fácil para você.
— Ei, o que quer dizer com isso?! Tá dizendo que eu só me tornei líder deles porque sou mulher?
— Não foi o que eu quis dizer!
Eles começam a se encarar com fúria.
— Ei, ei! Vocês dois! Parem já com isso!
O garoto ajeita os óculos novamente.
— Eu só fico feliz por você não ter enchido o saco da Kate hoje com perguntas idiotas.
— Tem razão! Kate, quantos vulcões ativos existem ao redor do mundo?
A garota é pega de surpresa com a pergunta repentina. Tsuhiko hesita.
— Cerca de mil e quinhentos. — Responde Kate com um sorriso forçado e sem jeito.
O garoto começa a ficar com uma instância abalada.
— E qual a temperatura que eles podem chegar?
— Entre seiscentos e mil e trezentos graus célsius, mais ou menos...
— Legal! Então, o que fede mais, um vulcão ativo ou... o Tsuhiko!
Ele se levanta agarrando o colarinho da garota.
— Tá legal, quer brigar?! Pode vir!
— Me solta seu cabeça de tigela, você não tem chance contra mim!
Eles se afastam logo em seguida, com Mikaela apertando suas orelhas com um rosto nervoso.
— Já falei para pararem com isso!
Amanda olhava para a cena com um sorriso sarcástico, enquanto Laila aproximava seu rosto do dela cochichando algo com uma expressão preocupada.
— Ei, tem certeza de que eles estão bem?
— Não dá para ver? Eles se amam!
— Nós não somos namorados! — Grita os dois apontando para Amanda.
— Ora, eu falei alto?
— Não, mas a gente sabe que você tá falando da gente!
Lily segura o braço de Mikaela e começa a puxar ela para longe da mesa.
— Vem, Mike! Quero ir ao banheiro!
— Você pode ir sozinha, Lily. Ou precisa da minha ajuda para...
— Só vem logo! Droga!
A garota a segue com uma risada sugestiva, enquanto elas se afastavam do grupo.
— Não sabia que você tinha esses gostos, Loreley...
— Anda logo!
O garoto suspira, ajeitando os óculos e se acalmando.
— Essa garota... ela só dá trabalho.
Assim que ele levanta os olhos e encara as duas garotas, ele fica com um rosto confuso.
— Por que estão me olhando com essa cara?
Elas o encaravam com um rosto sarcástico e sugestivo.
— Não me venha com essa! Você sabe muito bem o porquê!
— Não, não sei. E não me interessa saber...
— Ah qual é, Tsuhiko! A gente entendeu o que você quis dizer com aquela frase! Francamente, você não tem jeito nenhum com as garotas!
— Não sei o que vocês estão falando...
— Tem jeitos mais fáceis de chamar uma garota de bonita, ou de dar uma cantada nela!
O garoto desviava o olhar com um rosto apático e desconfortável. Ele suspira e fica com uma expressão mais neutra.
— Não adianta.
As garotas desfazem os rostos sarcásticos e começam a olhar com complacência para ele. Laila, porém, encarava tudo com certa estranheza e confusão.
Enquanto isso, no banheiro das garotas, Lily terminava de secar o rosto com uma toalha de papel, enquanto Mikaela a encarava com um sorriso.
— Quer que eu me dispa agora?
— Corta essa! — Grita Lily, com um rosto cômico.
— Agora é sério, Lily... por que você fica se fazendo de difícil assim?
— Hein? Não sei do que tá falando.
— Para com isso, vocês são perfeitos um pro outro!
— Quê?! Tá maluca?! Eu e ele só ficamos brigando, o tempo todo! Desde quando isso é saudável?
— Então você admite que sabe do que eu tô falando. — Diz ela, colocando a mão na frente do rosto com uma risadinha sarcástica.
A menina loira começa a bagunçar seu cabelo de forma frenética, similar como Lucy costuma fazer.
— Calada!
Mikaela ri e, logo em seguida, se aproxima de Lily com um sorriso.
— Ei, por que não dá uma chance? Eu lembro que houve uma época que vocês não ficavam brigando todo tempo assim... o que aconteceu?
Lily, porém, faz um rosto triste, desviando o olhar.
— Eu não posso me dar ao luxo de me apaixonar.
— Por que não?
— Você não entenderia.
— Loreley, todo mundo tem esse luxo, você não pode...
— Vamos voltar. — Diz ela segurando o pulso da amiga e a puxando, cortando sua fala no meio.
— Loreley...
— Deixa isso para lá, por enquanto, por favor.
Ela fica encarando a amiga com um rosto benévolo.
— Tudo bem, eu não vou perguntar, nem me intrometer. Se está tudo bem para você, continuar assim com ele. Mas saiba que, se continuar assim, vai acabar perdendo-o.
— Já estou preparada para isso.
...
Amanda batia contra a mesa com um rosto incrédulo.
— Você se declarou para ela?! E ela rejeitou?!
— Quanto tempo tem isso? — Diz Kate, enquanto suava frio.
— Cerca de um ano...
— Foi mais ou menos o tempo em que vocês começaram a brigar por qualquer coisa, eu acho...
Amanda suspira, ajeitando os óculos.
— Francamente, o que se passa na cabeça da Lily?
Kate, porém, permanecia em silêncio, talvez sabendo a resposta para a pergunta de Amanda. Assim que as outras duas chegam, Kate se levanta com um sorriso.
— Bom, agora é a parte legal! Vou pegar o cardápio para a gente!
Assim que a menina sai, Mikaela faz um rosto maldoso, olhando em direção ao celular de Kate.
— Ela esqueceu para trás! Vacilou!
A garota morena rapidamente pega o celular de Kate com um sorriso.
— Não adianta, Mike, ela sempre coloca senha.
— Eu sei a senha dela!
Logo ao dizer isso ela desbloqueia o aparelho e mostra para o resto do grupo.
— O que? — Diz Amanda surpresa. — Como assim? Nem eu que sou a melhor amiga dela sei a senha dela!
— Então acho que eu sou a nova melhor amiga agora! — Diz Mikaela rindo.
— Vai sonhando! Mas como você sabe a senha dela?
A menina desfaz seu sorriso e fica olhando o nada por alguns segundos.
— Como? É verdade... como eu sei?
Amanda e Lily se encaram com expressões preocupadas no mesmo instante. Mikaela coloca sua mão sobre a testa, se sentindo levemente tonta.
— Ah... de qualquer forma, — Diz Lily com um sorriso, abraçando a garota, — vamos ver as fotos constrangedoras da Kate!
Mikaela volta a si e assente voltando a sorrir.
Amanda fitava a menina com certa preocupação no olhar enquanto ela mexia distraída no aparelho. Seria possível a barreira mental dela estar sendo quebrada? Aquele momento de hesitação de Mikaela era prova de que as memórias sobre o ocorrido na escola poderiam ressurgir se não tomassem cuidado.
Em meio ao devaneio de Amanda, Kate voltava com os menus em mãos, e assim que vê as duas com seu celular, ela começa a corar, soltando e deixando os cardápios caírem.
— Ei, suas tontas! O que estão fazendo?!
— Procurando coisas comprometedoras!
— Devolve já aqui!
...
O grupo voltava feliz, caminhando pela pequena estrada de cascalho, enquanto riam e conversavam. O sol já estava em sua reta final em direção ao horizonte. O local em que andavam era alto, então era possível ver, à direita deles, parte da cidade iluminada pela luz que sumia vagarosamente, à sua esquerda um pequeno bosque repleto de árvores e vegetação.
— ... E então, o detetive apontou a sua arma para o mordomo, assustando a todos na mansão!
— Ele era o culpado?!
— Sim! E ele tinha descoberto bem a tempo, pois eles estavam prestes a perder o rastro da carruagem!
Amanda seguia na frente com Kate, enquanto ouviam a conversa do grupo logo atrás delas.
— Quem diria que a Mikaela fosse tão viciada nessa série...
— Ei, Amanda, você conhece bem a Ayla?
— Bom... acho que sim. Dentro do possível.
— Você sabe me dizer se ela é casada?
— Não, ela é solteira.
— Entendo, ela tem algum namorado ou relacionamento? Ou já teve?
— Que tipo de pergunta é essa? Não que eu saiba. Por que quer saber?
Kate faz um rosto sério enquanto encarava o chão. Elas andavam a uma distância considerável do resto do grupo.
— E a flora?
— Também não.
— Pelo que conheço da Lucy, ela também não tem ninguém, certo?
Amanda franze a testa com uma expressão confusa.
— Por que isso, do nada?
— Eu entendi o porquê de a Lily ter rejeitado o Tsuhiko. E acho que entendi o porquê da antiga Volcano ter desertado...
— Ei, que papo é esse?
— Não entenda errado! Eu ainda não concordo com nada disso..., mas agora eu acho que entendi.
Amanda finalmente percebeu do que Kate falava, fazendo um rosto de compreensão e surpresa. Ela desvia o olhar para o chão enquanto suava frio, de forma hesitante. A garota volta mais uma vez seus olhares para o pôr do sol e suspira tensa.
— É realmente uma escolha difícil..., mas acho que não tem jeito. Eu te disse, não disse? Ser Lader não é uma tarefa fácil.
— Sim..., mas eu te disse em resposta, e não mudo minha opinião sobre.
— "Se nós não lutássemos, quem lutaria", não é mesmo?
Kate sorri e assente com a cabeça, sem olhar para a amiga. As duas continuam caminhando enquanto eram encaradas por Laila, que estava entre Mikaela e Lily.
— Mas e você, Laila?
— O que? — Dizia ela, sendo trazida de volta de seus pensamentos.
— Que tipo de séries você gosta?
— Séries? Eu não sou muito de assistir televisão...
— Sério? Então a gente tem que mudar isso já! Vamos marcar uma maratona de Detetive Carvalho!
— Uma maratona?
— É quando a gente para um tempo para assistir vários episódios seguidos de alguma coisa, ah vai, você nunca fez esse tipo de coisa com seus amigos antes?!
— Na verdade... não. Eu nunca tive muitos amigos.
— Eu recomendaria uma série mais leve para a Laila. — Diz Tsuhiko. — Já que ela não está acostumada a esse tipo de coisa, talvez fosse melhor ela começar com uma série de poucos episódios, tipo "Preciosa Semente" ou "Parasita".
— Por que séries de terror? — Diz Lily o encarando desacreditada.
— Eu também acho que não tenho estomago para ver coisas assim, Tsuhiko... — Diz Mikaela com hesitação.
— Então o que me diz de... — Sua fala é interrompida.
Lily e Laila são arremessadas para trás, sem tempo de reação, enquanto cuspiam sangue. As duas meninas na frente se viram em resposta ao movimento e ficam boquiabertas com a cena.
— Será que eu posso recomendar alguma coisa também?!
— Você!
Era o homem de cartola novamente. Ele segurava o pulso de Tsuhiko e Mikaela enquanto tinha um sorriso no rosto.
— A série que vou recomendar se chama Lirou Lader!
Logo após dizer isso ele some em meio a fumaça, levando consigo os dois reféns.
— Tsuhiko, Mikaela!
— Não pode ser!
As meninas ficam paradas e sem reação, enquanto Lily e Laila se levantavam com certa dificuldade.
— Nós... baixamos demais... a guarda... — diz Laila com certa dificuldade.
— Seu desgraçado! Onde você tá?! Devolve meus amigos!
Elas veem um vulto surgindo entre as arvores; era a mulher de cabelos coloridos.
— Não há motivo para desespero, crianças. Os dois estão bem. Nós apenas vamos levá-los para dar um passeio.
— O que pensam que estão fazendo?! — Amanda a encarava com fúria. — São tão baixos que precisam usar civis?
— Sim. E se vocês não fizerem como mandarmos, eles vão ser promovidos de civis para cadáveres. O que me diz? Preparamos um pequeno desafio para vocês.
— Um desafio?
— Se passarem, podem ter seus amigos de volta, se falharem... bom... não vão querer falhar. Apenas venham.
Ela começa a andar calmamente para dentro da floresta. No mesmo instante, Amanda puxa seu celular e disca o número de Lucy. Assim que ela atende, Amanda percebe uma inquietação na voz de Lucy.
— Lucy, temos probl...
— Que bom que você ligou! Eu já ia chamar vocês! A base está sendo atacada!
— O que?
— Corruptores! Milhares deles! Eu não sei como, mas acharam nossa base!
— Droga! Justo agora?! Lucy, presta a atenção, eles sequestraram o Tsuhiko e a Mikaela!
— Como é que é?! Quem sequestrou?!
— Não é óbvio?! Foi tudo planejado então?
Ambas ficam atônitas e em silêncio. Amanda desliga o celular enquanto hesitava. Kate fica receosa encarando sua amiga.
— Amanda, o que foi?
— Eles pensaram em tudo...
— Estamos por conta própria então, não é?
Elas ficam em silêncio encarando o nada por alguns segundos. É quando Lily quebra o silêncio com um palavrão que elas voltam a si também.
— O que vamos fazer? — Pergunta Laila.
Kate coloca a mão sobre o ombro de Amanda e Lily e toma a frente da situação.
— Vamos obedecê-los, por enquanto. Eles querem nos desafiar? Tudo bem, vamos mostrar para eles que essa é uma péssima escolha.
— Sim! — Grita Lily com fúria. — Eles querem um show?! Vamos dar um show para eles então!
Elas correm em direção a floresta, adentrando as árvores e seguindo uma trilha de setas coloridas pintadas sobre o chão. Enquanto corriam, Amanda parecia pensativa, encarando o ambiente ao seu redor.
"Isso é ruim... eles estão nos levando para o fundo da floresta... em meio a um ambiente assim nem a Lily e nem a Kate vão poder lutar com tudo. Se a Kate exagerar, ela pode acabar causando um incêndio, e não tem qualquer equipamento elétrico por aqui para auxiliar a Lily caso ela precise. Eu não tenho poder de ataque o suficiente para lutar também... só nos sobra confiar na Laila; ela é a única com vantagem nessa situação."
Elas são levadas até uma grande árvore onde havia uma seta apontando para baixo. Ao olharem para o chão elas veem quatro setas apontando para direções opostas, com cores diferentes. Vermelho, amarelo, azul e rosa.
— Eles querem nos separar?
— E estão exigindo especificamente para onde cada uma deve ir.
— O que fazemos?
— Eles estão com os reféns, se não obedecermos, pode sobrar para os dois...
As meninas ficam encarando as setas por poucos segundos antes de decidirem.
— Tudo bem, vamos jogar o jogo deles. Tenham cuidado, não façam nada indevido.
As outras meninas assentem a afirmação de Kate e se separam. Elas seguem as setas de suas respectivas cores e somem para dentro da floresta.
Amanda corria seguindo a seta de cor azul até chegar em um local fechado com várias arvores. É então que ela vê duas figuras. O homem de cartola sorria para ela enquanto segurava uma faca próxima ao pescoço de Mikaela.
— Seja bem-vinda, minha pequena inimiga! Isso vai ser, certamente, divertido.
— Amanda... o que está acontecendo?
— Fica calma, Mikaela, eu vou te salvar.
O homem começa a rir com a colocação de Amanda, tirando a faca do pescoço de Mikaela e prendendo-a com vários galhos que surgem do chão.
— Não é sábio fazer promessas vãs, criança! Sabe por que escolhi você? Porque você é a mais fraca! A mais inútil! A menos confiável!
Amanda hesita com um rosto sério. Ela puxa seu amuleto com certo receio.
— Isso não é verdade...
— Ah não é?! O que dizer de uma pessoa que mal consegue salvar o irmão?
Ela hesita ao ouvir o comentário.
— Como... como sabe disso?
— Nós sabemos de muitas coisas, Amanda. — Ele tinha um sorriso nefasto sobre seu rosto, enquanto encarava-a com deboche. — Uma Lader que não consegue acabar com um simples corruptor transformado, você é mesmo uma inútil! Uma piada!
— Cala a boca!
— Venha me fazer calar!
Amanda grita suas palavras de transformação e se atira para cima do homem, não só errando-o, como sendo acertada pelas costas, sendo jogada contra uma arvore. Sua armadura, no entanto, se forma bem a tempo para protegê-la do golpe. Ela se levanta, enquanto seu escudo aparecia em sua mão esquerda.
Mikaela se esforçava para ver sua amiga lutando, mas as vinhas apertavam seus ossos, quase esmagando-os e causando uma dor excruciante. Ela mal conseguia respirar, quiçá gritar de dor.
...
Kate seguia o rastro enquanto encarava a floresta a sua frente com muita seriedade. Sob puro instinto e em uma explosão de adrenalina, ela se esquiva de um golpe desferido de forma furtiva, vindo de trás de uma arvore, fora de seu campo de visão. Ela se reposiciona já em postura de batalha, mas sem se transformar ainda.
— Maravilhoso... — Diz a voz feminina, de forma calma e vagarosa, enquanto se aproximava de Kate.
A menina, no entanto, permanecia em silêncio enquanto encarava a mulher se aproximando. Ela girava sua haste enquanto ria.
— Não vai me dar nem um oi, Ruivinha?
— Ruiva? — Diz a garota confusa. — É verdade, eu fico ruiva quando me transformo...
— E então, ruivinha, não vai se transformar?
— Não preciso me transformar para te bater.
— Confiante. Mas não pense que vai me pegar dessa vez. Eu vou ter minha revanche hoje.
Kate se move para cima dela com um rápido impulso, se abaixando e subindo com um gancho. A mulher se esquiva girando sua haste e acertando as costelas da garota; Kate abraça o objeto e enrola seu braço nele, puxando-o e jogando para longe da mulher.
— Você luta bem.
Kate desfere uma sequência de golpes na mulher, que se esquiva e se afasta dela.
— Você é esperta... está evitando usar fogo, não é? É por isso que não se transformou?
— Pense o que quiser, se isso vai deixar seu ego mais tranquilo em enfrentar um oponente mais forte que você.
— Para quem não gosta de conversar com o inimigo, até que você está falando muito hoje... muita merda!
...
O rapaz ouvia os passos da garota se aproximando em silêncio, enquanto brincava com sua faca, escorado em uma árvore. Ela para assim que o vê, ficando de prontidão.
— Particularmente, eu não me importava em quem eu iria enfrentar, mas fico feliz de terem me colocado com você. Podemos terminar aquela dança de outrora? Laila, é esse seu nome, certo?
A menina girava suas correntes enquanto encarava o homem mascarado com muita concentração. Ele girava sua faca entre os dedos, de forma descontraída.
— E então, podemos começar?
...
— Tsuhiko!
Lily avistou o garoto amarrado em uma arvore e correu em direção a ele.
— Não se aproxime! Ela está em cima das arvores!
— O que?!
Lily se esquiva bem a tempo de um ataque da boneca, que caíra cravando as garras de sua mão direita no solo.
— Você veio brincar comigo?! Que bom! Agora podemos nos divertir!
Ela levanta suas garras jogando terra contra o rosto de Lily; a menina protege os olhos, mas é acertada com um chute que a joga para longe de Tsuhiko novamente. De relance ela vê um pequeno brilho acima da boneca, logo antes dela ser puxada para cima da copa das arvores, sumindo na escuridão em meio a risos.
— Vamos brincar! Vamos brincar! Você vai me render uma brincadeira melhor que daquela menininha de olhos azuis?! Me diz que vai brincar comigo!
Lily começa a se energizar, fazendo vários raios circularem seu corpo; logo ao ver isso Tsuhiko fica levemente boquiaberto.
— Lily... você...
A garota hesita, evitando contato visual com o rapaz.
— Não se preocupe, Tsuhiko, eu vou te salvar, isso é uma promessa.
— Você é uma pilha!
— Cala a boca, seu cabeça de tigela! A situação é séria, não tá vendo?!
— Desculpa... é que...
— Depois nós vamos ter bastante tempo para conversar. Primeiro eu vou acabar com essa boneca de feirinha.
Ela jogava seus olhos para lá e para cá, encarando as folhas e galhos acima dela, tentando ver algum movimento.
Lily subitamente é surpreendida pela boneca, que aparece em suas costas e desfere um golpe nela. Lily se vira para revidar, mas a boneca sobe aos céus novamente.
— Mas que merda!
Ela desce acertando Lily novamente, que é derrubada enquanto levantava poeira. Ela se levanta em meio a tosses e grunhidos de dor.
"Assim fica difícil! Eu não consigo ver de onde ela vem... e eu não tenho a mestra aqui para me ajudar. Droga, o que eu faço?!"
...
A mulher parte para cima novamente, golpeando Kate na direção do rosto; a menina defende com as duas mãos, segurando e puxando o braço da Pintora para sua direita, ao mesmo tempo levantando o joelho e acertando seu estômago. Ela então finaliza com um soco de esquerda no rosto da mulher, jogando-a alguns metros em direção a uma arvore.
— Sua... pirralha!
— Você deixa muitas aberturas. Não sabe mesmo o que está fazendo.
A mulher se levanta, limpando o sangue em sua bochecha, enquanto sorria.
— Mas é por isso que me preparei hoje.
Kate sente algo agarrando suas canelas; era a grama, ela estava subindo sobre suas pernas e se enroscando em todo seu corpo.
— Droga! Toda essa grama era falsa?
A mulher vai até sua haste e a pega, delicadamente. Ela se aproxima andando de Kate, desferindo vários golpes com a haste na garota enquanto ria.
— Não sei o que estou fazendo?! Veja bem como fala, pirralha! Sua ruiva falsa! Tingida!
Kate levava vários golpes enquanto tentava se livrar das vinhas, que cobriam todo seu corpo e apertavam sua pele. Em meio a um impulso de fúria ela grita.
— Siru Saito! — Seu corpo é coberto em chamas, que consomem as vinhas e fazem Kate cair no chão em meio a tosses.
A mulher se afasta por puro instinto do fogo.
— Boa jogada...
A menina se levanta com certa dificuldade e se coloca em postura de batalha novamente, enquanto limpava o sangue em sua bochecha.
...
Norte de Mitsury, uma área rochosa e de terra batida, um enorme posto militar se estendia. Cercado por grandes grades e com uma segurança notavelmente elevada, o lugar tinha um ar tecnológico, mesmo em suas paredes externas; mas algo não estava certo ali. Todas as grades do lugar estavam danificadas, as armas antiaéreas estavam, em sua maior parte, avariadas. O grupo de soldados tentava a todo custo manter o lugar em pé.
Lucy lutava com toda sua força, com um rosto preocupado, enquanto avançava contra os corruptores do lado de fora da base. Ao seu redor, vários soldados da organização lutavam, atirando contra os monstros e protegendo a entrada da base. Ela vê as três garotas se aproximando enquanto abriam caminho para Lucy em meio aos corruptores.
— Takira, garotas, sei que vocês acabaram de chegar, mas preciso pedir um favor! Parece que isso tudo é uma armadilha, vão até onde as garotas estão!
Elas hesitam ao ouvir a mulher. Takira, Gabriela e Dominic suavam frio enquanto lutavam, preocupadas com o estado atual da base.
— Nós não podemos te abandonar assim! — Gritava Dominic com emoção em sua voz. — A base não pode cair, você sabe disso!
— Gabriela, Dominic. Deixem a base com a gente.
— Takira...
— Eu vou ficar com a Lucy. Vão ajudar as garotas.
A mulher loira hesita, mas assente.
— Obrigada, Takira.
— Vão agora! Vocês vão ser capazes de achar a localização delas usando o radar mágico que Larry nos deu mais cedo!
— Radar mágico? — Comenta Lucy confusa.
— Ele disse que era um protótipo que os cientistas da base estavam criando. Ele é capaz de identificar mana ativo em uma certa área ao seu redor.
As meninas começam a se mover, mas são surpreendidas por mais um grupo de corruptores, que pareciam incrivelmente bem posicionados para impedir a passagem delas. A atitude vinda das criaturas levantou suspeitas por parte do grupo, que nunca tinha visto tal tipo de coordenação por parte dos monstros.
— Saiam da nossa frente, seus projetos de pinhatas!
O golpe brilhante de Dominic se espalhou com seu soco, tomando seu caminho por entre os monstros, atingindo alguns e errando outros.
— Como essas coisas se esquivaram disso?!
— Cuidado, Dominic!
Gabriela se põe a frente da garota, defendendo um golpe de uma das criaturas, que fez as duas serem jogadas para trás.
— Essas coisas... elas estão lutando com muita coordenação!
— Nós não temos tempo para isso, vamos só cortar caminho entre elas! Takira, Lucy! Abram caminho para a gente!
— Beleza! — Grita Lucy atirando várias flechas e atraindo a atenção das criaturas.
Dominic e Gabriela se esquivam dos ataques do restante, avançando e saindo do campo de ação dos monstros. É quando elas se afastavam da horda que...
— ... uma enorme parede apareceu à frente das duas, fazendo-as se chocarem.
As duas caem no chão após o impacto, confusas.
— De onde... de onde surgiu essa parede?!
— Cabelos brancos como a neve, olhos vermelhos como o sangue e roupas finas e caras que lembravam muito as roupas de uma empresária, com um lenço sobre seu pescoço que dava um ar requintado para a mulher. Ela se aproximava do local com todos os holofotes voltados a si. Todas param de se mexer para observar a entrada triunfante dela.
— O que... está acontecendo?
— Não consigo me... mexer...
As criaturas negras...
— ... permaneciam paradas enquanto a mulher falava. Todo o barulho do local se cessou por um breve instante, e apenas o som de sua voz podia ser ouvido. Mesmo tendo perdido a batalha contra a mulher de branco, e sendo obrigada a usar o último resquício de seu mana para invadir a base das Laders, ela sabia que se desse certo, seu esforço seria recompensado.
— Essa mulher... está narrando nossa situação atual?! Quem é você?!
— Gritou a mulher que me lembrava a Lader Lux.
— Ela está falando em primeira pessoa agora...
— Seu tom de voz não era nada agradável, mas me trazia uma sensação interessante de dejavu. Era como olhar diretamente para a mulher de cabelos brilhantes.
— Não há dúvidas... pelo jeito que ela está falando, ela deve fazer parte daquele grupo, e eu imagino que sei o nome dela. Você é a Roteirista? Escritora?
— A mulher loira parecia ter sido certeira em sua colocação. Ela, de fato, estava prestando a atenção aos detalhes. Por saber que todos os artistas representam uma face da grandiosa arte universal, ela precisamente deduziu meu nome. Mas ela estava equivocada quanto ao meu verdadeiro nome, que era algo que elas ansiavam. Todas me olhavam com muita atenção. "Pois bem!" Gritei eu. "Darei a vocês meu codinome, para que fiquem cientes do que estão enfrentando."
O silêncio percorreu o lugar em meio a tensão. A voz dela tinha algo que trazia à tona o real perigo. Nenhuma das quatro sentiram isso quando enfrentaram os outros quatro sujeitos; ela era diferente, muito diferente.
— Lucy... essa mulher...
— Sim...
O suor frio das duas garotas mais experientes dizia muito. Levantando os braços em uma autocontemplação a mulher voltou a falar.
— Eu sou a máxima apreciação do ser... — Sua voz soava diferente da dos outros membros de seu grupo... — Aquilo que dá vida a quem me vê. O incrível personagem da grande obra de teatro do viver! Pois sem mim a peça mal pode acontecer. — A mesma frase, o mesmo estilo de fala, mas as mulheres podiam ver claramente uma diferença na ameaça que as palavras causavam. — A episteme da verdade absoluta! Eu sou a arte. Eu sou o artista. Mas para vocês, eu sou M'lady.
Elas não podiam se mover, mas não porque estavam sendo coagidas por alguma magia, não. Seus pés não se moviam por instinto. O que as quatro sentiam naquele momento... era o medo.
Ao longe, se aproximando da cidade, uma silhueta cruzava as montanhas com fadiga em seus passos.
"O que é este mau agouro que sinto...?" pensava ela.
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