Lirou Lader — Parte 1
9 Um Quadro que há muito já secou
A mulher dançava com seu pincel sobre a grande tela branca, criando os traços mais suaves e belos que conseguia. Sobre o vento e o cantar dos pássaros ela retratava, da forma mais fiel possível, a paisagem a sua frente. Com grande energia, alguém pula em cima do pescoço dela, a abraçando; uma jovem garotinha de uns seis anos que ria e gritava, enquanto levava bronca dela.
— Laila, me solta! Você vai me fazer estragar o desenho!
— Desculpa, Zefira...
Ela se solta e começa a encarar o quadro, enquanto a mulher terminava os retoques.
— É igual!
— O que é igual?
— Ali! — Gritou a garotinha apontando para a paisagem a sua frente.
— Sim, é igual!
— Que bonito!
Zefira acaricia a cabeça da garota, que ria enquanto recebia o carinho. Um homem se aproxima das duas, com um rosto sério.
— Vai demorar muito ainda, Zefira?
— Já estou acabando, Robert! Tenha mais paciência.
— Tanto faz...
Ele se vira e começa a andar em direção a uma árvore próxima, mas é parado pelo abraço apertado da garota que se agarra em sua perna.
— Laila, me solta!
— Não até você brincar comigo!
— Tá bom, eu brinco com você, agora me solta!
Ela solta e fica na frente dele, com um sorriso inocente.
— Do que a gente vai brincar?
Ele saca sua arma e entrega para a garota.
— Toma, vamos brincar de tiro ao alvo.
A mulher larga seu pincel no mesmo instante e começa a gritar.
— Tá maluco, Robert! Não pode dar uma arma na mão de uma criança! — Ela rapidamente toma a pistola da mão de Robert, antes de Laila pegar. — O que você tem na cabeça?!
— Ah, ela vai ter que aprender a usar, mais cedo ou mais tarde!
— Não vai não! Não me interessa se você é o líder da Alcateia, minha menininha não vai aprender a atirar!
— Sua? Desde quando você tem a posse dela?
— Ela não é minha, nem sua! O que eu quero dizer é que não vou deixá-la entrar em perigo por suas razões egoístas!
— Me chama de egoísta logo depois de declarar posse dela...
Zefira mostra a língua para Robert, guardando a arma em seu próprio bolso.
— Vocês aí, é só eu sair de perto que começam a discutir, qual o problema de vocês?
A mulher que se aproximava era Zaira, que foi rapidamente envolvida pelo abraço apertado de Laila.
— Vovó ninja!
Ela pega a criança no colo com um grande sorriso.
— Como está, minha netinha linda? Você parece mais forte hoje!
— Eu consegui acertar o alvo duas vezes hoje!
— É mesmo?!
Robert grita e começa a apontar para a velha.
— Tá vendo só, Zefira?! A sua mãe pode ensinar ela a atirar shurikens e facas, mas eu não posso ensinar a atirar com uma arma?!
— Minha mãe ensina mais do que só as artes ninjas para a Laila, ela ensina controle mental e várias outras coisas que são complexas demais para uma mente tão pequena como a sua entender!
— Tá me provocando de novo?!
— E se eu tiver?! Eu to com sua arma!
— Eu não preciso da minha arma para te dar uns cascudos!
Laila começa a gritar e apontar para os dois.
— Vovó, eles tão brigando de novo!
A mulher mais velha suspira com um rosto triste.
— O que aconteceu com vocês? Vocês eram tão chegados quando eram crianças.
Os dois ficam em silêncio, olhando para lados opostos com caras emburradas.
— Vovó, eu quero aprender a fazer clones!
— De onde tirou isso, Laila?
— Eu vi num desenho na TV! Os ninjas de safira!
— Ah, aquele programa... Mas por que você quer fazer clones?
— Eu posso usar os clones para ficar com a Zefira e o Robert ao mesmo tempo! Daí eles não vão ficar brigando!
Os dois decaem seus rostos emburrados assim que ouvem a garota, e ficam pensativos.
— Você vai precisar mais do que clones para fazer isso, Laila.
— Então... eu vou fazer o Robert sair da Alcateia!
O homem olha com um rosto desconfiado para a garota.
— Han?! Como que é garota?
— Vou virar a chefe da Alcateia no seu lugar! — Gritava ela com um sorriso.
— Nem ferrando que vou dar o controle da Alcateia para você.
— Laila, eu não vou deixar você virar líder da Alcateia! — Disse Zefira com energia.
— Então eu vou destruir a Alcateia, assim vocês dois não vão ter motivos para brigar!
Robert começa a bufar, se virando e se afastando.
— Ah, já chega! Essa conversa toda tá me dando dor de cabeça!
— Viu só, vocês o deixaram irritado... — Comenta Zaira.
— Problema é dele...
— Se alguém tivesse assumido o controle da Alcateia no lugar dele, isso não teria acontecido...
— Eu não sou uma criminosa, mãe!
— Mas a Alcateia não é um grupo criminoso também. Pelo menos não até ele assumir.
— Isso mesmo, você tá certa! A culpa é toda dele!
Ela se senta novamente e começa a pintar. A mulher mais velha suspira e encara a garotinha em seus braços.
— Ah, o que eu faço com esses dois, hein, Laila?
— Põe eles de castigo!
A mulher começa a rir.
— Sabe que essa é uma excelente ideia?!
...
Zefira pintava em seu jardim enquanto sua mãe tricotava ao seu lado. Ela parecia pensativa, e não conseguia se concentrar direito no quadro a sua frente. Sua mãe percebera a inquietação no rosto dela, e decide se intrometer.
— Está chateada com a discussão do outro dia?
— Não estou. — Dizia ela com um rosto emburrado.
— Entendo, você está mesmo.
Ela bagunça o próprio cabelo com as duas mãos, sujando-o com um pouco de tinta.
— Já falei que não estou!
— Por que você não para de agir como criança e se declara logo para o Robert?
— Me... eu nem gosto daquele idiota!
— Tá bom.
— Eu só to preocupada com a Laila... ela vai fazer dez anos daqui a alguns dias...
— Foi por isso que vocês discutiram?
— É claro! Ele quer enviar ela em algumas missões da Alcateia! Eu não posso permitir isso!
— Qual o problema? Eu já fazia missões na idade dela.
— Ah, discutir com você é igual discutir com ele, vocês dois são igual paredes... você é uma ninja, mãe! Você é totalmente diferente dela!
— E qual o problema? Eu treinei a menina desde quando ela mal sabia falar. E o Robert pode ser um idiota, mas ele ensinou bastante coisa útil para ela também.
— Ela é uma criança, mãe! Uma criança! Quantas vezes tenho que dizer isso a vocês?!
Elas ficam em silêncio e Zefira encara o céu com um olhar triste.
— Escuta, mãe. Por que você criou a Alcateia?
— Por que essa pergunta agora? E você já sabe a resposta.
— É, mas eu quero escutar de novo.
A mulher suspira e para seu tricô por um segundo.
— A Alcateia foi uma forma que eu achei de continuar o legado do meu clã. Eu sou a última ninja do clã Mayuri, então eu queria continuar esse legado. Só isso. Você não quis aprender nada, então...
— Então eu não preciso mesmo me sentir culpada.
— O que quer dizer?
— Eu estava pensando do porquê não quis assumir a Alcateia na época, mas era isso. Até o motivo por trás da criação dela foi egoísta no fim da contas.
A mulher bufa com certa raiva.
— Olha essa boca, garota.
— E eu estou mentindo?! Você e o Robert são iguaizinhos! Dois egoístas que só pensam na Alcateia! E nossa Laila, como fica?
— Nossa Laila?
— É, ela é a nossa menina! Vocês dois nem pensam no bem estar dela! Deixam esses seus pensamentos egoístas acima do bem estar da nossa menina!
— Você já parou para pensar no que a própria Laila pensa a respeito disso?
— Sim, você tem razão, e vocês, já?
— Por que não perguntamos para ela então? — Ela vira seu rosto para a porta, onde a garota permanecia parada ouvindo a conversa. Ela estava vestida com uma blusa escura e uma calça de laica, com ataduras cobrindo todo o seu braço. Robert estava atrás dela, com um cigarro na boca.
— Laila?! Quanto tempo você está aí?
— Não muito.
Ela anda até Zefira, pega um pano ao lado dela no chão e limpa uma mancha de tinta no rosto dela.
— Tá sujo aqui.
— Ei, você ouviu...
— Sim, eu ouvi a conversa de vocês.
— E então?
— Zefira, eu sei que você se preocupa comigo..., mas eu gosto de ajudar o Robert.
— Você não sabe que o que está fazendo é errado?
— Errado? Mas nós estamos ajudando as pessoas. O Robert me mandou para uma missão de infiltração; nós ajudamos a prender um grupo de traficantes de drogas.
— Robert, você a levou em uma missão sem me consultar?!
— Eu não preciso consultar ninguém para levar um soldado meu para uma missão! Ela é minha propriedade!
— Minha mão que vai ser propriedade da sua cara se você continuar com esse discursinho idiota!
— Vocês dois, não briguem por minha causa, por favor! Zefira, eu já te disse, eu quero ajudar o Robert, eu acredito que a Alcateia tem um papel importante aqui em Myura! Nos últimos meses nós derrubamos três carteis, e até ajudamos a prender um grupo terrorista!
— Isso é trabalho da polícia, Laila! E você sabe muito bem que não é só com isso que o Robert trabalha, não é? Ele tem acatado ordens do alto escalão de Myura nos últimos meses.
— Eu sei disso, e eu também acho errado ele deixar políticos se intrometerem na Alcateia... — O homem encara as duas com um rosto irritado. Laila continua a falar. — Mas, mesmo assim, eu acredito que estamos fazendo algo bom.
— Ah, no fim das contas você é igualzinha a ele!
— Zefira...
Ela se levanta e entra para dentro da casa, bufando.
— Ela tem que aprender a relaxar... — diz o homem com um sorriso maldoso.
— Mas ela tem razão em uma coisa, Robert.
— Ah, lá vem você de novo, Zaira.
— Você deveria ter um pulso mais firme com o que esse pessoal da "cabeça" vem falando. Vai chegar em um ponto que você não vai conseguir mais recusar as ofertas deles... e quando isso acontecer, a Alcateia vai se tornar um grupo criminoso, de fato.
— Relaxa aí, velhinha. Isso não vai acontecer.
Laila entra atrás de Zefira, com um rosto preocupado. Ela segue a mulher até o banheiro onde ela permanecia escorada na pia, com o rosto baixo.
— Zefira, não se preocupe tanto comigo...
— Não é só com você que eu me preocupo, Laila. O Robert tem mudado muito, e você sabe disso...
— Tem medo de que eu acabe mudando também?
Ela parecia com uma expressão estranha para Laila, o que a deixou confusa por um instante.
— Não é... medo de...
— Ei, está tudo bem, Zefira?
A mulher começa a cambalear e Laila vê seu corpo caindo sobre o chão como uma boneca. Laila acode-a, desesperada, gritando em socorro aos outros dois que estavam na casa.
...
Laila estava sentada no banco do hospital, aflita e ansiosa. A mulher mais velha tentava acalmá-la sempre que podia, mas não era fácil, visto que ela também demonstrava preocupação. O médico aparece com um rosto calmo e se aproxima deles.
— Boas notícias, ela acordou.
Robert se aproxima dele de forma ansiosa.
— Sério? O que ela tem doutor?
— Nós não sabemos ainda, preciso fazer mais alguns exames. Mas, por enquanto, podem ficar tranquilos, ela está estável. Se quiserem, podem ir vê-la. Só tentem conversar um pouco devagar, ela ainda está um pouco sonolenta por causa dos remédios.
Eles obviamente aceitam e os três entram no quarto. Laila rapidamente se aproxima dela com um rosto preocupado.
— Ei, que ideia é essa de assustar a gente assim? — Dizia Robert em um tom implicante.
— O que aconteceu?
— Você desmaiou do nada no banheiro! — Disse Laila com uma voz ansiosa.
— É mesmo? — Ela falava de forma vagarosa e fraca. — Acho que deve ter sido algo que comi.
— Não parece o caso. Como está se sentido?
Ela fecha os olhos e suspira.
— Cansada.
— Você ficou desmaiada por dois dias...
O celular de Robert começa a vibrar e ele imediatamente o pega; assim que olha a tela dele, ele sai do quarto rapidamente para atender. Ao ver a cena Zaira logo franze os olhos.
— Mamãe, será que pode deixar eu conversar com a Laila a sós?
A mulher assente e sai do quarto, deixando as duas em particular.
— Escuta, Laila. Eu não terminei de te responder, não foi?
— Me responder?
— Sim. Eu ainda me lembro do que conversávamos antes... você se lembra?
Ela assente com a cabeça. Zefira faz um longo silêncio, enquanto pensava no que dizer.
— Me promete uma coisa, Laila?
— Qualquer coisa.
— Não mude esse seu jeito. Não se torne como o Robert.
— O que quer dizer?
— Você também já deve ter percebido. Você é jovem, mas é esperta. Você viu o rosto dele quando ele olhou para o telefone, certo?
Ela abaixa a cabeça com um olhar triste.
— Me promete que vai continuar sendo essa garota alegre e bondosa, por favor.
— Sim, eu não vou mudar, eu prometo.
Zefira sorri e suspira.
— Assim espero.
...
Laila andava até o ateliê de Zefira, com um pequeno jarro em mãos; no jarro, duas belas rosas faziam a decoração. Ela entra no lugar e vê Zefira parada à frente do quadro, olhando para sua mão, hipnotizada.
— Tá aqui as flores que você me pediu, Zefira.
Ela parecia não ter ouvido Laila. A garota se aproxima e encara o quadro, que tinha uma mancha vermelha que lembrava uma flor.
— Você já começou a pintar?
— Laila, isso não é tinta.
A garota levanta as sobrancelhas em hesitação e finalmente percebe. Ela vê a mão vermelha de Zefira e entra em choque.
— Eu vou buscar seu remédio!
— Calma, Laila, tá tudo bem. Foi só uma crise... já passou.
— Se eu estivesse perto!
— Calma, garota, sente aqui! — Ela segura os dois braços de Laila com um sorriso e força ela a se sentar à sua frente.
— Zefira, você está bem mesmo? Se quiser eu chamo um médico da Alcateia.
— Não se preocupe, as crises não costumam voltar tão rápido.
Laila olha para a mão de Zefira, vermelha de sangue, e fica preocupada.
— Desculpa por te sujar, olha só! — A mulher pega um pano molhado que usava durante as pinturas e começa a limpar o braço de Laila, que havia se sujado de sangue.
— Você não pode mais ficar sozinha, Zefira. Eu vou falar com o Robert para deixar alguém, um enfermeiro, com você vinte e quatro horas.
— Não precisa, Laila, de verdade. E eu me sentiria como uma prisioneira se isso acontecesse.
— Mas você não pode continuar assim! Sua doença está piorando...
— Laila, deixa esse assunto para lá, por enquanto. Eu quero conversar outra coisa com você. Você sabe o que aconteceu, certo? Você sabe o que o Robert fez?
Ela faz um rosto triste e assente.
— Sim... parece que a Zaira também não gostou muito...
— É claro que não! Ele está ficando louco. E o que você acha?
— É errado. Não importa se os caras eram criminosos... ele não deveria ter matado eles daquele jeito. E ele ainda os torturou antes de matar. Ele está pegando cada vez mais missões dos grandões, e isso me preocupa... fiquei sabendo que algumas gangues aleatórias estão sendo recrutadas também...
— Laila, me promete uma coisa, você não vai mais fazer missões para a Alcateia, pode fazer isso por mim?
— Zefira...
— Por favor, eu não quero que você acabe se corrompendo também... ou pior...
— Você sabe que o Robert precisa de mim e do meu poder. Sem isso ele pode acabar entrando em grandes problemas...
A mulher abaixa a cabeça e faz um rosto triste, apertando suas mãos contra as cochas.
— Acho que nem minha mãe tinha ideia de que a Alcateia se tornaria o que se tornou...
...
O homem entrava no quarto particular do hospital com as mãos no bolso, seu olhar era sério e ele parecia não demonstrar nenhuma empatia pela paciente, embora eles se olhassem com o mesmo tipo de sentimento.
— Você não cansa de ficar aqui não? — Dizia o homem. — Suas vindas para cá têm ficado cada vez mais frequentes.
— Não me trouxe nada dessa vez?
— O que você queria que eu trouxesse? Eles não deixam a gente entrar aqui com objetos suspeitos, nem comida.
— E mesmo você dizendo isso, aposto que ainda está com sua arma no bolso.
Ele saca o objeto citado com um sorriso no rosto.
— Eles não são tão estúpidos para tentar tirar isso de mim.
— E no fim das contas, então, você acabou de admitir que não trouxe nada para mim de propósito.
Robert se aproxima da janela e começa a admirar a vista do enorme jardim. Aquele era o melhor quarto do hospital; ele ficava no segundo andar, de frente ao grande jardim do hospital.
— Sabia que esse quarto não é barato? Eu o deixei reservado só pra você.
— É mesmo? Me sinto feliz por saber que se preocupa tanto comigo.
Ele se vira com um rosto desconfiado para ela, enquanto a mulher olhava para o outro lado, desinteressada.
— Que tom foi esse?
— Não foi nada.
— Por que está sendo tão fria comigo nos últimos dias? Eu até tenho vindo te visitar sempre que posso...
— Mesmo? A última vez que veio foi semana passada.
— Eu tenho andado ocupado!
— Torturando muitas pessoas, imagino.
— Ah, entendi. Você ainda está chateada com aquele lance da gangue dos cobras?
Ela vira seu rosto para Robert com uma expressão de surpresa.
— Gangue dos... não me diga que.
— Ah, droga, não era pra eu ter falado isso...
— Outra briga entre gangues, Robert?
— Eu achei que você já sabia dessa.
— Tem razão. Eu nem deveria ficar mais surpresa com essas coisas... só espero que não esteja envolvendo a Laila nesse tipo de coisa.
— Não.
— Falando nela, onde ela está agora?
— Ela tem se recusado a fazer as missões mais perigosas... imagino que por culpa sua. Então eu tô dando missões diplomáticas para ela nos últimos dias.
Ela aperta o lençol da cama com um rosto de raiva, virando o rosto.
— Você não sente nada...?
— Como é?
— Não te vem nada na cabeça quando faz essas coisas? A Alcateia já deixou de ser o grupo revolucionário criado logo após a guerra. O grupo que lutou a favor do povo, que fez tanto pela nossa cidade. Hoje vocês não passam de mais uma gangue que cria caos pela cidade!
Robert fica em silêncio, encarando a mulher.
— Tá vendo só! Você nem se incomoda mais em me dar uma resposta! Já nem se importa mais!
Ele volta a olhar pela janela, fazendo Zefira fechar os olhos e abaixar a cabeça.
— Me diga uma coisa, Robert, o que eu sou para você?
— Que pergunta é essa? Você...
— Por favor, seja sincero dessa vez. Pelo menos dessa vez.
Ele hesita, mas se vira novamente para a mulher.
— Você... é uma pessoa importante para mim.
— Sou mesmo? De verdade?
— Zefira, você é minha amiga de infância. Nós crescemos juntos na mesma casa, quase como irmãos. Depois da Alcateia, acho que você é a coisa mais importante...
— Eu te amo Robert! — Ela fala com lágrimas e um rosto irritado.
O homem hesita em ouvir a mulher dizer isso. Ela chorava copiosamente enquanto falava.
— Não esperava ouvir você...
— Você é um idiota mesmo! Mesmo depois de todo esse tempo a única coisa que você pensa é na Alcateia!
— Ei, se acalma, não faz bem para você ficar tão...
— Me acalmar como?! Me diga Robert?! O que é mais importante para você?! O dinheiro ou sua humanidade?!
— É claro que... minha humanidade!
— Você hesitou em responder! Tá vendo só?! Você acabou mesmo se tornando só mais um criminoso!
— É mesmo?! — Grita ele. — E é graças ao dinheiro que eu consegui com a Alcateia que eu posso pagar o seu tratamento, sabia?!
— Foda-se meu tratamento! Foda-se a minha vida! Se isso significa ter que perder você, eu prefiro morrer!
— Zefira... se acalme, por favor...
Alguns enfermeiros começaram a se amontoar no corredor, próximo da porta.
— Está tudo bem aí? Eu peço, por favor, que não fiquem gritando, estão incomodando os outros pacientes.
Após os dois se acalmarem, e os enfermeiros saírem, eles voltam a conversar normalmente. Zefira limpa suas lágrimas e desvia o olhar de Robert, ainda com um rosto triste.
— Se algum dia se arrepender de ter assumido a Alcateia, pode contar comigo para fugir com você. Mas se no dia que isso chegar eu já não estiver por perto, então eu só posso implorar.
— Implorar pelo que?
— Para que não seja tarde demais.
— Eu não entendo o que quer dizer.
— Como poderia? Você está cego em seus próprios desejos.
Ele fica encarando o nada enquanto a mulher evitava contato visual com o homem. Eles ficam em silêncio e Robert começa a andar para fora do quarto. Ele para e olha para trás novamente, quebrando o silêncio
— Escuta Zefira... eu...
— Não diga nada. Só não diga essa mentira para mim. Eu não quero ouvir isso da sua boca sabendo que isso não é verdade.
Ele franze a testa e sai do quarto, irritado.
...
— ...e mesmo depois de tudo, ela acabou não deixando eu me desculpar.
— Fala sério... é mesmo uma pena.
— Não é?! Eu estou tão frustrado. Mas tenho que te agradecer, nunca imaginei que acabaria me abrindo assim com um rival.
— Pois é! As coisas são tão engraçadas não é mesmo?
Os dois riem. Logo em seguida, Robert atira na cabeça do homem amarrado na cadeira. Ele chuta o corpo, derrubando-o, enquanto fazia um sinal para um de seus capangas encherem mais uma vez seu copo de whisky.
— Me tragam o próximo, anda!
— Chefe, não acha que está bebendo demais? Isso pode acabar atrapalhando o interrogatório...
— O caramba! Traz logo o próximo cara! Antes que eu atire em você ao invés de atirar nele!
É nesse momento que outro capanga entra na sala com um celular e mãos.
— Chefe, ligação para o senhor!
— Já falei para não me atrapalhar! Eu estou no meio dos interrogatórios!
— É que... é do hospital...
O homem muda a expressão no rosto imediatamente, correndo até o capanga e pegando o celular de forma agressiva.
— Alô!
— Senhor Robert, aqui é o Dr. John
— Algum problema?
— Houve uma complicação com o estado de Zefira...
— Eu... eu estou indo para ai imediatamente!
— Não precisa se incomodar, senhor... ela...
— O que?
— Ela já faleceu.
Ele fica em estado de choque, olhando para o nada.
...
A menina permanecia abraçando Zaira enquanto chorava. A mulher, no entanto, não parecia exibir qualquer emoção. Mesmo assim, em seu coração, era como se ela já não tivesse mais motivos para continuar vivendo. Porém, o abraço quente da garota que chorava em seus braços, de alguma forma, a consolava. Elas estavam ali paradas na frente do tumulo de Zefira já tinha várias horas, e mesmo assim, Laila não saia da posição que estava. O abraço parecia não ter perdido força, nem por um segundo. Zaira não derramara uma única lágrima durante todo o período, no entanto.
Robert se aproximava das duas com um rosto neutro.
— Já está ficando escuro. Vamos para casa.
Laila levantara levemente o rosto, olhando para os pés de Robert. Ela estava com os olhos inchados de tanto chorar.
— Casa?
— Sim.
— Mas eu já estou em casa.
O homem desvia o olhar, encarando o túmulo.
— Você não apareceu no velório. — Diz a mulher com uma voz rouca.
Ele fica em silêncio.
— Onde você estava?
— Eu...
— Não responda! — Grita Laila, interrompendo-o.
Ele volta a ficar em silêncio. Zaira encara o rosto de Laila, com um olhar compreensivo. A garota limpa o rosto, segura na mão de Zaira e começa a puxá-la para longe do túmulo.
— Laila...
— Vamos para casa...
Elas se afastam de Robert, que permanecia imóvel de frente para o túmulo, sem saber o que responder à garota que saíra irritada.
...
Meio ano se passou desde a morte de Zefira. Laila entrava no galpão ao lado de Robert e vários capangas armados. No lugar, duas pessoas os esperavam. A primeira tinha um rosto apático, se emoção. A segunda era uma mulher exótica, com cabelos coloridos e muita atitude. Atrás deles, várias caixas de madeira e uma enorme pilha de ouro em barras.
— É um prazer finalmente conhecê-los!
— E então, eu vi o que conseguem fazer. Vamos pular a parte chata. Vamos direto ao ponto. O que querem em troca da ajuda?
— Cobaias.
— Cobaias?
— Sim!
Um homem de cartola aparece, carregando um sujeito maltrapido em amarras. Ele o joga sobre os pés da mulher de cabelos coloridos. Laila imediatamente franze a testa, desconfiada.
— Eu vou demonstrar a vocês.
Ela tira um dardo negro de seu bolso e, com um rápido e violento movimento, crava-o sobre o ombro do sujeito, fazendo-o gritar de dor. No mesmo instante, o corpo dele começa a se contorcer, e suas roupas começam a rasgar devido ao crescimento espontâneo de seus músculos. Enquanto ele se transformava, a mulher falava.
— Nós somos cientistas! Estamos trabalhando em alguns experimentos, mas precisamos de cobaias!
Robert e seus homens começam a se afastar por simples instinto, enquanto ficavam espantados com a transformação do homem. Porém antes que a criatura que acabara de surgir tentasse algo, a mulher do rosto apático, que até então não dissera uma palavra, desfere um rápido e certeiro golpe no pescoço da criatura, decapitando e matando-a instantaneamente.
Os homens no lugar ficam chocados com a cena, mas Robert solta um leve sorriso.
— É só isso então?
— Sim. O que me dizem?
— Negócio fechado.
Logo após fecharem acordo, o grupo se separa. Robert e Laila iam para casa no mesmo carro. A garota tinha esse sentimento incomodando-a, e é então que decide se pronunciar.
— Por que, Robert?
— O que foi?
— Por que aceitou um acordo desses?
— Como assim? Você viu o tanto de dinheiro que eles nos deram? E tudo que temos que fazer é arrumar cobaias! É óbvio quem vamos usar, vamos capturar as gangues rivais e usá-las como pagamento. Dois coelhos com uma cajadada só!
Laila faz silêncio, encarando o nada, pensativa.
...
— Tá legal, pessoal. Essa é a nossa maior operação. Se conseguimos completá-la, vamos capturar finalmente esses caras que estão nos dando tanto trabalho! Vamos apenas fazer acontecer! Laila, você é nossa principal arma! Assim que esses caras aparecerem você usa sua penumbra.
Ela apenas assente em silêncio.
— O resto só siga o plano! Vai dar tudo certo. E lembrem-se, evitem matar! Eles querem as cobaias vivas!
Laila se posicionava em cima do galpão, enquanto via os carros da gangue se aproximando. Os homens permaneciam posicionados enquanto esperavam eles aparecer. Assim que todos desceram o líder se pôs a frente, gritando.
— E então seus otários! Vamos acabar com isso de uma vez!
Em poucos minutos, no entanto, o clima alegre dos homens de Robert tinha se transformado completamente. A gritaria e o tiroteio agora preenchiam o ar, enquanto Robert se protegia atrás de uma pilha de containers.
— Mas que droga! Cadê a Laila?! Por que ela não usou a penumbra?!
— Chefe! Ela sumiu! Não conseguimos achar ela em lugar nenhum!
— Será que eles a pegaram?
Enquanto Robert falava, uma grande explosão é ouvida vinda do lado onde a gangue rival estava. O tiroteio finalmente cessou, e depois de alguns segundos Robert pôde ver a mulher de cabelos coloridos se aproximando.
— Mas que confusão toda é essa?! Achei que iam nos dar menos trabalho.
— Ei, você por acaso não viu...
— Aquela garota? Ela fugiu! Nosso contato a viu fugindo, foi por isso que eu vim ajudá-los.
— O que? Fugir?! A Laila jamais faria isso!
— Tem certeza disso? Eu vi com meus próprios olhos... digo, com os olhos do meu amigo.
— Com os olhos...? Ah esquece. Por que ela fugiria?
— Bom, por sorte conseguimos as cobaias, graças ao bom posicionamento de seus homens. Vocês ganharam tempo o suficiente para a gente chegar e resolver esse problema para vocês. Enfim, o acordo ainda está de pé, certo?
— É claro...
— Que bom! Vamos marcar uma outra hora para conversar. Por agora, gostaria que seus homens ajudassem a amarrar as cobaias, pode ser?
— O que estão esperando, ouviram ela! Se mexam!
Enquanto os homens corriam, Robert se virou e encarou o nada, pensativo.
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