Lirou Lader — Parte 1

6 O Despertar das Chamas


O metrô parava na estação lotada, enquanto mais e mais pessoas eram conduzidas para lá. Os homens armados se reunião com seus companheiros e trocavam relatórios e ideias para prosseguirem com o plano. Um deles se aproxima de outro grupo com um rosto sério.

— Onde está o grupo da praça de alimentação?

— Não chegaram ainda.

— Acha que aconteceu alguma coisa? Aquela penumbra de mais cedo...

— Não, acho que devem ter resolvido isso. Se a escuridão sumiu foi porque a Laila foi abatida. E ela nem mesmo conseguiu escurecer o lugar de forma completa.

— É verdade, o máximo que ela conseguiu foi deixar o lugar um pouco escuro.

— Pelo que ouvi dos outros grupos, foi a mesma coisa lá também.

Enquanto conversavam, o metrô finalmente parou e as portas dele se abriram. Porém, antes que pudessem dar qualquer ordem aos reféns, uma mulher desceu de um dos vagões. A mulher vestia uma roupa colorida, seus cabelos eram pintados em uma mistura de cores exóticas e ela carregava consigo um grande objeto em forma de haste; em uma das pontas, duas espirais que se bifurcavam, enquanto na outra uma ponta de caneta.

— DE-CE-PCIONANTE — gritou ela assim que desceu.

A mulher girou o objeto pelo seu corpo, o segurando logo em sequência atrás de seus glúteos com as duas mãos, enquanto andava calmamente entre os reféns que abriam caminho até os homens armados.

— O que você tá fazendo aqui? — Perguntou um dos homens no comando.

— Vocês deixaram minhas melhores cobaias escaparem.

— Do que está falando?

— É sério mesmo? Vocês nem perceberam ainda? Fala sério. A sorte de vocês é que é bem provável que elas estejam vindo diretamente para cá nesse exato momento. Agora, me façam um favor, coloquem a mercadoria no metrô.

Eles começam a mover os reféns para dentro dos vagões, mas a mulher faz um sinal para alguns deles.

— Vocês, esperem, me tragam uns cinco.

Ela tira um dardo do bolso e se aproxima dos reféns. Era um rapaz, jovem. Com um rápido e violento movimento, ela crava o dardo no estomago do rapaz, fazendo-o cuspir sangue e se contorcer no chão. Em meio a risos, a mulher circula o rapaz que se contorcia no chão enquanto tinha espasmos.

— Eu adoro a forma que eles se transformam.

Tanto os outros reféns quanto os homens armados começaram a se afastar, assustados. O rapaz espumava pela boca enquanto sua pele se enegrecia e seus olhos brilhavam. Sua pele parecia se rasgar enquanto crescia, e rasgava suas roupas junto.

— Caramba... — sussurrou um dos homens, — então é isso que esses dardos fazem...

O rapaz tomara uma forma ainda humanoide, mas completamente diferente de um humano comum. Sua massa corpórea tinha triplicado.

— Quem vai ser o próximo? — Dizia ela com um sorriso enquanto se aproximava dos outros quatro reféns.

...

O grupo corria em direção à estação que passava dentro do prédio. Lucy guiava as quatro, enquanto Laila tentava acompanhar o ritmo delas. Amanda se aproxima de Lucy com um rosto preocupado.

— Tem certeza de que foi uma boa ideia deixá-la vir conosco? Ela está visivelmente exausta. Não sei se vai ser de grande ajuda.

— De fato..., mas ela estava insistindo tanto que não consegui recusar.

— Só espero que essa tenha sido uma decisão inteligente.

Kate percebeu o quanto Laila estava se esforçando para acompanhá-las, então deu uma segurada nos seus passos para se aproximar dela.

— Ei, se você não estiver se sentindo bem talvez devesse parar pra descansar.

— Eu não posso.

— Por que não?

— Eu sei melhor do que ninguém do que a alcateia é capaz. Não posso deixá-los machucarem mais ninguém.

Kate demonstrava curiosidade em seu olhar. Ela então para de correr, fazendo as outras pararem também.

— O que foi, Kate? — Pergunta Lucy.

A garota se aproxima de Laila com um rosto curioso.

— O que você tem em mente? O que pretende fazer quando chegar lá?

— Bom...

— Você visivelmente não consegue mais usar aquela coisa de mais cedo, estou certa?

Laila solta uma interjeição de raiva.

— Eu não tenho tempo para ficar discutindo com vocês! Eu preciso... — subitamente a garota desmaia nos braços de Kate, logo após Kate golpeá-la na barriga.

— Kate! — Gritou Amanda em tom de repreensão.

— Vocês três vão na frente. Eu ainda não estou pronta para uma luta nessa magnitude. E é bem possível que a Laila só fosse atrapalhar. Da forma que ela está agora, com os sentimentos tão confusos, é bem provável que nem conseguisse se mover quando o momento pedisse.

Amanda fita Kate com bastante seriedade.

— Tem certeza?

— Sim, não se preocupe, eu fico com ela até ela acordar. Além do mais, se ela desmaiou só com esse golpe que eu dei...

— Não falo dela. Eu estou me referindo a você.

— Eu?

— É verdade que ainda é cedo para pedir para você usar o seu amuleto, mas claramente você já tem alguma habilidade para lutar ao nosso lado. Kate, não me diga que...

— Vão logo, antes que seja tarde.

Kate não demonstrava nenhum sinal do que Amanda sugeria, mas como melhor amiga e estando tanto tempo ao lado dela, Amanda sabia que algo não estava certo sobre Kate.

— Não é medo, é?

— Eu não sei dizer se é medo ou não..., mas eu estou certamente insegura ainda. Tenho certeza de que, assim como a Laila, eu vou ser um estorvo se eu for.

Lucy suspira e segura o braço de Amanda.

— Garotas, vamos. Kate, você não precisa se forçar demais. Está tudo bem, fique aqui com a Laila.

— A gente volta logo.

Kate acena com a cabeça enquanto as outras três se afastavam. Ela se senta no chão, colocando a cabeça de Laila confortavelmente sobre seu colo.

— Desculpa, Laila. Eu não podia deixar você fazer o que estava pensando em fazer.

...

A estação estava vazia. Todos os reféns já haviam sido movidos para dentro do metrô. Apenas uma pessoa permanecia parada à frente do metrô, olhando calmamente com um sorriso na direção da entrada da estação, enquanto ouvia os passos das três se aproximando.

— Um ataque direto? — Se perguntava ela. — Elas só estão correndo em direção à entrada principal, sem nem sequer ter um plano, provavelmente. Bem, o que eu esperava?

Lucy, porém, faz um sinal para as outras duas pararem, antes de atingirem a visão da estação.

— Qual o problema?

Lucy aponta para algumas pichações nas paredes do corredor onde se encontravam.

— Tem uma armadilha ali. Vêm aqueles desenhos? Eu consigo ver uma aura mágica forte saindo deles.

— Você vê? Como assim?

Ela fica hesitante.

— Eu... também não entendo direito isso. Tenho certeza de que não é a primeira vez que acontece, mas agora eu percebi com mais clareza. Eu sou capaz de ver coisas que são invisíveis para olhos normais.

— Será que isso tem a ver com o que a Kate disse aquele dia? Sobre as habilidades específicas?

Amanda fica pensativa, enquanto Lucy fitava os desenhos com cautela.

— Bom... se aquelas coisas têm mana, então elas podem ser feridas com magia. Se afastem um pouco.

Ela coloca as duas mãos sobre o chão e se concentra.

Ertei Saer!

Lucy fora coberta por uma aura de eletricidade que se expandiu pelo chão em direção aos desenhos. Assim que os alcançou as garotas ficaram surpresas: ambos os desenhos começaram a cair das paredes e se contorcerem no chão. No mesmo instante eles desapareceram.

— Mas o que foi isso?

— Vamos! — Gritou Lucy correndo em direção a entrada da estação.

A mulher de cabelos coloridos estava prostrada no chão, abraçando a si mesma em dor.

— Isso... doeu... — Disse ela voltando seus olhos para Lucy, que a fitava da entrada da estação.

As três desceram a escada e ficaram a alguns metros da mulher, que se levantava enquanto recuperava seu grande objeto que havia caído.

— Finalmente nos encontramos de novo!

— Quem é você?

A mulher de cabelos coloridos fez um rosto confuso, e logo em seguida começou a coçar a nuca.

— Ah, é mesmo! Não fui eu que encontrei com vocês antes... essas coisas sempre me confundem.

As três encaravam a mulher com dúvidas sobre sua sanidade.

— Por que só há três de vocês? Achei que fossem cinco.

— Responda à pergunta que fiz, se identifique!

— Eu? Tudo bem... — Ela joga sua haste para cima, pegando-a enquanto ela girava no ar e fazendo uma pose artística, — Eu sou a máxima apreciação do ser! O incrível personagem da grande obra de teatro do viver! A episteme da verdade absoluta!

Lily grita em fúria enquanto a mulher ainda falava a frase.

— Por que vocês sempre repetem essa frase?! E o que diabos é uma "episteme"?!

A mulher suspira entediada.

— Tudo bem... se vamos continuar nos encontrando assim, o mínimo que devemos umas às outras são nossos nomes, certo? Vocês podem me chamar de "Artista".

— Artista...

— Isso aí! E eu sou a Pintora! É um prazer conhecê-las!

Lucy fica pensativa, enquanto fitava os olhos daquela mulher.

— Um mágico, uma marionete... e agora uma pintora.

— É isso aí!

— Então vocês são um circo?! — Pergunta Lily com inocência.

A mulher quase cai ao chão, em choque, com a colocação de Lily. Ela se recompõe limpando a garganta.

— Como eu disse mais cedo, nós somos "O Artista".

Amanda toma a frente das garotas.

— Eu já tinha reparado isso antes, mas... vocês sempre se referem a si mesmos como uma única entidade. E agora mesmo, quando nos encontramos, você agiu como se já tivéssemos nos visto antes.

— Perspicaz, garotinha. Nós somos um só indivíduo, com várias personalidades. Isso é o que chamamos de arte!

— Então, tenho umas perguntinhas para vocês. Vocês estão trabalhando com a Alcateia, isso ficou um pouco óbvio agora. Onde estão os reféns? E o que querem com eles?

— Você sabia que a ciência é uma arte também?

Elas ficam surpresas e confusas com a resposta da mulher.

— Ciência?

— Bem, mais ou menos. Vejam, a meu ver, a arte dos experimentos é tão bela quanto uma pintura ou escultura feita pelos renascentistas!

Elas então escutam passos se aproximando, vindos da parte escura da estação.

— Aquelas coisas...

Amanda fica paralisada com a cena.

— Não pode ser...

— Contemplem! Isso é arte!

As cinco criaturas que se aproximavam eram uma mistura de corruptores com seres humanos. Elas tinham pele misturada com a fumaça negra dos corruptores, sangue jorrava de suas juntas e elas tinham um aspecto podre e amedrontador.

— O que... o que fez com eles!

— Gostaram? Estão fresquinhos! Acabaram de sair do forno! Nem se transformaram direito ainda.

Amanda parecia fora de si naquele momento. Lucy segura seu braço com força, tentando retomar sua consciência.

— Ei, fica calma. Não deixa isso te tirar do controle.

A mulher dá uma risada.

— Vocês sabiam que pessoas com mana acima da média, quando transformadas pela corrupção, são mais poderosas que os corruptores naturais? Elas tendem a demonstrar mais agressividade, mais força... e em alguns casos até são capazes de usar magias. Algumas delas mantêm suas consciências mesmo depois de anos... e em alguns casos, até mesmo são capazes de nunca envelhecerem.

— A... juda... — Sussurrou uma das criaturas.

— Mas... como podem ver, algumas delas acabam por não se tornarem agressivas. Eu estava planejando usá-las para lutar com vocês, mas acabou que elas nem sequer são capazes de lutar.

Amanda mostrava os dentes em fúria enquanto encarava as cinco criaturas.

— Sua...

— Você parece ter alguma história com corruptores transformados, estou certa? Deixe-me adivinhar, foi alguém da sua família?

— Cala a sua boca! Nem mais uma palavra!

A mulher começa a rir.

— Acertei em cheio!

Ela se prepara para partir para cima da mulher, mas Lucy a segura novamente.

— Amanda, se acalma!

— Olha, vocês estão definitivamente com um problema de relacionamento aí. Acho melhor deixá-las resolver isso primeiro.

Ela se aproxima de um dos vagões e a porta dele se abre.

— Não vamos deixar você escapar! — Gritou Lily, correndo na direção da mulher, mas antes que pudesse alcançar o vagão, ele se fecha.

No mesmo instante o metrô começa a se mover.

— Lily, por aqui, rápido! — Ela segura a mão da aprendiz e rapidamente se transforma, quebrando o vidro de um dos vagões e se atirando dentro dele.

— Amanda, vem logo! — Gritava Lily para a amiga.

Mas Amanda parecia com o olhar distante naquele momento.

— Amanda!

— Deixe-a, Loreley. Ei, Amanda! Lembre-se que é possível reverter a corrupção em pessoas recém transformadas!

A garota recai a sua consciência e vira seu rosto na direção das criaturas, que sofriam em gemidos disformes em seu canto escuro.

— Isso mesmo. Não vou deixar que aquilo aconteça de novo!

Ela corre até as criaturas, se transformando e cravando a ponta de seu escudo no chão.

— Está tudo bem, pessoal! Eu vou ajudar vocês!

Uma esfera de energia envolve os cinco saindo das pontas do escudo de Amanda.

Saito Maer!

...

Kate permanecia sentada no corredor, pensativa, enquanto acariciava a cabeça de Laila.

— Será que eu devia ter ido com elas? — Se perguntava a garota.

Um gemido vindo de Laila a fez voltar a si. A garota levanta a cabeça meio zonza, enquanto tentava entender o que aconteceu.

— Ei... como foi que eu desmaiei?

Kate fica hesitante, coçando a própria bochecha.

— Pois é! Acho que você estava cansada mesmo! — Dizia ela com uma risada forçada.

— Por que minha barriga dói tanto? Ei espera! Cadê as outras três?!

— Elas já foram na frente.

— Droga, precisamos ir atrás delas!

— Ei, se acalma!

— Você não entende do que a Alcateia é capaz! Eles são verdadeiros monstros! E "Ele" é o pior deles!

— "Ele"? Ele quem?

Laila hesita.

— Não importa... nós temos que impedir aqueles caras.

— Ei, confia nelas. Pode não parecer, mas a Lucy é muito boa no que faz.

Laila encara o chão, hesitante. Ela então volta seus olhos para Kate.

— E o que exatamente vocês fazem? Quem são vocês?

Kate coça a própria cabeça, levemente nervosa.

— Eita, eita... sobrou pra mim, a novata, explicar as coisas... me sinto uma estagiária! Que péssimas veteranas eu tenho!

...

Lucy e Lily avançavam pelos vagões vazios em busca da mulher. Elas finalmente chegam a uma conexão e veem a mulher esperando por elas do outro lado da porta com um sorriso.

— Será que ela vai tentar fazer aquilo?

— O que seria aquilo, Loreley?

— Você sabe, aquela coisa de filmes de tentar separar o vagão...

A mulher aponta para cima, chamando a atenção das garotas.

— Eu acho que ela quer que nos encontremos na parte de cima.

As três sobem para o teto do metrô em movimento. O metrô passava por uma longa área aberta.

— Aqui é bem mais divertido lutar, não acham?

— O que vocês querem? Qual é o objetivo de vocês?

— Eu te disse. Somos cientistas fazendo experimentos! Se quiserem saber mais, e ver o final dessa grande história, vão ter que sobreviver primeiro.

— Não adianta dialogar com vocês mesmo...

— Vamos lá, vou explicar para vocês como o meu poder funciona. Primeiro! Eu desenho alguma coisa!

Ela balança seu pincel, fazendo o desenho de uma gárgula no ar.

— Cuidado, Loreley!

— Sim!

A gárgula cria vida e vai pra cima das duas, atacando-as com suas garras.

...

Kate e Laila descem as escadas com bastante pressa e rapidamente veem Amanda escorada na parede ao lado de cinco corpos humanos.

— Amanda, o que aconteceu?

— Foi tarde demais... mesmo eu tendo conseguido desfazer a transformação... o corpo deles... eu ainda sou fraca...

Kate e Laila encaram os cinco corpos ensanguentados e mutilados ao lado de Amanda. O sentimento que Laila tinha naquele momento era similar ao de Amanda. Ambas se sentiam impotentes perante a situação.

— Amanda, cadê a Lucy e a Lily?

— Elas foram atrás da responsável. Mas não adianta, eles já devem estar bem longe à essa hora.

— Então o que estamos esperando? A cada segundo que se passa eles se afastam mais!

Amanda encara Kate confusa.

— Ei, não me ouviu? Eles foram de metrô. Não tem como você alcançar eles a pé.

— Eu sei! Mesmo assim, quero ir atrás delas! Você não quer? Você não quer fazer algo a mais também?!

A garota de óculos fita sua amiga com curiosidade. Amanda tinha uma forte sensação de impotência em seu peito, algo que a incomodava. O cheiro da carne podre dos corpos ao seu lado piorava a situação, fortalecendo esse sentimento de culpa que ela tinha por dentro. Mesmo assim, olhar para o rosto de Kate despertou uma parte da consciência de Amanda; talvez fosse só o senso de responsabilidade ou compromisso dela falando mais alto.

— Tudo bem...

Ela se levanta.

— É assim que se fala! Agora para que direção elas foram?

— Elas seguiram aquela direção.

Kate segura o seu amuleto na frente do corpo e fecha seus olhos, com um ar de concentração.

— Kate, você conseguiu sincronizar?

— Não. Eu não consegui nem dez por cento.

— Então como vai...

— Eu quero ajudar a diretora Lightning e a Lily! É assim que eu vou me transformar! Da primeira vez você disse que eu não consegui porque eu estava confusa, mas agora eu tenho certeza do que eu preciso fazer.

Laila encarava a cena com certa confusão, enquanto pensava no que Kate revelara a ela mais cedo. Kate havia dito a ela sobre as Laders, e sobre os corruptores, e o dever delas de lutar contra eles. Para Laila não era tão difícil acreditar nas palavras de Kate, visto que a garota já conhecia bem vários dos segredos do mundo mágico.

— Nesse caso, eu vou te ajudar. Você precisa se concentrar nesse sentimento, e somente nele. Deixe-o ser seu gatilho.

— Eu sei!

Elas fazem silêncio por alguns segundos enquanto as chamas começavam a aparecer e circundar Kate.

— Quando se sentir pronta é só falar a frase...

Jay! Lirou Lader!

Uma explosão circunda o corpo de Kate, devorando suas roupas e afastando as outras duas garotas, que se protegeram colocando suas mãos sobre o rosto.

O corpo de Kate parecia tão quente quando uma fornalha. Em suas mãos, as chamas corriam formando luvas enquanto solidificavam-se. Em seu antebraço formavam-se braceletes que cobriam até o cotovelo. Em suas pernas botas de couro formavam-se a partir das chamas. Seu tronco era coberto por uma única peça vermelha que ia de suas virilhas até seu pescoço, e uma segunda peça de couro se formava por cima, criando um vestido de couro aberto na frente e amarrado por tiras de couro, como um espartilho, com um colarinho no pescoço, em cores vermelha e branca. Sobre a área de seus seios uma peça chapada de metal se formava, ligada a duas ombreiras que se interligavam a uma capa vermelha, que se estendeu até a metade de suas costas, em um formato circular. Em seu ombro direito a parte de cima de uma cabeça de dragão feita de metal se formou, como se engolisse seu ombro. E para finalizar uma tiara cobriu toda sua testa e lateral do rosto com um desenho do símbolo da Lader Volcano no centro, criando um detalhe de asas atrás de sua orelha ao mesmo tempo que seu cabelo se tornava em um ruivo intenso.

Laila ficou deslumbrada com a cena.

— Amanda, eu consegui! — Gritava Kate animada enquanto admirava seu novo visual. — Ei, eu tô ruiva!

— Se concentra, Kate! Temos trabalho a fazer!

— Espera... cadê minha arma?

— É verdade.

— Ah droga! Não me diga que ainda não sou capaz de nem sequer invocar uma arma!

— Não, fica calma, você só não deve ter se concentrado direito. Faz assim, feche os olhos e visualize sua arma. Tente visualizar você a segurando com suas próprias mãos. Como se ela fizesse parte de seu corpo.

Kate fez como Amanda disse, enquanto a amiga se transformava.

Um brilho toma conta da mão de Kate, tomando a forma de uma espada simples. Seu cabo era vermelho e tinha um pequeno cristal no centro da cruzeta.

— É isso? Que decepcionante... a de vocês é tão mais legal.

— Usando o poder dos nossos amuletos devemos ser capazes de alcançar aquele trem.

— É um metrô. — Diz Kate de forma didática.

— Qual a diferença? Tanto faz!

— Kate, é esse o seu nome, certo? — Pergunta Laila se aproximando. — Você havia me dito que eu também sou uma "Lader".

— Sim, aquele momento que você tocou o amuleto e ele reagiu confirmou nossas suspeitas.

— Então eu também sou capaz de equipar essas armaduras?

— Bem... sim, mas não é tão simples.

— O que eu preciso fazer?

Kate percebe a inquietação na voz de Laila, e mais uma vez sente a mesma coisa que sentira anteriormente.

— Você... você não é como aqueles caras, certo?

Laila encara o chão hesitante.

— Eu era parte da gangue, mas eu os abandonei.

— Eu não tenho dúvidas quanto a sua índole, ou quanto ao seu caráter. O amuleto te escolheu, isso é prova o suficiente para mim. Mas essa inquietação que lhe cerca está me deixando hesitante sobre essa confiança.

— O que quer dizer?

— Você certamente está disposta a matar se for preciso, não estou certa?

Laila hesita novamente.

— E se eu estiver?! Eles são monstros! O que há de errado nisso?!

— Não sou eu quem diz o que é certo ou o que é errado. Em guerras, matar o inimigo pode ser a única forma de sobreviver. Não é isso que me preocupa; o que me preocupa é o fato de você claramente não ser esse tipo de pessoa, e mesmo assim cogitar essa possibilidade.

— Como assim?

— Isso vai te afetar negativamente. Você, nesse momento, não pensa como um soldado em uma zona de guerra. Você está pensando como um assassino. Você quer matar.

Amanda encarava a cena pensativa, imaginando o quão perigoso poderia ser para Laila se deixar levar por esse sentimento. Mas o que mais a impressionava era a incrível habilidade analítica de sua amiga.

"Kate foi capaz de sentir essa sede de sangue que emanava de Laila. Fico imaginando o porquê ela foi capaz de algo assim..."

Laila permanecia em silêncio, desviando seu olhar das duas.

— Não se preocupe, a gente toma conta disso. Você já fez o bastante, Laila.

A garota suspira inconformada.

— Tudo bem. — Responde Laila de forma seca.

Amanda toca o ombro de Kate com um rosto sério.

— Mas nós ainda temos um sério problema, Kate.

— E qual seria?

— Como eu disse, nós somos capazes de alcançar eles usando os poderes do amuleto. Porém, tem algumas coisas que preciso te explicar antes de prosseguirmos. Para começar, permanecer transformada é algo difícil e cansativo. Apenas usar a transformação geralmente não é problema, já que a nossa recuperação de mana é pouca coisa menor que o consumo que os amuletos tomam. Mas em movimento é outra história. Permanecer transformada e ainda usar os poderes para conseguir alcançar aquele trem vai ser uma tarefa difícil, e é bem possível que quando chegarmos lá não sejamos de grande ajuda.

— O que você quer dizer é que mesmo que cheguemos lá existe a chance de chegarmos sem energia para manter a transformação?

— Exatamente. A única pessoa que não sofre com esse problema é a Lucy, devido à natureza da habilidade específica dela, que permite ela usar seu mana indiscriminadamente. Mas mesmo a Lucy tem um limite, pois não é apenas o mana que é sugado com a transformação.

— Nossos corpos também sofrem, certo?

— Como eu disse, se só ficarmos paradas como estamos, não é tão preocupante. Mas a partir do momento que começarmos a nos mover, a coisa vai ser diferente.

— Existe alguma forma de contornarmos isso? A Lucy não é capaz de "recarregar" a gente?

— Bem... essa habilidade da Lucy é um pouco complicada... ela acaba sobrecarregando demais a pessoa que recebe a energia. Da última vez eu fui parar no hospital. — Amanda dizia isso se lembrando da luta contra o corruptor tirano.

Kate anda até os trilhos e começa a encará-los.

— Amanda, você disse que consegue manipular o gelo também, certo?

— Mais ou menos... não sou muito boa com isso, mas sim.

— Consegue pelo menos fazer um carrinho de gelo?

— O que tem em mente?

— Se nós fizermos explosões controladas no decorrer do caminho, nos revezando enquanto a outra descansa, podemos conservar energia.

— Entendi, impulsionando o carrinho de gelo com explosões pelos trilhos resultaria em um consumo menor no final. Você é mesmo um gênio Kate!

...

Lucy se desviava de pequenos misseis, enquanto Lily avançava para atacar a Pintora.

— Vocês duas são boas! E tem uma boa sincronia, mas falta muita coisa para me alcançarem!

Antes que Lily pudesse acertá-la, a mulher desfere um golpe com a sua haste no rosto de Lily, derrubando-a do vagão.

— Loreley!

A aprendiz de Lucy caiu, rolando no chão e levantando poeira. A mulher, no entanto, sabia que aquilo não seria o suficiente para machucar a garota.

— Bom, agora somos só eu e você!

Lucy encara o rosto da mulher com seriedade no olhar, mas logo em seguida se joga do vagão com um meio sorriso.

— Mas hein? Desistiu?

A mulher, antes que pudesse entender o que acontecera, fora acertada pelas costas e jogada para fora do trem. Lily finalmente alcança sua mestra e se coloca ao lado dela, enquanto encaravam a mulher se levantando em meio a poeira.

— Um túnel... — disse ela em meio a gemidos de dor. — Eu tinha me esquecido completamente disso.

— Tudo bem, agora temos mais espaço.

A mulher suspira frustrada.

— Aqueles caras não vão muito longe sem mim.

— O que quer dizer?

— É como eu disse, eles não vão longe. Vocês já entenderam como meu poder funciona, certo? Eu posso criar qualquer objeto ou criatura usando meus desenhos. Eu ia criar um caminho de trilhos para escapar com o trem...

— E por que está nos contando isso?

— Porque eu disse para eles não pararem até que eu os mandasse parar.

— Essa não...

— É, acho melhor vocês andarem rápido com isso! Eles devem alcançar o fim da linha em uns dez minutos. Mais o tempo que vocês vão levar para chegarem lá...

A mulher rapidamente gira sua arma e desenha uma parede na boca do túnel.

— Eu reparei também uma coisa sobre o seu poder.

— É mesmo?

— Quando você cria seres vivos, tudo o que eles sentirem você sente também, estou certa?

— Sim, mas só funciona com seres vivos.

— É, eu percebi. De outra forma você não poderia desenhar aqueles misseis.

— Bingo.

— Tem outra coisa também. Você precisa controlá-los por conta própria, pois eles funcionam como uma extensão de seu corpo.

A mulher solta um assovio, impressionada.

— Você descobriu tudo isso só nesses poucos minutos de luta?

— E existe um limite de criaturas que você consegue criar.

— Essa parte é meio óbvia. Se eu preciso controlá-los por conta própria, seria óbvio que eu teria um limite.

Lily começa a ficar impaciente.

— Mestra, para de enrolar! Vamos acabar logo com ela! — Ela se prepara para se impulsionar, mas Lucy segura seu braço.

— É fácil resolver essa questão, Pintora. — Diz Lucy sem olhar para sua aprendiz.

— É mesmo? Como vai fazer isso?

Lucy se enche de eletricidade e gira seu corpo, atirando Lily por cima do túnel. A Pintora encara a garota voando em meio a gritos, surpreendida, e antes que pudesse reagir de alguma forma, Lucy se atira para cima da mulher. A pintora desvia do ataque de Lucy e começa a desenhar uma criatura no ar. Nesse meio tempo, Lily finalmente toca o teto do túnel, e em um súbito movimento se atira em direção ao chão, quebrando-o e abrindo caminho para dentro do túnel. Lucy mais uma vez ataca a mulher com sua adaga, impedindo-a de terminar o desenho, e com isso fazendo-o desaparecer.

— Foi como eu pensei. — Constata Lucy realizando mais uma sequência de ataques. — Você não consegue dar vida a desenhos incompletos! E por mais rápida que seja, não vai ser capaz de criar um desenho se eu só não deixar!

A mulher defendia os ataques com bastante maestria, mas estava claramente irritada por não poder revidar. Foi então que com um rápido movimento ela finalmente consegue acertar o estomago de Lucy com sua arma, a jogando com força contra uma parede próxima.

— Que se dane! Não preciso dos meus desenhos para acabar com você. Fica mais fácil te bater se não tiver outra para encher o saco.

— Então... você queria mesmo ficar sozinha comigo... — Diz Lucy se levantando com um pouco de dificuldade.

— Gosto de uma dança a dois. Odeio esse lance de "triangulo amoroso".

— Diz a mulher que invoca criaturas para ajudá-la durante as lutas.

A Pintora ri, girando sua haste.

— Pois é! Você me pegou! Mas minha querida, você está muito feliz pela situação que se encontra.

Lucy tinha entendido o que ela quis dizer. Mesmo com todo o esforço que ela e Lily tiveram juntas, elas nem sequer conseguiram ferir a mulher. Em contrapartida, Lucy já estava exausta. "Nem mesmo minha energia infinita pode me ajudar se meu corpo não o fizer... e esse último golpe dela realmente me derrubou." Ela começa a olhar em volta, em busca de algo que pudesse usar contra a mulher. Ela encara os postes de energia em volta do lugar e fica pensativa. "Será um golpe de sorte, mas vale a tentativa."

Lucy abre os braços e seu corpo começa a brilhar envolto a eletricidade.

— O que está pensando em fazer? — A mulher se coloca em uma postura defensiva.

— Eu chamo isso de "fortalecimento de técnica"! — Lucy começa a gerar um campo elétrico fortíssimo ao seu redor; vários raios e faíscas começam a sair dos postes de energia e irem em direção a Lucy. Em poucos segundos, o lugar vira uma tempestade de raios.

A Pintora rapidamente desenha uma esfera ao redor do próprio corpo.

"Uma quantidade de energia dessas seria o suficiente para matar um elefante em milésimos de segundos. E mesmo usando a aura mágica, ela com certeza não seria capaz de se mover por algum tempo."

A Pintora se esforçava para manter o escudo. "Então ela só está tentando me atrasar..., mas isso com certeza tem um preço alto pra ela."

Lucy se manteve naquele estado por bons segundos, até que subitamente os raios cessaram. O corpo de Lucy, no entanto, brilhava com uma intensidade impressionante.

Violous Puraili Ertei!

Uma corona de energia começa a crescer em volta de Lucy, se expandindo e engolindo todo o ambiente com eletricidade. Mesmo se protegendo com seu escudo, a Pintora sentiu a força do ataque. Em poucos segundos, no entanto, o lugar fica calmo novamente. O silêncio substitui o som frenético dos raios. Lucy, em meio a fumaça, cai de joelhos no chão, apoiando suas mãos sobre o solo.

A Pintora desfaz o escudo, que já tinha torrado com o ataque, e começa a andar em direção a Lucy.

— Foi um belo show de luzes.

Lucy levanta sua cabeça encarando a mulher com dificuldades.

— Não... pode ser... você nem sequer...

A mulher coloca o pé sobre a cabeça de Lucy, a humilhando.

— Eu não vou mentir, esse ataque doeu. Se eu não tivesse feito aquele escudo eu estaria em um estado pior que o seu nesse momento.

— Mesmo com... o escudo...

— Você realmente não prestou a atenção.

— Esse cheiro... — Lucy entenderá imediatamente o que aconteceu.

— Aquele escudo que criei era feito de borracha.

Lucy fica boquiaberta. A mulher ri desenfreadamente.

— Mas devo admitir! Mesmo com ele, foi difícil me proteger! Mas é bem provável que se você tivesse em condições melhores teria percebido.

Ela tira o pé da cabeça da mulher, desferindo um chute nela logo em seguida. Lucy é jogada no chão enquanto gemia de dor.

"Meu corpo... não me responde... esse ataque me deixou incapacitada."

— Você realmente me deixou irritada. A esse ponto a sua aprendiz já deve ter conseguido parar o trem. Ela sozinha com certeza é capaz de parar aqueles idiotas... então, fique feliz. Pelo menos conseguiu seu objetivo. — Ela segura seu grande pincel com a ponta voltada para Lucy, enquanto a ponta de caneta se transformava em uma ponta de lança. — É mesmo incrível ainda conseguir manter a transformação mesmo nesse estado. Acho que é por causa da sua habilidade específica, estou certa? Vou adorar ter isso para mim.

Lucy se lembra de sua amiga Flora enquanto encarava a mulher se aproximando. A mulher, no entanto, se esquiva bem quando um carrinho de gelo ia a atingir; o pobre carrinho colide contra a parede ao lado da entrada do túnel, se partindo em vários pedaços.

— Lucy, aguente firme! — Amanda se abaixa para acudir a amiga.

— Kate... você... conseguiu... se transformar...

— Não fale mais nada, diretora. Eu vou cuidar das coisas agora para você.

A mulher sorri e fecha os olhos em meio a um suspiro de alívio. Ela sussurra algo e desmaia, fazendo sua armadura desaparecer. Amanda hesita ao ouvir a fala de Lucy, mas logo volta seus olhos aos seus ferimentos.

— O corpo dela está muito mal. Eu tenho que tratar isso rápido.

— Deixa que eu cuido dessa mulher.

A Pintora começa a rir.

— Vocês duas acham que podem me derrotar? Olha para o estado dela! Ela nem sequer... — Antes que pudesse terminar a frase, Kate a ataca, obrigando-a a se defender com sua haste. Ela segura o objeto na frente do rosto com as duas mãos, defendendo o golpe vertical de Kate com sua espada. As faíscas geradas iluminaram o rosto irritado de Kate, fazendo a mulher perceber que aquilo não era um simples ataque.

"Essa garota sabe o que está fazendo..." Ela rapidamente desfere um chute no estomago de Kate, a afastando, mas rapidamente Kate se coloca em pose de batalha novamente.

— Hum... você é boa. Qual seu nome?

Kate permanece em silêncio, encarando a mulher. A espada da garota solta um leve barulho de clique, e o cristal vermelho entre o cabo da espada e a lâmina fica levemente maior.

— Quer saber, não preciso de um nome. Cadáveres não tem nome, afinal de contas. Vou te mostrar o que... — Ela novamente é interrompida por mais um ataque de Kate, mas dessa vez sua defesa é quebrada com facilidade pelo ataque. Ela se desvia de um segundo ataque e consegue se afastar.

Kate mais uma vez se coloca em posição de batalha, sem tirar os olhos da mulher. A espada de Kate mais uma vez emite o mesmo barulho, e sua lâmina cresce alguns centímetros.

— Ei... para de me cortar enquanto eu estou falando! Você não tem educação?! Pelo visto você é bem diferente dessas garotas...

A Pintora começa a andar lentamente em volta de Kate, analisando-a.

"Ela não deixa brechas... ela é mesmo uma novata? Não é possível. E por que esse segundo ataque foi tão mais forte? Ela se segurou no primeiro?"

— E então, como foi com os corruptores lá na estação? Conseguiram fazer alguma coisa?

Amanda hesita ao ouvir isso, mas Kate permanecia no mesmo estado frio de sempre.

— Sabe, eu realmente... — Ela mais uma vez é interrompida por um ataque de Kate, que joga a haste da mulher para o ar, deixando-a com a guarda aberta. O clique é ouvido mais uma vez e a cruzeta da espada de Kate se enrijece e toma uma forma mais trabalhada. Kate balança a espada mais uma vez em direção ao corpo da Pintora, obrigando-a a recuar.

Amanda via a cena enquanto tratava Lucy e seus pensamentos ficavam cada vez mais confusos. Ela sabia que Kate era uma boa lutadora, mas não imaginava que ela conseguiria se sair tão bem. Ela começou a pensar na frase que Lucy falara antes de desmaiar. "Você está acabada, Pintora. A Volcano despertou."

"O que está acontecendo aqui? Por que a cada ataque que a Kate desfere..."

A Pintora vai até seu bastão, mas Kate se coloca na frente dele rapidamente.

— O que diabos é você?!

Kate ataca a mulher mais uma vez, mas ela consegue desviar e rolar para perto de sua arma. Ela agarra o objeto e começa rapidamente a desenhar no ar. Ela cria três gárgulas que partem pra cima de Kate, mas a garota as destrói facilmente com três ataques. Três cliques são ouvidos e três espinhos aparecem na cruzeta da espada, fazendo-a entrar em chamas logo em seguida.

— Essa espada... — a Pintora cai de joelhos no chão cuspindo sangue. — Eu consegui entender... a cada ataque... ela fica mais forte...

Em meio a tudo isso, Lily reaparece vinda de dentro do túnel e fica atônita com a cena.

— Mestra! — A garota corre até Lucy se ajoelhando ao lado dela.

— Tá tudo bem, Lily, eu já consegui cuidar dos ferimentos dela.

A Pintora se levanta meio cambaleante e parte para cima de Kate. Elas trocam golpes, mas a Pintora se concentra em esquivar, não defender. Elas continuam assim, até que a Pintora desfere um golpe vertical de cima para baixo com as duas mãos, e Kate defende o golpe dela com a espada na horizontal, com as mãos invertidas, — a mão direita segurando o cabo do lado esquerdo do corpo e a esquerda apoiando a lâmina próximo ao seu ombro direito, — ela gira a espada no sentido anti-horário, fazendo a haste da Pintora descer e sobe com a lâmina da espada pela haste produzindo faíscas; a Pintora já tinha entendido o objetivo daquele ataque, o único ponto de parada daquela lâmina agora era o pescoço dela. A espada lambe seu rosto, fazendo-a girar no ar e ser jogada a vários metros de distância de Kate. Ao cair no chão, a Pintora rola na poeira até alcançar a parede.

Mesmo com esse ataque, a mulher consegue se levantar, muito cambaleante.

— Isso nem pode ser... comparado com aquele chute... que você me deu no nosso primeiro encontro... — Dizia ela acariciando o pequeno corte aberto em sua bochecha.

— Mesmo a aura mágica dela não foi capaz de defender um ataque tão formidável... — Comenta Amanda.

Kate se prepara para atacar novamente, mas rapidamente para seu movimento ao perceber a presença de mais alguém.

— Tempo! — Gritou o homem de cartola, se colocando na frente de sua companheira.

— Você! — Gritou Amanda.

— Isso aí! Eu mesmo! Eu vim para... — Ele é interrompido por um ataque surpresa de Kate, que parte para cima sem nem pensar duas vezes. Ele se esquiva e pega a sua companheira, se afastando consideravelmente na sequência. — Caramba! Que garota mais mal educada! Foi uma boa luta, mas estou de saída!

Eles desaparecem em meio a fumaça.

Kate solta uma interjeição de raiva e balança sua espada, colocando-a em suas costas logo em seguida; a espada se gruda nas costas da garota.

— Isso foi demais, Kate! — Gritava Lily correndo em direção a ela.

— Não foi nada, eles acabaram fugindo.

— Ei, como fez isso? Essa coisa de colocar a espada nas costas.

— Eu sei lá. Intuição.

Amanda chama a atenção das duas para Lucy, que ainda estava desmaiada.

— Precisamos levar ela para um lugar mais adequado.

— Tem razão.

...

A garota encapuzada encarava a grande telona na praça reportando o ocorrido. Depois de momentos de terror os reféns finalmente estavam sendo liberados, e os criminosos presos. Laila suspira aliviada e começa a andar na direção oposta da praça. Ela passa por um beco pensativa; a garota ainda tentava absorver as informações daquele dia. Ela imaginava as coisas que poderia fazer com o amuleto em mãos, as pessoas que poderia salvar, e acima de tudo: ela pensava em como ela poderia extinguir a Alcateia. Foi no meio desses pensamentos que ela foi traída por sua mente, sentindo algo agarrando seu braço e a puxando contra a parede. Ela tentou gritar, mas algo tampou sua boca, quase a sufocando.

— Eu sabia que ia te encontrar por aqui. Você me deu trabalho, garota.

Ela consegue chutar o homem naquele lugar, obrigando-o a soltá-la. Ela correu, mas não conseguiu fugir. Vários homens a cercaram.

— Onde pensa que vai? — Dizia o homem se contorcendo de dor. — Ainda não terminei de falar com você.

— Vai pro inferno, Robert.

O homem dá um tapa no rosto dela, fazendo-a cair.

— Não, não é Robert, já te falei.

Ele pisa na cabeça dela, apertando a bochecha dela contra o solo.

— Como se diz?

— Filha... da...

Ele aperta com mais força, fazendo-a gritar.

— Caramba, eu não te dei educação, garota? Você sabe o que fez hoje? Você me ferrou muito hoje. Sabe o quanto de dinheiro eu perdi por sua causa? Aqueles caras vão ficar bem nervosos comigo depois dessa.

Ele tira o pé dela e dá as costas para a garota, andando até um de seus homens, pegando uma pistola com ele.

— Mas vou te dar uma última chance.

Ela se levanta tossindo. Robert aponta a arma para a cabeça de Laila.

— Se você sobreviver até eu esvaziar esse pente na sua cabeça, você tá livre pra fazer um último trabalho para mim.

— Eu não vou mais trabalhar para você!

— Ah, vai sim. Sabe por quê? Se você não trabalhar, quem vai ter que pagar vai ser a Cigana.

Laila hesita.

— Você não teria coragem de fazer nada contra ela. Ela é o seu maior tesouro.

— Sim, mas sei que ela tem um valor ainda mais importante para você, estou errado? E nesse momento eu estou muito mais a fim de te ferrar do que de ganhar dinheiro.

— Se você tocar na Zaira!

Robert puxa o gatilho, atirando em Laila. A garota rapidamente coloca as mãos na frente do corpo, defendendo o tiro com sua aura mágica.

— Ela é minha propriedade, — dizia ele enquanto esvaziava o pente, — eu posso fazer o que quiser com ela. Assim como com você!

Ele desferiu dezesseis tiros, mas ainda restava uma bala na arma. Ele parou e levantou a pistola. Laila tinha conseguido defender todos os tiros usando sua aura.

— Boa garota. Ainda tem uma bala aqui dentro. Essa última é especial, foi-nos dada por uma galera bem importante. Ela é capaz de machucar até mesmo manipuladores de mana. Mas eu não vou usá-la, ainda. — Ele tira um celular do bolso e o joga no chão, aos pés de Laila. — Durante a semana eu vou entrar em contato. É melhor atender.

Ele se vira e começa a andar. A garota começa a ativar sua penumbra, mas antes que continuasse, Robert diz algo que a faz parar.

— Se eu não voltar dentro de meia hora para base, a Cigana já era.

Ela para, encarando o chão. Os homens passam por ela esbarrando os ombros de forma nada gentil. Ela ficou ali, parada, enquanto eles se afastavam e desapareciam para dentro do beco.