Lirou Lader — Parte 1

7 Bem vinda à Lirou Lader


Kate se jogava na cama do hotel com um grande suspiro.

— Que dia...

— Nem me fale. — Dizia Amanda, saindo do banheiro com uma toalha em seu cabelo úmido.

Lucy estava deitada em uma das camas, enquanto Lily estava sentada ao lado dela.

— No fim das contas, não conseguimos achar aquela garota.

Lucy suspira, encarando a janela do quarto pensativa. Já era noite, e elas tinham concordado em passar a semana em Myura. Amanda e Kate conversavam, enquanto Lily encarava sua mestra com um rosto preocupado.

— Ei, a senhora deveria estar dormindo, mestra!

— Como eu vou dormir com vocês fazendo barulho?

— Tem certeza de que não precisa ir para o hospital?

— Já te falei, eu sou uma Lader há muito mais tempo que vocês são vivas. Eu já passei por coisa muito pior. Nada que uma boa noite de sono não resolva.

— Você diz isso, mas... — Lily toca delicadamente no braço de Lucy, fazendo-a soltar um grito ensurdecedor.

As outras duas garotas riem sem graça com a situação.

— Para alguém tão experiente, foi uma decisão burra fazer aquilo! — Grita Lily em tom de repreensão. — A senhora pode até ter energia infinita, mas tem que entender que não é imune ao desgaste excessivo que o amuleto causa! Usar tanta energia em um ataque só?

— Quem você pensa que é para me dar sermão?!

— Ei, ei! Vocês duas! Calma, não precisam brigar! Temos problemas maiores agora, certo?

Lily e Lucy suspiram.

— Kate tem razão... — Diz Lucy se levantando da cama com certa dificuldade.

— Já falei para ficar deitada! — Grita Lily segurando os braços de sua mestra, fazendo-a quase gritar de dor novamente; mas ela segurou o grito.

— Eu estou bem! Consigo lidar com a dor. — Diz ela se soltando de Lily.

— No fim das contas acabamos mesmo achando uma nova Lader, — comenta Amanda, — mas de que adianta, se ela some logo em seguida.

Todas no quarto se olham em silêncio e, em sequência, soltam um grande suspiro conjunto.

Lucy fica pensativa, encarando os dois amuletos em cima da cabeceira. O amuleto roxo estava lá, intacto. Ela fitava-o se lembrando da forma que a garota se comportou durante todo o tempo. Laila estava claramente obcecada com a Alcateia, e provavelmente faria de tudo para acabar com ela.

— Nós vamos acabar reencontrando-a, mais cedo ou mais tarde. — Constata a mulher. — Eu só queria mesmo era ter visto a Kate lutando.

— Eu já falei! — Diz Kate com vergonha. — Vocês estão me superestimando!

— Você tá brincando, né? Você literalmente espancou aquela mulher!

— Mas a Lucy já tinha cansado ela antes de eu chegar...

— Será? — Pergunta Lily fazendo um rosto sarcástico para sua mestra.

— De... qualquer forma, — gaguejava a mulher mais velha, — a Kate lutou muito bem.

— Acontece que aquela mulher deixava muitas brechas para que eu atacasse.

As outras três fizeram um rosto confuso ao ouvirem Kate mencionar isso.

— O que quer dizer? — Pergunta Amanda.

— Bom... toda vez que ela falava ela abaixava um pouco a guarda. Eu só aproveitava o momento certo e atacava. E cá entre nós, ela falava demais.

— Era por isso que você sempre a interrompia?

— Bom, isso é meio idiota, para começo de conversa. Quem em sã consciência fica conversando casualmente no meio de uma luta?

As três se entreolharam com certa vergonha ao ouvirem Kate.

— Bom... é uma estratégia para tirar informações do inimigo... e para ganhar tempo...

— Pode até ser, mas não é muito seguro. Eu já participei de vários torneios antes e, em todos eles, era a mesma coisa. Sempre tinham aqueles engraçadinhos que ficavam tentando provocar seus adversários ou distraí-los. Acontece que isso aconteceu tantas vezes que eu acabei aprendendo a simplesmente ignorar qualquer coisa que eles falavam. E ao invés de eles causarem a minha distração, eles é que sempre acabavam distraídos.

As garotas ficaram em silêncio encarando Kate com rostos neutros.

"Mesmo assim..." pensava Lucy, "é impressionante a forma que ela lidou com a situação. É difícil acreditar que ela é uma novata. É quase como se ela tivesse sido treinada a vida toda para este momento. Bom, levando em conta quem é a mãe dela... quase me faz pensar que, talvez, ela tenha sido treinada em segredo; quase como se Katherine soubesse sobre o que Kate iria enfrentar." Nesse instante Lucy tem uma epifania. "Não. Espera, Lucy, não comece a criar essas teorias da conspiração... se bem que, vindo de Katherine, eu não duvidaria que fosse isso mesmo. Ela temia que Kate algum dia pudesse se tornar uma Lader? E por isso treinou ela o melhor que pôde? O que eu estou pensando agora? Isso é... isso é ridículo!" É então que os pensamentos de Lucy são quebrados pela fala de Amanda.

— Eu fiquei impressionada com a habilidade específica da Volcano, agora entendo o porquê você tinha tanta fé na Kate, Lucy.

— O que?

— A habilidade específica da Kate.

— Ah, sim... é uma habilidade e tanto.

— Terra para Lucy, alô!

— Desculpa, eu só tive um devaneio. Mas sobre a habilidade da Kate, eu disse que era incrível, não disse?

Kate segura seu amuleto para cima, o encarando contra a lâmpada do quarto.

— "Ataque Absoluto", hein? Ela funciona como a habilidade da Amanda, só que ao contrário, certo?

— O meu é a "Defesa Absoluta".

— Basicamente, quanto mais eu ataco, mais forte minha espada fica. A força do ataque e a defesa do alvo são somadas, proporcionalmente, ao próximo ataque, fazendo a espada ficar cada vez mais forte.

— É isso aí. Minha "Defesa Absoluta" funciona da mesma forma. Quando mais porrada meu escudo recebe, mais defesa ele tem.

— Mas só funciona com coisas revestidas de mana. — Continua Lucy. — Se você atacar uma parede, por exemplo, não vai contar.

— Isso, e a habilidade sempre "reseta" depois que nos destransformamos. — Completa Amanda.

— Mesmo assim, — comenta Kate, — é uma habilidade e tanto. Só queria que minha espada fosse um pouco mais bonita. Quer dizer, a Lucy tem uma arma que se transforma! Isso é bem mais legal.

— Na verdade, — diz Amanda, — todas as armas das Laders podem se transformar. Nossas armas têm, pelo menos, duas formas. A da Lucy mesmo, existem registros de Laders antigas que conseguiram usar umas cinco formas diferentes.

— Que legal! E você consegue usar quantas, diretora?

— Bom, eu tenho meu arco, as adagas, e ainda posso usar aquela lâmina dupla; mas é o máximo que consegui extrair do amuleto por enquanto.

— Mas de qualquer forma, — Diz Amanda com um sorriso, — acho que você só está reclamando de barriga cheia, sua arma é muito boa.

Lily se joga na cama com um grito.

— É, sem dúvidas, sua habilidade é uma habilidade bastante roubada, Kate!

— Na verdade, parando para pensar, nem tanto... — diz Lucy enquanto se sentava em uma das camas. — Cada vez que o ataque da arma sobe, mais mana é exigido para manter a transformação. Então é complicado, pois cada ataque pode vir a ser o último.

...

A sala que Robert entrava era grande e espaçosa, muito bem mobilhada, e a luz alaranjada da clareira iluminava todo o ambiente, auxiliada pelos lustres rústicos espalhados por todo o lugar. Era uma visão vintage, muito bela. A mulher no fundo da sala de frente para a clareira permanecia em uma pose de meditação, com seus olhos fechados, enquanto Robert se aproximava com as mãos no bolso.

— E aí, alguma coisa para mim hoje?

A mulher balança a cabeça sem nem sequer abrir os olhos. Era uma mulher de idade, com os cabelos todos brancos. Ela usava uma roupa verde musgo feita de seda e tinha um ar de sabedoria em seu entorno.

— Então, você tentou machucar minha menina.

— Sua? Ela é minha propriedade.

— Sua frase preferida. Imagino que tenha me usado como ameaça para ela.

— Bingo.

— Você joga sujo, Robert.

— Olha só quem fala.

A mulher permanecia em sua pose serena, enquanto o homem se sentava ao lado dela.

— Eu deveria ter te dado um pouco mais de educação.

— Educação, né? Sei. Me trancar num porão escuro cheio de ratos famintos querendo um pedaço de mim.

— Talvez eu devesse ter feito isso mesmo.

Ele faz um gesto com sua mão, fazendo uma pistola aparecer nela; a mesma que ele usara contra Laila mais cedo.

— Sabe o que é isso daqui?

A mulher abre os olhos, encarando a fogueira.

— Sim.

— Claro que sabe, que pergunta idiota a minha. Eu vou guardar.

— Para usar contra quem?

— Não sei ainda. Você ou ela? Quem vai fazer besteira primeiro?

Ela fecha os olhos novamente.

— Você realmente joga sujo.

Ele guarda a pistola novamente, se levantando.

— Quando você era a líder, você jogava também.

— Eu fui tola em te dar o comando da Alcateia.

— Você diz isso, mas nós nunca estivemos tão bem financeiramente quanto agora.

— Tendo que depender de outras pessoas para fazer esse dinheiro. Quanta decepção. E ainda por cima perdeu a confiança de sua subordinada preferida.

Ele começa a andar em direção a porta, mas é parado pela voz da mulher novamente.

— Me diga, Robert, o que é mais importante para você? O dinheiro ou a sua humanidade?

Ele franze a testa olhando para trás, de forma pensativa.

— É claro que é o dinheiro. — Ele continua até a porta.

— Continue dizendo isso a si mesmo; talvez você comece a acreditar.

O homem sai do quarto e começa a andar pelos corredores do lugar, grandes e decorados com vários quadros. Ele para em frente a um quadro específico; uma grande pintura feita a mão, com traços tão belos quanto os de um pintor experiente, embora o nome assinado em seu canto não fosse nem um pouco conhecido no mundo. O homem fecha os olhos e vislumbra um passado distante, algo que ele sentia falta de certa forma.

"O que estou fazendo?" perguntava ele a si mesmo. Seus pensamentos o guiavam sempre para o mesmo ponto; uma garota magrela e alegre que vivia o seguindo para todo lugar.

...

Lucy terminara de se vestir e dava os últimos retoques em seu cabelo enquanto se olhava no espelho; foi nesse instante que Lily entrou no quarto.

— Onde pensa que vai? — Gritou a garota.

— Vou dar uma volta.

— Ficou maluca por acaso? Não, acho que é uma pergunta retórica, a senhora é maluca!

— Calada, Loreley! Eu sou mais velha, me respeita.

— A senhora deveria estar descansando! Não me interessa se a senhora viu a primeira arvore nascer; se tá caducando, eu vou me intrometer!

— Quem você está chamando de caduca?!

Amanda, que estava deitada em uma das camas assistindo à TV, e Kate, que estava olhando pela janela do edifício, param para assistir a discussão.

— Você mesma, sua anciã! O que é isso aí na sua cabeça, um cabelo branco?

Lucy começa a encarar o espelho a procura de algum fio branco.

— Eu não tenho cabelo branco! Ah você tá me fazendo perder tempo!

Ela começa a andar para fora do quarto, mas Lily se coloca na frente da porta.

— Lucy Evans, parada ai mesmo! Não vou deixar você sair!

— Loreley, para de gracinhas, já tá ficando chato! Eu to bem, é sério!

Lily permanecia parada na frente da porta, com as mãos estendidas e com uma cara emburrada. Lucy, no entanto, percebeu algo no rosto dela. Seus olhos estavam sérios, ela realmente não estava brincando, ela estava falando sério. A garota estava determinada a fazer sua mestra descansar.

— Não vou te deixar sair, Lucy!

— Você nunca usa meu nome tão casualmente assim. Você realmente está preocupada comigo, não está?

— Eu já disse que não vou deixar a senhora sair até eu ter certeza de que está bem.

Lucy suspira, complacente.

— Escuta, Loreley, eu sei que está preocupada, mas eu já falei mil vezes. Eu. Estou. Bem. — Diz ela pausadamente.

— Então vamos fazer um acordo. Eu deixo a senhora sair. Em troca a senhora me deixa ir com você!

As duas partes se encaram sérias, e Lucy assente com a cabeça.

— Tá bem, se isso for te deixar mais tranquila.

Lily abre a porta para Lucy e as duas saem do quarto, enquanto Kate solta uma interjeição de admiração.

— Assistir a essa discussão me deixou com fome...

— Elas sabem ser barulhentas quando querem.

— Isso me faz pensar; elas pareciam mãe e filha agora.

Amanda ri com a colocação de Kate.

— De fato. Mas no papel elas meio que são.

— Como assim?

— Você não sabe? A Lucy adotou a Lily há alguns anos.

Kate faz um rosto surpreso.

— Sério isso?

— Sim. A Lily é órfã. Eu não sei de todos os detalhes, mas ela mora com a Lucy já há anos.

Lucy andava segurando a alça de sua bolsa, enquanto Lily a seguia à poucos centímetros.

— Francamente, vocês jovens são um saco as vezes.

— Eu posso dizer o mesmo de vocês idosos.

— Eu não sou idosa!

— Vovó Lucy!

— Quer levar um cascudo, garota?

Lily ri, colocando a mão sobre o rosto se protegendo. Lucy para e encara a garota com um olhar mais ameno. Em resposta a ação, Lily para de rir e fica séria. Subitamente Lucy vira-se de costas e começa a rir, deixando Lily confusa.

— O que foi isso?! — Pergunta a garota fazendo uma cara distorcida.

— Desculpa! Não é nada. — Lucy bagunça o cabelo de Lily com um cafuné e volta a andar.

— Esquisita.

— Escuta, Loreley, não sei se já te disse isso antes..., mas você é como uma filha para mim, sabia? Eu te amo muito!

— De... de onde veio isso? Eu... a senhora já disse isso antes, várias vezes.

— É mesmo?

— Tá parecendo uma velha de novo falando assim!

— Talvez eu esteja mesmo ficando velha. — Diz ela com uma voz nostálgica.

Lily fica pensativa e encara as costas de Lucy por alguns segundos. Lucy, sem olhar para trás, faz um rosto malicioso enquanto solta uma interjeição provocante.

— Você está vermelha.

— Eu... Não estou não!

— É melhor não deixar o Tsuhiko ver esse seu lado fofo.

Lily para de andar e abaixa a cabeça, séria.

— A senhora me disse uma vez... — Lucy também para em resposta, e se vira para trás para ouvir Lily, — que não saberia o que fazer se me visse morrendo na sua frente... que perderia o controle..., mas a verdade é que, se acontecesse comigo, eu também não saberia o que fazer.

Lucy suspira fazendo um rosto triste.

— Me desculpa, por te preocupar.

Lily balança a cabeça, sem olhar para Lucy.

— Eu é que sempre te preocupo.

— Então o que me diz de fazermos uma promessa uma para a outra?

— Uma promessa?

— Sim. — Ela se abaixa levantando o queixo de Lily delicadamente com uma das mãos. — De agora em diante vamos nos esforçar para não preocuparmos a outra, o que me diz?

— Não posso prometer isso.

— Por que não? — Pergunta Lucy em meio a risos. — Não consegue ser responsável?

— Não é isso... é que se eu prometesse isso, a senhora jamais cumpriria sua parte.

— Tá me chamando de irresponsável?

— Não é isso! É que... eu nunca deixo de me preocupar com a senhora.

Lucy faz um rosto complacente.

— Loreley...

— Eu não quero ficar sozinha de novo.

Lucy a abraça com força.

— Você não vai. Lembra do que eu te disse quando decidi te adotar? Eu disse que ia fazer de tudo para te dar o que seus pais não puderam dar.

Lily retribui o abraço de Lucy com um rosto choroso.

— Eu to com fome. — Diz a garota em meio a lágrimas.

Lucy ri acariciando a cabeça dela.

— É a sua cara dizer coisas assim em momentos como esse! Pronto, chega de sentimentalismo então. Vamos comer alguma coisa, tudo bem?

Elas se soltam e Lily limpa o rosto. As duas começam a andar tranquilamente pela calçada, enquanto alguma coisa as seguia com os olhos.

"São aquelas duas", pensava a garota, "finalmente achei elas."

...

No hotel, Kate lia um livro enquanto mastigava uns petiscos. Amanda permanecia pensativa escorada na janela do quarto. A garota vira o rosto e encara Kate, que parecia distraída com sua leitura.

— Onde arrumou esse livro?

— Isso? É uma cópia de um dos livros lá da base. Eu pedi para o Larry fazer algumas para mim.

— Por quê?

— Bom, ainda tinha alguns que eu não tinha lido.

Amanda se senta ao lado dela na cama para olhar melhor o que ela lia.

— Que língua é essa?

— É uma língua de países do sul do continente de Afron.

— E você sabe ler isso?

— Eu sou fluente em umas dezesseis línguas diferentes.

Amanda faz um rosto cômico de surpresa.

— Isso... é impressionante... você é mesmo incrível.

— Eu sou só curiosa.

— Então, o que diz aí?

Kate coloca um biscoito na boca e aponta para um trecho do livro.

— Aqui, essa parte, — dizia ela ainda com o biscoito na boca, — aqui fala sobre um ritual das Laders onde elas passam seus poderes para suas sucessoras.

— Ah, é esse tipo de livro.

— Vocês conhecem esse ritual?

— Sim, esse sim. Não é como se nós não soubéssemos de todos os detalhes das Laders só porque não lemos alguns livros, Kate!

— É, mas vocês não sabiam que tinham habilidades específicas além das de uma Lader.

Amanda fica levemente irritada, mas dá de ombros.

— Então, o que mais?

— Bom, você disse que já conhece. — Diz ela aos risos, fechando o livro com uma mão, criando aquele clássico barulho abafado ao fazê-lo.

— É só para ter certeza!

Ela ri e abre o livro novamente.

— Bom, aqui diz que as Laders, quando sentem que sua aprendiz já está pronta, realizam um ritual para passar todos os poderes de uma Lader para sua sucessora. É algo simples, elas trocam algumas palavras ritualísticas e logo em seguida é feita a passagem.

— É, não é muito diferente.

— Pelo que estou lendo, existem sérias vantagens em se fazer isso. Pelo menos, é muito melhor do que esperar a Lader morrer para a próxima assumir.

— É verdade... — O semblante de Amanda começa a cair.

— Quando uma Lader passa seus poderes para a sucessora, ela ganha basicamente toda a força mágica da Lader antiga, ou quase. Mas quando a Lader morre, e a nova assume, isso não acontece.

Amanda se levanta e volta a se escorar na janela.

— É, realmente é igual ao ritual que nós conhecemos.

Kate fica confusa com a atitude e fica encarando as costas da amiga.

— Está tudo bem?

— Sim... eu só... comecei a me lembrar de algumas coisas.

Kate coloca o livro sobre a cama e se levanta, indo até a janela com a amiga.

— Quer conversar?

Amanda parecia hesitante, mas ela se sentia confortável ao lado de Kate. As duas eram amigas há bastante tempo já, então não tinha o porquê não confiar nela.

— Não é nada demais... é só que... essa situação de mais cedo da Lucy e da Lily, e esse livro... eu só comecei a me lembrar da minha mestra.

— Entendi. Você não fez esse ritual com ela, certo?

Ela balança a cabeça, confirmando a pergunta de Kate.

— Ser uma Lader é algo complicado, — continua Amanda, — nos últimos anos tantas morreram enfrentando a corrupção. Quase me faz entender o porquê da antiga Volcano ter desertado.

— Eu não. — Diz Kate de forma fria.

— O que?

— Eu não consigo entender o porquê da antiga Volcano ter desertado.

— Bom, é um trabalho perigoso. Além de perigoso, nós sofremos muito... tantas coisas que temos que sacrificar para continuarmos sendo Laders.

— É por isso mesmo que não entendo.

Amanda encara o rosto sério de Kate, que vislumbrava o céu noturno, de forma confusa.

— Eu é que não estou te entendendo.

— Pensa, Amanda. Se nós, Laders, não lutarmos contra os corruptores; se nós, Laders, não nos submetêssemos a esse tipo de coisa, quem teria que fazê-lo?

Ela faz um rosto de compreensão e desvia o olhar para a cidade a sua frente.

— Eu entendi agora. — Dizia Amanda com um sorriso sincero.

— Sim. Se as Laders não existissem, a humanidade e todos que amamos também não existiriam, pois não haveria ninguém para lutar contra os corruptores e protegê-los.

— Você diz isso porque tem menos de um mês que é uma Lader. — Diz Amanda aos risos.

— Talvez.

Amanda fica pensativa mais uma vez.

— Mas a verdade é que nunca é tão fácil. Desde que assumi como Lader, eu não me sinto fazendo um trabalho tão útil.

— O que quer dizer?

Amanda balança a cabeça e abre um sorriso.

— Não é nada, deixa para lá.

Kate podia sentir a hesitação no semblante de Amanda, mesmo assim decide dar de ombros.

— Não quero te forçar a dizer coisas que você não quer, mas saiba que se precisar conversar qualquer coisa, pode contar comigo.

Amanda assente com um leve sorriso.

— Obrigada.

...

Lily e Lucy caminhavam tranquilas pela calçada. A mulher mais velha ainda estava pensativa sobre tudo o que aconteceu. Apesar do cansaço, Lucy estava se recuperando. Ela sabia que não podia simplesmente parar para descansar. Lily percebia o rosto preocupado de sua mestra, e mesmo querendo fazer alguma coisa para tirar a mente dela um pouco de tudo isso, ela sabia que não conseguiria fazer algo muito efetivo. Elas se aproximavam de seu destino, até que veem alguém parado a sua frente, era um rosto familiar. A pessoa vestia seu capuz enquanto encarava-as se aproximando.

— Mestra, é aquela garota?

— Laila!

A menina, assim que é percebida, corre para dentro de um beco.

— Ei, espera!

As duas correm atrás dela e adentram ao beco. Elas correm um pouco em perseguição, mas a garota logo desaparece novamente.

— Laila! Por favor, a gente precisa conversar! Apareça!

O beco era mal iluminado, e as garotas puderam ver uma silhueta escura tomando forma a frente delas. Era como uma sombra de Laila, totalmente escura e intangível.

— Eu também preciso conversar com vocês.

— Isso é magia?

— Sim. Não posso me encontrar fisicamente com vocês no momento. Pelo menos, ainda não.

— Por que não?

A sombra hesita.

— Vocês ainda estão com aquela coisa? O amuleto?

Lucy franze a testa em dúvida.

— Por que a pergunta?

— Se estiver com você eu gostaria que, se possível, vocês me dessem.

— Você quer enfrentar a Alcateia, não estou certa?

A sombra assente.

— Apenas deixe-o no chão.

— Laila, você não respondeu a minha pergunta anterior.

Ela hesita novamente.

— Eu não posso confiar em vocês.

— Tá de sacanagem com a gente?! — Grita Lily. — Depois de tudo que aconteceu você ainda tem coragem de falar isso?!

— Eu não posso confiar em vocês, ainda. Não é só porque vocês derrotaram alguns soldados baixos da Alcateia que vão conseguir enfrentar a Alcateia de verdade.

— Soldados baixos? — Pergunta Lucy.

— Não foi óbvio para vocês? Nenhum daqueles homens de hoje era um soldado de verdade. Não tinha ficado claro para mim na hora, mas eu percebo agora. Aquelas eram gangues afiliadas à Alcateia. Aquilo era só um teste...

— Um teste? Para quem?

A sombra hesita e dá de ombros.

— De qualquer forma, não diz respeito a vocês. Apenas deixem o amuleto no chão e me esqueçam.

— Isso não vai acontecer. Nós também estamos atrás da Alcateia. Laila, nós podemos ajudar você, por que não pode confiar na gente?

— Vocês com certeza são fortes, mas não adianta apenas serem fortes. É da Alcateia que estamos falando; o grupo que comanda a cidade.

— Escuta, por favor. Aqueles caras estão trabalhando com um grupo que estamos atrás. Se trabalharmos juntos, podemos nos livrar dos dois ao mesmo tempo.

Ela fica em silêncio por alguns segundos.

— Vocês não entenderiam... eu só... não quero envolver mais ninguém nisso.

— Se for isso, acho que é meio tarde. Nós já estamos envolvidas.

— Escuta... tudo bem, se querem conversar melhor, me encontrem amanhã nesse endereço. — Ela entrega um pequeno bilhete para as garotas. — Eu vou explicar o que puder para vocês. Mas em troca, quero algumas respostas também.

— Tudo bem.

A sombra começa a desaparecer no ar. Lucy e Lily se encaram, pensativas.

...

O anfiteatro parecia um pouco mais iluminado que o normal; a mulher de cabelos coloridos permanecia sentada em uma das poltronas enquanto o homem de cartola tratava seus ferimentos. Havia algumas luminárias em volta dos dois.

— Sabe quem ficaria realmente desapontado com a sua performance de hoje? — Dizia o homem de chapéu enquanto tratava os ferimentos da companheira.

— Olha só quem fala, você detém em sua posse um dos amuletos e mesmo assim não conseguiu fazer nada também.

— Bom, agora vamos ter que mandar outra pessoa para Myura. Eu já me candidato.

A mulher em cima do palco encara os dois com um olhar penetrante, fazendo-os instintivamente a olhar de volta.

— Sigamos com o plano. Não mudarei uma vírgula deste roteiro. Você vai voltar para lá assim que seus ferimentos estiverem curados.

O homem de cartola solta um estalo com a língua. A mulher assente com a cabeça de forma obediente.

— Falando nisso... — continua a mulher de cabelos coloridos, — tem notícias dela?

— Ah, fala da pessoa que ficaria desapontada com sua performance?

— Sim, a mesma que roubou esse amuleto para você.

— Ela está atrás daquela mulher brilhante. Parece que, mesmo depois de tantos dias, ela ainda não conseguiu apagar completamente o rastro.

— Então presumo que ela não volte tão cedo...

A mulher em cima do palco fecha os olhos e abaixa a cabeça.

— Eu mandei a dançarina para se unir a ela.

— O que? Sério? — Diz a Pintora boquiaberta. — Então é realmente mais sério do que pensei...

— Se aquelas duas estão juntas agora, não há motivos para nos preocuparmos.

— A homogenia delas é a melhor até o momento. Comparados a ela, nós somos nada mais que estranhos.

— Não se preocupem, — dizia a mulher sentada no palco, — em breve nós seremos homogêneos. E então, seremos capazes de mostrar o verdadeiro potencial...

— O potencial da arte! — Gritou a marionete no teto do teatro.

— Sim, o poder da arte. Pensando nessa homogenia, vou propor um parceiro para você, Pintora.

— Um parceiro?

— Sim. Ele acabou de acordar. Sei que vocês dois vão se dar muito bem...

...

Após a fria noite de sono, Lucy se levantava com um corpo pesado, sentindo-se como uma montanha. A mulher foi até o banheiro e encarou seu rosto abatido no espelho com espanto.

— Minha nossa, eu estou velha mesmo...

A mulher dá alguns tapas nas bochechas e se espreguiça. Ela lava o rosto, arruma levemente o cabelo e volta para o quarto, vislumbrando as outras três garotas, que ainda estavam deitadas dormindo. Aquele momento de silêncio e paz quase a fez se sentir culpada por acordá-las. Mas elas tinham coisas importantes para fazer. Lucy encara Kate, que parecia totalmente despreocupada com a boca aberta enquanto roncava. Suas suspeitas sobre Katherine tê-la treinado ainda pairavam em sua mente. A mulher vai até o centro do quarto e inspira o máximo de ar que consegue e solta um grito maldoso.

— Acordem suas preguiçosas! Vocês vão se atrasar para a escola!

Lily pula da cama, caindo no chão em meio a gritos. As outras duas só se levantam assustadas.

— Qual o seu problema?! — Dizia Amanda colocando seus óculos com as mãos trêmulas.

— Mas a gente nem tem aula hoje... — Dizia Kate, sonolenta.

— Eu poderia ter acordado vocês de forma suave e gentil, mas achei que seria mais divertido fazer isso!

— Atitude digna da diretora Lightning.

— Como é que é? Amanda, você disse alguma coisa?

— Não foi nada! — Ela se levanta da cama e vai direto para o banheiro, com um rosto emburrado.

Lucy encara sua pupila se levantando do chão, ainda sonolenta, enquanto escorava na cama.

— Só mais cinco minutos, por favor...

— Loreley, você deveria ter vergonha, olha só a Kate, por exemplo, ela é um verdadeiro... — Kate tinha voltado a dormir. — Ei! Kate, acorda!

— Nem parece a garota que acordava de madrugada para olhar o orvalho nas montanhas...

Ainda não era nem sete da manhã, mas elas já estavam de pé. Após se vestirem as quatro foram em direção ao local marcado. Lucy caminhava com as garotas, mas sua mente parecia estar em outro lugar. Ela encarava Kate a sua frente e sua mente não a deixava em paz. A mulher finalmente decide se aproximar da garota e perguntar.

— Escuta, Kate, eu queria te parabenizar.

— Parabenizar?

— Sim, você tem se saído muito bem para uma novata. Escuta, pode parecer estranha a pergunta, mas... você tem certeza de que nunca tinha ouvido falar de magia antes?

— Sim, a primeira vez que ouvi sobre foi com vocês.

— Mesmo? Você pegou muito rápido os conceitos iniciais.

Ela assente com a cabeça e fica pensativa. Após alguns segundos de silêncio Kate se vira para Lucy.

— Sabe, agora que você falou, eu talvez tenha ouvido sobre...

— Sério?!

— Bom, mais ou menos... é que... tinha algumas coisas que eram parecidas com o Hoe kon shi.

— Hoe kon shi? Nunca ouvi falar disso.

— Sim, é um conjunto de técnicas que minha mãe dizia estar criando. Eu meio que usei esse estilo de luta quando lutei com você na base aquele dia.

Lucy fica pensativa com um rosto sério.

— Então era isso... e o que exatamente era parecido?

— Algumas meditações que minha mãe me passava, e alguns movimentos... são bem parecidos com a forma de usar algumas magias. E, também, a sensação era bem parecida quando eu realizava alguns exercícios.

Lucy morde a unha de seu polegar e fica pensativa.

"Então eu estava mesmo certa? Katherine, você..."

— Qual o problema, Diretora Lucy?

— A sua mãe... não, não é nada.

Kate faz um rosto confuso, mas antes que pudesse questionar a atitude de Lucy a mulher se impulsiona a falar com as outras garotas.

— Vocês duas, deixem que eu lidero a conversa com a Laila.

— Hein? Que história é essa do nada?

— Eu sou mais acostumada a lidar com negociações. Apenas me sigam, principalmente você, Loreley!

— Ah, lá vem você de novo com isso!

Kate franze a testa de forma séria. Ela percebera a forma que Lucy estava se esquivando.

— Escuta, diretora Lucy...

— Ah, você também, Kate, tente não falar nada desnecessário, ouviu?

— Hein? Ah, sim, eu sei...

— Sabe?

Kate faz um rosto hesitante encarando as costas de Lucy, que andava a frente delas sem olhar para trás.

"Ela está tentando mudar de assunto ou é impressão minha?" Pensava Kate. "O que ela ia dizer sobre minha mãe?".

Elas continuam andando mais alguns minutos e Kate se aproxima de sua amiga. Ela decide deixar o assunto de Lucy de lado, por enquanto; mas algo a mais a preocupava.

— Amanda, você sabe me dizer quais são os requisitos para uma Lader ser escolhida?

A garota fica pensativa.

— Bom, a verdade é que nós não sabemos quais são as diretrizes exatas. Existem dois pontos apenas que temos certeza sobre a escolha dos amuletos. O primeiro é que ele só escolhe mulheres jovens. O segundo ponto é que se o amuleto escolhe alguém, aquela pessoa possui, pelo menos, uma boa índole.

— Boa índole... eu estava pensando sobre a Laila... aquele dia ela parecia um pouco...

— Eu entendo o que quer dizer.

— E não é só isso. Eu estive pensando sobre a Lader Volcano antiga. Existe alguma chance de ele escolher errado?

Amanda ajeita os óculos com um leve suspiro pensativo.

— Sabe, esse ponto da índole é algo curioso. Já houve casos em que uma Lader perdeu a capacidade de se transformar por um tempo.

— Sério?

— Sim. E é por isso que podemos ter tanta certeza sobre esse lance da índole. Acontece que algumas Laders acabaram saindo do caminho, perdendo o controle. E houve um caso em específico em que a Lader nunca mais foi a mesma depois disso.

— Quando isso aconteceu?

— Já faz mais de um século, na verdade. Mas quando uma Lader se entorpece com o poder e sai do controle de sua razão; quando ela se torna alguém mau... nesse momento o amuleto deixa de funcionar. E no caso dessa Lader que eu citei, o amuleto chegou a rejeitá-la.

Kate coloca a mão sobre o queixo de forma pensativa.

— Entendo, então acho que não precisamos nos preocupar tanto com a Laila nesse sentido..., mas eu ainda me preocupo com o que ela tem em mente. Eu tenho medo de que ela acabe se tornando alguém ruim.

Amanda hesita um pouco enquanto olha o rosto de Kate de rabo de olho.

— Escuta, — dizia ela com um sorriso, batendo sua mão nas costas da amiga, — não fica pensando nessas coisas, tudo bem?

Elas se aproximam do enorme galpão abandonado e encaram o lugar de forma séria.

— É aqui? — Pergunta Lily de forma inocente.

— Sim. — Lucy fazia um rosto sério e hesitante.

Elas entram no lugar que estava completamente vazio, com apenas algumas poucas caixas de madeira espalhadas pelo local. O ambiente era escuro e empoeirado, e os raios de luz que entravam pela janela eram facilmente visíveis por causa da poeira. Assim que entraram puderam ver a silhueta sentada em uma das caixas no centro do lugar. Laila Estava com um dos pés em cima da caixa e seu braço repousava sobre seu joelho. Ela tinha um olhar analítico e desconfiado enquanto as garotas entravam.

— Não podia ter escolhido um lugar mais aconchegante? — Gritou Lily com um tom jocoso.

— Ah, mas esse lugar é bem aconchegante para mim. Tem pouca luz.

Lily enche as bochechas com um rosto de birra, enquanto Lucy toma a frente delas.

— E então, Laila, pensou sobre o que eu disse?

A garota suspira e fecha os olhos, abaixando a cabeça. Laila se levanta e coloca as mãos no bolso, se aproximando um pouco do grupo.

— Posso fazer algumas perguntas?

— Claro. Pergunte o que quiser.

Laila fecha os olhos e o lugar começa a ficar mais escuro que o normal. As garotas percebem na hora que ela estava ativando sua magia; porém todas permanecem calmas e tranquilas quanto a isso.

— Quem são vocês, exatamente?

— O nome da nossa organização é Lirou Lader. Nós somos um grupo que luta contra a corrupção.

— Corrupção? Fala daqueles monstros negros, certo?

— Sim.

— Tudo bem. Por que estão atrás da Alcateia?

— Porque acreditamos que eles têm usado a corrupção para realizar seus planos. Também acreditamos que eles estão envolvidos com um grupo que estamos atrás.

Ela assente a cabeça, soltando uma leve interjeição de compreensão.

— E o que querem comigo?

— Acreditamos que você pode ser a nova Lader Umbra. O amuleto da Lader Umbra reagiu a você.

— Reagiu? Fala daquela luz que apareceu quando o toquei?

— Sim.

— Nesse caso, isso faria dele meu amuleto, certo?

Lucy assente.

— Sei que está confusa quanto a confiança, mas você me disse que essa sua "penumbra" é capaz de detectar mentiras, certo?

— Sim.

— Então você não precisa se preocupar com confiar em nós. O amuleto não confere seu poder a pessoas que ele julga de má índole, e ele nunca erra em seu julgamento a esse respeito.

Laila encara profundamente os olhos de Lucy enquanto ela fala isso. Ela então fecha os olhos e abaixa a cabeça.

— Entendo. Você realmente não está mentindo. E vocês quatro são Laders?

— Sim. — Laila hesita com a resposta de Lucy. — Ah, digo, a Lily ainda é uma aprendiz..., mas sim, os amuletos nos escolheram, a todas.

A garota se acalma e consente.

— Tudo bem então.

A penumbra desaparece e o ambiente volta a ficar com a iluminação precária de antes.

— Acredita na gente agora?

— Vocês certamente são fortes. Odeio admitir, mas são mais fortes do que eu, e têm mais capacidade de lidar com a Alcateia.

— Então...

— Mas eu ainda não posso confiar em vocês.

Lily bate o pé e faz um rosto irritado.

— Qual é, garota! A gente tá tentando te ajudar aqui, sabia?!

Laila fica hesitante, olhando para baixo.

— Não é que não confie em vocês... é só que... eu não queria ter que envolver mais pessoas nisso. A Alcateia é um grupo criminoso, mas o verdadeiro perigo não está no nome dela...

— O que quer dizer?

— A Alcateia que a cidade de Myura conhece é apenas um pequeno dedo da verdadeira organização. A verdade é que ela é uma máfia muito maior. Eu acredito que vocês podem ser capazes de derrubar a Alcateia se lutarem a sério, mas existem certos detalhes que nem mesmo vocês seriam capazes de cuidar.

— Que detalhes seriam esses?

— Foi como eu disse; a Alcateia é apenas um dedo. Mesmo dentro dela, a que vocês enfrentaram é apenas uma parte minúscula. Vocês poderiam derrubar os braços e as pernas, mas não conseguiriam chegar perto da cabeça. A cabeça é que é o problema...

— E você sabe quem é a cabeça?

Ela hesita e assente.

— Eu sei quem é a cabeça da Alcateia, e esse é o problema. Eu ainda não sei quem é a cabeça da organização geral, mas da Alcateia eu sei quem é. Esse é o motivo pelo qual eu não posso confiar em vocês.

Lucy fica confusa com a colocação dela.

— O que quer dizer?

— Eu não vou impedi-las de lutar contra a Alcateia. Inclusive, se precisarem da minha ajuda em alguma operação, podem me chamar. Mas eu não vou revelar nenhum detalhe a vocês sobre a cabeça. Eu é que preciso cuidar dela.

— A cabeça é alguém importante para você, não é? — Pergunta Kate.

A garota fecha os olhos e se encolhe em hesitação.

— Sim. Ela é tudo o que eu tenho... é por isso que... eu não posso entregar ela.

Lucy encara as outras garotas com complacência. Kate se aproxima de Laila, fazendo-a levantar o rosto.

— Agora eu entendo. Esse seu desejo intenso de derrubar a Alcateia não estava sendo guiado apenas por ódio. Você também queria proteger alguém. Você realmente é uma boa pessoa.

— Você está errada, eu não sou uma boa pessoa. Eu já fiz coisas terríveis.

— Mesmo assim, se o amuleto te escolheu, você não é uma má pessoa.

Ela encara os olhos de Kate, se acalmando um pouco ao fazer isso. Laila então vira seu rosto para Lucy.

— Você está com o amuleto aí?

— Sim.

Ela pega o objeto em seu bolso e o mostra para Laila. O medalhão roxo com o símbolo da Lader Umbra; uma Kusarigana com kunais e shurikens ao seu redor.

— Independente do que conversamos aqui, você disse que ele me pertence agora, certo?

Lucy sorri.

— Esse sentimento de posse que você está sentindo não é errado. Na verdade, é uma reação natural das Laders. Quando o amuleto escolhe alguém é isso que acontece, a pessoa se sente atraída por ele também.

— Então... é por isso. — Ela segura a blusa na região do peito e abaixa a cabeça. — Esse sentimento que eu estou tendo é causado por isso. É por isso que eu estou tão desesperada por ter esse objeto?

Lucy balança o medalhão na frente de seu rosto.

— Não vou te dar.

— O que?

— Por que você não chama por ele? Você pode tirar ele de mim quando quiser, é só chamar.

— Chamar?

— Isso. Você só precisa chamá-lo. Faça isso. Feche seus olhos e mentalize-o, chame-o com seu coração. Estenda sua mão em direção a ele e chame-o.

— O que é isso? Eu não entendo o que quer dizer.

— Anda logo, só faz o que eu te disse. Vamos lá, feche seus olhos.

Laila, mesmo hesitante, obedece. Ela começa a visualizar o amuleto. Ela levanta sua mão em direção a Lucy e se concentra. O objeto começa a desaparecer em uma luz roxa e reaparece na mão de Laila.

— Como...

— Você podia ter tirado de mim quando quisesse. Nem precisava ter se encontrado com a gente.

— Ei, a gente também consegue fazer isso?! — Grita Kate entusiasmada.

— Sim.

Kate joga o amuleto dela galpão adentro e rapidamente faz como Laila. O amuleto aparece na mão dela e ela começa a gritar em frenesi.

— Isso é tão legal! É por isso que me disse que não seria problema eles serem roubados, certo?

Lucy ri sem graça com a cena. Lily fica hipnotizada com Kate, que repetia isso por mais algumas vezes enquanto as garotas continuavam a conversa. A mulher encara a garota com um rosto ameno.

— E agora? O que pretende fazer com ele?

Laila fica pensativa.

— Eu não penso em me juntar a vocês, se é o que você está pensando.

Lucy suspira.

— Eu já imaginava algo assim. Bom... — Ela anda em direção a uma caixa e se senta, de forma bem relaxada, — nós não podemos obrigar você a se juntar a nós. Os amuletos foram criados com o objetivo de lutar contra a corrupção. Não os usar com esse objetivo foge completamente do propósito para a qual eles foram criados. Mas não existe nenhuma regra de que você precisa fazer parte da organização para isso. Acontece que houve uma época em que as Laders trabalhavam separadas umas das outras, cada uma cuidando de uma região, e sem nenhum elo entre si; mas esses tempos já acabaram há eras.

— Então...

— Não entenda errado, Laila. — Lucy faz um rosto bem mais sério e ameaçador. — Eu disse que não me importo de você não querer se juntar a organização, se isso significar que você ainda assim vai aceitar o fardo de ser uma Lader. Porém... — Os olhos de Lucy, antes amenos, agora tomam uma forma muito diferente. — Eu não posso ignorar uma Lader que usa seu amuleto de forma egoísta. O que quero dizer é que, se você planeja usar esse amuleto com objetivos que não lutar contra a corrupção, eu como uma Lader de longa data e experiente não vou deixar passar.

O clima muda completamente no galpão, fazendo até as outras duas garotas que mal prestavam atenção ficarem quietas e com rostos sérios.

— Eu entendo o que quer dizer.

— Entende mesmo? — A voz de Lucy permanecia em seu tom calmo e ameaçador.

— Sim... — Laila estava visivelmente intimidada pela mulher.

Lucy inclina levemente a cabeça com um meio sorriso. A mulher se levanta e se aproxima de Laila, que dá um passo para trás em resposta. A garota finalmente percebeu a diferença de tamanho entre ela e Lucy. A diretora era alta, muito alta. Ela se sentia um rato perto dela. Lucy sorri e coloca suas mãos sobre os ombros de Laila.

— Nesse caso, bem vinda à Lirou Lader.