Lirium
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Boa leitura :3
Os corredores do castelo permaneciam imersos na escuridão noturna. Amedrontado, o garoto caminhava a passos lentos, atento para qualquer possível sinal do maldito zelador. Da ponta de sua varinha uma pequena luz era emanada, furtando um pouco do breu que parecia engoli-lo.
Percorreu incontáveis galerias até chegar ao local combinado. Sabia que estava mais pálido do que o costumeiro, e isto provavelmente significava que poderia ser facilmente confundido com algum dos fantasmas que habitavam o lugar. Entretanto, muito embora tentasse se controlar, a ideia de vê-la fazia seu corpo estremecer.
Lilian.
Seria paixão? Amor? Os inúmeros livros que lera falavam de sentimentos do tipo, mas nenhum parecia abranger completamente o que sentia. Era certo que ela estava namorando com aquele maldito garoto da Grifinória, mas uma esperança ainda o movia a querer recuperá-la...
De repente, um pensamento tão obscuro quanto a noite rompeu as portas de sua mente. E se ele fracassasse? Certamente, se isso ocorresse, fingiria para todos que não se importava com aquela mestiça, como já fizera tantas vezes antes. Mentir e encenar era sua especialidade, e fazia isso com uma perspicácia que seria capaz de enganar o próprio professor Dumbledore.
Em meio à turba de pensamentos negativos, as lembranças das aulas de adivinhação voltaram à sua cabeça. Maldita matéria! Ele ainda podia se lembrar daquele professor gorducho fingindo espanto diante do mapa astral.
Oh, Severo... pobre Severo. Você é um bom garoto, mas vejo coisas horríveis. Perderá para sempre a menina que ama e jamais alcançará a felicidade nessa vida.
Quem se importava com o que as estrelas diziam? Ergueu os olhos para o céu, enxergando nada mais que a escuridão ocasionada por grossas nuvens sob as quais os luzeiros celestes se ocultavam. Ao que tudo indicava, o sentimento de aversão era recíproco. Que se danem.
Mas... E se ela não viesse? As dúvidas voltaram a inquieta-lo. E se trouxesse ele junto? O que seus amigos diriam quando descobrissem que ele estava flertando com Lilian? O que os conhecidos dela falariam?
Estava começando a se desesperar quando viu, ao longe, um rosto ruivo se aproximando. Mesmo com a pouca luminosidade, a face dela era a coisa mais bela que ele poderia enxergar. Era como um raio de sol rompendo as sombras, como o dia dissipando as trevas. Era não menos importante que o próprio ar que respirava.
— Lilian. Você veio. – Tentou não soar desesperado, o que foi em vão.
— Severo.
— Olha, eu gostaria de pedir desculpa por aquilo que fiz...
— Hey. – Ela colocou suavemente a mão no rosto dele – Não precisa pedir desculpas. Realmente, não precisa.
— Então... Tudo está bem entre nós? Você vai largar aquele cretino do Potter e voltar a namorar comigo?
— Escute. – Um pequeno silêncio se formou enquanto ela reunia as palavras – Os seus amigos, os meus, o James... você está seguindo por um rumo completamente diferente do esperado.
O sobrolho dele franziu.
— Onde você está querendo chegar?
— Quero dizer que somos pessoas opostas, com sonhos que se afastam e vidas sem qualquer semelhança, entende? – Indagou com um sorriso melancólico. Ele queria dizer que não, que não entendia, mas os sons apenas se entalavam em sua garganta, de forma que um longo e incômodo silêncio se formou até que ela prosseguisse – Olhando hoje vejo que o nosso namoro é simplesmente loucura, não faz sentido.
— É claro que faz, sempre fez! – Apertou a mão dela com mais força que desejava. – Lilian, eu te suplico.
— Por favor, Severo. – O sorriso evanesceu do pequeno rosto redondo – Não posso compactuar com o que você faz. Além disso, eu prometi dar uma chance ao James. Eu realmente estou dando uma chance para ele, e acho que podemos ser mais felizes que eu e você fomos. Sabe, ambos merecemos mais que discussões diárias.
As palavras soaram como um soco no estômago.
— Escute, — Respirou, tentando agarrar as ideias que escapavam – Eu juro que mudarei, eu prometo que mudarei.
— Você já prometeu tantas vezes!
— Mas dessa vez é diferente!
— Sempre foi, não é?
Ele ficou aturdido. Não poderia perde-la assim, não podia ser verdade. Lágrimas quentes teimaram em escorrer por sua face pálida, mas ele lutou para controla-las.
— Há algo que eu possa fazer para mudar essa decisão?
— Nada. – O silêncio voltou a reinar durante longos instantes — Será melhor para mim e para você também.
O que ocorreu depois foi de uma rapidez incrível, mas ficaria impregnado na mente do rapaz por muito tempo. Ela já se afastava quando sua voz a chamou pela última vez.
— Lilian!
Um par de olhos verdes lhe encarou.
— Me faz um favor?
— Diga. – Soou meio trêmula.
— Me dá um beijo de despedida?
Ele pensou que a sua amada negaria. Por instantes notou a hesitação nos olhos dela, oscilando como uma folha ao vento. Mas depois, surpreso, viu-a se aproximar e sussurra-lhe ao pé do ouvido.
— Só se você me prometer que me esquecerá depois disso.
No desespero do momento ele só conseguiu concordar. E então o mundo a sua volta se apagou, e só restou o doce carinho dos lábios dela.
◘◘◘
Ali, na escuridão do cemitério, contemplava o túmulo em silêncio. A noite de outono se assemelhava muito com aquela que tinha vivido tanto tempo atrás, e que continuava impregnada em sua memória.
Abaixou-se e limpou as folhas secas que cobriam a sepultura, desvelando o nome de sua amada, escrito com caligrafia cursiva.
— Lilian... – Sua voz não foi mais que um sussurro. Uma lágrima há muito guardada escorreu e precipitou-se sobre o mármore frio. – Desculpe-me, por favor. Desculpe-me por nunca ter cumprido minha promessa. Desculpe-me por nunca ter conseguido te esquecer.
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