Linhagens e Amizades

21 Capítulo 21 - O Esconderijo, O Segredo e a Mágoa (Parte 2)


Notas iniciais
Naruto e seus personagens não pertencem a mim, mas sim ao Kishimoto-sensei...

Parte 2 - O Segredo

Parte 2 — O Esconderijo



- Não adianta, você não vai!


- Com que autoridade você está falando isso? — Ironizava a mulher.


- Como seu marido e... Se não for suficiente, como Quarto Hokage! Basta para você, Kushina?



Os olhos dela faiscavam uma raiva intensa e demonstravam todo o sentimento de revolta que sentia naquele momento. Sempre foram um casal feliz, com pequenos desentendimentos, mas aquela discussão ofensiva era uma novidade que Minato não queria interromper.



- Nem me lembre a maldita hora em que eu dei as costas ao meu país e minha vila!


- Kushina... Por favor, seja razoável... Você realmente vai para o meio de uma guerra neste estado? Você não está preparada para um combate, mas sim para ser mãe!


- Não me diga como eu devo ou não cuidar do meu filho! Não sabe do que está falando!


- Já não tenho tanta certeza se sabe o que é melhor para você, quem diria do bebê.



A silhueta rechonchuda demonstrava uma gravidez em estágio avançado, a kunoichi estava preste a dar à luz e aquela discussão não era uma coisa agradável para ela. Mas nenhum dos dois queria prolongar aquela situação. O desconforto que causava em ambos era evidente e Kushina teve que reconhecer a superioridade dos argumentos do marido. Aliás, não era justo importuná-lo com todas aquelas coisas, sabia da situação da vila e do perigo bem próximo que rondava a Folha de maneira peculiar e temível. A folha era sua casa agora, mas não o fora desde sempre.



Gente, esse é um flashback do flashback... São as lembranças da Kushina de um passado que apenas ela pode contar.



- Toguyo, seu desgraçado! — O sussurro saiu quase inaudível, mas com ferocidade suficiente para assustar qualquer um, menos o shinobi de quase dois metros de altura. Fazer entradas discretas nunca foi sua maior habilidade, mas aquela em especial tinha sido intencional.


- Não acredito que você ainda está abaixada como se estivesse fazendo xixi... Tá muito engraçado sabia?



O sangue dela ferveu. Aquele era um dos muitos testes que o pai sempre impunha a ela. Não era fácil ser uma Uzumaki, ainda mais a herdeira do clã. Já era tanta pressão... E ainda tinha que aturar seus companheiros de equipe com besteira atrás de besteira... Na verdade eles nunca entenderam que aquilo servia muito mais como prova para ela mesma que para os outros.



- Se não ajuda, não atrapalha. Onde está o idiota do Ryeko? — o tom permanecia o mesmo — o certo era estarmos camuflados, espero que tenha recebido todos os meus recados...



Antes de terminar a frase, silenciosamente surgiu outro shinobi. Os três tinham dezesseis anos e eram muito amigos, mas tinham sérias divergências quanto ao trabalho em equipe. Kushina era uma kunoichi temperamental e poucas vezes pensava antes de agir. Neste único ponto combinava com Toguyo, os dois odiavam ter que aguardar os planos meticulosos de Ryeki, que de longe era o mais calculista e paciente. Para completar, em aparência, mantinham o quesito diferenças em alta. Taguyo, com seus quase dois metros de altura era musculoso e desengonçado, seu corpo desenvolveu rápido demais para sua pouca idade e não tinha ainda muito controle de suas ações. Era bem moreno de cabelos esverdeados e olhos expressivos. Ryeko dos três era o mais apagado, mas fazia-o por necessidade. Suas especialidade era infiltrar-se e vigiar, não era possível chamar muita atenção. Seu tamanho mediano, aliado à sua aparência mediana, cabelos negros e olhos atentos fazia-no passar despercebido por quase todos os habitantes da vila. E Kushina, como todas as mulheres de sua família, possuía os cabelos vermelhos e no caso dela, sempre presos numa trança e escondidos de todos. Era uma tradição em sua família que as kunoichis jamais deixassem seus cabelos descobertos quando estivessem em atividade como shinobi, isto ela seguia com precisão. A hitaiate da Vila era cuidadosamente colocada à frente da bandana que protegia suas madeixas do contato com o vento. Os olhos irradiavam vivacidade e as formas de uma mulher quase formada eram cuidadosamente protegidas por um uniforme severo. As mulheres de seu clã não exibiam suas formas em combate, não queriam que os inimigos as confundissem, muitos shinobis viam com olhos ruins terem companheiras de time, pois elas poderiam se tornar uma moeda de troca, um alvo mais fácil, caso os inimigos percebessem a presença delas. Kushina irritava-se profundamente com isto e fazia questão de ficar o menos feminina possível, ninguém tiraria seus verdadeiros atributos.



- Ryeko, ao menos você fez menos barulho que esse paspalho.


- Sempre... Mas nem era necessário...


- Como não... Akira-sensei ainda está lá fora...



O olhar dos desviou-se para o campo descampado que se abria ao longo de alguns metros à frente. Parado placidamente estava à figura de costas de um homem com um quimono cerimonial com um símbolo de um redemoinho laranja nas costas, a marca de sua família.

Ryeko começou a rir, discretamente, acompanhado por Taguyo.



- Ora, o que é tão engraçado, seus bobos? Vocês estão atrapalhando, a tarefa é nossa, não só minha!


- Kushina... — disse Toguyo entre risos — realmente você acha que seu pai ainda está ali?



A garota não gostava que os amigos chamassem-no daquela maneira. Ter o próprio pai, líder do clã e da vila como sensei era um fardo grande demais para uma garotinha como ela foi um dia. Já tinha superado seu pavor interior, mas preferia manter uma distância na relação entre aluna e professor. Naquele momento ela não era a filha.


Vendo o olhar desaprovador da caçula do time, Ryeko interferiu.



- Certo, certo... Akira-sensei. Mas Kushina, a verdade é que seja ele seu pai ou nosso sensei, já não está ali há horas... Umas três, pelo menos.



Kushina não perguntou se ele tinha certeza. Aquilo era inútil. Ryeko era de uma família que possuía uma linhagem avançada bem interessante: possuía todos os sentidos super aguçados. No caso de Ryeko, que não demonstrava, o alcance de sua audição superava um quilômetro, e sua visão alcançava perfeitamente a surpreendente distância de dois quilômetros à frente, em linha reta, o olfato, tato e paladar tão apurados que desde pequeno essas habilidades foram corretamente destinadas para a espionagem. Se Ryeko dizia que seu sensei não estava lá, Kushina não tinha razão para duvidar.


Em silêncio, saltou rapidamente, caindo de qualquer maneira na planície descampada... Já sabia o que encontraria, mas ainda assim tinha que ver com os próprios olhos como fora enganada de maneira tão simples, num truque tão comum.


A raiva foi tremenda, que Kushina saltou sobre a figura do sensei com raiva, urrando de raiva, fazendo o bushin desaparecer com um único chute certeiro.



- Droga, droga... Que inútil sou...



A mão amiga de Toguyo por sobre seus ombros não estava aplacando seu desapontamento.



- Se servir de consolo, eu só percebi há uma hora... Quando eu vi um passarinho chegar muito perto dele... Akira-sensei não gosta de bichos...



Kushina soltou um sorriso vazio, o forte temperamento do pai parecia transparecer à sua relação com os animais. Preferia manter distância deles, abrindo uma única exceção para as carpas que habitavam o lago artificial na enorme propriedade dos Uzumaki.


- Que seja... Vou para casa, estou muito cansada de ficar fazendo papel de palhaça...


A garota foi embora, chateada com seu próprio desempenho e achando que estava muito além dos companheiros de equipe.



Chegar em casa depois daquela sessão de erros foi frustrante demais... Ainda mais porque sabia que o pai não falaria qualquer coisa. Ser aluna dele era bem complicado... Mas nada que superasse ser filha de Uzumaki Akira.

A grande propriedade dos Uzumaki já era mais que familiar como lar, mas não se sentia à vontade com aquela grandeza toda: era tudo muito ostensivo, muito formal. Não condizia com a sua minha personalidade. Mas, afinal de contas, estava tudo muito próximo de ser liderado por ela. Dois anos... Dois anos para viver a vida. Depois, seria a nova líder dos Uzumaki... E em cinco anos líder da Vila da Cachoeira... E Governante do País do Redemoinho. Sua mãe, Uzumaki Kani antes foi Namikaze Kani, antigos e tradicionais senhores do País do Redemoinho. Ela era a mais nova de três irmãos, mas ainda assim viu-se obrigada a assumir uma responsabilidade que não seria dela. Seu irmão mais velho foi assassinado dois anos depois de ascender ao poder e sua esposa morreu ao dar à luz ao filho único, que foi levado embora pelo pai. Ele não queria um destino de poder para o filho único. Seria um homem simples e de uma vida pacata, que não envolvesse riscos. O outro irmão não chegou seque a assumir o lugar do mais velho: uma doença mortal trouxe a visita da morte cedo demais. Kani viu-se obrigada e despreparada a fazer algo que não queria. Mas em respeito à memória de sua família, aceitou com resignação. Estava então casada há poucos meses com o futuro líder da filha da cachoeira e esperava ansiosamente a chegada do primeiro filho dos dois.


Depois do nascimento da pequena Kushina, Kani viu-se mergulhada em tarefas e obrigações. Akira também tinha pouquíssimo contato com a pequena, mas carinho e amor não faltaram. Pois o restante da família sempre olhou por Kushina com um carinho especial, pois não havia criança mais ativa e contagiante que aquela pequena de cabelos ruivos tão intensos. Sua mãe possuía os cabelos dourados, como todos de sua família. Kushina em nada se assemelhava à ela, mas sentia um carinho tão grande e tanta falta por não tê-la por perto... Mas achava ruim perturbá-los com essas coisas. Eram seus pais e sabiam o quanto ela os amava.


Quando a mais velha completou dez anos, Kani achou prudente conceber novamente, temendo o destino do país e relembrando de seus próprios irmãos. Não suportava imaginar acontecer isso com sua filha, mas ainda assim, precisava pensar no povo. Eles precisariam de uma liderança e a verdade é que Kushina estava longe de ser o modelo perfeito. Era temperamental e não pensava duas vezes antes de agir. Mas ainda tinha onze longos anos pela frente para treiná-la. E no final das contas, Akira estava fazendo um bom progresso com o treinamento shinobi. Não gostou muito da idéia de uma vida dupla para a filha, mas aquela era uma herança por direito dela e não seria a mãe a interferir em seu destino.


Agora Kushina já estava com dezesseis anos e apenas um obstáculo colocava-se frente ao desconhecido: o exame jounin. E para isto estava treinando incessantemente há um ano, juntamente com seu time. Mas não via muito progresso. Não era necessário ser boa, afinal como líder, deveria ser a melhor. A motivação que tinha para aquilo era muito pouca e apesar de reconhecer naquelas pessoas uma admiração em relação a ela, não se considerava merecedora daquilo. Seu único mérito na vida era ser uma Uzumaki.


Ao entrar em casa, fez o mínimo de barulho possível. Foi do quarto para o banheiro em segundos e minutos depois trajava o kimono típico de sua família. Os cabelos agora molhados caídos até quase à cintura davam-lhe um ar mais maduro e aristocrático, mas Kushina não gostava de ser conhecida daquela maneira. Estava caminhando para a varanda, quando foi devidamente atropelada por uma garotinha muito parecida com ela quando tinham a mesma idade.


- Nee-san, já veio brincar comigo?



Nayuri era a maior alegria da vida de Kushina. Ter uma companhia era tudo que sempre quis. Nayuri era alguém como ela e que dependia dela. Cuidar da caçula nunca foi problema, muito pelo contrário, Kushina largava quase tudo para satisfazer aos constantes caprichos dela.



- Vamos Nee-san! Vamos! Está na hora de brincar!



Kushina já estava com sua réplica no colo quando ouviu a voz estrondosa de seu pai atrás de si.



- Deixe sua irmã comigo Nayuri, vá procurar alguém para brincar por enquanto.



O pai era a única pessoa, fora Kushina, que conseguia fazer Nayuri seguir ordens. Mas ao contrário da irmã, que falava com carinho, Nayuri tinha um medo enorme do pai.

A mais velha observava com certo temor sua irmã tornar-se uma cópia perfeita dela mesma naquele sentido. Esperava que tivesse mais coragem para colocar seus próprios interesses em favor... Não, Nayuri teve sorte, foi a segunda. Aquela não era uma vida para ela.



- Chegou agora Kushina?


- Sim pai. — Não havia motivos para mentir.


- E o restante do time?


- Foram solidários e esperaram que eu percebesse o óbvio.


- Nem tanto. Nenhum dos três percebeu que desde o início tratava-se de um bushin. E eu pensei que Ryeko seria o primeiro a notar. Precisamos melhorar isto no treino de amanhã.


- Por favor, pai, não seja complacente comigo... É humilhante.



O pai fitou-a, curioso. Aquela não era uma atitude típica da filha. Normalmente ela iria esbravejar, gritar, dizer que não estava certo o que ele fez e que não foi aquilo o combinado. Mas agora ela sentia raiva por não ter percebido antes. Aquilo era um sinal de amadurecimento. Os treinos não estavam parecendo em vão, afinal.



- Tenho uma notícia para você, na verdade, duas.


- Estou ouvindo pai.


- Lembra do sobrinho de sua mãe?



Kushina lembrava vagamente a menção de uma criança... Filha de seu tio mais velho. Mas há anos que sequer tocavam no assunto.



- Vagamente.


- Bem, ele agora é um homem. Está com dezenove anos. Mora no país do fogo, na Vila de Konoha.


- Ele é um shinobi? — Kushina estava surpresa, pois pelo pouco que lembrava, a saída do primo ainda bebê deveu-se à violência, sua mãe não queria um futuro perigoso para o filho ainda tão pequeno.


- Sim... A mãe morreu quando ainda era muito pequeno e antes que nos notificassem, o Terceiro viu um enorme potencial e encaminhou para treinamento junto com um dos sanins lendários da Vila.



Kushina parecia impressionada, mas aquilo na verdade fez aumentar mais ainda sua decepção. Seria aquela uma sessão de comparação? Seria uma longa noite...


Não percebendo os devaneios da filha, Akira prosseguiu.



- Já ouviu falar do Relâmpago Dourado de Konoha?



Agora o pai estava chamando-a de estúpida. Quem não sabia quem ele era? Bem, na verdade Kushina não sabia seu nome, ou como era. Mas a fama dele o precedia. Era o jounin mais famoso da Vila de Konoha, um prodígio apresentado, que carregava o orgulho da vila com ele. Era uma lenda viva, assim como os três sanins lendários, só que bem mais jovem.



- Quem não conhece? Mas o que tem a ver com meu primo?


- Bem, ele é o seu primo.



Aquilo já era demais. Primo? Meu? Kushina sentia seu ego desaparecendo de maneira exponencial. Ficou aguardando a bronca.


- Mais gente famosa na família? Que bom pra gente.



O pai pareceu ignorar a pequena zombaria.



- Sua mãe descobriu a identidade dele recentemente. A mãe conseguiu esconder a presença e contou com o apoio do povo de Konoha. Mas agora não temos motivos para evitar um contato. Vou passar uma missão para você, agora.



Kushina assumiu posição formal, agora estava falando com o líder da Vila, não mais o pai.



- Você irá até Konoha, vai se apresentar ao Terceiro como representante da Vila da Cachoeira no Exame Jounin deles. E sua missão será fazer contato com seu primo. Você precisa convencê-lo a vir com você, afinal, ele é o herdeiro por direito do lugar de líder do País do Redemoinho.



Mas aquele lugar... Não era dela? Aquele não era o momento para discutir, e sabia disto. Recebera uma ordem e iria cumpri-la.



- Quanto tempo tenho para reunir meu time?


- Time? Não, você entendeu errado. Irá sozinha.



Aquela não era uma missão comum, e ainda prestar o exame para Jounin numa Vila alheia... O exame já era perigoso sozinho, ainda faria sozinha? E ainda tinha o primo, ou astro, ou o que quer que fosse... Seria aquela uma maneira de demonstrar a ele o quanto os shinobis da cachoeira precisavam de uma liderança forte?


Despediu-se silenciosamente e foi para o quarto. Seria uma longa noite.


No dia seguinte, despediu-se de seus amigos, reuniu seu equipamento e partiu. Foram oito dias longos de meditação e quando entrou pelos portões de Konoha sentia-se furiosa e determinada a não decepcionar seu pai e sua Vila.


Apresentou-se ao Hokage e pediu encarecidamente que não informasse aos demais sua real identidade, como futura líder do clã. O Hokage assentiu, já que parecia um pedido razoável e providenciou acomodações confortáveis para que a hóspede pudesse descansar adequadamente.


Kushina sentia-se pouco à vontade na Vila, estavam todos a observando com desagrado, afinal ela era uma concorrente a mais para prestar o exame e aumentava a tensão entre vilas. Já estava na terceira e última fase do exame e sentia a hostilidade apenas crescer. O único lugar em que Kushina sentia-se à vontade, ou quase isto era uma pequena barraca de ramén, iguaria que passou a saborear desde que chegara a Konoha. O pequeno Ichiraku contava apenas com o trabalho do proprietário que dava nome ao lugar e que era acompanhado de perto pela filha que Kushina julgou ser um pouco mais velha que Nayuri.



- Como sinto saudades dela...



Sentou-se num dos bancos isolados e estava saboreando quieta seu ramén de porco, o favorito.



- Realmente, o ramén do Ichiraku é o melhor! Mas eu não sabia que tinha ficado tão bem movimentado...



Kushina virou-se com a resposta pronta, quem seria o atrevido a abordá-la daquela maneira?


Mas quando seus olhos o alcançaram, ela esqueceu-se completamente. Os cabelos espetados e loiros caíam pelo pescoço displicentemente, o uniforme de jounin caía muito bem e o sorriso dele era tão largo e sincero. Mas ele tinha um rosto maduro demais, seria muito mais velho? Kushina corou, pela primeira vez em toda a vida.



- Pelo visto ficou bem movimentado, mas além de excelente shinobi, você é muda por sinal?



A moça riu, fazendo um sinal negativo com a cabeça.



- Apenas falo quando há necessidade.


- Não sei por qual motivo não acredito... Mas deixando isto de lado, vai me deixar pagar um ramén pra você? Cortesia de Konoha.


- Bem, devo dizer que ainda não fui apresentada à cortesia das pessoas daqui. Mas ainda não aceito presentes de desconhecidos.


- Não por isto, sou Minato. Você eu já sei como se chama.


- Sabe, é?


- Sim, que shinobi seria eu se não conseguisse descobrir o nome de uma linda moça misteriosa?


- Eu acho que devo agradecer.


- Não, não precisa. Se me deixar pagar o ramén, claro.



O dono da barraca gritou ao fundo:



- Para a namorada do Relâmpago Dourado, o ramén é de graça!



Kushina não pôde dizer se ficou mais surpresa pelo senhor tê-la chamado de namorada dele ou pelo modo como o chamou.



- Namikaze... Minato?



Minato parecia confuso, mas pôde perceber confusão ainda maior nos olhos dela.



- Sim... Mas como você...?


- Me chamo Uzumaki Kushina... Soa familiar para você?



Então ela viu aquele brilho apagar lentamente nos olhos dele, o que ele saberia a respeito de sua família?



- Então vocês me descobriram. Até demoraram muito tempo, em minha opinião. Sua missão é me levar para o País do Redemoinho?



Como ele tratava sua missão de maneira tão... Trivial? Ele iria facilmente?



- Como faremos isto? Da maneira fácil?



Ele riu, desta vez como no início. Para Kushina, parecia que ele estava debochando dela.



- Olha, conheço muito bem a sua "fama". Mas você não sabe do que nós somos capazes na Cachoeira, não nos subestime.


- Ta, não vou cometer esse erro com o pessoal de lá... Mas e com você? O que posso esperar de uma garota tão misteriosa, que nem ao menos me deixa ver seu rosto direito?



Ela não conseguiu esconder o sorriso. Os dias passaram e os dois jovens descobriram mais semelhanças entre si e algumas diferenças que tornavam a proximidade mais e mais atraente. Minato passou a ajudar Kushina nos treinos e a última etapa foi tão fácil para ela que ele acabou deduzindo que jamais precisou de sua ajuda. Mas nenhum dos dois reconheceria aquilo. A proximidade com ela, uma família que nunca teve, tornava um lugar tão distante quase atraente... Ou seria ela?


Quando terminou o exame, Minato convidou Kushina para comemorar. Foram até o Vale do Fim, um lugar que dizia muita coisa para ele. Aquele era o símbolo de uma vila forte e do que era necessário proteger: os habitantes da Vila. Era o lugar predileto em toda Konoha. Ele preparou um piquenique, o fim de tarde tornava tudo muito agradável e Kushina estava realmente feliz. Sentia-se bem na presença dele e já tinha esquecido o ressentimento que sentia, o que a volta dele ameaçava para ela. Mas afinal, ela queria mesmo tudo isto?



- Minato... Posso perguntar uma coisa?


- Claro, diga o que quiser.


- Você vai voltar comigo? Você sabe... Para casa...



Aquelas palavras demoraram algum tempo para fazer sentido na mente dele e os dois perceberam a confusão que se instaurou ali.



- Kushina... O país do Redemoinho e a Vila da Cachoeira não são o meu lar... Konoha é.


- Mas o País do Redemoinho é seu por direito... Pertenceu ao seu pai...


- Não é nada meu. Não conquistei... Uma coisa que veio para mim apenas pelo meu sangue... Seria justo? Não penso assim minha cara... Creio que você entende a necessidade de construir algo próprio, não? Afinal... Eu reparei seu esforço durante o exame jounin... O que me deixa mais intrigado é saber que você não usou sequer um terço da sua força... É uma mulher impressionante, minha prima.



Mulher? Prima? Kushina não se sentiu corar pela primeira e um desconforto pela segunda. Afinal, não era isso mesmo? Era prima... A priminha idiota dele...



- O que foi?


- Nada... Apenas lamento voltar para casa com as mãos vazias.


- Voltar? Por que precisa ir?


- Ao contrário de você, eu reconheço um lar ali. E as pessoas precisam de mim... Dependem de mim.


- Ou você tem medo demais para negar? Não é tão difícil... Eu neguei e olha que foi você quem pediu. Eu pensava que jamais negaria um pedido seu... Aliás, você poderia me conceder um pedido?


- Desde que não seja dos mais absurdos, não vejo motivos para negar.


- Gostaria de ver seu rosto... E seus cabelos... Posso?



Aquilo era no mínimo um pedido inusitado, mas a kunoichi pensou: Estou em Konoha... As regras da Cachoeira não valem aqui... Certo?


A bandana caiu e junto com ela o vermelho intenso dos cabelos salpicava a pele branca, o rosto delicado escondido pelo uniforme deixou um certo jounin sem palavras.



- Agora... Fala a verdade, você fez isto para me convencer a ir com você para a sua casa, não?


- Por que diz isso?



Minato olhou-a, delicadamente, suas mãos acariciando aqueles cabelos antes escondidos e que tanto povoaram seus pensamentos. Aqueles três meses que conviveram juntos e tão próximos serviram para mostrar a ele que nem só de prestígio era resumida a vida. Ele tinha um forte senso de responsabilidade e queria muito proteger as pessoas da Vila, mas naquele momento, não queria proteger mais ninguém que do que ela.



- Porque agora eu iria sem pensar duas vezes... Mas ainda não desisti da idéia de fazer você ficar aqui.


- Você está louco mesmo! As pessoas me esperam por lá... Têm expectativas... E aliás, você não está se achando muita coisa não? Afinal, o que te faz pensar que eu ficaria por você?


- Na Cachoeira você mostraria seus cabelos assim? — Percebendo um certo rubor no rosto dela — Não me entenda errado... Mas para mim é como se te conhecesse há anos... E acho que aqui, comigo, você está sendo quem realmente é. Se para que você permaneça assim eu tenha que desistir de ser um shinobi da folha, já arrumo minhas coisas para partimos... Do contrário, farei de tudo para que você não me abandone.



Aquela certeza na voz dele incomodava-a de uma maneira agradável. Ele estava dizendo que era especial, não apenas mais uma.



- Kushina, eu te admiro como shinobi, mas muito, muito mais como pessoa. Enfrentar a vila toda não foi fácil e no início houve muita hostilidade, reconheço. Não aceito que uma pessoa capaz de enfrentar coisas como estas, não seja capaz de dizer "não". Se você realmente quiser, sei que você pode.


- Eu posso dizer não... Mas diria sim para o que?



As luzes do pôr-do-sol deram o tom do primeiro beijo.


Kushina sabia que estava apaixonada e que por ele seria capaz de dizer "não".


E foi com uma certeza tão grande que retornaram para a Cachoeira dispostos a firmarem um compromisso que parecia já existir muito antes de se conhecerem. Surpreendentemente sua família não fez oposição e até houve um pouco de satisfação por parte de sua mãe.



- Um dia, os verdadeiros descendentes retornarão e governarão esta terra. Mas por enquanto, Nayuri será uma boa substituta, seu pai e eu nos encarregaremos disto. Vá em paz minha filha, mas nunca esqueça de seu lar.



O olhar triste de sua irmã estava perdido em meio às lágrimas que a pequena não escondia.



- Nee-san, você vai me abandonar também?



Kushina pegou a irmã tão querida no colo, afagando os cabelos desta.



- Nunca vou te abandonar minha princesa... Estarei sempre com você. Agora está na hora de você crescer e tornar-se uma shinobi forte e uma boa líder para o nosso povo. Você pode fazer isto, é muito mais forte que eu. Você fará isso?



A garota balançou efusivamente a cabeça, faria aquilo por sua irmã tão amada. Sofreria muito com sua ausência, mas seu esforço em não decepcioná-la preencheria os dias de solidão.


Sei pai nem ao menos se despediu dela. Ele fora o único a reagir contra o casamento. Para ele, kushina tinha um dever com a Vila e o povo e não honrou um compromisso secular.



- Você não é digna de usar nosso símbolo, você nunca foi uma Uzumaki.



Com um aperto no coração muito grande, ela partiu, com seu amado de sua terra natal. A despedida foi longa e abrir mão de seus amigos e família custou muito. Mas a promessa de uma vida original ao lado do homem que amava soava muito mais atraente aos seus ouvidos.



(Fim do flashback do flashback)



E agora aquilo.


Seis anos depois, não havia nada mais de seu antigo lar. Ela estava segura e protegida em Konoha, enquanto que seus parentes... Seus amigos...


Todos mortos, ou preparando-se para morrer numa guerra contra a Vila Oculta da Névoa. E agora que ela era uma shinobi de Konoha e não mais da Cachoeira, Minato, como Quarto Hokage exercia uma autoridade ainda maior sobre ela. Mas não que se deixasse dominar. Pensava muito na criança que carregava e sabia que não poderia colocar a vida dela em risco.


Mas seus pais... Sua irmã. Ah, que destino cruel ela tinha deixado nas mãos de uma criança! E agora... Ela poderia estar morta, por que não ficou para lutar e proteger às pessoas? Foi covarde, abandonou seus amigos, suas responsabilidades, não pôde abrir mão... Mas agora teria de fazer uma escolha ainda mais difícil.


Teria de abrir mão de sua felicidade para recuperar a dignidade e a honra de sua família.

Notas finais
Obrigada por aguardarem pacientemente, espero reviews!