Linhagens e Amizades
22 Capítulo 22 - O Esconderijo, O Segredo e a Mágoa (Parte 3)
Notas iniciais
Ah, lembrando que Naruto e sua turminha não me pertencem mas sim ao japinha lá..
Parte 3 — A mágoa.
(Essa parte da fic é narrada pela Kushina)
Naruto finalmente cedeu e dormiu. Era uma criança muito agitada e queria que o mundo tomasse ciência de sua existência, mas era isso que o tornava mais encantador, era impossível não notá-lo. Como eu esperava, nasceu a réplica do pai, um completo Namikaze: loiro de cabelos rebeldes desde a raiz, os traços bem definidos e os olhos tão azuis quanto os dele. Qualquer mãe adoraria ficar calmamente com seu bebê, como eu estava naquele momento. Mas acho que em especial para mim, sentia como se devesse aproveitar ao máximo, aquela era uma felicidade que eu não merecia, o pior é que eu sei que jamais mereci.
Já não conseguia dormir, pois em todos os meus devaneios via corpos e sangue e minha irmã, meus pais, gritando, pedindo por um socorro que jamais viria, o meu. Eles dedicaram a vida para me preparar e o que dei em troca? Decepção atrás de decepção. Por mais que amasse Minato, não era um amor maior que aquele que tinha obrigação de sentir por todos.
Obrigação não, realmente os amava. Mas era tão assustada com as muitas responsabilidades... Tinha tanto medo que encontrei nos braços de Minato a desculpa perfeita para adiá-lo, a meu ver, para sempre. Mas o destino veio me dizer pessoalmente que não gosta de ser ludibriado: deixou que aproveitasse minha doce ilusão até o ápice, para logo depois usurpar tudo, sem dó, deixando um rastro de destruição por onde passasse.
Sei que o decepcionarei, mas não consigo me imaginar criando este menino com mentiras e hipocrisias. O que responderia quando ele perguntasse da família? Mentiria? Não, minha vida estava farta de desculpas, que não passavam de mentiras para mim mesma. Naruto seria um homem que prezaria pela verdade, teria um coração honesto, assim como seu pai. Minato possuía um senso de justiça e lealdade tão grande... Saberia educá-lo. Oh não... Não posso abandoná-lo... É tão pequeno... E meu querido esposo... Que tanto fez por mim, que me fez sentir segura, amada, desejada... Que se doou tanto sem pedir nada... A quem eu ainda tenho tantas dívidas...
Acariciando os cabelos de meu bebê, pedia desculpas em silêncio.
- O maior legado que posso deixar para você, meu pequeno, é a sua herança de direito... E a lembrança de uma mãe que podia não ser a melhor, mas que se arrependeu. Eu sinto que ainda há algo que possa ser feito... Por nossa família e por aquela gente que tanto precisa de nós. Aqui em Konoha fomos muito bem tratados, mas casa é sempre casa. Um dia todos voltam para lá. E da próxima vez que nos reencontrarmos, será em nosso lar, nos domínios puros da Cachoeira... E então você verá todo o esplendor de nossa gente, de nosso povo... E sentirá orgulho por fazer parte daquilo... E meu grande menino... Você será o maior entre todos... Mais uma vez eu repasso a minha responsabilidade, mas sei que não será impossível, você pode tudo, é o meu guerreiro mais valente...
Naruto dormia, mas segurava meu dedo fortemente. Para um recém-nascido, aquilo era sinal de determinação. Aquele era o fruto do meu amor verdadeiro e tenho certeza que a pureza do que sinto passará para ele. Afastei-me delicadamente, deixando um pequeno pacote sobre a cama, com o nome de seu marido escrito por cima. Ela não podia olhar para trás, se o fizesse sabia que não teria forças para terminar, pois ali estavam as duas pessoas que mais amava em todo mundo. Mas não eram as únicas, nem mesmo as únicas que dependiam dela.
Pegou sua antiga bandana da Cachoeira, já velha pelo desuso e amarrou fortemente. Já não usaria o uniforme tradicional de uma jounin, mas sim o sobretudo branco com o símbolo de sua família, o redemoinho laranja. Ela era a líder de uma Vila e de um país, agiria como tal agora. Pegando todo o material que julgava necessário, deixou Konoha com a maior pressa que pôde, com lágrimas sufocadas por um objetivo que impedia suas reações de virem à tona.
- Por favor... Estejam vivos!
(Essa parte da fic é narrada pelo Minato-sama)
Cheguei em casa e podia ouvir o bebê demonstrando todo o fôlego que tinha guardado naqueles pulmões. Seus gritos poderiam irritar qualquer pessoa, menos a Kushina e eu. Aquela era a forma dele dizer que estava ali e que não se deixaria ser esquecido. Mas não era necessário fazê-lo, pois cada pensamento nosso estava com ele.
Ainda assim, não era do feitio de Kushina deixá-lo chorando daquela maneira, sempre o acalentava de maneira a fazer com que ele sentisse a proteção que tinha nela. Teria ela dormido? Nos últimos dias estava tão cansada, seu sono era quase nenhum, suas noites atormentadas por tantos fantasmas... Mas também não eram as minhas? Os Uchiha estavam em seu último movimento, às vezes me perguntava se era seguro para minha mulher e filho ali, mas o lugar onde estivesse seria seguro, pois a única pessoa que poderia protegê-los seria eu, não havia ninguém em quem confiasse tal missão. Mesmo Konoha sendo meu lar, Kushina e Naruto são minha família. A primeira e única que tive.
Quando cheguei ao quarto do bebê, vi que já deveria estar acordado há alguns minutos, pois estava avermelhado de tanto gritar. Mas ao me ver ele geralmente se acalmava, sei que ele não entende, mas sempre faço caretas engraçadas quando estou próximo, acho que isso me faz um pouco idiota, ainda mais nessa roupa de Hokage, mas quem me recriminaria? Sou apenas um pai curtindo meu primeiro filho...
Segurei o bebê no colo, não tenho muita prática, na maioria das vezes prefiro que Kushina o faça, mas entendo que ela precisa de um descanso... Então o meu medo é superado momentaneamente, entretanto sempre penso que ele vai quebrar.
Em passos mais lentos que o normal, fui até nosso quarto ver como estava. Na certa exausta, mas não era minha intenção fazer barulho. Ficaria cuidado de Naruto até que ela acordasse e não precisava ser logo. Conversar um pouco com o bebê sempre era bom...
Porém quando vi nossa cama, encontrei apenas uma caixa com meu nome e o de Naruto gravados. Reconheci a grafia de Kushina, sempre brincava com jutsus de katon para escrever em madeira. Mas se aquela caixa estava ali, com nossos nomes, onde estava minha mulher? E por que deixou o bebê sozinho? Aquilo não parecia do feitio dela.
Quando abri a caixa, entendi tudo. E meu peito sentiu um pesar profundo. Deixei Naruto na cama, escorado por algumas almofadas e segurei o objeto nas mãos... Por debaixo dois pergaminhos, um com meu nome, o outro com o de nosso filho, ambos lacrados com chakra. Sabia que seria possível abrir apenas o meu e assim o fiz.
Comecei a ler e sentia cada vez mais o chão querer desaparecer por sob meus pés.
"Meu querido Minato,
Não tentarei explicar meu ato de egoísmo ou implorar por seu perdão. Você, melhor que ninguém, conhece os caminhos do meu coração e sabe que jamais seria completa se não fizesse isto. Nosso amor foi a coisa mais linda que já me aconteceu e o filho que geramos e que carreguei em meu ventre me fez sentir completa, como nunca pude imaginar ter direito a viver um dia.
Mas compromissos que me pertenciam não mais podiam ser adiados. Eles precisam de mim! Assim como Konoha precisa de seu líder.
Vou atrás de pessoas para ajudar e inimigos para combater. Não quero imaginar o que aconteceu com minha família e amigos, mas por dentro desejo que estejam conseguindo superar as dificuldades. Espero chegar a tempo!
Deixo para nosso pequeno aquilo que dará a ele todo o conhecimento de minha vila... Não diga nada antes do momento certo, afinal, ele é um Namikaze e por direito tem o País do Redemoinho para governar. Sei que você fará dele um homem tão bom e justo como você e espero que um dia a Folha e a Cachoeira sejam unidas em um momento de paz e que ele seja um dos que preservem este momento.
Não se preocupe comigo, você sabe do que sou capaz. Mas também não me espere, pois o nosso reencontro pode ser mais demorado, contudo eu garanto que desta vez será definitivo, seremos um novamente. Você me encontrará em meu lugar mais precioso.
Todo o meu amor para você e nosso filho.
Sempre sua,
Kushina."
Naruto não mais chorava.
Quem o fazia agora era eu.
(Essa parte da fic é narrada pela Kushina)
Não havia mais o barulho dos pássaros ou a copa alta das árvores. Tudo que podia ver era destruição. Minha linda Vila estava devastada, maculada pelas mãos sujas dos bastardos da Névoa... Aquilo teria retorno... Cada gota de sangue derramado seria vingada.
Os corpos amontoavam-se... Não teriam nem direito a um enterro digno... Malditos! Aquelas pessoas eram inocentes, gente de bem... A Névoa sempre quis um confronto, mas meu pai era muito habilidoso e conseguia resolver a maioria dos conflitos com diplomacia... Eles queriam a Cachoeira pelo que ela tinha de melhor.
O clã Uzumaki.
Sempre soube que ser líder seria difícil, mas nada era mais difícil que ser uma Uzumaki. Nascíamos com um grande dom e uma grande maldição, mas aparentemente apenas nós víamos o lado negativo da questão.
Nossa família tinha a maior das Kekei Gengai já conhecidas: todos nascíamos com dois tipos de chakras. Temos o chakra comum que é finito e limitado como o de qualquer outro shinobi, precisamos descansar para recuperá-lo. Mas nosso outro chakra flui num sistema paralelo ao primeiro e tem a peculiaridade de não findar. Nunca, jamais. Saber controlar esses dois tipos e canálizá-los de maneira eficiente era a eterna batalha de um Uzumaki.
Todavia, três eram os fatores que tornavam para mim este desafio ainda mais tortuoso: em primeiro lugar, era quase impossível utilizar os dois chakras ao mesmo tempo, tamanha a sua mortalidade que poderia causar, as duas correntes não poderiam ser unidas e eram poucos os nossos que conseguiam despertar a habilidade de utilizar os dois chakras. Para minha felicidade, ou não, essa manifestação era mais espontânea nas mulheres. Para manter o controle, utilizávamos um pequeno cristal de rubi, uma gema especial, que servia para nós como um condutor. Sem aquilo, treinar e lutar poderiam ser perigosos, mas era um segredo de família e apenas nós sabíamos deste contratempo.
Em segundo lugar: cada vez que precisávamos apelar para nosso chakra oculto — como denominávamos essa particularidade nossa — acelerávamos em muito todas as células de nosso corpo, isso encurtava nosso tempo de vida, cada vez que atacávamos com ele poderíamos salvar um momento, mas encurtar outro. Por este motivo era extremamente proibido utilizar ataques deste tipo, salvo situações que envolvessem risco de morte iminente.
Finalmente, o real motivo da cobiça de outros: esse chakra oculto era de um poder especial. Permitia o domínio sobre todos os elementos, inclusive os combinados. Um exemplo eram os jutsus de madeira, que até então somente existiam na Cachoeira, em segredo no clã Uzumaki. O Primeiro Hokage de Konoha era descendente de um Uzumaki por parte de pai e ele parece ter herdado um pouco da habilidade, mas de maneira distinta e não real.
E se eles estavam atrás dos Uzumaki, estavam atrás das mulheres do clã. A única maneira de herdar estes traços, seria nascendo de uma legítima de minha linhagem. Em minha mente conseguia contar seis mulheres em idade para ter filhos... E desta conta fiz todo o possível para retirar minha pequena Nayuri... Que então estava com doze anos. Era essa a razão que me permitia acreditar que ela ainda estaria viva, fosse onde fosse.
Meus pensamentos foram interrompidos por uma voz familiar, mas que já não dispunha do mesmo vigor de antes.
- Minha querida... Você conseguiu voltar a tempo...
- Papai!
Ele estava a metros de onde eu me encontrava, e vivo! Como meu peito estava mais aliviado!
- Me decuple papai, me desculpe pela demora...
- Não fale bobagens... Seu marido me enviou uma mensagem dizendo que estava esperando um bebê...
Minato? Nunca soube de uma correspondência entre ele e meu pai... Abracei aquele senhor com o rosto machucado e as roupas cerimoniais de luta destroçadas sofregamente... Ao envolvê-lo, pude sentir a densidade do sangue confrontar minha pele. Ele estava ferido... Muito próximo ao coração, na verdade era um buraco que atravessava o peito, do tamanho de uma maçã bem madura.
- Meu pai... Como isso aconteceu? Onde estão minha mãe e minha irmã?
A voz dele agora era apenas uma sombra daquilo que me recordava. Mas ele sorria.
- Sua mãe está bem aqui ao meu lado, não me abandonou um segundo. E sua irmã... Lutou bravamente... Você... Deveria ter... Orgulho dela... Muito... Se parece tanto com... Você...
- Fique quietinho papai, vai ficar tudo bem, eu prometo... — meus olhos enxergaram o corpo de minha mãe cuidadosamente deitado sobre uma pedra e o rastro de sangue que estava ao lado dela indicava que aquela tinha sido a última homenagem do amor dos dois que eu nunca entendi, mas que naquele momento me assustava e confortava ao mesmo tempo. Então toda aquela aparente frieza jamais existiu. Eles se amavam, um amor tão forte que ele precisava honrar a sua companhia em vida com o resto de suas forças para prestar-lhe um mínimo culto e respeito em morte. Meus pensamentos foram para Minato... Por um momento... Mas eu não podia chorar ali.
- Muito orgulhoso de... Você... o bebê...?
- É um menino lindo, chama-se Naruto... E tenho certeza que será um homem digno, como meu pai sempre foi.
Os olhos dele demonstraram uma satisfação quase infantil e eu senti o amor do meu pai alcançar-me de uma forma direta e fraternal.
- Salve... O que puder... Para que ele saiba.... Quem fomos.
- Não estamos acabados... Não fale assim...
- Kushina... Meu tempo já acabou... Você é oficialmente a líder de nossa vila... Enquanto um habitante estiver vivo... Você... Deve protegê-lo com sua vida... Confio em você a... Minha missão... Eu te repasso... Meu nome e minha vida... E tenho certeza que sentirei... Muito orgulho de você... Agora me abrace e me coloque aos pés de sua mãe... Ela sempre foi muito mais do que eu merecia e agora... Devo este último momento de... Reconhecimento... Guarde em sua memória essa cena... Espero que um dia você e seu marido possam ter a mesma sorte que nós...
Obedeci às ordens de seu sensei... Coloquei-o sob os pés de minha mãe, onde ele podia olhar o rosto dela pálido, mas ali eu enxerguei um amor tão grande... Uma cena tão marcante... Meus pais se amavam... Aquilo reconfortou meu coração de certa maneira. Eu os tinha perdido ali, mas também encontrei uma das respostas que me afastavam de meu lar...
Não tive coragem de olhar para ele enquanto suas últimas lágrimas percorriam seu rosto. Ver meu herói derrotado não seria a última imagem que guardaria dele.
Kushina saiu dali, voltaria para enterrá-los, mas naquele momento precisava salvar sua irmã, precisava salvar sua família.
(Fim da parte narrada pela Kushina)
- Minato, temo que o momento chegou.
- Mas já sensei?
- Em minha opinião, demorou muito. Eles agirão hoje. Você já terminou o jutsu?
- Ainda não... ainda.
- Como não? Minato, você mais que ninguém entende a necessidade de selar a Kyuubi!
- Jiraiya-sensei... Não estou nos meus melhores dias... Não podia estar acontecendo em momento pior.
- Problemas com Kushina?
- Ela foi embora.
Jiraya olhava para o aluno, atordoado. Não acreditava em amores eternos, mas o daqueles dois teimava em dissuadi-lo de sua teoria. E agora ela tinha fugido? O que de tão grave poderia...
- Mas e o bebê?
- Ela o deixou aqui... Para onde ela está indo não é lugar para se levar uma criança... Foi para a Cachoeira... Ajudar a família dela.
- Hum... E como você está?
- Não preciso disto agora Jiraya-sensei... Ela fez a escolha dela e como shinobi tenho que reconhecer que não poderia esperar menos dela. Não iria impedi-la. Mas esperava que o bebê o fizesse isto mostra o quanto lidei errado com a situação. Mas... Queria pedir-lhe uma coisa.
- Diga... Mas não faça essa cara séria, que quando você não está com aquele sorriso besta na cara sempre me preocupo.
- Sensei, sabemos o que vamos enfrentar... e você sabe que agora eu não terei tempo de terminar o jutsu de selamento como gostaria... Então...
- Não me diga que você está pensando em selar a Kyuubi num jinchuuriki? Você mesmo disse que jamais daria um destino cruel deste para alguém... E ainda tem o fato de que você tem que... Minato, você precisa morrer para fazer isto! Não posso acreditar que está levando em conta uma coisa destas
- E tenho escolha? Seja sincero, por favor... Sabe que muitos vão morrer mesmo antes de eu conseguir completar o selamento... preciso evitar que a vila caia... Isto não vai acontecer, não enquanto eu for o Hokage...
- Então já está decidido?
- Sim...
- E quem será o receptor?
- É necessário um recém-nascido... Em Konoha não temos muitos assim... Mas ainda assim, preciso de um especial, com uma linhagem avançada, alguma coisa que o diferencie...
- A mulher de Hiashi está longe para dar à luz... O menino Inuzuka não chega a ter uma Kg... Não consigo pensar em alguém... Fora estes... O perfeito seria o caçula dos Uchiha... Só que isto está fora de questão...
- Há ainda outra criança.
Percebendo onde ele queria chegar, Jiraya agarrou o Kage pelos ombros, sacudindo-o efusivamente.
- Pare de dizer mais asneiras! Vai deixar seu filho sozinho no mundo com um monstro dentro dele?
- Sensei... Acalme-se. Não há criança mais apropriada para receber a Kyuubi que o meu filho.
- Vai precisar de um argumento muito bom para convencer.
- Não preciso convencê-lo... Afinal, sou o Hokage, não? Mas vou lhe dizer uma coisa, a família de Kushina possui uma propriedade especial... Uma linhagem especial. Eles tem um chakra que pode manter a Kyuubi contida, por mais tempo... Possuem uma incrível quantidade de chakra e... Já estão acostumados a lidar com dois tipos do mesmo...
- Dois tipos de chakra, naturalmente? Nunca ouvi falar disto...
- É um segredo... Mas que deve ser guardado... Ninguém fora da família sabe. Você ficará encarregado de passar isto ao meu filho... Mais uma coisa... O nome do menino agora é Uzumaki Naruto, não mais Namikaze... Meu nome não pode protegê-lo, a única coisa que vai mantê-lo vivo e são é o sangue da mãe... A mãe que partiu para honrar uma dívida... Que não quis abandonar aqueles que precisavam dela... Isto... Será... Uma homenagem... Entende?
- E você vai apagar seu nome da história?
- Já ficarei eternizado sendo o homem que vai selar a Kyuubi.
- Nayuri, segure-se em mim, não desmaie, por favor!
Depois de partir da vila em busca dos sobreviventes que estavam aprisionados, Kushina não dormiu, comeu ou parou por um momento, mas seu corpo não estava cansado. Na verdade, aquela era a batalha para o qual se preparou por toda a vida. Aquele era o momento em que seu coração seria sua força de vontade e seus sentimentos dariam o ritmo da batalha.
Quando avistou o comboio, não podia acreditar que toda aquela força avançou contra a Cachoeira, contou muitos corpos de shinobis da névoa e pensou que tivessem ao menos sentido o peso do poder dos seus... Mas a verdade é que o número que contou era de pelo menos cinco vezes mais que os corpos que avistou antes.
Não seria uma batalha, mas sim uma missão suicida. Ela tinha o fator surpresa e não perderia uma oportunidade para causar o maior dano possível. Acompanhou-os de muito longe, pois estavam na maioria do tempo cercados por uma forte névoa e ela temeu ser enganada por seus sentidos. Mas a verdade é que estes estavam por demais aguçados para perderem qualquer lance.
Ao anoitecer, consegui vê-la. Estava largada numa jaula descampada, com outras três mulheres que reconheceu como de sua família... Mais atrás uma carroça com corpos ao relento... Ryeko? Ah não... Seu amigo, um de seus melhores amigos... Largado como um bicho e sendo levado para fazer experiências, mutilar seu corpo, violar sua paz... Malditos! Malditos!
Com a madrugada avançando, traçou o plano que melhor concebeu. Essa era a especialidade de Ryeko e faria justiça ao tempo que conviveram juntos. Também podia manipular jutsus como os ninjas da névoa e criaria sua própria distração... Seria confundida com neblina comum, ou um descuido no jutsu criado por eles próprios, mas o fez de forma gradual e lenta, até o momento em que a visibilidade era tão pouca que os sentidos estavam afetados. Mas ela sabia onde sua irmã estava, sabia como salvá-la.
Sua pedra não a limitava mais, seu corpo era livre para libertar todo o seu poder. Conseguiu imobilizar os guardas da jaula silenciosamente e quando moldou fogo nas mãos o suficiente para derreter as barras, sentia todo o poder contido vindo à tona... Então era aquilo que seu pai lhe dizia quando queria que sentisse a profundidade de sua força... Nayuri dormia, completamente vencida pelo cansaço, não havia tempo para explicações. Assim como ela também tinha esse ponto fraco, desejou que em mais esta coisa fossem iguais. Ao tocar a pequena pedra pendurada no pescoço desta, a reação foi imediata: despertou por completo, já com um soco encaixado, que foi parado por Kushina a tempo.
- Nayuri, sou eu, Kushina... Acalme-se.
- Nee-san? Mas como...?
- Me perdoe por ter demorado tanto... Mas não há tempo... Acorde as outras o mais silenciosamente que puder, e me aguarde.
- Aonde vai?
- Buscar um amigo.
Mas não foi tão fácil. Ao retirar o corpo de Ryeko, um dos ninjas notou movimentação estranha e deu o alerta. Kunais com tarjas explosivas voaram na direção da carroça, que se despedaçou, o corpo de Ryeko jogado longe. Kushina não pensou mais nele, apenas nas que ainda estavam vivas, que poderiam ser salvas. Correu até sua irmã e estava prestes a carregá-la quando notou que ela mesma já trazia duas das mulheres nos braços. Afinal ela também era uma shinobi e seu pai disse que tinha crescido muito. Entendeu o que ele quis dizer quando mencionou que ela teria orgulho da pequena princesa de anos atrás.
Kushina pegou as outras duas e desapareceram, o mais rápido que puderam, mas a avançada foi intensa e cruel. Vários jutsus de água lançados na direção delas, alguns katons derrubando a floresta à frente... Eles não estavam mais se importando em mantê-las vivas, afinal, mataram vários companheiros ali. Kushina estava próxima do lugar que queria, precisavam agüentar mais um pouco.
- Vamos Nayuri, não diminua o ritmo, estamos quase lá!
- Aonde vamos
- Espero, quando eu der o sinal, solte as meninas.
- Soltar?
- Sim, simplesmente largue. Elas ficarão bem, eu prometo.
Kushina não pôde ver, mas os olhos de sua irmã brilhavam... Ali estava seu exemplo lutando bravamente ao lado dela, como tantas vezes sonharam. A batalha tinha honra, calor e Nayuri, mesmo nova, não importava se encontraria a morte ali, era seu sonho se realizando.
Ao aproximarem-se de um desfiladeiro, uma fenda discreta mostrou-se antes.
- Nayuri, solte-as e fique com elas!
- Não nee-san, vou lutar com você!
- Não há necessidade de lutar, vê onde estamos?
Então ela viu. Estavam no esconderijo mais bem protegido da família. Uma barreira tão impenetrável que nenhum inimigo, vivo ou morto jamais conseguiu transpassar. Ela revelado apenas para chakra único que corria na veia daquela família.
- Nayuri, escute-me bem, vou dar tempo para vocês entrarem, mas não importa o que escutar, não volte. Você me entendeu?
Nayuri viu o semblante da irmã tão sério, mas que ainda mantinha um ar dócil para com ela. A menina sabia o que ela estava preste a fazer.
- Nee-san... Por que demorou tanto?
- Agora você tem um sobrinho lindo para tomar conta, assim como eu fiz com você. Perdoe-me por ter demorado tanto.
As vestes de líder esvoaçavam com o vento intenso, nunca Kushina pareceu tanto senhora de si mesma como naquela situação.
- Sua pedra... Onde está?
- Com meu filho... Ele precisará no dia que for reconstruir nosso país.
- Seu filho...
- O nome dele é Naruto. Agora vá minha querida. Tenha em sua mente e em seu coração quanto a quis. Ah, uma coisa... Quando for seguro, volte e dê um enterro digno para nossos pais, faça isto por mim, é a última coisa que te peço para fazer em meu lugar, agora vá, por favor, eles estão perigosamente perto.
A menina apenas assentiu com a cabeça. Várias vezes olhou para trás e não esqueceria dela, em seu manto branco com o símbolo orgulhoso estampado às costas. A força dela... A coragem... A presença em sua vida... O amor que sentia por ela... Tudo estava sendo retirado de uma vez. Mas ela era sua nee-san... Sua líder... E obedeceria a sua última ordem sem retrucar.
Na escuridão da fenda, o esconderijo revelou-se perturbadoramente acolhedor, escondendo a realidade que as cercava. Acomodou as mulheres que ainda estavam inconscientes... Foram tão machucadas que perderam a consciência, ainda levariam tempo para acordar. Em seu peito o adeus àquela que amou como irmã e mãe feria, amargurava e maculava.
Do lado de fora, os últimos pensamentos de Kushina foram o filho e Minato.
"Espero que saibam o quanto os amei. E o quanto poderia tê-los amado, se tudo fosse diferente."
Num estrondo os cabelos vermelhos eriçaram e a pele escureceu. Estava liberta a corrente de chakra oculto. Numa das mãos o chakra comum modelava-se de maneira circular, com intensas chamas em seu interior, na outra, um chakra negro em forma crepitante e disforme era conduzido por raios de barulho ensurdecedor. O poder era tão grande, que Kushina não tinha mais noção daquilo que fazia. Treinou junto com ele aquele golpe, mas não estava acabado. E sabia o que aconteceria a seguir, mas levaria consigo o maior número de shinobis que pudesse, protegeria sua irmã, como prometera a seu pai. Esperou a reunião do maior número deles em torno de si, era muitos, mais de cem. As manifestações de chakra pequenas não os intimidavam.
- Se entregue e teremos clemência, sua morte será menos dolorosa.
- Me entregar? Quem disse que isto vai acontecer? — o sorriso zombeteiro dela estava carregado de ódio.
- E quem você pensa que vai machucar com essas bolinhas de chakra?
- Não vou machucar... E também não são bolinhas de chakra...
O volume das duas manifestações cresceu e cresceu e a luz era tão forte, tão intensa de um lado, contrapondo à escuridão que estava no outro. A pele dela descamava, como uma pele trocando de cobra, mas na verdade estava desfazendo. Os shinobis olhavam assustados para aquilo e não conseguiram evitar o temor perante aquele chakra terrível. Queria escapar, mas Kushina sabia que não seriam rápidos o suficiente. Atrás de si tinha o desfiladeiro e à sua frente aquela legião de ninjas. Reunindo todas as suas forças, forçou as mãos a se encontrarem, formando uma gigantesca massa de chakra, agora tão disforme quanto à negra, e emergindo uma malevolência indescritível.
"Espero que isso dê certo"
- Rasengan!
(Essa parte da fic é narrada pelo Minato-sama)
- Está certo disto meu filho?
- Sim Sarutobi-sama... Já está feita a primeira parte do selamento, agora estou indo até à Kyuubi, vou terminar este assunto hoje.
- Foi uma honra lutar ao seu lado.
Os dois homens, de idades tão diferentes, abraçaram-se como antigos companheiros. O mais velho sentia uma admiração pelo mais novo... Naquele momento, se é que ainda tinha qualquer dúvida sobre isto, sentiu que sua escolha para um sucessor não poderia ter sido mais acertada.
- Vá em paz, com a certeza de que cumpriu o papel para o qual foi escolhido.
- A honra foi toda minha, Sarutobi-sama. Por favor... Cuide de Naruto...
- Você tem a minha palavra.
Minato pegou sua capa de Hokage, pregado estava um novo símbolo, que Sarutobi desconhecia.
- O que é isto?
- Lutarei com a parte que me sobrou de Kushina. Esse é o símbolo da família dela e é pelo sangue deles que esta Vila será salva... No fim, Konoha terá um destino menos cruel. Travar minha última batalha sob o símbolo deste clã me fará sentir o calor da minha mulher... Quando o final estiver próximo.
- Então vá... Esta é uma luta que você deve fazer sozinho.
- Sim... Obrigado por tudo... Sarutobi-sama, posso pedir-lhe um último favor?
- Não hesite.
- Neste pergaminho estão todas as informações necessárias para localizar um lugar em especial... Certamente não poderão entrar, mas ainda assim, queria que me deixassem repousar por lá.
- E que lugar é esse? — Disse o homem pegando o pergaminho.
- O lugar preferido dela em todo o mundo.
Notas finais
Boa semana para vocês!
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