Lilium
1 Lilium
Notas iniciais
2005. Noite chuvosa. A campainha toca.
Ele atende a porta, ninguém está lá. Só o vento gélido seguido de gotas esvoaçantes no ar. Ele se vira para fechar a porta, irritado. Antes, porém, escuta um som. Um choro agudo. Procura o som em meio aos trovões e o chuá da água batendo na grama e no asfalto. Indentifica-o. Vem de baixo, do tapete encharcado de boas vindas.
— Mas quem...?
Era um cesto. Não um cesto comum. Um cesto com uma... uma criança! "Como alguém pôde fazer isso com esta criança? Quem pôde ter tamanha crueldade?!" Pensava, enquanto pegava o cesto e levava para dentro de sua grande sala de estar. Pegou uma toalha. Enxugou a criança. Tinha cabelos cor de rosa e um enfeite nos cabelos. Enfeite? Ele achou que era. Tentou tirá-lo para secar os cabelos ralos da garotinha. Não saíram. Ela gritou.
— Mas que raio é isso?! — Exclamou assustado ao perceber que aquilo era parte de sua cabeça. Ossos. Pareciam orelhas de gato. Mas eram ossos! Quem era aquela criança? — Você tá doentinha, moça? Vem aqui. Vou cuidar de você... Misaki.
— Nyah! — O bebê se comunicava com esse som, parecia contente de estar nos braços dele... de Seiji.
Após secar Misaki, alimentá-la, Seiji foi niná-la. Cantava:
— Oh, quam sancta, Quam serena, Quam benigna, Quam amoena, Oh, castitatis lilium.
Essa música fazia parte de sua infância, pois seus pais eram muito religiosos. E foi a única música que ele pensou que poderia fazer a pequena garota de cabelos rosas adormecer.
Após fazê-la dormir, Seiji sentou-se à escrivaninha. Em meio a muitas teclas, com sua rápida escrita, pesquisou sobre as características de Misaki. Queria saber qual era o nome de sua deformidade, ou deficiência. Passou a madrugada toda pesquisando, revezando entre olhar para a tela clara de seu computador e acalentar a garota, que acordava com muita frequência.
— Diclonius. "Os Diclonius são uma espécie recentemente evoluída, descendente dos humanos. Os Dicornius se parecem muito com humanos comuns, porém, possuem algumas diferenças: Um par de pequenos chifres em suas cabeças, olhos e cabelos avermelhados/rosados, conseguem sentir a presença de outros de sua espécie e possuem uma glândula pineal de tamanho exagerado. Devido à mutação nesta glândula, tem poderes telecinéticos; desenvolvem estruturas de natureza desconhecida em seus corpos, que agem como braços muito poderosos e fortes, denominados vetores. Esses vetores tem capacidade de explodir uma cabeça humana e desviar tiros." Não há dúvidas... Misaki é um deles! Eu preciso fazer algo... Mas... mas por que trouxeram-na até mim?!
Seis da manhã. O telefone toca.
— Salve a garota! Salve a garota! — Uma voz rouca, desesperada, diz ao telefone. Em seguida, desliga.
— O que eu faço agora...?
Anos se passaram. Misaki tinha três anos de idade quando aconteceu pela primeira vez. Uma geladeira. Derrubada. Uma cozinha destruída.
— O que aconteceu aqui, pelos céus?! — Seiji olha para Misaki, no meio dos móveis espatifados por todo o cômodo. — Misaki! Você está bem?! O que aconteceu?! Vem aqui com o Senpai! — Não se conformava com a ideia de ser pai. Senpai parecia um termo mais adequado.
— Nyah! — Misaki não aprendera a falar ainda.
Ao pular os móveis e eletrodomésticos, indo em direção à garota, sente algo em volta de seu pescoço. Uma força o levanta.
— Mi...sa...ki... — Sussurrava enquanto empalidecia por asfixia — Sou... eu... o Senpai... Mi... Misa... Misaki! — Conseguiu gritar por fim, caindo no chão bruscamente. — Aconteceu! Essa não! Os vetores... Será que vou precisar... Não... Não posso... — aproximava-se da garota de cabelos rosas para levantá-la no colo — Eu te amo, Misaki! Te amo! — Ergueu a garota em seus braços e abraçou-na com força. Ela parecia tentar retribuir o abraço.
— Nyah! Nyah! Nyah! — Dizia isso sempre que estava tranquila ou feliz.
Mais sete anos se passaram. Seiji a ensinara muitas coisas. Depois de passar os últimos dez anos pesquisando sobre a "raça" de Misaki, sabia que cedo ou tarde teria de deixá-la partir. Não era nada fácil cuidar de uma criança mutante. Foi com dez anos que Misaki finalmente perguntou:
— Senpai... por que eu tenho orelhas assim? Ninguém tem orelhas assim. Você não tem. As meninas de escola não tem. Minhas professoras também não...
— Você é especial, meu Lírio — chamava-na assim, por causa da música que sempre cantava a ela toda noite antes de dormir, Lilium.
— Por que ninguém quer chegar perto de mim, Senpai? Por que todo mundo tem medo de mim? Por que você sempre tem que ir na minha escola? E por que eu quase nunca vou pra lá?
— Misaki... você... você é diferente de todos. Você é especial, meu lírio! Você... você... não é como nós.
— Como assim?
— É difícil explicar.
Seiji novamente começou a ser erguido pelo pescoço por alguma força muito grande. Isso acontecia com uma certa frequência. Mas ele sempre ficava apavorado.
— Misaki! Misaki! Mi...mi... — caiu.
— Senpai! — colocou as duas mãos na frente da boca, em espanto — Por que isso acontece com todo mundo?! Isso não é normal, é?! Por que isso acontece com tantas pessoas?! Minha professora... As meninas e os meninos da minha escola. E... por que... nunca aconteceu... comigo? — Abrandou sua voz enquanto proclamava a última pergunta.
— Misaki... Quem faz isso... é você.
— Como assim?!
— Existe uma força em você. Um poder muito forte. Por você ser... diferente! Chamam-se... vetores. Quando você fica frustrada, eles agem por você. Eles descontam sua raiva.
— Eu não quero isso, Senpai! Não quero! — Misaki desandou a chorar. Lágrimas gordas molhavam seu rosto enquanto ela abraçava Seiji.
— Não se preocupe, meu Lírio. Senpai está aqui.
Mais cinco anos se passaram. 2020. Foi a primeira vez que ela descobriu... que não estava só.
— Senpai! — Misaki gritava em agonia, enquanto se jogava no chão, sentindo fortes dores de cabeça. — Senpai! Socorro! Tá doendo muito!
Seiji corre até a sala, onde encontra Misaki deitada no chão, curvada, rolando, com suas mãos na cabeça.
— Misaki! O que está acontecendo?! Misaki! Misaki!
Seiji tenta aproximar-se, mas é lançado para longe, contra a parede, derrubando um grande quadro.
— Senpai! Faz parar! Por favor!
— Misaki! Misaki!
De repente, a porta da entrada se abre. Uma garota de cabelos rosados surge, com seus cabelos esvoaçando pelo ar. A dor de Misaki cessa no mesmo instante.
— Você. — a garota diz, séria, com seus olhos cor de rosa fixos em Misaki.
— Você... você... é... você é como eu?! Seus cabelos... seus olhos... suas orelhas... sua força!
— Você é uma de nós. Precisa vir comigo. Agora.
— Não! Eu não posso!
— Quem é esse com você?!
Seiji olhava para as duas, mas na verdade, não ouvia nada. Elas se comunicavam por telepatia. A única coisa que percebia era a troca de olhares.
— Ele... ele é meu Senpai.
— Seu o quê?! Eu vou me livrar agora desse humano imprestável! Você não sabe o mal que essa raça nos causa?
— Mal?! Ele cuidou de mim por todos esses anos!
— Ele vai usar você. Vai fazer pesquisas com você. Te torturar. Acabar com sua vida... se você não acabar com a dele primeiro.
— Eu não vou fazer isso! — Misaki gritou. Foi a primeira frase da conversa que Seiji pôde ouvir, o fazendo pular de susto.
— Misaki... fazer o quê?
— Você não vai fazer? Então faço eu!
Seiji começou a sentir a asfixia novamente, dessa vez de forma muito mais intensa. Como se a qualquer segundo sua cabeça fosse explodir.
— Eu não sou um deles! Nunca serei! — Misaki gritou.
— Você... você... não pode... negar... suas... raízes... — disse, à beira de sua morte.
— Eu... eu... eu não quero ser um deles! — Gritava cada vez mais alto. Correu até ele, em pranto.
Neste momento, sangue voou para todo lado. Uma explosão, uma carnificina contra uma pessoa só.
— Misaki! — Um berro estridente ecoou por toda a casa.
Caiu. As paredes estavam infestadas pela cor de escarlate, como se quisessem fazer parte da decoração. Uma decoração mortal.
— Misaki...
— Eu... eu... — repetia vez após vez, inconformada, com os olhos marejados. Fora a primeira vez que domou seus vetores. Fora a primeira vez que usou a força deles contra alguém. Permanentemente.
Seiji olhou para o corpo decapitado, estirado entre a sala e a varanda. Abraçou sua filha, que tremia e chorava. Cantou para ela novamente sua canção. Dessa vez com um verso a mais:
— "Kyrie, ignis divine, eleison. Oh, quam sancta, Quam serena, Quam benigna, Quam amoena, Oh, castitatis lilium"
"Ó senhor, fogo divino, tenha piedade.
Ó, quão santa
Quão serena
Quão generosa
Quão agradável
Ó, lírio de castidade"
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