Lilian
1 Andarilho Erradio
— Acorda, seu vagabundo!- berrou uma voz estridente acompanhada de um chute bem no estômago de Cam que o fez redecorar o carpete onde estava caído com o seu jantar. Depois de despejar toda a sua última refeição, se levantou cambaleante e encarou a figura gorda e cabeluda na sua frente.
— Saia já do meu estabelecimento!- vociferou novamente o homem baixo e balofo apontando a saída do local que o ex- estudante da Sword and Cross deduziu ser um bar.
— Já estou saindo, velho- praguejou o menino.
A luz alaranjada da manhã cegou Cameron ao sair do antro de bebida. Aos tropeços- e as vezes esbarrões em pessoas da rua- ele finalmente chegou ao prédio caindo aos pedaços onde estava hospedado no Rio de Janeiro. Abriu a porta de seu quarto mofento e mau cheiroso, e desmaiou mais uma vez na cama dura como pedra.
Solitário.
Era assim que o demônio se sentia desde que Lucinda e Daniel haviam se tornado humanos. Ele tinha se afastado dos anjos, não havia mais motivo que o prendesse a eles.
A Queda o tornara um andarilho sem rumo, sem objetivo, e agora mais ainda. Caminhava entre as cidades, dormia em hotéis baratos e bordéis, as vezes com mulheres, as vezes não.
Os caminhos de sua eternidade o tinham levado à Cidade Maravilhosa. Já havia estado lá antes com Daniel e Lucinda em uma de suas muitas vidas passadas, não lembrando muito bem em que época por sua dilacerante dor de cabeça diária. Era assim que havia estado nos últimos dois meses: sempre de ressaca e com raiva de tudo e de todos.
Duas semanas haviam passado desde que havia chegado na cidade dos carnavais. Numa noite, decidiu ir a uma boate — estava cansado dos bares que frequentava.
Era final de junho, o frio da noite congelava sua respiração enquanto caminhava em direção à casa de dança. Dentro dela, as luzes neon o cegavam. As dançarinas se remexiam no palco ao som da música. Na pista de dança, jovens usavam a tinta neon pintada em seus rostos para serem vistos na luz escura.
Meninas pegaram os braços de Cam logo que entrou. “Devem trabalhar aqui”, deduziu enquanto passavam a tinta em seu rosto e na parte nua de seus braços. Logo depois, ele foi jogado na pista de dança. As batidas da música estremeciam em seu peito enquanto caminhava entre os corpos dançantes. Uma menina dançava perto do anjo caído e o seu olhar fixou no rosto dele parcialmente amostra graças a tinta. O dela também não estava muito claro, mas ele percebeu que ela era linda e algo estava o chamando para ela. Os dois se aproximaram e dançaram juntos, as mãos entrelaçadas e os corpos a centímetros um do outro. A batida tomou conta deles e quando o menino se deu conta, já estava a beijando. A boca da menina era macia e seus lábios encaixaram-se perfeitamente aos dela. Seus corpos se fixaram um no outro e as mãos dela se entrelaçaram nos cabelos negros do menino. Ele se sentiu vivo como não acontecia há muito tempo, nem quando dormia com as mulheres nos bordéis tinha se sentido daquele modo. O anjo caído passou os lábios no pescoço dela e sentiu um cheiro delicioso e convidativo, um cheiro que não sentia desde que...
Cam se afastou da garota e olhou em seu rosto mais atenciosamente.
Não, não podia ser. Ele encarava sua ex-noiva: Lilith.
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