Lilian
2 A menina de cabelos negros
Notas iniciais
Cam soltou abruptamente a menina e ela o encarou confusa. “Não acredito”, pensou, enquanto fitava boquiaberto sua ex-noiva, a menina que o abandonou há séculos atrás e destruiu seu coração, que o fez renegar aos céus e se transformar em um demônio, e que agora estava na sua frente o encarando com aqueles olhos castanhos desconfiados. Ele agarrou seus ombros e fitou o fundo de seus olhos.
— Por que está aqui, Lilith? Por que depois de tanto tempo?
— O quê?- perguntou a menina confusa.
— O que está fazendo aqui?- insistiu Cameron.
— Me larga!- gritou tirando as mãos do menino de seus ombros. — Eu não te conheço.
O demônio ficou mais confuso que antes. Então, ela não se lembrava dele. Uma onda de decepção invadiu seu peito.
— Não se lembra de mim, Lilith?- sua voz carregava a tristeza de uma vida.
— Eu não sou essa Lilith!- ela se virou e correu para a multidão.
— Como assim não era Lilith?
O demônio correu para alcançá-la. Fora da boate o céu estava totalmente decorado de estrelas. Os cabelos negros da menina esvoaçavam como uma nevoa negra cortando a noite. Ele agarrou seu braço e virou-a. Os dois se encararam por alguns segundos, tempo suficiente para Cam relembrar as feições pelas quais se apaixonou a tanto tempo atrás: os mesmos olhos grandes castanhos, as mesmas bochechas rosadas, a mesma boca com lábios carnudos que tantas vezes beijou. Lembrava de seu sabor todos os dias e os cabelos longos e negros macios como plumas.
De repente, uma voz atrás dele o tirou de seu devaneio.
— Lilian! Já temos que ir.
— Já estou indo.- respondeu a menina, que agora Cameron sabia se chamar Lilian.
Ela passou por ele, deixando seu delicioso cheiro tão familiar.
O menino estava sem fôlego. Era como se seu coração estivesse testando sua resistência em uma corrida. Observou Lilian ir embora e decidiu segui-la. A única coisa que sabia era seu nome, ele não poderia perder a chance de encontrá-la novamente.
As meninas seguiram por 4 quadras até chegarem em um conjunto de casas parecidas. A amiga de Lilian entrou em uma casa verde ao lado da casa branca de madeira que ela entrou.
Ao andar de volta para casa, ele estava totalmente confuso. Ela dissera que não era Lilith e que não o conhecia, como isso era possível? Em todo esse tempo ele nunca esquecera seu rosto, o conhecia tão bem quanto o próprio, tinha certeza que era ela. Subitamente, um pensamento passou por sua cabeça: e se ela fosse a reencarnação de Lilith, assim como Lucinda, e não lembrava-se dele por isso? Fazia todo o sentido. Um brilho de esperança tocou em seu coração.
No dia seguinte, o demônio se viu parado em frente a casa branca de madeira como um fantasma aguardando uma chance de voltar a vida . Quando já estava perdendo as esperanças, Lilian apareceu com um vestido simples rosado e com cabelos negros amarrados em um rabo de cavalo. O coração de Cam bateu 3 vezes mais rápido que o normal. Quando o viu ela se assustou. Ele andou em sua direção.
— Olá. Me desculpe aparecer assim de repente. Queria me desculpar pelo modo como agi ontem, posso lhe assegurar que sou muito mais charmoso que aquilo. Meu nome é Cameron, muito prazer. — estendeu a mão.
— Meu nome é Lilian. — apertaram as mãos.Ela o fitava ainda desconfiada e receosa.- Ontem você falou comigo como se me conhecesse.
— É, eu confundi você com outra menina bonita, me des...
— É porque eu acho que também conheço você.- ela o interrompeu num sussurro. O coração dele acelerou mais uma vez.- Você me parece familiar…- Ela chegou mais perto dele, o suficiente para ele conseguir sentir seu cheiro novamente. — Ah, me desculpe.
— Tudo bem.- ele deu um meio sorriso que a deixou vermelha.
— Eu… estava saindo agora para ir em uma cafeteria. Quer vir comigo?
— Com muito prazer.
O céu estava sem nuvens e azul como o mar. O vento acariciava seus rostos como uma brisa acalentadora.
— Então, você mora aqui a muito tempo?
— Sim, sempre gostamos de morar perto da praia.-respondeu Lilian.
— Você sempre gostou do mar, pelo menos da praia e do vento, porque no mar mesmo mal entrava…
— Como você sabe disso?- a menina parou e o fitou um pouco assustada.
— Ah, é que… Você tem cara de quem é assim.- Cam seguiu andando para desviar daquele assunto. Ele não queria assustá-la.
Ao chegarem na cafeteria escolheram uma mesa perto da janela que dava vista para as montanhas e para o mar.
— Vai querer o quê?
— O que você pedir.- disse o menino mal vendo a garçonete, pois não conseguia desviar os olhos de Lilian.- Você sempre vem aqui?
— Desde que meu pai morreu. Sempre viemos juntos. Eu nunca vim com mais ninguém aqui.
— Sinta-se honrada de ter minha presença, então.- disse o demônio com um sorriso zombateiro.
— Mas como você é abusado. Se eu soubesse que você era assim não o teria beijado.
— Tem certeza?- ele deu um meio sorriso que deixou as bochechas da menina rosadas novamente. Cam sempre conseguira deixá-la sem graça.
— Agora, falando sobre você, o que é essa tatuagem atrás do seu pescoço?
— Ah sim. É um sol.
— Negro?
Ele deu de ombros.
— Cada um com seus traumas.
A garçonete trouxe os capuccinos.
— Ela parece estar interessada em você- disse Lilian.
— Quem?
— A garçonete. Não vai me dizer que não notou.
— Nem a vi para falar a verdade, estava muito ocupado admirando uma menina linda que tem na minha frente.
— Ah, até parece.- ela riu.
Cam e Lilian conversaram até o crepúsculo chegar nas montanhas. Cada vez que ela sorria o coração dele dava cambalhotas, isso o fazia lembrar de todos os motivos que o fizera se apaixonar por ela há séculos atrás e que agora retornavam com toda a força.
— Nossa eu nem percebi o tempo passar, minha mãe deve estar preocupada comigo.- disse a menina.
— Eu a levo pra casa.- ele pagou a conta e a acompanhou de volta a casa branca de madeira.
— Eu adorei a tarde.- disse a menina no portão de sua casa.
— Podemos repetir a dose quando quiser.
— Humm… que tal amanhã a noite? Poderíamos jantar.
— Perfeito.
A menina deu um leve beijo no rosto de Cam e entrou na sua casa. Essa foi a primeira vez desde que tornou-se um demônio que o menino de olhos verdes desejou ser um anjo novamente.
O vento noturno do Rio fazia Lilian tremer de frio.
— Pegue meu casaco.- Cam colocou o casaco sobre ombros da menina delicadamente.
— Obrigada.
— Vamos entrar no restaurante antes que congelamos.
O restaurante que escolhera para levar Lilian era simples, mas tinha o melhor jantar do Rio de Janeiro, na opinião dele.
A garçonete se aproximou da mesa.
— Qual o seu pedido?- ela tinha uma voz conhecida. Quando o menino viu seu rosto…
— Ariane?!
— Oiiii, seu diabinho!- festejou a ex-colega de sanatório de Cam.- Vejo que os antigos pombinhos estão fazendo as pazes.
— Com licença, Lilian. Preciso ter uma conversa com a garçonete.
Ele puxou a menina para um canto do restaurante onde era mais reservado.
— O que você está fazendo aqui, Ariane?
— Trabalhando, não sabe o que é isso?
— Eu quis dizer no Rio. Como veio parar aqui?
— Eu que te pergunto, e ainda mais com Lilith. Ah meu querido Cameron, não sabia que gostava tanto assim de sofrer. — disse a menina com um olhar de falsa pena e uma mão pousada sobre o ombro do rapaz.
— Ah cala boca, Ariane.- Cam tirou a mão dela de seu ombro.- Não é bem assim.- ele explicou para ela sobre como conhecera Lilian e que ela não lembrava dele.
— Hummmm, então ela é a ressurreição da sua ex-namorada?
— Bom, pelo menos eu acredito que seja.
Ariane o encarou reflexiva.
— Olha, eu vou te dar um conselho. Não sei quem ela é, mas se eu fosse você teria cuidado. Ouvi uns boatos de que os párias ainda não desistiram de ir para o céu ou para o inferno e você sabe tanto quanto eu que eles fariam de tudo para serem aceitos tanto em um quanto em outro. E agora que Lucinda está fora de alcance e achamos que a reencarnação da descendente de uma das rainhas do submundo está andando por ai, sugiro que você tenha cuidado se não quiser perdê-la novamente. Mas agora vou indo. Pegue- Ariane estendeu um cartão para ele.- Aqui está meu número.
Ao chegar no quarto onde dormia, depois de ter deixado Lilian na sua casa de madeira com promessa de vê-la no dia seguinte, Cam não parou de pensar no que Ariane dissera. Lilith por quem ele se apaixonara há séculos atrás era de fato descendente de Lilith, rainha do submundo. Será que agora que não tinham mais Lucinda como passagem para o céu, iriam atrás de Lilian para ter sua passagem para o inferno?
A preocupação não o deixou dormir. Maldita Ariane. Tinha que dizer isso para ele logo quando ele mesmo não tinha certeza de quem Lilian era e deixá-lo mais preocupado ainda? Mas era o feitio do anjo. No final das contas, concluiu que isso não fazia sentido. Se nem mesmo ele que fora seu noivo sabia da volta dela, como os párias saberiam?
As nuvens estavam carregadas no dia seguinte enquanto o menino fazia o caminho para a casa de Lilian. A brisa fria entrava pela roupa do demônio. Quando estava perto, notou algo estranho: a porta da frente de sua casa estava escancarada e o portão derrubado.
— Não!
O menino correu para dentro da casa de madeira. A sala estava revirada, as portas dos quartos abertas.
— Lilian!- gritou o menino desesperado.- Lilian!- Cam seguiu para os fundos da casa. Ao chegar na porta que dava para o jardim, notou uma figura estranha, esguia, de costas com as mãos para trás e o rosto virado para o céu.
— Olá, Cameron Briel.- a voz que vinha da figura era suave.
— Quem é você?
A figura virou-se de frente para ele. Seus olhos eram totalmente brancos, como tempestades.
— Não lembra de mim, meu caro amigo?- disse o pária.
Fale com o autor