Like a Vampire 4: Endgame Volume 2
2 Capítulo 1- De volta ao lar
Narração Daayene
Enfiei minhas mãos nos bolsos da minha roupa, com a mínima tentativa de me aquecer.
Alguns flocos de neve haviam caído no meu cabelo, mas eu não me atrevi em sair do meu calor pra poder limpar.
Sentada dentro de uma cafeteria isolada, mesmo sem comer nada, era o máximo de conforto que eu havia tido em semanas.
A garçonete passou me encarando pela vigésima vez, e eu desviei o olhar pra evitar o questionamento sobre se eu REALMENTE não queria nada.
Resolvi focar minha atenção na TV no alto da parede, focando o máximo possível na reportagem nacional sobre comemorações de ano novo.
O suspiro que saiu de mim foi acidental.
Trinta e um de dezembro. Significando quase exatamente quatro meses da minha fuga da fortaleza.
Não haviam sido meus melhores dias. Magia de névoa vermelha e fogo só me ajudavam até um certo nível.
Além disso, voltar ao mundo humano havia se provado bem mais complicado que parecia. Mais discrição, claro. Mas eu quase havia me esquecido que alguns não-mágicos conseguiam ser tão cruéis quanto os mágicos.
Percebendo que aquela cafeteria estava só me humilhando mais do que ajudando, resolvi que ia sair pra caminhar.
Talvez não fosse lá a melhor ideia, considerando a neve. Mas eu passava mais despercebida se só me vissem de passagem na rua.
A praça mais próxima ainda estava decorada por causa do natal. Crianças encapadas da cabeça aos pés em lã e outros tecidos quentes brincavam num parquinho.
Deixei um sorriso pequeno escapar.
Me apoiei na vidraça de uma loja, como se isso fosse me dar qualquer tipo de apoio.
As pessoas mal olhavam pra mim enquanto passavam. E pessoas demais passavam, se isso fazia diferença.
Apesar de ainda não ser noite, eu apostava que os preparativos pra virada do ano haviam começado.
Fiz uma pequena careta quando uma brisa especialmente fria me atingiu.
—Moça?- Uma criança puxou meu casaco pra baixo com fraqueza, mas o suficiente pra me chamar a atenção.
Fiquei automaticamente preocupada:
—Você se perdeu dos seus pais?
O menino tinha o cabelo castanho claro perfeitamente cortado e os olhos bem azuis e grandes. Usava uma roupa toda verde musgo.
Bem feia, na verdade. Que pai em sã consciência veste o filho assim?
O menino negou com a cabeça.
—Eu só queria saber se você era uma bruxa.
Quase engasguei na saliva.
—Hã. O que?- Me senti obrigada a perguntar.
—É que eu nunca vi ninguém com o olho vermelho que nem o seu, né.- S criança deu uma pequena risada.
—Ah.- Concordei, e tentei pensar na coisa mais rápida possível.- É que, sabe, eu tenho uma coisa que chama albinismo. É quando… é… Normalmente as pessoas tem uma substância que traz mais "cor" pra pessoa. Eu não tenho.
Explicação 10/10. Íncrivel como sempre, Daayene Hudison.
A criança não pareceu nada convencida.
—Mas a sua pele não é branca que nem giz!
Bem, isso era um fato inegável.
—Não precisa ficar com vergonha de falar que é bruxa. Eu não conto pra ninguém.- Ele fez um beicinho, me puxando.
—…Cadê seus pais, garoto?- Comecei a ficar realmente preocupada.
—Patrick!- Uma mulher desengonçadamente veio até mim- Desculpe, senhora. Esse menino é curioso e incontrolável. Espero que não tenha te incomodado.
Eu tentei sorrir de forma simpática.
—Mas mãe…- A criança olhou pra senhora de forma quase triste.
—Mas nada. Deixa a moça em paz!- Ela então olhou pra mim.- Muito obrigada por ficar de olho nele, Senhorita…
—Hudison.- Completei.
—Hudison. Hm. Esse nome não me é estranho.
Com certeza não.
—Deve ser uma coincidência.- Sorri- Eu não moro aqui.
A moça não questionou mais nada, e foi embora puxando o menino pelo braço e falando algo sobre não incomodar mais pessoas desconhecidas.
Bem, devia ensinar ele a não se aproximar de desconhecidos. Em geral.
Por algum motivo, me senti incomodada com as palavras do menino. Eu claramente era mágica, e isso era indiscútivel.
Mas nos últimos anos eu nunca havia sido chamada de bruxa. Parecia quase pejorativo.
No mundo mágico, o termo correto é profeta. E antes disso, minhas pequenas previsões e sonhos realistas apenas me traziam um apelido de sensitiva.
Mas acredito eu que poderia sim ser chamada de bruxa. Por mais que esse nome soe quase como uma ofensa á quem foi criado que nem eu.
Pigarreei, tentando não me prender muito nisso.
Desapoiei meu pé da parede, me virando pra ir embora. Até que consegui ver meu reflexo no vidro da loja.
Por algum motivo, eu estava… normal. Estava de volta ao peso saudável, e minha pele estava bronzeada e brilhante. Meus olhos castanhos claros basicamente cintilavam.
O meu cabelo castanho estava bem preso por algumas presilhas brilhantes, porém bem cuidado. E a roupa.
Ao invés dos claros trapos que eu usara nos últimos cinco meses, estava com um vestido rosa, com um corpete cheio de glitter.
Minhas pernas e meus braços ficavam desvergonhosamente expostos naquele traje.
Até jurei sentir o gosto de gloss de morango que eu usava na boca.
Franzi o cenho.
Aquilo definitivamente não era minha aparência.
Quase como se eu tentasse tirar um pano por cima do reflexo de verdade, toquei na vidraça.
Um brilho me envolveu, e todos ao meu redor sumiram.
A imagem que eu vi era cercada de energia vermelha. Forte. Quase como se eu não fosse permitida de me aproximar.
Uma figura sombreada. Claramente uma silhueta feminina. Eu não conseguia ver quem era, mas emanava poder puro.
Ela parecia flutuar, já que suas pernas estavam basicamente levantadas, e seus braços estavam estendidos na altura dos ombros.
Era divina.
Mas desapareceu tão rápido quando veio, e quase num flashe eu estava caída na calçada.
—Senhorita?- Um homem mais velho se virou pra mim.- Precisa de ajuda?
Me levantei, totalmente envergonhada.
—Tô bem, obrigada.
—Uma menina bonita dessas não devia estar na rua nesse estado.- O velho se apoiou na bengala- Você precisa de abrigo? Comida.
Engoli em seco.
—Não sou uma mendiga.
—Onde estão seus pais? Você nem parece ser maior de idade.
—Tenho 19 anos.
As respostas vinham rápido demais á minha língua. Uma sensação de desespero me bateu quando o velho deu um passo á frente.
Era familiar demais. A situação.
—Tem certeza que não precisa de ajuda? Eu posso te levar a igreja…- O velho insistiu.
—Estou bem, obrigada!- Falei rápido demais.
Senti meu braço queimar. Minha marca de profeta.
As pontas dos meus dedos chegavam a pinicar, e eu quase sentia energia saindo das minhas unhas.
Enrolei minhas mãos na parte aberta da capa, fingindo estar fechando.
Quando ele insinuou se aproximar mais, eu fiz a coisa mais sensata possível.
Eu corri. E nem olhei pra trás.
Me escondi num beco, como se aquilo fosse ser capaz de me proteger. Cheguei a ficar sem folêgo.
Eu parecia estar mais perto do centro da cidade, considerando a aglomeração de pessoas num dos parques.
Me apoiei num muro, tentando respirar fundo.
—O que aconteceu?- Ouvi uma voz feminina.
Quase respondi, mas aí entendi que ela não estava falando comigo?
—Um anúncio oficial do governo!- Outra mulher falou- Todas os canais estão transmitindo a mesma mensagem!
Cerrei o cenho, ficando curiosa.
Discretamente, desci uma rua mais escura e isolada, e pulei a cerca de uma casa que estava com as janelas abertas.
Me prendi com as mãos no apoio da janela, tremendo pra conseguir me levantar apenas o necessário.
Meus olhos conseguiram ficar bem na beirada, o suficiente pra que eu pudesse ver a TV ligada da sala sem atrapalhar a família reunida.
Tremendo um pouco, aproveitei que a música do plantão ainda tocava pra produzir energia vermelha nas minhas mãos.
Não era lá a alternativa mais discreta, mas me prendeu de forma mais segura na parede.
Assoprei o cabelo da cara e basicamente levantei a orelha pra poder ouvir e escutar bem o suficiente.
Uma figura que eu não conhecia apareceu na tela. Parecia ter na faixa dos quarenta anos, mas estava bem preservado. Usava um terno chique e rico, e o cabelo era castanho escuro bem penteado.
Ele também tinha um cavanhaque bem feito no rosto. Mas não é a questão.
—Prezados telespectadores.- Ele emitiu um sorriso.- Sei que são momentos díficeis e de dor pra muitos. Mas a notícia que trago pode alegrar os corações de vocês.
Fiz uma expressão confusa.
—Em momentos de tensão me afastei do cargo que tenho nesse país. Porém não iremos mais fugir, e iremos enfrentar nossas batalhas frente a frente.
Foquei pra deixar minha magia um pouco mais forte.
—E quero apresentar pra vocês o homem que vai nos ajudar a passar por essa crise.
A câmera saiu do enquadramento focado apenas no homem, para também mostrar outro rapaz sentado ao seu lado.
Um estranhamente familiar.
Seu cabelo era um loiro bem claro e batia no ombro, mas seus traços eram fortes. Devia ter no máximo 35 anos. Usava um óculos quadrado e tinha os olhos amendoados.
—Doutor Tougo Sakamaki.- O primeiro homem exclamou- Amigo meu de longa data e profissional de políticas!
Quase caí pra trás
—Agradeço a introdução.- Tougo pigarreou. Eu reconheci aquela voz, imediatamente- As coisas mudarão daqui pra frente, Japão. Eu e meu amigo Hirashi Masa faremos tudo que for preciso para retomar nosso país aos seus dias de glória.
Merda.
Merda.
—Nesse momento vocês poderão encontrar pelas ruas… acontecimentos estranhos. Inexplicáveis, mágicos.- Tougo começou.- Mas é apenas passageiro. São apenas as necessidades que temos para lidar com as inconveniências. Mas nada que devam se preocupar.
—Um movimento rebelde anda ganhando força a oeste do país. Apesar de pequeno e irrelevante, pedimos pra que permaneçam alertas. Desconfiem dos que se dizem estrangeiros.- Hiroshi continuou- Caso vejam comportamentos suspeitos, a polícia já foi treinada para as medidas necessárias.
Franzi o cenho.
—Com alguns dos rebeldes anti-democratas sendo reconhecidos, suas famílias passarão por questionários. O necessário para que se provem se não estão de acordo com as ideias totalitárias de seus parentes e que não são uma ameaça pra segurança geral.
Dessa vez eu tremi.
—Caso o contrário seja provado, as providências necessárias serão tomadas.- Hiroshi deu mais um sorriso- Desde então, apenas fiquem alertas porém sem pânico, pois não a nada a se preocupar.
Com delicadeza, me soltei da parede e flutuei até o chão pra fazer o mínimo de barulho.
Me senti tentada a sentar no chão. Meu estômago estava embrulhando.
O que diabos havia acontecido enquanto eu estava fora?
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