Like a Vampire 4: Endgame Volume 2

3 Capítulo 2- A nova rebelião


Narração Eliza

Um caos completo.

Essas seriam as três palavras que eu usaria pra descrever os últimos meses, pelo menos.

A poucos anos atrás, eu nunca acharia mesmo que estaria na situação que estou hoje.

Mas cá estou eu, na sacada do meu quarto, com a roupa totalmente suja de sangue e caída no chão.

Se isso era possível, eu havia conseguido piorar nos últimos meses. O médico vinha uma vez por semana. Antes havia até falado sobre eu parecia estar melhorado.

Mencionou que eu parecia mais viva. Mais forte. E aí eu voltei a estaca negativa nos próximos três meses.

Eu havia tentado negar isso pra mim mesma, mas eu tinha quase certeza que minha melhora tinha algo haver com a… com a…

A coisa.

O que quer que tenha saído de mim do dia que eu ajudei Daayene a fugir.

Mas esses dois segredos nem haviam sido a parte mais díficil. Eu estava bem que acostumada a esconder coisas da minha família.

Mas não posso dizer o mesmo do resto da patrulha.

A tensão entre minhas irmãs e as Hudison havia se dissipado. Quer dizer, mais ou menos. Mas depois que Daayene fugiu, passamos semanas procurando ela.

Enviamos guardas e representantes em vários reinos. Cousie pareceu bem preocupada, considerando que ela havia literalmente pedido pra menina ser enviada aos profetas.

Mas foi Priya, Brunna e Anna que chegaram a decisão de parar as buscas.

Daayene não teve funeral. Acho que a maior parte ainda tinha fé sobre ela estar viva.

Mas uma coisa era bem certa. Se ela estiver viva, era óbvio que não queria ser achada.

E as três foram maduras o suficiente pra respeitar isso. E eu respeitei elas bastante depois disso.

Não significava que era fácil. Mal consigo pensar no que eu faria no lugar delas. E não conseguiria deixar de notar como elas pareciam bem mais deprimidas.

Isso não mudou até hoje.

Também respeitei mais os Mukami depois do sumiço de Daayene. Eles ficaram balançados, é claro. Mas haviam sido rochas pra apoiar as outras meninas.

Levei um susto quando Mun derrubou Ayato no chão com a espada, fazendo um barulhão.

A garota estava se adaptando bem na fortaleza. Claro, ela era uma criança, então se pensaria que ela odiaria ficar lá. Mas considerando o tanto que treinava por dia, o fato que ele havia descoberto todas as passagens do castelo e como parecia se divertir, eu diria que ela estava gostando.

Subaru e Kanato comemoraram do banco de madeira. Shu não poderia se importar menos.

Bem, pelo menos alguma família estava feliz.

Me apoiei nas barras da sacada, bem disposta a me levantar mesmo com as pernas tremendo.

Meu vestido batia pouco acima das panturrilhas, felizmente. Seria uma tragédia eu tropeçar em mim mesma e voltar pro chão.

Meio trêmula, comecei a andar pelo corredor me apoiando na parede. Quando cheguei a escada, tive que ir me segurando no corrimão.

—Então, vocês tem certeza que é esse o número?- Ouvi a voz de Kino lá debaixo.

—Se eu tivesse que adivinhar pelas vinte vezes que elas responderam, eu diria que sim.- Reijii retrucou.

Travei um pouco nos últimos degraus.

Haruka foi a primeira a notar minha presença, e ela já pareceu pronta pra se levantar e me ajudar quando eu consegui descer o resto da escada.

Isso não pareceu relaxar ela.

—Como se eu precisasse de mais essa preocupação.- Nikki respirou fundo- O Jackson deu resposta sobre a busca dele?

—Deu.- Sofie confirmou- Voltou até na cidade dos nossos avôs. Nadica de nada.

Victoria respirou fundo, parecendo estar a beira de um colapso.

—Imagino que isso inclua até onde eles trabalham?- Laito tentou acalmar as seis garotas.

—Sim.- Sarah confirmou, com uma expressão derrotada- Ele falou que vai sair hoje de noite com alguns dos colegas lobinhos dele pra procurarem mais.

—Eu só não sei onde.- Lua mordeu a bochecha.

—Victoria e Reijii, vocês tem certeza absoluta que não sabem de algum lugar pra onde Heisuke pode ter sido levado?- Haruka voltou sua atenção ao grupo- Algum lugar seguro que seus pais conhecessem.

Victoria estava quase imobilizada, pálida. Parecia querer chorar.

—Não.- Reijii respondeu, quando ficou claro que a menina não ia responder- Não existe nenhum lugar assim. Disso eu tenho certeza absoluta.

—Eu posso tentar localizar o telefone deles.- Kino respirou fundo- Mas não é nenhuma garantia. Já fazem alguns meses, então o telefone pode ter muito bem descarregado.

—Sabemos disso.- Marie suspirou, sendo prontamente abraçada por Laito.- Por favor, Kino. Só tenta.

—É claro que vou tentar.

—Eu de verdade não sei o que pode se tornar esse lugar com mais essa perda.- Victoria finalmente falou alguma coisa.

Aí eu percebi que estava parada observando a conversa alheia e resolvi tentar ir pra porta, meio manca.

—Vai dar tudo certo, Vic.- Marie apertou o ombro da irmã, uma tentativa de sorriso reconfortante- Vamos achar nossos pais. E Heisuke. E Daayene. Vai dar tudo certo.

Nesse ponto da história, eu tenho minhas dúvidas.

—É bom dar mesmo.- Victoria cruzou os braços- Porque se não der, eu não sei o que fazer.

—…Eu posso chamar a Brunna. Podemos vasculhar os reinos mágicos por cima.- Sofie sugeriu.

—Por favor, Sofie. Brunna não está nem perto da capacidade psicológica e emocional pra ir numa missão dessas.- Nikki retrucou.

—Eu estava falando sobre procurar a Daayene também.

—Não. Eu vou com você.- Victoria se levantou e pigarreou- Eu estava bem ansiosa pra você me ensinar a montar no meu drakon também. E precisamos de toda a ajuda necessária.

—Isso não é perigoso?- Reijii questionou.- Victoria, você não anda muito bem esses dias. Talvez possa descansar um pouco…

—Eu não me incomodo de ir com a Sofie.- Sarah deu de ombros.

—Eu até iria. Mas tenho medo de altura.- Lua comentou.

Victoria massageou o rosto e sorriu de leve:

—Olha, obrigada a todo mundo. Sei que isso é preocupação comigo. Mas eu sei que consigo. Eu preciso fazer alguma coisa boa.

—Se precisarem de uma mãozinha, estou disposta.- Haruka se ofereceu.

—Eu também.- Marie concordou.

—Você não.- Laito repreendeu.- Ainda está de repouso.

—Eu estou de repouso a cinco meses!- Marie brigou.

—Um pouco mais, se contar a…- Sarah se cortou no meio da fala- Não. Nada. Deixa pra lá. Esquece do que eu falei.

—Então Jackson vai procurar com os lobisomens, Kino vai tentar rastrear o telefone, eu e Vic vamos por drakon…- Sofie foi listando- A gente pode tentar pedir ajuda pros…

—Herbert.- Sarah completou- Pra família de mamãe, quer dizer. Pelo menos eles podem buscar nos outros reinos de forma segura.

—Vou pedir pra Carla pedir pros guardas do Reino Demônio fazerem uma busca por lá também.- Haruka reafirmou.

Quando eu percebi que realmente eu não faria diferença naquela conversa, me deixei sair da sala.

A neve havia dado uma estiada. Era bom, as últimas semanas haviam sido tão frias que eu mal conseguia sair da cama.

Não que isso fosse muito diferente dos outros dias que eu estava mal, mas enfim.

A sala do trono estava fechada. Como havia estado nos últimos meses. Cousie havia se recusado a aceitar muitas visitas de lordes.

Carla costumava comandar essa parte agora, apesar de estar doente.

Bem ao lado da sala do trono, pude ver aberto o pequeno puxadinho de pedra que era o santuário.

Nada demais, só uma igrejinha bem humilde e pequena que o Ruki teve a ideia de construir pras Hudison depois que a Daayene… "sumiu".

Foi bem gentil da parte da minhã irmã deixar elas rezarem, pelo menos. Yui também vivia lá, o que era bom.

Era um lugar silencioso. Se você estava lá, ninguém ousava te incomodar. Queria eu poder ter uma religião, só pra eu ficar em paz com alguma desculpa.

Eu saltei quando senti duas mãos nos meus ombros.

—Bu!

Soltei um pequeno guincho, e quase caí no chão.

Consegui me virae, dando de cara com o meu queridíssimo namorado.

—Que cara é essa? Parece que viu um fantasma!

—Eu já te falei que não tem graça esse tipo de brincadeira!

—E eu perderia a chance de te deixar vermelha e nervosa?- Shin riu, debochado- Se você soubesse quão atraente fica, meu am…

Dei um tapa no ombro dele.

—Ai! Então pra isso você tem energia?

—Fica quieto!

—Você não falou isso noite passada.- Shin riu da minha expressão- Ein, ein?

—Por que você é assim?- Massageei meu rosto.

—Porque se nós dois fôssemos fofos e delicados que nem você nosso relacionamento não funcionaria.- Ele justificou rapidamente.

—O que você quer?- Perguntei.

—Como assim?

—Você tá com cara de quem vai pedir um favor pra mim.

—Eu?- Shin se fingiu de indignado- Que isso! Nunca, nunquinha.

O encarei.

—Não é bem um favor. É só…- Shin olhou ao redor.- Vem aqui. Comigo.

Deixei ele me puxar pra dentro da floresta nevada. Ele deveria querer privacidade.

Paramos num pequeno lago congelado, onde havia um toco de madeira que servia de banco.

As árvores da floresta eram de tronco branco e folhas avermelhadas. Algumas rosas azuis de inverno nasciam nuns arbustos.

—Por que me trouxe aqui?- Eu já ia me sentando no tronco, mas Shin me impediu pra colocar sua capa vermelha nos meus ombros.

—Achei esse lugar sua cara.- Shin apontou pra um dos troncos que tinha buracos que pareciam formar um rosto.- Entendeu?

—Não foi uma boa piada.- Respondi, meio sorrindo.

—Ah, qual é. Eu queria te ver sorrindo.- Ele bagunçou meu cabelo- Por que tá deprimida?

—Hã… eu estar doente com pessoas da patrulha sumindo não é o suficiente?- Questionei, quase ironicamente.

—Sim, mas não era disso que eu tava falando e você sabe.

Ele se sentou no chão mesmo, aos meus pés. Apoiou o rosto nos meus joelhos.

—É sobre a Daayene?- Ele insistiu.

—Também.- Admiti- Mas não só isso. É díficil guardar uma coisa dessas pra mim. Quer dizer, você também sabe mas…

Respirei fundo:

—O que vai ser de mim se minhas irmãs descobrirem?

—Elas nunca fariam mal pra você.

—Talvez não como a irmã leal. Mas já sabemos como elas gostam de tratar impostores e traidores.

—Ei. Você fez a coisa certa.- Shin me encarou com seu olho dourado.- E não foi fácil. Eu sei que não.

—Eu queria poder falar pras Hudison também, sabe?- Continuei- Falar "ei, eu salvei sua irmã pra ela não morrer.". Mas isso não seria dar falsa esperança? Eu realmente não sei pra onde Daay foi depois daquele dia. Isso não é mentira.

Shin deu de ombros.

—Eliza, você é boa. Provavelmente a mais boa que sobrou da nossa família.- Shin falou de forma sincera- Não precisa se chicotear questionando cada movimento contrário ás suas irmãs.

—Eu sei, só que… acho que tô tão acostumada em seguir elas. Sabe, a Cousie como rainha. A Haruka como a inteligente. E eu a leal, amiga. Sempre fui eu.

Shin riu.

—…O que foi?- Me assustei.

—Eliza, por favor, para de fingir que você é uma santa que sempre seguiu as regras.- Ele sorriu- Você sabe muito bem que eu sei que isso é mentira!

Fiquei vermelha quando notei do que ele estava falando:

—Isso não conta. Eu era jovem e idiota.

—Ah, então você só se apaixonou por mim por ser jovem idiota? Eu não sei se considero isso uma crítica a mim ou um insulto a você!

—Por que seria um insulto a mim?

—Porque você ainda está apaixonada por mim, então…

—Ai. Nem sei por que eu ainda te escuto.

—Porque você ainda tem a falsa esperança que eu falo alguma coisa que presta.

Concordei com a cabeça.

—Ei! Era pra você ter me refutado!- Shin fingiu estar com raiva.

—Meu senhor. Como você é chato.

Ficamos um tempo em silêncio, só aproveitando a companhia um do outro.

Eu acabei deixando meus dedos deslizarem pelas madeixas de Shin, mesmo sem pensar muito.

—É um lugar bonito.- Shin comentou- Pra um casamento.

Arqueei uma sobrancelha pra ele.

Shin pareceu notar e gesticulou pro ambiente ao nosso redor.

—Isso eu entendi. Mas por que isso do nada?

—Sei lá.- Shin suspirou- Se eu nunca vou poder me casar com você, que eu pelo menos fantasie sobre isso.

—Então você quer casar comigo?- Brinquei.

—Estávamos noivos até meses atrás.- Shin revirou os olhos- Meu irmão e sua irmã que resolveram só ignorar tudo como se você já estivesse…

—Morta. É. Eu sei.- Fiz uma careta.

—O que não faz sentido nenhum. Porque Carla estava doente a mais tempo.- Shin continuou- E casou com a Cousie de qualquer jeito. E eles nem se amam!

—Você não sabe disso!- Defendi.

—Eliza, qualquer um que tenha visão sabe disso. E se eu com um olho tenho certeza, imagina quem tem dois!

—…Talvez.- Respirei fundo- Mas você não acha que existe nem esperança pra eles?

—Do jeito que estão? Nem ferrando. Eles mal se dão a chance de se conhecerem direito. Agora querem fazer a mesma coisa com a Haruka e o Marko.

—Marko parece um cara legal.- Admiti.

—Parece mesmo. Mas aí que tá. Pessoas legais sendo jogadas em relacionamentos forçados. Só dá ruim. Traz o pior dos dois. Melhor ficar solteiro.

—Nisso a gente concorda. Bons relacionamentros trazem o melhor um do outro.

Shin me olhou com o olho brilhante.

—É por isso que você tem que ficar forte.- Shin segurou minha mão- Pra gente superar sua doença juntos. Pra gente se casar, e provar que todo mundo tava errado. E a gente pode até treinar esses seus poder…

Fiquei com raiva.

—Ah não. De novo esse assunto não.- Cruzei os braços- Foi pra isso que me trouxe aqui?

—Respondendo sua pergunta: Não.- Shin saiu das minhas pernas- Segundo: Eliza, eu entendo e respeito você não querer falar sobre isso. Mas em algum momento você vai ter que encarar a verdade! E eu estou tentando te ajudar!

—Eu já passei bons anos e isso nunca me incomodou, vou sobreviver!- Me levantei bruscamente. Ignorei que fiquei meio tonta.

—Eliza, por favor!- Shin se levantou ao meu lado- Você é poderosa! É especial! Na verdade sempre foi, e essa é a prova definitiva disso! Você tem alguma coisa transbordando em você, uma magia. Não pode ignorar isso pra sempre!

—Shin, eu agradeço de verdade sua preocupação.- Respirei fundo- Mas o quer que essa… coisa dourada tenha pra me trazer, não acho que é coisa boa. Se fosse, por que não apareceu quando eu era criança? Por que agora?

—Elizabeth, você nunca só pode mudar sua aparência!- Senti raiva do nome- Isso foi só o que estavam dispostos a treinar em você! Porque era mais simples! E agora eu estou disposto a entender o que você é de verdade. Sem ter alguém no meio pra ditar.

—Eu preferia só poder mudar minha aparência. Era mais fácil.- Respondi- Eu já perdi a consciência quando eu fico com o olho dourado, Shin. Eu não sei do que eu sou capaz, e eu prefiro não saber.

—Então você não vai nem tentar?- Shin me pressionou.

—Você e eu sabemos muito bem o que acontece aqui quando alguém dá a mínima pista que vai sair do controle, Shin!- Senti um calor subindo em mim- Foi o que aconteceu com a sua mãe, foi o que aconteceu com o meu irmão! E agora tivemos a Daayene que não teve o mesmo destino POR UM FIO! Você quer que isso aconteça comigo!

—Primeiro, o que aconteceu com a minha mãe foi uma questão de honra.- Shin respirou fundo- Segundo, o seu meio—irmão pagou pelos crimes dele. E a gente já falou sobre isso, a Cousie e a Haruka concordaram nele ser queimado da árvore genealógica. A nossa família não precisa ser a gente.

—Mas ela já é.- Senti vontade de chorar- Você viveu a vida toda sob a sombra do seu irmão, eu mal sei como é ter uma família que me ama. Não desde…

Shin segurou meu rosto com cuidado.

—Eliza. Aquele homem nunca te amou. E ele com certeza não merece ter esse afeto vindo de você. Já conversamos sobre isso.

—Eu sei.- Senti algo queimando meu rosto- Mas eu… eu não consigo. Eu tô tão cansada, Shin. Essa vida não é pra mim.

—Você é forte.- Shin beijou minha mão- Quando tudo isso acabar, a gente vai… sei lá, morar numa cabana no meio da floresta, uma que não seja mágica. Mas até lá, eu preciso que você esteja do meu lado. Preciso que você esteja na sua melhor versão. Eu preciso de você pra gente vencer essa merda.

Limpei o rosto. Um pequeno flashe dourado preencheu meus olhos por breves segundos, e eu por pouco não me senti desmaiar.

—Eu não sei se eu consigo…- Minhas palmas queimavam, e eu jurava que estavam mais amareladas.

—Consegue. Eu sei que consegue.- Shin sorriu- E pra um teste, eu tenho uma investigação pra você. Que nem nos velhos tempos.

Recuei:

—Investigar quem?

—Ah, essa vai ser fácil. É da família. Mas não podemos relaxar, ela é a vossa majestade.

—…Cousie?- Questionei- O que diabos você quer que eu descubra?

—Essa é bem fácil, meu amor. Eu acho que a sua irmã está grávida. E dessa vez, de verdade.