Like a Vampire 4: Endgame Volume 2
5 Capítulo 4- Perdão é o maior tesouro
Narração Priya
Estive exausta pela maior parte dos últimos meses, mas isso não era surpresa pra ninguém.
Já perdi a conta de quantas xícaras de café eu tomei nas últimas noites. Não conseguia dormir e graças a si mesma não tinha mais emprego.
Por isso aproveitava a madrugada pra ler livros teóricos sobre teatro. Pelo menos assim conseguia se distrair.
Mas agora tinha outra distração: procurar uma nova casa.
Nunca havia feito isso. Procurar uma casa. Eu fui da casa dos meus pais, pra da minha tia, pra dos Mukami e pra aqui.
Talvez seja por isso que nunca funcionou. Mensagem divina pra eu tomar as rédeas da minha vida.
Ser uma irmã mais velha de verdade.
Alguém bateu na minha porta.
Nem me preocupei em me ajeitar pra atender. Já estava anoitecendo. Devia ser o caseiro com os papéis que eu pedi.
Essa era a única vantagem de eu ter sido uma quase-mão da rainha. Os trabalhadores da fortaleza até que gostavam de mim.
Abri a porta, e cheguei a revirar os olhos quando tive que olhar pra cima pra ver a cara do rapaz.
—O que você tá fazendo aqui, Yuma?
—Eu não posso mais falar com você?
Bufei. Estava era com vontade de fechar a porta na cara dele.
Yuma não tinha noção nenhuma de timing.
—Eu tô trabalhando.- Respondi.
Yuma por algum motivo teve a capacidade de entender isso como um "Entre, por favor.".
—Qual parte do…- Bufei alto- Esquece. O que foi dessa vez?
—Meu deus, que bagunça.- Yuma remexeu na sua cama- Sabia que existe mesa pra essas coisas?
Revirei os olhos.
Yuma estava jogando pra um lado todos seus pápeis soltos e livros. Ele parou quando viu seus rabiscos de "BUFFET PRA CASAMENTO: SEI LÁ O RUKI FAZ", mas em geral ignorou.
—Yuma.- Respirei fundo- Por favor, são tipo, oito da noite. Pode só pegar o que quer e voltar pro seu quarto?
—Priya. Nós dois sabemos o que eu quero.- Yuma nem a encarou direito.- A diferença é que eu tenho coragem de admitir.
—Ai, Yuma. Me poupe, né?!- Me estressei- Se eu preciso te lembrar, você que começou com o drama de "ai não conte pra ninguém sobre o nosso beijo". E agora você fica me tratando como se eu fosse a grande vilã por…
—Eu só não queria machucar os sentimentos da Victoria!- Yuma me interrompeu.
—Para com isso! Yuma, você não precisa ficar bancando o cavaleiro de armadura brilhante! Nem pra mim, nem pra Victoria!- Briguei- Agradeço sua preocupação, mas nós duas somos bem capazes de lidar com nossos sentimentos!
Yuma pareceu irritado.
—E sinceramente, você me enchendo o saco pra eu falar sobre "os meus sentimentos" me deixa com ainda menos vontade de ter qualquer tipo de relacionamento contigo.
—Priya, por quanto tempo você vai ficar fugindo de mim?- Yuma se sentou na cama- Tipo, a gente mora na mesma casa. Não tem como se esconder por muito tempo.
—A menor das minhas prioridades, pra ser sincera.- Me sentei no meu lugar de antes, encarando todos os trilhões de papéis soltos.
Até ideias de vestido de casamento tinha.
Mas tudo parecia muito mais bagunçado com Yuma por perto.
—Yuma. Me escuta.- Respirei fundo.- Foi só um beijo. Um beijo bom, se isso te interessa. Mas ainda assim só um beijo. Assim como outros vários que já tivemos e teremos. E é só isso. Nós dois sabemos que não significou nada.
—Significou pra mim.- Yuma retrucou.
—Porque você está sensibilizado. Pensa em tudo que te aconteceu: largou a Vic, depois descobriu sobre o seu passado…- O encarei- Nós dois tivemos tempos díficeis, e isso faz você querer se apegar a mim.
—Isso não é…
—É verdade, sim. Pode doer, mas é.- Respondi- Você não gosta de mim. Só quer acreditar que gosta.
Yuma estalou a língua:
—Agora eu entendi.
—Yuma…
—O problema não sou eu, Priya, você que não aceita suas próprias emoções.
—Yuma, você tá literalmente exagerando tanto…- Massageei minhas têmporas.
—Você gosta de se bancar de durona, disso eu sempre soube.- Yuma revirou os olhos- Mas que você gosta de se fingir de sem coração é novidade.
—O quê?!- Arregalei os olhos.
—Talvez seja por isso que você foi a grande escolhida pra ser o braço direito de uma rainha igualmente ruim.- Yuma se levantou bruscamente.- Você só fica com as pessoas até elas atrapalharem seus planos.
—Se por planos você quer dizer encontrar e proteger minhas irmãs, então sim.- Engoli em seco- Mas eu não preciso de você pra me falar isso, Yuma. Eu tenho consciência dos meus defeitos. Diferente de você, aparentemente.
—Você não pode falar de mim.
—Ah, então é assim? Você entra no meu quarto, me cobra de uma merda que não é responsabilidade minha, me xinga e eu não posso me proteger nem revidar?- Me levantei, encarando ele de baixo- Eu posso até ser meio sem coração Yuma, mas eu não sou seu saco de pancadas.
Yuma me encarou, parecendo num misto de raiva com algo mais.
—Vai embora do meu quarto. Agora.- Pedi.
Ou melhor, mandei.
—Bem, eu já tinha acabado mesmo.- Yuma grunhiu- Mas você não pode esquecer do que eu falei, viu? Você sabe no fundo que é verdade.
—E você sabe que eu não te devo satisfação sobre isso.- Fui até a porta e a abri.- Agora, com licença.
Yuma bufou e passou pela porta. Fiquei na moldura, esperando vê-lo passando pelo corredor.
—Opa!- Ouvi uma voz um pouco mais fina que a de Yuma, mas definitivamente masculina- Srta.Hudison! Que surpresa, e Sr…
Encarei Marko da frente da minha porta, fechando em instinto meu casaco.
—Mukami.- Yuma respondeu de mal grado.
—Ah, sim, claro. Desculpe, não quis interromper nada.- Marko pigarreou, e estendeu pra mim o que parecia um buquê de tulipas- Isso é pra você. Ou pra suas irmãs, caso não goste de tulipas.
—Ah, agradecida.- Peguei o buquê das mãos dele- Não se incomode, não estava interrompendo nada. O Mukami já estava indo embora.
Encarei Yuma, que ainda estava parado me olhando:
—Claro. Estava.
Ele soltou um grunhido e foi embora.
—Família do noivo da sua irmã?- Marko questionou.
—Algo assim.- Sorri- Posso ajudar em alguma coisa? Não estava esperando visitas.
—Não precisa se preocupar!- Marko pediu.- Eu venho de passagem. Pedi pra Rainha Cousie pra que eu pudesse falar com você primeiro.
Cerrei o cenho:
—E ela deixou? Isso sim é novidade. Ela não costuma gostar da minha família tomar os holofotes.
—Como sabe, eu já tinha mostrado meu… afeto pela senhorita Daayene.- Marko corou levemente.
—Ah. Sim. Isso.- Cerrei os olhos. Faziam tantos meses que eu mal me lembrava.
—Soube que ela sumiu. Fiquei triste. Não só pelos meus interesses, claro. Mas por vocês. E também soube de outras pessoas sumidas. Por isso vim oferecer meus homens e esforços máximos pros desaparecidos.
Sorri de leve:
—É muito gentil da sua parte. Mas eu… eu não sou mais mão da rainha, não precisaria de informar essas coisas pra mim.
—Mas é a mais velha das Hudison. Isso representa algo. Pra mim pelo menos.
Eu não sabia como dar a informação de que Daayene estava sumida a tantos meses que a maior parte da patrulha já havia desistido de esperar seu retorno.
Eu já estava pronta pra fazer um velório a qualquer momento.
—Seria uma honra ajudar sua família a se reunir. A patrulha merece.- Marko sorriu e então pigarreou- Enfim, eu deveria... te deixar, agora. Desculpe qualquer incômodo.
—Claro. Não se preocupe.- Sorri de volta- E não se preocupe com isso.
Ele fez uma breve reverência que eu retribuí antes de sair pelo corredor.
Fechei a porta com a mão desocupada, já deixando as flores em cima da minha mesa de canto.
Suspirei encarando a bagunça que minha cama estava. Tantas coisas pra resolver...
Eu estava prestes a me sentar de novo e voltar ao meu trabalho, quando ouvi uma barulhada do lado de fora.
De forma mais discreta, abri a janela e dobrei um pouco a cortina, bisbilhotando.
Estava escurecendo mais, e o céu estava nublado, a lua mal aparecia.
—Precisam de notícias!- Uma das criadas falou.
—Peçam pra que todos voltem pra dentro, por favor!- Um guarda comandou.
Estava totalmente confusa, antes que eu pudesse ouvir um barulho ensurdecedor de um rugido.
Das nuvens e neblina, duas sombras gigantes surgiram, voando com força o suficiente pra gerar um vento gigante onde eu estava.
Quando a pouca luz da fortaleza foi capaz de iluminar as figuras, eu pude finalmente ver.
Um dos bichos era familiar pra mim: azul claro e azul escuro. Suas penas eram penteadas e quase estampadas no formato de ondas, e algumas penas das orelhas eram prateadas. Em cima dele, Sofie estava montada de forma majestosa, usando roupas próprias de montaria.
O outro era desconhecido ainda. Parecia maior que o outro, e tinha penas totalmente negras. Exceto pelas asas, que tinham um belo degradê de lilás a violeta. E nele, Victoria estava em cima, o cabelo trançado balançando ao vento e usando roupas vermelhas.
As duas pousaram ao mesmo tempo basicamente ao mesmo tempo, e quase instantaneamente as nuvens pareceram se dispersar do céu.
Eu ouvi uma série de arfadas e gritos, vindo provavelmente das criadas e dos soldados.
As duas irmãs se entreolharam do alto, e Sofie pareceu prestes a falar algo.
Fechei a janela e a cortina, pigarreando.
Não era mais da minha conta. Eu precisava voltar a planejar como eu e minhas irmãs saíriamos dali. O mais rápido possível.
Me sentei na cama, a cabeça entre as mãos.
Eu não podia correr o mínimo risco de perder mais alguém. Não sei se aguentaria.
Suspirei.
Enfim, era hora de voltar ao trabalho.
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