Like a Vampire 4: Endgame Volume 2

6 Capítulo 5- A noiva perdida


Narração Brunna

O céu nunca esteve tão azul, tão limpo.

E o chão era praticamente todo coberto de uma grama extremamente verde, quase sem nenhum sinal de neve por perto.

Eu consegui me ver no reflexo de um vidro. O cabelo preso num coque por um diadema prateado. O corpete parecia quase transparente na minha pele, se não fosse por alguns detalhes de flores brancas que me cobriam.

E a saia mal se arrastava no chão, me deixando sentir na pele todas as camadas e camadas de um tecido praticamente translúcio e branco.

Eu devia estar de saltos, pelo leve aperto em meus pés.

Eu também estava com um buquê de rosas azuis em minhas mãos, apertadas e nervosas.

Me assustei que, ao passar o arco branco, meu pai estava me esperando.

Seu cabelo estava mais branco, mas os olhos ainda eram bem azuis como os meus. Ele estava usando um terno de risca de giz azul, como costumava usar pra trabalhar.

Sem nenhuma palavra, ele segurou meu braço e começou a caminhar comigo pelo altar. Uma marcha nupcial que mais parecia uma marcha fúnebre começou a tocar.

Todos os corpos da audiência passaram a se levantar com minha passagem. Alguns rostos eram bem conhecidos, outros nem tanto. Outros quase pareciam vultos de tão borrados.

Mas olhando pra frente eu vi Ruki, lindo como sempre. E seu olhar no meu me deu uma sensação de paz.

Meu passo até ele parecia cada vez mais lento, uma passagem interminável. Mas eu me senti sorrir.

Olhei pro lado e vi minha mãe me olhando, os olhos negros lacrimejando de orgulho e o cabelo da mesma cor preso num coque chique.

Finalmente eu cheguei até Ruki. Ele estendeu sua mão pra mim com um sorriso no rosto.

Meu pai me soltou, e eu estendi meus dedos, pronta pra encostar em sua mão gélida.

Como se ele fosse fumaça, o Mukami desapareceu de repente.

Olhei pros lados, assustada, apenas pra ser encarada com uma multidão de vultos pretos e tortos.

Uma voz grossa e quase diabólica gritou pro universo:

"O que você fez com a Daaye…"

Senti algo preenchendo meus pulmões, uma sensação familiar e dolorosa de quase morte.

Olhando pra frente, totalmente perdida, vi uma figura que não reconheci, e um barulho de arma.

Me encarei, vendo uma mancha de sangue começar a atravessar meu vestido, bem na parte da barriga.

Uma bala havia penetrado o tecido.

Assim que fui soltar um grito de dor, acordei.

Estava suada. Provavelmente pálida e com uma expressão nada amenizadora.

Me sentei na cama, ainda coçando os olhos.

Estava sol lá fora. Já devia ser manhã.

Meu coração estava disparado.

Coloquei a mão no travesseiro do lado, me deparando com o vazio frio.

Olhei de canto: Ruki já havia saído.

Respirei fundo, ainda tentando me acalmar.

Uma batida na porta.

—Pode entrar.- Consegui falar sem ser de forma trêmula.

—Senhorita Hudison.- Uma das criadas entrou- A senhora Creedley mandou te avisar que as encomendas chegaram.

Fiquei confusa:

—Encomendas?

—Sim, senhorita. Você encomendou que trouxessem os melhores vestidos brancos do Reino Humano, correto?

Me senti envergonhada.

—Ah, não os melhores…- Suspirei- Mas obrigada por avisar, vou descer em três minutos!

A criada concordou brevemente com a cabeça e se retirou do quarto.

Encarei o teto de pedra, ainda me recuperando.

Quando consegui ter coragem pra me levantar, senti uma dor aguda na barriga.

Assim que olhei pro lençol branco da cama, me deparei com uma mancha vermelha.

Bufei.

—Pelo menos isso explica o sangue do sonho.

Ainda frustrada, peguei o lençol sujo e fui no banheiro pronta pra começar o dia.

Claro, isso significou eu tomar banho, passar quase duas horas lavando a roupa de cama e escrever meu sonho no meu caderno.

Só mais um dia normal.

Assim que terminei tudo o que eu tinha que fazer, tive que sair correndo.

Eu não estava com muita fome, por isso não me preocupei com comida. Eu podia tomar café mais tarde, e agora eu estava com pressa.

Foi uma criada que me levou até um quarto recheado de cabides e tecidos, até onde eu mal conseguia ver onde as janelas começavam ou terminavam.

Deus que abençoe o tanto de poeira que aquilo ia gerar. Coitadas das criadas.

Tentei arrumar o máximo possível, pendurando alguns dos tecidos cobertos por plásticos nas paredes.

Eu estava ansiosa, percebi. Meu coração estava meio acelerado.

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Um tempo depois, eu já estava dentro de um pequeno provador, ouvindo um falario do lado de fora.

—Ok, pessoal, como irmã mais velha da noiva, eu que mando nas paradas aqui então eu vou explicar como vai rolar.- Ouvi Priya explicando.

—Quem te botou no comando?- Ouvi uma voz mais baixa, provavelmente Marie.

—Eu mesma. De qualquer forma, eu trouxe cartõezinhos de sim e não pra cada uma de vocês. Brunna vai sair com um vestido e cada uma dá a sua opinião.

—Parece simples.- Sofie suspirou de longe.

—E é. Agora que o desfile comece!- Priya bateu palmas, parecendo animada.

Experimentei o primeiro vestido, um que Priya havia separado pra mim antes de geral chegar.

Era branco (obviamente). Totalmente tomara que caia, com um corsete bem justo no meu corpo. A saia tinha várias camadas, sendo bem cheia. E por todo o tecido, haviam detalhes de flores brancas bordadas.

Tive até dificuldade de amarrar o vestido atrás sozinha, mas assim que consegui eu saí do vestiário e fui direto na direção das meninas.

—Ai, que vestido lindo.- Priya choramingou.

—Ele parece meio…- Sofie pensou alto- Apertado?

—É um vestido bonito, mas não sei se valoriza o seu corpo, Bruninha.- Sarah aconselhou.

—Pode admitir que eu sou sem peito, Sarah. Eu sei que é um fato.- Dei de ombros.

—Mas não foi isso que eu quis…- Sarah abriu a boca, envergonhada.

—De qualquer forma, ele não é muito confortável pra dançar.- Tentei balançar meu quadril, tentando provar meu ponto- Enfim, um não de todas?

Todas ergueram uma plaquinha branca escrito não, e eu suspirei antes de ir pro vestiário de novo.

—Eu super usaria aquele vestido.- Priya comentou.

—Ainda bem que esse é o casamento da Brunna e não o seu.- Anna falou baixo, trazendo uma risada de algumas das meninas.

Tirei meu vestido, soltando uma reclamação baixa quando vi que o corsete havia deixado uma marca de aperto em mim.

Quando eu ainda estava de lingerie na frente do espelho, suspirei encarando meu corpo.

Quem diria que achar um vestido de casamento poderia me deixar tão desanimada logo de primeira?

Se o primeiro vestido era decotado, sensual e… um pouco demais, esse era o exato oposto.

Ainda um pouco justo no corpo, ele não tinha decote nenhum na frente, deixando apenas uma parte das minhas costas nua. Ele chegava a escorrer no chão de tão longo, e não tinha nenhum detalhe muito magnífico além de algumas pregas na saia e as mangas longas.

Saí do provador, quase tropeçando no vestido.

As meninas me analisaram em silêncio.

—Eu gostei.- Marie opinou.

—É um pouco…- Priya estava de olhos arregalados.

—Bela, recatada e do lar?- Sarah sugeriu.

—Até demais, eu diria.- Sofie concordou.- Além disso, você quase saiu caindo. Imagina se isso rola, sei lá, na primeira dança. Ou pior, no caminho pro altar.

—Ele parece díficil de tirar.- Anna comentou.

Todas nós encaramos ela de uma vez.

Anna ficou totalmente vermelha:

—O q…quê? Não é como se eles não f…f..fizessem…

—Meu Jesus, eu não quero ouvir os detalhes disso.- Priya interrompeu a nossa irmã mais nova. Então… não?

Todas levantaram a plaquinha de não. Eu bufei antes de ir pro vestiário de novo.

Um tempo se passou com eu olhando as outras opções de vestido.

—Brunna, o vestido tem que ser branco?- Ouvi a voz de Sarah questionando.

—Sarah, não me fala que você quer dar um vestido preto pra menina.- Marie pareceu preocupada.-

—Claro que não!- Sarah pareceu quase ofendida- Mas talvez ela esteja aberta a outros tons: marfim, pérola…

—Pra mim isso tudo é branco.- Priya retrucou.

—Tá explicado por que você nunca foi a irmã fashionista.- Anna murmurou.

Enfiei a cabeça pra fora do vestiário:

—Respondendo a pergunta, eu quero muito um vestido branco. Acho clássico. Atemporal.

—Mesmo com os papos sobre representar a virgindade da noiva?- Sarah questionou.

—Sabia que na verdade o vestido branco se tornou um símbolo de status social?- Sofie falou- Uma rainha usou pela primeira vez a muito tempo e aí virou coisa de rico, porque ninguém ia usar um tecido tão fácil de sujar e díficil de se produzir assim.

—Qual cor as noivas usavam antes?- Priya questionou.

—Vermelho.- Respondi- Mas enfim. Sim. Mesmo sabendo da herança cultural do vestido branco, eu quero usar um.

Sarah deu de ombros:

—Você que manda, big boss.

Entrei de volta no vestiário, me trocando de novo.

O próximo vestido parecia a beira de me fazer hiperventilar. A saia era bem pesada, com bordados de folhas prateadas envolvendo o corsete e descendo até a barra. Apesar disso, ele tinha a gola e as mangas longas num tecido translúcido, deixando um pouco da minha pele á mostra.

Tentei tirar meu cabelo da gola, mas não tive muito sucesso nessa parte.

Era um vestido bem bonito, sem dúvidas. Mas parecia… sei lá. Estranho.

Fui até as garotas.

—Isso parece um pouco mais agradável.- Sofie sorriu em aprovação.- Como se sente?

—Normal?- Sugeri.

—Nossa, isso não parece nada animador.- Priya pareceu meio frustrada.

—Olha, eu nunca casei então pode ser só um chute… mas as moças do reality fazem o "vestido ideal" parecer bem mais emocionante.- Sarah comentou.

—Eu tô com calor, também.- Respondi.

—Calor do tipo "meu deus, que emoção e adrenalina" ou "socorro, alguém me tira daqui"?- Anna perguntou.

Estalei os lábios:

—Já entendi. Vocês não gostaram.

—Brunna, você que tem que gostar e ter certeza das coisas. A gente só tá aqui pra te impedir de usar uma fantasia de flamingo caso surte.- Marie respondeu.

Dei um pequeno sorriso fraco, indo até o vestiário de novo.

Maravilha. Eu já estava ficando ansiosa de novo. E tremendo.

E eu nem estava nos 10% da organização do casamento.

Assim que eu estava tirando o vestido, ouvi Sarah perguntar:

—Brunna, você não chamou o resto das meninas?

Respirei fundo. Eu já devia esperar essa pergunta:

—A Vic preferiu ficar cuidando de outras coisas do casório. As Creedley não achei de bom tom convidar. Sol e Yui estão na investigação com os meninos, e a Nikki e a Lua…- Suspirei- Eu tentei convidar elas, mas aí a Nikki me olhou com essa cara de "não se atreva" e eu perdi a coragem de chegar perto.

As meninas pareceram meio silenciosas com a minha declaração.

Era desnecessário dizer que o clima na patrulha não estava dos melhores, especialmente quando se tratava de mim e das minhas irmãs.

Por isso a gente ia embora logo, logo.

E talvez os últimos momentos que tivemos foi organizando alguns detalhes do meu casamento.

Casamento esse que talvez ninguém vá.

Fiquei meio melancólica com o pensamento.

Eu não sabia porque Nikki e Lua pareciam ter tanta raiva de mim. De verdade.

E foi nisso que eu pensei ao fechar o outro vestido.

Esse era mais curto que os outros, deixando meus tornozelos á mostra. Ele também tinha mangas curtas de renda, além de uma saia mais rodada e um corpete praticamente todo rendado.

Saí do vestiário, dando uma voltinha.

Os olhos de Anna brilharam:

—Você parece uma princesa da Disney.

—Por que você não foca em um estilo de roupa ao invés de atirar pra todos os lados?- Priya questionou.

—Porque… porque eu não sei o que eu quero.- Admiti rapidamente.

—Brunna, ninguém vai sentir rancor de você por escolher um vestido feio.- Sarah retrucou- Não se você gostar.

—É.- Sofie respondeu- De verdade, parece que você está medindo numa balança o quanto a gente vai gostar das suas escolhas.

Bem. Não era lá uma mentira.

—Eu só quero que seja perfeito.- Respondi- Se meu casamento não for bom o suficiente pra fazer a gente se distrair pelo menos por algumas horas de… de tudo que tá rolando…

—Brunna. É o seu casamento. Se a gente não gostar, que se dane.- Priya consolou- É só um dia.

Não era só um dia.

—Você deve só estar estressada por causa do planejamento. Sabe, a Vic ficou assim por semanas também e ela nem estava tão envolvida em tudo.- Marie tentou me acalmar.- Imagina você que não tem ajuda de um puta rei nem nada. Tá pagando isso do seu próprio bolso.

—Do bolso do Ruki, você quis dizer.- A corrigi.

—Ah, tanto faz. Daqui a pouco até conta bancária de vocês vai ser conjunta.- Sofie sorriu- Brunna. Respira. E escolhe um vestido que você gosta.

Concordei com a cabeça e fui calmamente até o vestiário.

Experimentei mais uns dois vestidos de lá sem sair do lugar. Não estava certo.

Esse que eu usava agora era cheio de camadas na saia, mas bem mais leve. As mangas eram finas, e o decote era bem avantajado. Apesar disso, tinha diversas flores brancas cobrindo o corpete e descendo pela saia.

Era… bonito.

Não espetacular. Mas era bonito.

Olhei o corpete desse vestido e dobrei o de mangas translúcidas, deixando apenas a saia exposta.

Coloquei a barra do outro vestido na minha frente no espelho, estranhando ter gostado do resultado.

—Pessoal.- Chamei- Tenho uma ideia.

Deveriam ter sido uma hora e alguma coisa de busca. Mas como nada move o mundo mais do que uma noiva desesperada, 5 meninas determinadas e muita gritaria, conseguimos.

Esse vestido que eu usava agora tinha realmente uma manga fina. O corpete era bem decotado, e cheio de renda branca. A cintura era bem definida pela saia, mais pesada e cheia, porém rodada o suficiente pra eu caminhar em paz.

Eu me senti estranha nele. Um estranha bom.

Me senti bem. Bonita. Não que os outros vestidos não fossem bonitos. Mas esse ficava bem… em mim.

Passei bons minutos me analisando no espelho.

Eu nunca acreditei muito em existir um vestido ideal pra cada noiva. Mas eu me senti sorrir com aquela roupa.

Saí do vestiário, bem orgulhosa de mim mesma.

—Então?- Sorri.

—O jeito que você parece até mais feliz nesse vestido…- Marie se impressionou.

—Linda. Graciosa. Única. Fenomenal. Incomparável. Esbelta…- Sarah cantarolava.

—Acho que ela já entendeu, Sah.- Sofie riu.- Brunna, como se sente?

—Me sinto…bem.- Peguei o tecido entre os dedos- É leve. Dá pra dançar. E é bonito.

—Como se qualquer vestido fosse ficar feio em vocé, irmã.- Priya comentou. Eu revirei os olhos- É sério! Pergunta pro Ruki.

—Muito engraçado.- Ri de leve.- Bem, agora eu acho que vou tirar o vestido pra poder empacot…

—Ah, finalmente te achei, amor. Aqui, você por acaso não vi…- Eu congelei quando ouvi a voz de Ruki, a porta abrindo.

—AI MEU DEUS! Ruki, o que você tá fazendo aqui?- Meu coração acelerou.

Priya tacou um tecido qualquer em cima de mim, e Ruki entrou totalmente no quarto, parecendo confuso:

—Eu tava… te procurando? A gente tem que decidir umas coisas da comida juntos e…

—Meu Deus, Ruki! Vai embora, vai embora, vai embora, vai embora!- Eu comecei a entrar em desespero- Não sabia que o noivo ver a noiva de vestido antes do casamento dá 100 anos de azar?!

—Não…?- Ruki pareceu legitamente confuso.

—Brunna, se acalma.- Sofie se levantou, ajeitando o tecido em cima de mim.

—Ruki, tem como você esperar um pouco pra falar sobre comida?- Anna encarou o cunhado.

Ele suspirou:

—Claro. E peço perdão, meu amor.

E assim ele saiu.

Eu percebi que estava suando.

—Brunna, se acalma. É só uma tradição idiota.- Priya retrucou.

—Não é uma tradição idiota!- Retruquei.- Você não sabe se dá azar mesmo ou não!

—De todas as coisas que eu esperava de você, supersticiosa não é uma delas.- Marie comentou- Tem certeza que tá tudo bem?

Respirei fundo:

—Claro. Estou bem. Otimamente ótima.

—Pelo lado positivo, ele não chegou a ver seu vestido de verdade.- Sarah tentou me consolar.

Meu coração estava absurdamente acelerado:

—Claro. Só a saia e uma parte da manga.

—Continua não sendo o vestido inteiro!- Sarah fez uma dancinha da vitória.

—Eu vou trocar de roupa antes que mais alguma tragédia aconteça.- Bufei.- Priya, empacota pra mim?

Priya concordou com a cabeça.

Quando eu estava colocando minha blusa e minha calça no vestiário, minha irmã mais velha entrou.

—Só vim buscar o vestido- Priya avisou.

—Tudo bem. Aqui, aproveitando que está aqui…- Sussurrei- Eu estava pensando em chamar a Sofie pra ser madrinha.

—Ah. Claro!- Priya pareceu confusa- Por que tá me perguntando?

—Eu achei que você devia saber…- Comecei.- Ah e eu também tavapensandoemchamarnossatia.

—Oi?- Priya estava com o vestido na mão.- Não entendi o que você falou.

—Eu…- Respirei fundo- Olha, Priya, foi só uma ideia que eu tive, mas… eu gostaria de ter nossa tia comigo no dia do meu casamento.

Priya arregalou os olhos.

—Só durante a cerimônia.- Eu respondi- Já estaremos longe da fortalza e da guerra, então não precisaríamos nos preocupar. E… eu acho que ela merece saber sobre a Daayene.

O olhar de Priya se encontrou ao meu pelo espelho. Ela pigarreou:

—É o seu casamento, Brunna. Você que sabe.

—Mas você e a Anna são minha família também.- Respirei fundo- É só que… como nem os pais do Ruki nem os nossos poderiam vir… Seria legal ter a Tia Yoko. Sei lá.

—Bem, não posso dizer que eu concordo totalmente.- Ela engoliu em seco- Mas você que decide e eu respeito. Eu tenho… coisas mais importantes pra decidir.

Concordei fracamente com a cabeça, e Priya saiu com um sorriso fraco.

Respirei fundo ao ajeitar meu cabelo. Saí do vestiário e tombei de cara com Victoria:

—Ah, oi! Eu tava te procurando mesmo. Sobre as flores, quais você prefere?

Levei um susto.

—Hã… pro buquê ou pra decoração.

—Ah, os rascunhos da Daay falavam que ia ser a mesma flor pros dois.- Victoria me mostrou um bloco de notas cheio de riscos e palavras em caneta colorida.

Arregalei os olhos.

—Posso ver?- Pedi.

Victoria me entregou. Bem, com certeza era a grafia da Daay.

Meu coração se apertou no peito.

Atrás de mim, as meninas discutiam sobre as cores dos vestidos que iam usar.

—E se a gente usasse a mesma paleta de cor?!- Sarah se animou.

—Pelo amor de Deus, que breguice.- Sofie reclamou.

—É um casamento, Sofie. Você conhece algum casamento que não seja brega?- Marie retrucou.

—Eu fico feliz que estejam animadas sobre a organização.- Anna riu de leve.

—Por favor, qualquer oportunidade de eu não ter que lidar com política, armas, poderes ou morte eu aproveito ao máximo.- Sarah debochou.

—Brunna?- Victoria estalou os dedos na minha frente.- As flores.

—Ah.- Concordei- É… quais são minhas opções?

—Bem, as únicas que crescem aqui são rosas azuis de inverno, mas eu sempre posso pedir pro Reijii negociar flores de verão com o centro vampiro, se quiser.- Victoria deu de ombros.

—Claro! Por que… não esperamos o Ruki pra podemos discutir isso em casal?

—Ótima ideia!- Victoria anotou algo- Agora outra questão: O Kou pediu pra cuidar da música. Devo me preocupar?

—Ahn… Acho que não. Ele provavelmente só vai escolher uma playlist do spotify.- Comentei.

—Ele também pediu pra cantar a música da primeira dança. O Ruki deixou. Você tem alguma preferência da escolha?

—Desde que não seja dele.- Retruquei.

Alguém bateu na porta.

Azusa enfiou seu rosto na fresta:

—Ela está… bem… Ruki.

—Ok, obrigado.- Ruki abriu a porta, me olhando- Está ocupada?

—Eu estava…- Comecei a falar.

—Pode deixar.- Victoria respondeu- Vocês podem conversar. Agora eu só tenho que ver com o Kou sobre a música, o bolo, o buffet, a decoração, as mesas, as flores… KOU! KOUUUU!

E assim ela saiu marchando.

—E… lá se vai ela.- Sorri.- Aconteceu alguma coisa.

—Antes que eu me esqueça, fiz isso pra você.- Ele me entregou um pote- É uma marmita. Seu dia parece estar corrido hoje.

—Nem me fale.- Eu ri- Mas muito obrigada! E você fez, fez alguma tarefa de noivo hoje?

—Escolhi meu terno. Os meninos me ajudaram.- Ele sorriu- Falando em roupa, desculpa por mais cedo. Eu não sabia…

—Não, relaxa.- Eu ri, deixando a marmita na mesa- Eu que surtei. Tá tranquilo.

Ruki sorriu pra mim:

—O que eu queria falar mesmo…? Ah, sim. Temos um pequeno problema em relação a organização… acho que teremos que fazer tudo sozinhos.

—Por causa da Cousie?

—Por causa da Cousie. Eu não me incomodo de convidar elas e os Tsukanami, mas seria injusto os criados ajudarem nosso casamento na nossa nova casa sem receber nada por isso. Pelo menos eu acho.

—E você está corretíssimo.- Sorri.- Olha, eu não me incomodo de sujar as mãos. Ou de passar noites acordada trabalhando. Não se no final significa que nós dois vamos ter o casamento perfeito.

Ruki beijou minha testa de forma demorada:

—Farei o possível pra que tudo siga cada desejo seu, Brunna. Te prometo isso.

Senti um calafrio me subindo as costas.

—Vai tudo correr bem. Eu sei que vai.- Meu coração se acelerou.

A porta abriu num lance.

Nikki entrou no pequeno quarto, as mãos cruzadas:

—Ah. Eu não sabia que estavam ocupadas.

Ela me encarou com raiva.

—Valeu mesmo por ter me chamado.

—Nikki, por favor. Toda vez que eu chego perto de você, parece que você planeja me matar enquanto eu durmo.- Dei um passo á frente- Como você espera que eu chame alguém que nem gosta de mim pra organizar meu casamento?

—E você resolve isso chamando quatro das minhas cinco irmãs?- Nikki brigou- Muito honrado da sua parte.

—Nikki.- Sarah se levantou da cadeira- Menos. A Brunna não queria magoar ninguém.

—E isso me deixa bem mais consolada.- Nikki revirou os olhos.

—Nikki, sério.- Sofie brigou- Se você não aprova o casamento e não quer apoiar, pode dar meia volta e ir embora. Sem ressentimentos. Não precisa ser maldosa.

—Eu não sou maldosa. Só não aceito injustiça. E eu não fui a única esquecida.- Nikki deu um passo ao lado, dando espaço pra Lua.

—Nikki, não precisa disso, eu nem tô chateada…- Lua retrucou.

—Gente. Seguinte.- Marie se levantou- Eu estou cansada de tudo aqui virar briga, então vou falar de uma vez. Brunna está se casando, concordando ou não. Quem apoiar, ótimo. Quem não apoiar, tudo certo. Mas nós prometemos que ajudaríamos a Brunna no planejamento, já que ela jajá vai embora.

Marie respirou fundo:

—Olha, não podemos mais mudar o passado. Mas podemos melhorar pro futuro. Então, se todas concordarem em organizar esse casamento em paz, sem brigas, afinal casamento é uma celebração de amor, eu agradeceria.

—Tanto faz.- Nikki foi embora.

—Eu ainda te mando um convite!- Avisei alto.

Lua nos olhou, meio intimidada:

—Eh… Desculpa por ela. Ela anda meio… irritada.

—Jura?- Priya resmungou baixo- Ninguém notou.

Lua saiu correndo.

Ruki me abraçou de lado de forma confortante.

Eu suspirei profundamente em seus braços.

—Ei, quer saber de uma coisa pra te animar?- Ruki questionou baixo

—Você vai comprar uma lhama pra mim?- Respondi no mesmo tom.

—Er… não.- Ele pareceu meio confuso- Mas a gente pode ver a lista de convidados e fazer os convites.

—…Você vai ter que melhorar seu jogo de como melhorar meu humor se quer passar o resto da sua eternidade comigo, rapaz.- Eu ri.

—Mas pelo menos é melhor do que da vez que eu te ofereci sopa.- Ele me lembrou, e eu fiz uma careta. Ruki riu- Te espero lá no quarto?

—Claro. Vê se me espera mesmo e não resolve fazer tudo sozinho pra me deixar tranquila.- Apertei a mão dele.

Ele riu e me deu um selinho demorado, antes de sair do quarto.

—Ai, o amor é lindo.- Sofie me cutucou.

—Para.- Eu ri.- Você fala como se fosse solteira.

—Comparada a você, estou mais perto de solteira do que de casada.- Sofie sorriu- Mas é brincadeira. Estou muito feliz por você.

—Valeu. Não é muita gente que me falou isso.- Dei de ombros.

—Ei. Você já teve meses muito difíceis. Não vá começar a sofrer por causa dos comentários dos outros também.

—É díficil. Especialmente quando todo mundo parece falar sobre isso nas minhas costas.

—Quem?

—Todo mundo. Até os criados. Já ouvi até falarem que eu devia estar mesmo desesperada por homem se eu aceito me casar no meio de uma guerra.

—Os criados são idiotas. Eu sou sua amiga, e eu te conheço bem e por isso te falo: estou muito que feliz por você.

Sorri, meio emocionada:

—Por isso você vai ser minha madrinha.

—Por favor, eu ficaria mais surpresa se eu não fosse sua madrinha.

Rimos juntas.

—Minha madrinha pra sempre.- Sorri.

—Dos seus filhos também?

Me assustei:

—Filhos?

—É. Você e o Ruki tem cara que vão ser ótimos pais.

Arqueei uma sobrancelha:

—Eu nunca… pensei nisso.

—Ai, desculpa.- Sofie ficou séria- Não sabia que era… um tópico sensível.

—Não, não. Tá tranquilo.- Fiquei confusa.- Tá… de boas.

Eu olhei pra distância.

Eu realmente nunca havia pensado nisso.

Senti mais um calafrio.

Um pressentimento ruim.
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A noite chegou fria e tenebrosa.

Lilith estava deitada no ombro de Igor, praticamente desmaiada.

Havia perdido quase dez quilos nos últimos meses, e nunca havia sentido tanta fome na vida.

Ao seu lado, estavam os três homens. Pareciam mais velhos e mais descuidados do que nunca.

Igor fez um sinal de silêncio para o bebê na sua frente, os olhos avermelhados e cabelo castanho.

O bebê pareceu prestes a sorrir pro pai.

Nos braços de Stephan, outro bebê estava adormecido.

A prisão rebelde estava silenciosa.

Pelo menos, por enquanto.

Um barulho que mais parecia de um foguete chegou perto deles.

Com um baque forte, a porta da prisão foi pro chão.

—O que aconteceu?- Lilith se levantou, já pegando o filho no colo.

Eles olharam pro lado de fora, onde estava uma figura encapuzada.

Ela tirou o capuz, revelando o cabelo castanho claro e os olhos vermelhos.

Suas mãos fizeram um movimento de garra, fazendo fumaça vermelha formar uma cúpula ao redor deles.

—Quem é você?- Chronos perguntou, assustado.

Tinha sangue no nariz da menina:

—Eu sou Daayene Hudison. Vim salvar você.