Like A Bird
4 Capítulo 4
-Mãe tá na hora. Vamos?
Eu estava na sala esperando minha mãe para que agente pudesse sair. Logo ela apareceu e ficou me analisando. Eu estava usando uma blusa mais comprida e solta com um um decote em v da cor preta, uma calça jeans clarinha apertada e uma sapatilha rosa salmão. Os brincos dourados que tinham o formato de rosas e o colar com um pingente simples brilhante e a bolsa cinza fechavam meu visual.
- Não vai colocar nenhum maquiagem não filha?- como sempre, ela não estava satisfeita
- Não maesinha... — eu falei revirando os olhos.
Enfim saímos e percorremos o caminho até o carro. Naquele sábado eu tinha combinado com a Alice e o Leo de ver um filme no cinema chamado “Os homens que não amavam as mulheres”. Conferi uma última vez se tinha pego a minha carteira com a carteirinha de estudante e o dinheiro que minha mãe havia acabado de me dar. Enquanto o carro estava em movimento eu fiquei apreciando a paisagem e deixando minha mente divagar. Desde que eu havia me dado conta que estava gostando da minha amiga as coisas tinham ficado meio complicadas e eu me sentia um pouco mal por nutrir um sentimento assim por ela. Só que com o passar do tempo nós fomos ficando cada vez mais próximas, até que houve aquele dia em tentei reaver meu livro que estava com a Melissa e ela e seu amiguinho odioso Diogo acabaram comigo. Naquele dia eu havia chorado com a Alice como eu nunca tinha feito com ninguém antes na vida. A partir daí nossa relação só havia se estreitado e eu tinha certeza que tínhamos nos tornada amigas de verdade. Tanto com relação a ela quanto ao Leo, que sabia que eu gostava da Alice e continuava sendo meu amigo mesmo assim. Eu o adorava por isso.
Ainda era meio difícil para mim aceitar essa realidade. O peso que eu sentia sobre os ombros continuava sempre presente e eu ainda escutava muita musica na tentativa de fugir dessas coisas mas desde de aquele dia eu tinha passado a sentir uma outra coisa: uma sensação de conforto e segurança por saber que eu poderia contar com os meus amigos para me consolarem e me aconselharem sempre que as coisas ficassem feias e eu não soubesse o que fazer. De certo modo eu me sentia mais confiante.
Quando cheguei no shopping meu celular começou a tocar: era o Leo avisando que também já tinha chegado e já estava na frente da bilheteria. Fui para lá e comecei a procurar ele, o que eu era fácil já que ele era praticamente uma cabeça mais alto que o resto das pessoas. Logo que vi sua figura espichada fui falar com ele
-Oi Leo
Ele estava com uma blusa peta com o nome de alguma banda de rock, uma calça jeans meio rasgada no joelho e um allstar de couro.
-Ei Camila, beleza?-ele falou meio distraído com um papel que estava nas mãos dele-A cara vai lançar um filme que eu tô afinsaço de ver!!Vai demorar 2 semanas ainda, que merda!!-ele falou meio dramático
-Ah Leo-eu falei rindo dele- Agente vem ver na estréia, preocupa não
-E sei mas é que...argh, esse filme deve ser super, mega , hiper incrível!
Agora que estávamos mais amigos e ele ficou mais solto eu comecei a perceber um jeito do Leo que eu não tinha reparado antes : ele era meio dramático para umas certas coisas, as vezes falava demais e tinha umas opiniões meio estranhas...
-Ali a Alice- Leo
Ela usava uma blusa branca super larga com alguns desenhos em preto no meio, uma leg preta e uma sapatilha de couro de um tom marrom avermelhado. Os piercings, brincos, colar e pulseiras que ela usava eram todos prateado. O conjunto fechava com um lenço verde que estava no pescoço dela e uma maquiagem com um lápis de olho bem preto que realça ainda mais a cor e o formato deles. Ela estava simplesmente linda. Eu e ele demoramos um pouco para termos alguma reação até que o Leo falou alto para ela ouvir (acho que todo mundo do shopping ouviu também) e logo ela estava junto da gente.
-Ei gente- falou sorrindo- Desculpa, tô meio atrasada...
-Esquenta não que agente chegou a pouco tempo também – eu
-Pois é. Mas então, o filme vai começar logo e agente ainda tem que comprar os trems .
Ele falou enquanto puxava agente para a fila dos caixas. Compramos os ingressos e entramos. Sentamos eu, Alice e o Leo, nessa ordem respectivamente em algum lugar mais no fundo da sala.
- Adoro trailers- eu realmente gostava de trailers
Leo fez uma expressão de nojo para mim e a Alice só ficou rindo da cara dele.
-Meninas, eu tenho uma proposta para fazer para vocês depois...-ele falou quando já estava quase começando o filme de verdade
-Pode falar agora – Alice. Eu também fiquei curiosa
-Não, não. Só depois do filme- ele fez uma cara diabólica e ficou rindo da gente.
Engoli a curiosidade e passei a prestar atenção no filme. O filme tinha umas cenas realmente pesadas com as quais eu fiquei horrorizadas. Sério mesmo, tiveram várias cenas que eu simples mente fechei os olhos e tentei não ouvir. Mais tarde eu ia matar o Leo por ter escolhido aquele filme. Finalmente acabou e agente foi para a praça de alimentação.
-Leo, caramba sô, que filme horrível que você escolheu !
-Eu não achei o filme horrível não-ele falou indignado
-Nem eu...- a não,até você Alice?
-Não,tudo bem, o filme é interessante sim, tem um roteiro legal sim, mas pô, e aquelas cenas lá??Caraca eu quis sair correndo da sala naquela cena dela e daquele velho lá!-eu estava sendo sincera
O Leo falou que não tinha nada haver e eu estava sendo criança demais. A Alice me olhou com uma expressão que dizia que ela entendia o meu ponto de vista mas não tinha motivo para aquele estardalhaço todo.
- Mas então, o que vamos fazer agora?-Leo
- Agente podia comer em um algum lugar...-Alice
O Leo abriu um sorrisasso e olhou para gente com cara de sapeca
-Então...Sobre a minha proposta. Tipo assim, todo sábado de noite eu e uns amigos meus nos encontramos numa praça que tem aqui perto para beber- pausa dramática- hoje é sábado então logicamente agente vai se reunir hoje...então...vocês querem ir comigo?
Eu não tive outra reação que não fosse ficar olhando para ele. Ele estava chamando duas meninas de QUINZE anos para um encontro DE NOITE numa PRAÇA PÚBLICA para BEBER?
Quero dizer, eu já achava um absurdo ele ter o costume de beber( tudo bem que ele já tinha quase dezessete anos mas mesmo assim) mas levar agente junto?Eu olhei para cara da Alice para saber qual seria a reação dela. Para minha surpresa ela estava com uma cara ainda mais de sapeca do que a que estava no rosto do Leo.
-Eu topo...- ela falou.
Agora estavam os dois olhando para mim esperando uma resposta. Eu fiquei com medo de eles me acharem careta mas mesmo assim
-Gente, presta atenção, BEBER? Acho melhor não ow...
-A Camila, deixa de ser chata! Vamos, vai ser super divertido ! Olha só, se você quiser não precisa nem beber, só ir junto com agente e curtir um pouco.
-Ai Leo, não sei não, eu teria que avisar a minha mãe para ela me pegar mais tarde... e ela não gosta que eu fique andando por ai assim, ainda mais de noite...
-A Camila, vamos ! Vai ser legal!- dessa vez quem disse foi a Alice e começou a fazer biquinho para mim.
Eu não queria que eles ficassem chateados comigo ou que gostassem menos de mim por eu ser uma estraga prazeres...Eu fiquei pensando por um tempo, ponderando as minhas opções até que aceitei.
-Uhhhuuuuu !!!- o Leo só gritou e me agarrou em um abraço forte.
Saímos do shopping e passamos em um McDonald's no caminho para comer qualquer coisa. Quando chegamos na praça já havia um grupinho perto do coreto que ficava no centro do lugar.
Eu fiquei impressionada com o número de gente que estava ali aquela hora. E pior, o número de gente esquisita!Sério, só de gente com o cabelo pintado todo de roxo eu já tinha contado três no pequeno espaço de tempo que eu estava ali. Um monte gente de cabelo raspado, roupa rasgada, moicano, cheio de tatuagem e piercings...E todos bebendo ou fumando alguma coisa!Eu já tinha ouvido falar que apareciam uns grupos esquisitos naquela praça de noite mas isso ia muito alem das minhas espectativas! Eu já estava começando a me perguntar onde que o Leo tinha metido agente quando um grupo se aproximou e começou a puxar papo com o Leo. Igual ao resto das pessoas eles eram bem estranhos.
-E ai Leo, como ta mano ??- um menino com o cabelo todo rastafári falou-Ué, e quem são essas gracinhas ??-ele falou olhando para gente.
Eu corei mas percebi que a Alice não se importou
- São minhas amigas. Essa aqui é a Camila-olharam para mim- e essa aqui é a Alice- olharam para ela. Continuaram olhando para ela-Elas são da minha escola.
-Unnh, bacana- o tal garoto continuo com os olhos em cima da Alice. Eu já estava ficando de saco cheio daquilo- então, agente ta indo compra bebida no supermercado ali embaixo. Não pega nada. As meninas vão beber também?
O Leo só concordou com a cabeça
-Ei !-eu disse
-Camila, deixa quieto que se você não beber eu bebo por você e te pago mais tarde ok?-eu já estava começando achar que o Leo era um bebum.
Cada um deu um dinheiro para o garoto que saiu com o grupinho dele para o tal do supermercado, não sem antes dar mais uma olhadela demorada na Alice. Agente se sentou em um dos bancos que tinham ali perto e ficou jogando conversa fora. Aquele povo estava me deixando meio nervosa. Imagina se alguem passasse por aquela praça e me visse ali. O que iriam pensar de mim? Eu iria morrer. Finalmente o tal grupo voltou trazendo umas três garrafas com um líquido transparente e outras garrafas com refrigerante. Quando abriram a garrafa transparente eu pudi sentir um forte cheiro de álcool. Só aquilo já tinha me enojado.
-Vodca- o menino falou enquanto virava o conteúdo da garrafa em um copo e mistura aquilo com refrigerante. Ele deu um copo para cada um de nós.
-Tem que virar hein?-o menino deu uma risadinha
Leo e Alice esvaziaram os copos deles sem pensar duas vezes. Eu fiquei horrorizada. Daí a pouco eles estavam olhando para mim esperando para ver o que eu ia fazer
- A mocinha, não vai dar um de covarde agora, não é mesmo?- o garoto falou
Eu não sabia o que fazer. Eu definitivamente não queria beber aquele trem estranho. Beber era errado, e se minha mãe descobrisse...eu não queria nem imaginar o que ela faria se descobrisse!Mas eu também não queria que eles me achassem uma covarde. Principalmente, eu não queria que a Alice me achasse covarde.
-Que merda sô- falei, fechei os olhos e virei o liquido de uma vez.
Os meninos gritavam enquanto eu engolia. Aquilo tinha o pior gosto que já tinha sentido na minha vida. Não achava que eu conseguiria jamais beber algo assim outra vez na minha vida.
-Isso menina, é assim que se faz- o garoto disse enquanto enchia e entregava novamente os copos para gente.
Eu fiquei olhando para os outros três. O Leo levantou o copo e disse
-Vamos juntos agora! Um, dois, três e...- viramos tudo de novo. E mais uma vez. E outra.
Na quinta eu já sentia o chão escapulindo dos meus pés. O Leo estava rindo descontroladamente de tudo e qualquer coisa que acontecesse perto da gente e a Alice ria junto dele enquanto capengava em cima de mim. Ela estava com o braço sobre os meus ombros apoiando todo o seu peso em mim.
-Gosto muito de você sabia?- ela falou bem baixo, de modo que só eu pudesse escutar, e em seguida meu deu um beijo longo na bochecha.
Eu fiquei completamente vermelha. Nem tive tempo de responder nada por que logo ela já estava me soltando e indo rir de alguma coisa que o menino dos rastafári estava falando. Me sentei no banco novamente. Será que ela quis dizer alguma coisa com aquele gesto?Será que eu poderia criar alguma esperança, por menos que fosse, de rolar alguma coisa entre agente? Eu estava tão concentrada nos meus pensamentos que nem percebi quando o Leo jogou o corpo do meu lado. Só me dei conta quando ele falou bem próximo do meu ouvido:
-Linda não é?-ele falou, obviamente se referindo a Alice.
-Linda? Ela é maravilhosa Leo.- eu estava tonta demais para controlar a minha língua
Ele ficou surpreso e começou a gargalhar. Logo estávamos gargalhando juntos. Só quando senti que não tinha mais ar nos pulmões e minhas costelas estavam doendo foi que eu consegui parar. Nessa hora o Leo ficou sério.
-Acho que eu preciso ser justo com você. Eu pretendo chegar na Alice-pausa-O que você pretende fazer?-ele ficou esperando minha reação.
Eu sabia que esse dia chegaria. Eu sabia que ele era afim da Alice que nem eu. Eu sabia que quando ele estava falando sobre trocar a namorada dele por uma pessoa da qual ele gostava ele estava falando da Alice. Eu sabia disso tudo e mesmo assim não estava preparada para aquilo. Eu me senti traída e tudo o que eu quis foi bater nele e gritar o quão imbecil ele era.
-Como assim o que eu pretendo fazer?- eu falei com raiva
-A véi, tipo assim, eu gosto dela, você gosta dela, agente é meio que adversário nessa história e eu não queria que você ficasse chateada comigo pensando “ele vai roubar o amor da minha vida” e “isso é uma injustiça e eu nunca vou perdoar ele”.A Alice que tem que decidir com quem ela quer ficar, se ela quiser ficar com algum de nos dois. Só que pra isso você tem que contar para ela por que se não ela nunca vai te ver como outra coisa que não uma amiga. E eu não pretendo ficar parado sem fazer nada só por que você não consegue aceitar que está gostando de uma garota e não consegue tomar atitude quanto a isso.
-Puta que pariu Leo. Você acha que é simples assim?-eu já estava começando a falar alto-”Aqui Alice, não fica surpresa não mas eu queria te falar que eu gosto de você e eu espero sinceramente que você me dê uma chance”.Lógico que não ! Ela vai ficar com nojo de mim, todo mundo vai ficar com nojo de mim eu vou virar motivo de piada para a escola inteira, mais do que já sou, e a minha mãe...sei lá, a minha mãe vai ter um treco!-eu já estava gritando.
-Você nem sabe se ela vai fazer uma coisa dessas e você não precisa sair contando para todo mundo!-ele também estava gritando-Sabe qual é o seu problema? Você é uma covarde que se importa demais com o que os outros pensam!Dá para você arranjar coragem uma vez na vida para fazer o que você quer?Aliás, o que você quer Camila?
Ele ficou me encarando enquanto eu pensava na pergunta dele. Eu queria ficar com a Alice não queria? Eu queria que ela correspondesse os meus sentimentos não é mesmo? Mas eu também queria deixar minha mãe orgulhosa de mim e faze-la parar de pensar que eu a pior filha do mundo não queria? Eu queria que as pessoas gostassem de mim não é mesmo ? E como eu ia conseguir fazer isso tudo e ao mesmo tempo manter uma relação com outra pessoa do mesmo sexo?Eu teria que escolher né?
-...Eu não sei Leo. Eu não sei o que eu quero.-eu falei sinceramente para ele.
Mas eu estava tão absorta nos meus próprios pensamentos que nem percebi que ele tinha se afastado de mim. Quando eu me dei conta ele estava dando socos no menino de cabelos rastafári e este revidava de volta. A Alice estava perto deles, gritando, pedindo pra que parassem de brigar. Eu corri do lado dela e comecei a gritar também. A coisa toda só parou quando os dois meninos estavam com pelo menos um olho roxo e os lábios rachados.
-Que isso meu irmão, tá louco?-o menino
-Você é um filho da puta, um escroto! Não viu que a menina não tava querendo nada com você não?
-Cala boca Leo, ela só tava fazendo cu doce! Quem você acha que é?
Aparentemente o menino tinha chegado na Alice. Quando ela deu um toco nele ele passou a pressiona-la mais e prende-la na parede. Graças a deus o Leo tinha visto tudo e corrido para ajudar. Eu passei os meus braços em volta da Alice enquanto agente se afastava do grupo.
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Outro dia, quando agente estava sóbrio de novo a Alice disse que tinha sim dado um toco no menino mas que realmente estava começando a cogitar ficar com ele. O que o menino fez foi errado mas mas não precisava daquela brigaiada toda. O Leo foi forçado a admitir que o álcool tinha subido na cabeça dele. Ele pediu desculpas e eles já estavam de boa de novo. Mas eu e o Leo não estávamos de boa. Aliás eu acho que nunca mais conseguiríamos estar de boa algum dia novamente. Eu ainda queria bater nele mas tinha que admitir que tinha tido o minimo de fibra moral para me falar aquelas coisas em vez de me afastar como ele faria com qualquer outro garoto que estivesse de olho na menina que ele gostava ele decidiu me apoiar e me dar uma forcinha. As provas já tinham acabado e agente já estava no início do segundo trimestre ( o que significava que as férias já não estavam tão longe assim).Alguns dias atrás a Melissa resolveu devolver o meu livro, me entregou sem fazer nada mais do que me dar uma piscadela e me dar as costas. Isso não significava que ela estava pegando mais leve comigo. Pelo contrário ela estava me provocando cada vez com mais freqüência e eu tinha certeza que em vidas passadas eu tinha feito ela sofrer muito, mais muito mesmo por que não via outro motivo para ela agir assim. Enfim, estávamos na aula de educação física quando o professor fez uma enquete para saber se a turma preferiria jogar voleibol ou handebol
-Então, o que vai ser?-ele perguntou
Eu prestei atenção e pude perceber que a maioria da turma estava optando por handebol, menos a Alice, o Leo e uns dois outros garotos. Eu gostava de esporte por isso não me importaria de jogar handebol, mas acontece que eu curtia muito vôlei e meus amigos sabiam disso. Só que quando chegou na minha vez todo mundo ficou olhando para mim e eu não não tive outra reação que não fosse falar:
- Handebol
Os dois fizeram uma cara feia para que eu não entendi por que já que a maioria já tinha optado por handebol o meu voto não ia fazer a menor diferença.
-Precisamos conversar no final da aula.-ela falou com um olhar duro para mim.
Então, quando o sinal tocou agente foi se sentar naquelas mesinhas que ficavam perto da cantina. Como já tinham terminado as aulas o lugar estava bem vazio. Os dois sentaram na minha frente de um jeito que eu imaginei que os meus pais fariam quando fossem me dar um sermão.
-Camila, você já falou para gente várias vezes que gosta de vôlei. Por que é que hoje você decidiu escolher handebol?Tava mentindo para gente?- o Leo começou com um ar sério
-Não é como se meu voto fosse importante, todo mundo já tinha escolhido handebol! Não sei por que vocês tão fazendo essa tempestade em copo d'água!
- A questão, Camila, não é se o seu voto é ou não importante. A questão é que você fez uma escolha que não era sua só por que a maioria das outras pessoas tinha feito o mesmo! Caralho véi, você tá sempre fazendo isso! E por isso que a Melissa vive pisando em você! É por isso que você não sabe o que quer fazer da vida !- ele tinha escutado o que eu falei no final das contas.-Sei lá ow, parece até que você não tem opinião própria! Vai ser maria vai om as outras assim até quando?-Leo
-É só que agente já percebeu que muitas vezes você deixa de fazer o que quer ou deixa de falar o que pensa por ter medo da reação dos outros. Você acaba deixando de ser você mesma e isso não tá certo. Fica o tempo todo preocupada com o que os outros pensam! Poxa Camila, mesmo quando você está só com agente poucas vezes eu te vi realmente relaxada- ela tinha abandonado o olhar duro e agora estava com uma cara de realmente preocupada.
Naquele momento eu só consegui pensar que eu tinha os melhores amigos da mundo. Quem mais tinha amigos iguais aos meus que se preocupavam tanto assim e estavam dispostos a sentar e discutir esse tipo de coisa com uma pessoa tão problemática como eu? Eu fiquei emocionada de verdade e senti que meus olhos ficaram úmidos.
-Poxa gente, brigada mesmo- eu falei com a voz embargada. A essa altura a Alice esticou uma mão para poder segurar a minha.- vocês são bons demais e uma pessoa como eu não merece isso-
-Camila, que merda é essa de “uma pessoa como eu”?-Leo
-Ah, sei lá. Eu sei que sou uma pessoa bem ruim. Sou toda baixo astral e indecisa e esquisita e feia e metade das coisas que eu falo é idiotice-
Ela colocou outra mão que estava livre sobre a minha e se apoiou sobre os cotoveles chegando mais próxima de mim.
-Eu não acho que você seja nada disso que você falou.-ela falou baixinho com toda a sinceridade do mundo. Não sei por que mas nesse momento eu comecei a chorar- confusa sim, e talvez até insegura, mas como toda a garota da nossa idade é. Quem foi que pôs essas coisas na sua cabeça?
Todo mundo.A Melissa. O Diogo. Todos os amiguinhos e amiguinhas deles. Quase todo mundo daquele colégio. Minha mãe. Eu mesma
-Todo mundo- eu respondi, abaixando a cabeça e deixando as lágrimas correrem livremente pelo meu rosto.
-Mas todo mundo estava errado. Você é uma pessoa maravilhosa e eu adoro você-o Leo disse-
A Melissa provavelmente é só mais uma menininha mal amada pelos pais que não têm tempo para ela e ficam dando dinheiro para ela gastar e se sentir feliz, mas como não da certo ela tenta infernizar a vida dos outros para faze-los se sentirem tão mal quanto ela. — parecia que ele tinha lido a minha mente- O Diogo é só um babaca do pinto pequeno que não tem nenhuma qualidade e tenta diminuir os outros por causa disso. O restante desse colégio também é imbecil por seguir esses dois. Você é uma menina doce, que tem idéias ótimas, e ainda é linda! Só que precisa pensar melhor de se mesma e parar de dar atenção pra esse bando de chimpanzé.
Eu continuava chorando e ela continuava fazendo carinho na minha mão.
-Você só precisa abrir os olhos e ver a menina incrível que você é. Ficar um pouco mais confiante, um pouco mais segura. Sabe, você não precisa ser perfeita.-Alice
Eu achava que precisava. Por que se eu deixasse que eles vissem todas as coisas ruins, toda a podridão que tinha dentro de mim eles iam deixar de ser meus amigos e me abandonar para sempre.
-Você pode ter alguns defeitos. Tudo bem, todos nós temos- de novo ele tinha conseguido adivinhar meus pensamentos- Agente não gosta de você por que você faz as coisas do mesmo jeito que os outros ou por que você é mais certa do que os outros. Agente te ama pelo que você é.
Ai eu comecei a chorar para valer. Tinha uma parte de mim que sempre tinha dito mais ou menos o que eles estavam dizendo, uma vozinha fininha na minha cabeça. Mas ninguém nunca tinha falado essas coisas para mim por isso eu tinha ignorado aquela partisinha. Mas agora parecia que ela tinha ficado mil vezes mais forte e devagar ia tomando conta de todo o restante de mim. Eu queria mudar e ser tudo o que a Alice falou. Eu queria mudar e deixar de ser tão insegura, tão indecisa, tão negativa, tão estressada. Eu queria parar de me culpar o tempo todo e aceitar as coisas do jeito que eram. Eu queria me aceitar do jeito que eu era e calar todas aquelas outras vozes que falavam na minha cabeça dizendo que aquele sentimento todo que eu tinha pela Alice era errado e sujo. Eu queria ser a amiga que aqueles dois mereciam. E agora eu sentia que eu tinha força para isso.
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