Like A Bird

3 Capítulo 3


–Para de escutar essa porcaria e vem jantar de uma vez! Que coisa, eu te chamei um monte de vezes e você nem percebeu por causa dessa porta fechada e esse trem no ouvido! Eu não quero ver essa porta fechada de novo ouviu?-minha mãe falou com um pouco mais do que só raiva na voz.

Eu fiz um aceno de cabeça concordando. Desliguei meu ipod e fui para a cozinhar comer meu jantar. Ela não entendia. Eu gostava de ouvir de musica, gostava mais do que qualquer coisa. Eu fechava a porta do meu quarto para poder escutar em paz e colocar o volume no nível mais alto possível. Parecia que eu era transportada para outro mundo onde eu só sentia felicidade e prazer. E u escutava música para esquecer meus problemas e ignorar minhas infelicidades. Atualmente eu escutava muito música.

Desde aquele dia eu não voltei a falar direito com o Leo. Eu praticamente não tinha conseguido olhar para a cara dele desde aquela conversa e fazia de tudo para nunca ficar sozinha com ele. Lógico que ele percebeu mas não falou nada. Acho que ele entendeu que eu precisaria de tempo para conseguir falar com ele normalmente de novo. No fim das contas ele era um cara legal.

Mas desde aquilo eu me sentia pior do que nunca. Sentia como se 24 horas por dia eu tivesse um chumbo sobre os ombros. Nos primeiros dias eu praticamente evitei qualquer tipo de contato com a Alice. A idéia de eu estar gostando dela ainda me afligia mas a idéia de ela se dar conta disso me desesperava. Afinal o Leo tinha conseguido perceber sentimento por ela. Imaginar quem mais teria conseguido faze-lo me deixava de cabelo em pé.

Até a minha mãe começou a ficar preocupada comigo, afinal, se eu já era uma pessoa fechada eu fiquei ainda mais, e o tempo todo eu andava com um semblante de quem não conseguia dormir direito, com olheira em baixo dos olhos e tudo o mais.

Mas eu tinha outras coisas para me preocupar. Já tínhamos passado da metade do primeiro trimestre e as primeiras provas já estavam acontecendo.

Um dia estávamos nos preparando para a aula de Educação Física (para a minha sorte a minha turma fazia a aula junto com a turma da Alice e do Leo) quando o coordenador chegou e nos avisou que nosso professor não daria aula naquele dia por que o pai dele passou mal e precisava dele no hospital. Nosso coordenador nos instruiu para que passássemos o tempo por ali mesmo jogando alguma coisa (tinham mesas de ping pong e tó tó ali por perto) ou estudando.

–Beleza então agente vai matar aula.- o Leo disse sem rodeios

–Já que não vai ter aula mesmo...-disse Alice e fez uma carinha de sapeca linda.

Eu fiquei olhando para eles surpresa. Matar aula? De jeito nenhum! E se algum dos funcionário nos visse?E se algum dos professor nos pegasse? E se a minha mãe descobrisse?

–A-acho melhor não...-eu falei

–A qual é Camila dexa de ser chata! Você vai ter que matar aula alguma vez na vida e tecnicamente agente nem vai estar matando aula!-Leo

–Pois é não vai ter problema-Alice

–S-se vocês quiserem podem ir sem mim-eu

Era sempre assim. Sempre que eles queriam fazer alguma coisa que eu achava que não convia e não queria fazer junto eu falava isso. O Leo olhou para mim decepcionado e a Alice bufou. Eu fiquei mal por eles mas eu não ia matar aula

–Vamos jogar tó tó então.-falou o Leo sem muita paciência

Ele pegou as bolas e logo nos achamos uma mesa vazia. Ficamos eu e a Alice como dupla contra ele sozinho. No início estava meio quieto mas logo o ambiente se encheu de gritos (do Leo principalmente) e de exclamações exitadas já que o menino praticamente pulava sempre que quase fazia um gol.

–Nossa como vocês são ruins- ele falou rindo

Eu e a Alice só rimos e continuamos tentando defender o ataque dele. Eu adorava o riso dela. Droga.

–Ô Leo e a sua namorada?Como ficaram as coisas entre vocês?-Alice

Nessa hora o Leo fez meio que uma careta

–A véi, sei la...Agente ainda ta junto mas as coisas continuam estranhas entre nós. Acho que vamos acabar terminando-ele disse e no final da frase ficou olhando para a Alice para ver a reação dela. Eu também fiquei olhando.

–Ah, que pena- ela disse sem muito entusiasmo

–Pois é eu vou acabar ficando solteiro novamente, quem sabe não rola nada que a pessoa que eu falei que gostava?- dessa vez ele olhou para ela esperançoso.

A Alice só sorriu de volta e eu já estava ficando de saco cheio daquele clima . Graças a Deus o sinal tocou indicando o fim da horário.

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Outro dia, quando eu estava chegando na sala, sentando e acabando de arrumar meu material a Melissa veio ter comigo novamente

–Camilãão me empresta o dever de Física?-ela perguntou com um tom que dava a intender que eu não poderia recusar.

Eu até que não ligava de emprestar meu dever para ela mas acontece que eu já tinha emprestado para o Leo. Estava com medo da reação dela quando eu lhe dissesse isso.

–É-é que eu j-já e-emprestei para o Leo-eu

–É-é-é-é- ela zombou de mim- Já emprestou é ? Tudo bem, acho que eu devia ter te pedido mais cedo-ela continuou olhando para mim- Mas em troca você não se importar se eu pegar esse livro seu emprestado não é mesmo?-novamente aquele tom que não aceitava um não como resposta.

Eu fiquei lívida enquanto via ela pegando meu “A menina que roubava livros” e voltava para a carteira dela mas não disse nada. Afinal de contas o que eu poderia fazer? Se eu tentasse contraria-la ai sim que ela teria motivo para me provocar e eu teria que ficar agüentando humilhação dela e das amiguinhas dela. Eu não daria conta.

O resto ocorreu normalmente e chegou a hora em que eu ia embora junto da Alice. Eu já fui tirando e ligando o meu ipod já que atualmente eu aproveitava qualquer oportunidade para ouvi-lo. Queria esquecer aquelas coisas ruins que me atormentavam nem que fosse por um momento. Cheguei, encontrei-a e agente tomou nosso rumo para ponto de ônibus. Enquanto esperávamos dei-a um dos fones e ela disse:

–Camila, o que tá acontecendo contigo?-ela fez uma cara de preocupada.

Ai meu deus ela estava preocupada comigo!Ao mesmo tempo eu engoli seco.

–N-nada não. Como assim?- me fiz de desentendida

–Não é que de uns tempos para cá você ficou meio diferente...sei lá. Mais estressada, mais fechada, e eu poderia até chutar que você anda tentando ficar longe de mim.

Eu engasguei de novo

–N-não é só impressão sua. Sei lá, talvez sejam as provas, mas eu não tenho nada não-tentei dar um sorriso tranquilisador

–Tem certeza?-ao mesmo tempo que ela falou isso ela chegou bem mais perto de mim e pegou o meu braço.

Eu praticamente pulei com esse gesto e sem pensar tirei o meu braço com um movimento brusco. Pela expressão dela ela ficou bem chateada e não falou mais nada o resto do dia. Que merda.

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Se as coisas estavam meio ruins entre eu e os dois antes, agora estavam bem piores. Eu o Leo ainda estávamos em um acordo silencio de não nos dirigirmos um ao outro mais do que o necessário, mas a Alice havia começado a agir friamente comigo vendo que eu me recusava a contar para ela o que quer que estivesse me incomodando e eu acho que ela ainda estava meio chateada com a minha reação naquele dia. Eu estava bem triste com aquela atitude dela. Enfim, naquele dia cada um tinha passado o intervalo em um canto, e agente só se encontrou no final da aula. Como tínhamos feito prova ainda havia um pouco de tempo antes de sermos liberados para ir embora. Agente sentou numa das mesinhas que tinha lá na cantina e visto que tinha um clima meio pesado entre agente o Leo começou :

–Camila e aquele livro que você tava lendo?Deixa eu dá uma olhada?

Eu não tinha contado para ninguém que a Melissa tinha pegado ele.

–U-unh...não tá comigo Leo...-

–Como não?Eu te vi trazendo ele todos os dias!

–É-é-é que eu esqueci em casa...-tentei me safar

–Então você traz ele amanha pra mim?

Eu estava começando a ficar nervosa com a situação

–N-não dá...é-é que não tá comigo-

Agora até a Alice tava prestando atenção na nossa conversa.

–Tá com quem então ?-Alice perguntou levantando a sobrancelha

–C-c-com a Melissa- eu falei tão baixo que me perguntava se eles tinham conseguido escutar.

Eles ficaram me encarando por um tempinho até que os dois assumiram um expressão de raiva. A Alice foi a primeira a falar algo com a voz um pouco mais alterada:

–Camila você não pode ficar deixando ela fazer esse tipo de coisa!Pelo amor de Deus você já tem quinze anos de anos!Já tem idade para se cuidar sozinha não acha não?Seja lá o que essa menina tenha feito com você antes isso tem que acabar por agora não acha não?

–Ela só faz isso por que você deixa ow! Caralho, se você parasse de faze essa cara de bocó toda vez que ela fosse te provocar e respondesse para variar isso nunca que ia acontecer!-dessa vez foi o Leo

Eu quis chorar com o comentário dele. Ele percebeu e só ficou mais puto. Eu sabia disso tudo. Eu tinha plena consciência de tudo o que eles estavam falando e sabia também que eles estavam certos de criticar. Eu sabia que estava agindo feito idiota e que era uma covarde completa, mas isso só fazia com que eu acreditasse mais e mais que não valia a pena eu rebater e discutir por que provavelmente uma pessoa como eu só conseguiria falar babaquice e coisa sem sentido. Mas eu não podia dizer isso para eles. Por isso ou optei por ficar quieta enquanto escutava o que eles tinham a dizer.

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Se as coisas estavam ruins entre agente, agora estavam horríveis. Eu estava me achando a maior idiota da face da Terra. A Alice e o Leo não estavam propriamente me ignorando, mas estavam meio que me evitando. Eu não culpo eles. Acho que se eu tivesse uma amiga como eu também perderia a paciência. Pior do que saber que eu tinha brigado com a menina que eu gostava era saber que eu tinha brigado com as duas pessoas que provavelmente eram as minha únicas amigas naquela escola.

Por isso eu havia decidido que iria para de agir feito imbecil e tirar satisfação com a Melissa. Meus amigos estavam certos : passou da hora de eu tomar atitude, e se eu não fizesse nada ela ia continuar me tratando daquela maneira pelo resto da vida. Mas falar é fácil. Difícil mesmo é fazer. Depois de mais um longo dia com eles agindo daquela maneira e eu com o coração apertado(mais do que já estava) me forcei a ir falar com a Melissa no final do ultimo horário. Aquele era um momento bom por que eu e Alice não tínhamos voltado juntas nos últimos dias, o que significava que eu tinha tempo de sobra para conversar com a Melissa, e era uma hora em que ela não estava acompanhada daquele bando de menininhas que ficavam correndo atrás dela. Ela estava no meio da sala, com a bolsa sobre o ombro terminando de digitar qualquer coisa no celular dela. Eu estava muito nervosa mas sabia que se não falasse agora eu não ia conseguir falar nunca. Então, sentindo como se tivesse um tomate preso na minha garganta eu forcei um passo para frente e comecei:

–M-m-melissa-droga eu estava me esforçando para gaguejar pouco -p-preciso falar com você.

Ela olhou para mim com aqueles olhos venenosos e sorriu.

–Sobre o que querida?- falou com a voz mais inocente do mundo

–Eu quero meu livro de volta!-falei de uma vez só.

Ela ficou me olhando, achando graça da situação.

–Ah é?E quem vai me forçar?- ela me olhou com uma cara de desafio.

Por um momento eu fiquei completamente sem saber o que fazer, parada olhando para ela no meio ali da sala. Ela riu de mim como se aquilo fosse a coisa mais divertida que ela tivesse feito nos últimos meses.

–Pelo jeito não vai ser você. Ah meu bem, mas o livro nem comigo está...sabe, eu emprestei pro Diogo, aquele bonito que faz parte da equipe de natação, conhece?-ela ficou me olhando esperando resposta-Que boba eu, é claro que você não conhece-mais um olhar venenoso-Pois é, acontece que ele tinha treino hoje e ele queria alguma coisa para distrai-lo enquanto esperava a vez dele de entrar na piscina. Você sabe como as coisas são, ele podia acabar esquecendo sem querer o livro, perto da piscina, e algum sem querer poderia acabar jogando agua nele. Esse tipo de acidente acontece não é mesmo ?

Eu só fiquei imaginado o meu livro, que eu tinha ganhado de presente da minha avó, ainda com um bilhete dela escrito, que ainda não tinha acabado de ler boiando na piscina do meu colégio. Isso junto com a lembrança da expressão de desaprovação no rosto da Alice e do Leo me fizeram ficar realmente brava.

–Não acredito que você seja capaz disso- até eu fiquei surpresa com a frieza da minha voz. Que dirá a Melissa- Agora chega dessa brincadeira de mal gosto e me devolve o meu livro que eu tenho certeza que ele ta ai com você-

Dessa vez foi ela que ficou sem reação. Ficou me encarando com um ar de espanto enquanto abria e fechava a boca sem saber o que falar.

–Melissa por favor- falei com uma voz mais gentil ao mesmo tempo que fazia questão de dar mais um passo na direção dela para que ela percebesse que eu não tinha intenção nenhuma de sair dali sem ter conseguido meu livro de volta.

Quando pareceu para mim que ela finalmente tinha decidido me dar o livro alguem apareceu na porta chamando por ela.

–Melissa! Caralho tô te esperando tem mó tempão aqui fora!Não vai sair não?

Entrava na sala um menino alto, de porte físico atlético, com a pele muito morena e os cabelos escuros curtos quase pretos num corte muito estiloso. Ele parou na porta quando me viu.

–Diogo-ela disse e os olhos dela brilharam em um tom ainda amais perigoso do que o que tinham antes-Eu estava preparada para ir me encontrar com você só que ai a Camilinha aqui resolveu vir me encher a paciência. Ela fica falando de um livro que ela acha que tá comigo, mas eu já disse que não o tenho, só que ela não consegue colocar isso na cabaçona dela- fez um gesto para mim enquanto o menino se aproximava de nós.

–Ah é mesmo?Pois é Camila por causa dessa bobagem agora eu to atrasado pro meu treino-ele falou de uma maneira bem arrogante e petulante-o que que você vai fazer para compensar isso?

Eu estava ficando nervosa de novo. Estava na cara que não importava o que eu falasse eu nunca ia convence-lo de que eu estava fazendo uma acusação justa.

–Perai...Eu acho que eu te conheço-(a escola era muito grande por isso era comum alunos da mesma serie não se conhecessem ou deixassem de se ver por um grande período de tempo)-Essa é a …?

–A Camilão-completou Melissa- Aquela mesmo, que usava aqueles óculos horrorosos, aparelho, o rosto cheio de espinhas e era gorda que nem uma baleia.-ela falava colocando entonação nas palavras.

–Aaaaah! Você !!Nossa mas tá diferente-ela me olhou me analisando-sem óculos, sem espinha, sem aparelho, sem barriga.-pausa- Mas continua feia do mesmo jeito não é mesmo?- essa ultima parte ele falou bem baixo de modo que só eu pudesse escultar- Deixa eu adivinhar, você ainda é BV?Óbvio-falou como se realmente fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Ele e a Melissa começaram a dar um risada de escárnio. Eu senti que ia começar a chorar. Fiz de tudo para esconder as lágrimas e não dar esse gostinho a eles, mas antes que eu me desse conta eu já estava em prantos, correndo e dando um safanão nele para que eu conseguisse passar. Eu atravessei o corredor, desci as escadas e continuei correndo a esmo. Não queria nunca mais voltar a ver aqueles dois. Não queria nunca mais voltar naquela escola. Só queria ir para a casa, trancar meu quarto, ligar meu ipod e esquecer daquilo tudo horrível. Foi ai que eu vi, la frente, a Alice sentada numa das mesas da cantina. MERDA. De todas as pessoas do mundo que eu podia encontrar tinha que ser logo ela! Sério, eu não tinha saco nem condição emocional nenhuma nem para olhar para ela. Por isso eu dei meia volta e pedi a deus para que ela não tivesse me visto. Eu corri para o outro portão de saída só que chegando lá eu descobri que já estava fechado. O pior de tudo foi quando eu escutei os passos e a voz dela me chamando.

–Camila- a voz dela estava ofegante e logo ela estava próxima de mim

Eu só estendi a a mãe para mante-la afastada

–Alice...agora não, por favor, agora não, mais tarde a gente conversa- eu tentava virar o rosto para o outro lado para que ela não visse a minha cara.

Só que ai ela segurou o meu braço e me puxou para um abraço. Depois fez questão de apertar o laço quando eu tentei me soltar.

–Não fica assim não que tô aqui- ela falou baixinho, me dando um beijo carinhoso no rosto em seguida e afagando os meus cabelos.

Tudo o que tive condição de fazer foi apoiar a cabeça no seu ombro e começar a soluçar. Eu chorei por tudo : chorei pela humilhação que o Diogo a Melissa tinham me feito passar, chorei pelos últimos dias em que ela e o Leo estiveram afastados de mim, chorei pela culpa que eu sentia por gostar dela, chorei por ter medo de ela nunca vir a gostar de mim da mesma forma que eu gostava dela, chorei de vergonha de mim mesma por ser covarde,fraca,preconceituosa.



Notas finais
desculpa pelos erros de português (2)