Lightweight.
4 Too Hard To Hold.
Notas iniciais
"Oh, you can't make yourself stop dreaming who you're dreaming of"
Eu acabei dormindo antes que ele chegasse.
Era sábado, o tão prometido fim de semana de Poseidon e meu avô ainda estava internado no hospital. Prometi a minhas tias que iria vê-lo ainda hoje. Não sabíamos o dia de amanha e não queria hesitar em vê-lo.
Calcei botas de montaria, shorts e uma regata junto com um boné.
Assim que cheguei à sala, pude ver duas pranchas de surf ocupando o lugar em cima de meus sofás, vários chapéus e bolsas espalhadas pelo tapete e conversa alta na cozinha.
– Se fosse um final de semana com a minha família, todos estariam dormindo ainda. – resmunguei, sentando-me em um dos bancos em frente ao balcão de mármore
Percy sorriu a minha frente, inclinando-se para beijar meus lábios.
– Bom dia, meu amor.
– Tanto faz.
– Mãe! – Olive virou-me em um solavanco – A blusa branca ou... A blusa azul?
– Azul. – Percy respondeu ao meu lado
– Branca.
Ela assentiu, com o cenho franzido e nos deu as costas.
– Não é que sua família seja chata... Thalia é legal.
Revirei os olhos.
– Eu vou precisar ir ao hospital antes de ir pra praia.
– Podemos ir com você. – Paris sugeriu, esgueirando-se ao meu lado e ficando ao lado do pai enquanto jogava as cartas em cima do balcão – Conta de luz, água, conta do cartão de crédito da Liv! – ele gritou
– Cale a boca!
– Hm... Conta...
– Não sei por que você continua fazendo isso, Paris. – peguei uma das contas que ele chocalhava no ar – Só tem contas.
– Não, uma vez Atena mandou uma carta pra ele, lembra? – Percy comentou, pegando sua caneca na cafeteira e encostando-se a pia.
– Uma vez.
– Por que você adora estragar a minha felicidade, mamãe? – ele fez um beicinho
Dei um sorriso, socando seu peito, ergui o dedo, pedindo um pouco de café também, Percy entregou-me sua caneca, pegando outra carta no balcão, ele a abriu e arregalou os olhos.
– Liv! O que você fez na farmácia? Estava doente?
– Aham! Comprei remédio de dor de cabeça.
Paris riu.
– Não é só isso que se faz em uma farmácia, maninha.
– Cale a boca. – vociferei para ele
– Ei! – ele pegou um envelope pardo e o encarou, confuso – Não tem remetente. É pra você, mãe.
Percy me olhou, confuso. O adesivo era vermelho sangue. Engoli em seco e o peguei das mãos de Paris.
– Preciso ir ao hospital. – encarei meu relógio de pulso – Nos vemos daqui a algumas horas, tudo bem?
– Você estava esperando essa carta? – Percy perguntou assim que pulei do banco
Balancei a cabeça, pegando meu celular em cima do sofá e acenando para Olivia enquanto ele continuava a me seguir.
– Então, por que está fugindo?
– Estou indo ao hospital. – virei-me para ele e segurei seu rosto, beijando seus lábios
Percy segurou minha cintura com força, nenhum pouco relaxado nem confiante.
– O que está me escondendo, Annie?
Sorri, encarando o céu. Eu não choraria em frente da minha casa. Não choraria em lugar nenhum.
– Cronos está morrendo, Percy. Eu acho que isso pode ser, sei lá, uma carta da CIA? Ou do Jack, de novo.
– Eu sei que ele está morrendo. Sabíamos disso, lembra?
– Mas ele continuava na casa dele. Ele continuava falando... Não sei o que pode acontecer hoje.
Sabia que ele não tinha acreditado em nenhuma daquelas palavras e me senti ofendida, porque era a verdade. A verdade que eu tinha para dar, a única que eu sabia.
– Vou despistar meu pai e te pego no hospital, tudo bem?
– Não precisa...
– Sabe que vou fazer isso. E agora, seus filhos estão na janela, tentando entender o que estão acontecendo. – suspirou, encarei a janela da sala, vendo a cortina levemente aberta, ambos estavam com os olhares curiosos em cima de nós – Quando vamos ficar sozinhos de novo?
Acariciei seus cabelos na testa, percebendo seu tronco nu.
– Agora, as vizinhas estão olhando para o meu marido. E... – deslizei meu dedo sobre seu ombro – Vamos ficar sozinhos quando os mandarmos para um internato em Hampshire.
– Boa pedida. – ele sorriu
Ri e assenti.
– Tenho que ir. – beijei seus lábios mais uma vez e acenei para meus filhos na janela
Eu não gostava muito da ideia de dirigir sozinha pelo caminho de Santa Monica a Los Angeles. Preferia quando eu tinha dezesseis anos e pegava a velha caminhonete de Luke para fugir deles, no entanto, agora, não existia mais caminhonete porque ele tinha vendido e comprado um carro esportivo de honra para um delegado federal.
Perguntei-me se ele estaria lá, em um momento crucial na nossa família.
Perguntei-me quem estaria lá. Provavelmente minha mãe, Afrodite que tinha deixado seu trabalho em Hampshire, Luke, meus tios e alguns primos distantes. Nenhum deles tinha convivido e amado meu avô tanto quanto eu e meus próximos primos. Nenhum dos meus distantes primos sabiam de nossos segredos, sabíamos o que tínhamos para guardar.
Fiquei tentada a ligar para Thalia e o fiz, assim que parei em um sinal vermelho, conectando o celular ao som do carro.
– Já está no hospital?
– Acabei de chegar. – ela disse, sua voz estava trêmula
– Como está tudo aí?
– Horrível. Não sei o que é sorrir desde o começo da semana.
– Com quem o Ian ficou?
– Ah... Com o Nico, ele disse que Poseidon tinha chegado de viagem e foi pra... Sei lá, um final de semana na praia?
– Parece que sim. Cheguei ao hospital. Pode vir a recepção?
– Claro.
Encerrei a chamada e peguei meu telefone em cima do banco, colocando em meu bolso. Deixei meu boné dentro do carro e o travei enquanto seguia pelo estacionamento relativamente vazio.
Hospital me trazia péssimas lembranças. Em especial, esse hospital. Lembro-me quando tive um sangramento e perdi um bebê, por causa de uma carta aparentemente parecida com a que eu carregava na bolsa. Depois, o difícil parto de Paris. A única coisa que eu me lembrava desse dia tortuoso era os olhos de Percy e seus dedos agarrando os meus, implorando para que eu o encarasse.
Foi um parto normal e aquilo quase tirou minha vida. Mas eu passaria por aquilo mil vezes se fosse preciso para ver meu filho saudável no outro dia.
Também me lembrava do parto de Olivia. Aquilo me trouxe arrepios e balancei a cabeça.
Inclinei-me sobre o balcão de vidro da recepção vendo uma mulher bonita com um sorriso fofo vir até mim.
– Bom dia, senhora. Posso te ajudar?
– Sim, eu queria visitar Cronos Olympus.
– Ela está comigo. – Thalia apareceu no começo do corredor
– Ah, sim. – a recepcionista assentiu enquanto eu ia até minha prima
Abracei-a. Apertei-a contra meus braços. Eu sabia que tudo aquilo não era um sonho, no entanto, ela era a única que entendia e sentia absolutamente o que eu estava sentindo. Sabia que ela sentia aquele vazio se abrindo dentro dela como se nunca fosse ser reposto.
Eu sentia isso de um jeito horripilante.
– Ele está pedindo pra desligar os aparelhos. Annie, eu o odeio tanto, tanto... – ela soluçou
Acariciei seu cabelo negro, agora, na altura dos ombros. Apertei-a ainda mais contra mim e sorri.
– Deixe-me vê-lo antes que sigam seu pedido.
Thalia assentiu. Nos demos as mãos e seguimos pelo corredor. Tentei ignorar o cheiro de álcool etílico que parecia ficar preso dentro das minhas narinas. Seguimos pelo corredor; Thalia parecia conhecer muito bem o hospital já que em alguns minutos, estávamos em uma sala de estar.
Não me surpreendi quando vi Luke com um copo de café andando de um lado para o outro com uma careta.
– Está sem açúcar? – perguntei, pegando o copo de sua mão, bebericando-o
Ele ergueu os olhos azuis para mim e me pegou em um abraço apertado. Não demorou muito para eu sentir seu outro braço puxando Thalia. Ficamos abraçados, não sei por quanto tempo, mas deveria ter sido o suficiente até eu ouvir o soluço de Luke.
– Eu estou com medo.
Aquilo quebrou meu coração. Lembrava-me das poucas vezes que vira Luke chorar, mas, em todas as vezes que aquilo acontecera, ele sempre dissera que podia superar aquilo e que iria.
Ele não disse isso dessa vez.
Enfiei meus dedos em seus cabelos, apertando-o contra mim.
– Está tudo bem, ok? Vamos entrar todos juntos lá. E não vamos chorar, ok? – Thalia disse entre nós
– Como se fosse fácil. – Luke resmungou
– Está todo mundo olhando para nós. Só... Vamos fazer isso.
Foi difícil nos afastarmos e quando o fizemos, entramos de uma vez na pequena porta que indicava o quarto do nosso avô.
Ele estava magro. Muito magro. Ele tinha tubos em seus braços e algo apitava indicando seus batimentos cardíacos. Eu deveria estar acostumada com aquele som, infelizmente, não estava.
Cronos abriu os olhos, trêmulos.
– Benção. – dissemos juntos
– Os netos mais atrevidos que alguém pode ter. Quero que parem de se meter em encrencas quando eu for embora.
– Vai ser um pouco difícil, vovô. – Thalia falou, ajoelhando-se ao seu lado
Fiz o mesmo, em seu lado direito e Luke ficou em pé na ponta da cama.
– Principalmente porque Luke é um delegado agora, lembra?
Ele sorriu.
– Me lembro do orgulho que senti. E vocês, duas mulheres bonitas e ricas. Estou feliz por vocês.
– Não queríamos que você fosse embora. – Thalia sussurrou, beijando sua mão – Queríamos que fosse eterno.
– E serei. Na mente de vocês. Para sempre. Só não me deixem sofrer ainda mais em meio de tubos e experimentos médicos.
– É isso que você quer, vovô, você terá. Não o trancaremos. – murmurei e dei um beijo em seu rosto – Te amamos. Muito.
Ele sorriu. Meu queixo tremia, mas nenhuma lágrima ainda tinha caído. Engoli em seco.
Não percebi que tudo aquilo acabaria ali. Não queria que acabasse ali.
Meu avô começou a relembrar nossos melhores momentos, em meio de tosses e algumas lágrimas que deslizavam pelo seu rosto. Em muitas vezes, ele se perdia em sua fala e começava outra história, mas eu continuava com um sorriso no rosto porque eu não queria tirá-lo, eu queria que ele se lembrasse de mim com a garotinha de cabelos dourados que corria pela casa dele em busca de outra encrenca.
– Olhe pra você, Thalia... – ele sorriu, calmo – Uma advogada com honras. O outro garoto que só me trouxe problemas, um delegado e você, Annie... Pequena Annie. – ele suspirou — Não posso estar mais orgulhoso de vocês. Vou morrer de orgulho. – ele sorriu – Literalmente.
Passamos mais tempo do que o esperado e um enfermeiro teve que nos tirar do quarto. Dei um último beijo em meu avô.
– E ah, garotos. – viramo-nos – Não quero enterro. Convençam seus pais disso. E ah, você são meus netos preferidos.
Rimos uma última vez antes de virarmos as costas.
– Não vou chorar, ok. – encarei o teto e abanei meus olhos, sorrindo – Essa foi a melhor despedida de todas.
– Não é tão fácil assim. – Luke encarou o vidro que nos separava do pequeno quarto
Eles haviam começado a desligar os aparelhos.
– Se algum dia eu ficar nesse estado, por favor, não me deixem presas a aparelhos. Não quero viver por aparelhos. – resmunguei e cruzei os braços
As lágrimas caíram pelas minhas bochechas. Seria assim, então? Meu avô morreria e tudo estaria bem? Eu viveria minha vida? Era assim que teria que ser? Eu odiava aquela ideia.
Encarei minha mãe atrás de mim, seus braços estavam cruzados e ela não expressava nenhuma emoção em seu rosto, em exceção de seus olhos que estavam repletos de lágrimas.
Deixei meus primos e a abracei. Ela precisava de mais apoio que nós.
– Está tudo bem, mãe. Ele está em um lugar bem melhor daqui a alguns minutos. Deixe-o ir.
– Não é tão fácil, Annabeth. Ele é meu pai.
– Ele não queria ser superficial, mamãe. Deixe-o ir.
Ela assentiu, piscando os olhos e enxugando as lágrimas assim que elas caíram.
– Vou fazer uma viagem para o Japão com Afrodite. Queria perguntar se não queria nos acompanhar.
– Tenho dois filhos e um marido totalmente dependente, mãe. – encarei meu avô mais uma vez, tentando deixar seu rosto feliz e alegre preso em minha memória
– Esqueci que é uma mulher formada agora. – ela ajeitou uma mecha do meu cabelo, colocando-o atrás da minha orelha – Estou tão orgulhosa de você.
Sorri, sentindo um soluço preso em minha garganta. Meu avô também estava.
Assenti. Apoiei minha cabeça em seu ombro e observamos a sala pelo vidro. Meu avô acenou quando os enfermeiros entraram, preparando o processo.
As lágrimas caiam tão fortes, meu sorriso continuava inabalável e eu o amava.
Eu o amo, vovô.
Os enfermeiros fecharam as cortinas, privando-nos de ver o que acontecia lá dentro.
Luke mexeu os ombros e enxugou o rosto com força.
– Eu preciso ir pro trabalho, algum de vocês querem carona?
– Eu vou com você, Luke.
– Acho que essa é minha deixa, mãe. – dei um beijo em seu rosto e acenei para meus tios, tentando continuar afastada deles
Ela assentiu e fui ao lado de Thalia.
Ficamos calados, Luke ia a nossa frente, guiando-nos, a postura ereta, como de um homem responsável.
Claro que o vovô tinha orgulho dele. Ele se tornara tudo aquilo que ele lhe ensinou. Um homem honesto, responsável e corajoso. Procurando proteger todos aqueles que não podiam se proteger, procurando a justiça acima de tudo. Procurando ajudar. Eu estava orgulhosa dele.
– Estou indo encontrar as crianças com Percy e meu sogro. – disse para Thalia — Quer ir comigo?
– Estava pensando em passar toda minha ressaca emocional sozinha procurando um bom soverte de chocolate.
– Ressaca emocional. Acho que não tenho o privilegio de sentir isso. Droga, eu vou chorar de novo. – pisei no chão e respirei fundo, tentando afastar as lágrimas
– Luke... Por que não tira o dia de folga? – Thalia perguntou, tocando suas costas – Seria melhor do que passar todo o dia trabalhando, certo?
– Não? – ele respondeu como se fosse óbvio – Não preciso ficar pensando nessa... Nisso! Como o deixamos ir? Ele estava tão... Ele estava aqui! Em cinco minutos, ele se foi!
Afastei-me, surpresa.
– Você precisa falar baixo, estamos em um hospital.
– Eu não me importo! Meu avô está morto. Morto! E eu o deixei ir. Minha culpa.
– Ei, ei, ei. – segurei seu rosto – Olhe pra mim, Luke, não foi sua culpa, ok? É a ordem natural das coisas, todos nós iremos morrer. Não pode ficar se culpando, não pode ficar mal, não pode sentir toda essa dor sozinho. Estamos aqui com você.
Ele se afastou e saiu em passos fundos.
Encarei-o, temerosa.
– Ele pode matar alguém. – disse
– E ele tem uma arma. Não vai ser tão difícil.
Bufei e apressei o passo a tempo de ver Percy saindo de um táxi. Sua mão parou no peito de Luke, ele o empurrou. Percy o seguiu, falando coisas até que seu cenho se franziu.
Luke parou o que estava fazendo e apontou o dedo contra o peito de meu marido, como se fossem duas crianças, brigando. Percy sorriu e o abraçou.
Fiquei surpresa, parando de andar lentamente e encarando Thalia por cima do ombro.
– O que está acontecendo? – ela me perguntou
– Não faço ideia. – respondi
Percy o afastou e balançou seus ombros em um sorriso reconfortante. Eu estava me sentindo reconfortada, estava me sentido renovada. Seguimos até os dois com vagareza.
– Ele está bem onde queria estar, cara. E orgulhoso.
– Não prefere que te deixemos em casa, Luke? – Thalia perguntou
Abracei seu braço, encostando minha cabeça em seu ombro.
– Sinta a dor, Luke. É melhor do que escondê-la... Um dia, ela vai te achar, de qualquer maneira.
– É, cara, te damos uma carona, depois eu pego seu carro e levo pra sua casa, ok? Vai relaxar.
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