Lightweight.
28 Like blah, blah, blah.
Notas iniciais
"Pay me what you owe me, don't act like you forgot"
De acordo com Kacey, seu marido estava bem, na medida do possível. Ele ainda estava na cirurgia, porém estava estável, a bala poderia ser tirada, sem problemas, no entanto ele teria que ficar internado, pelo menos, uma semana.
Como ela não me julgou ou me agrediu verbalmente, tive certeza que ela não tinha noção de quem tinha feito aquilo.
Tentei passar boas palavras para ela, dizendo que ele ia ficar bem e assim que eu pudesse, poderia fazer uma visita a eles, no entanto, ela me atacou com coisas do tipo “quem poderia ter feito isso?” “o Graham é tão amável, ele não tem inimigos”, dei uma desculpa boba e desliguei o telefone.
Percy parecia ter recuperado seu controle sobre si. E agora, eu estava perdendo o meu.
Não deixei uma lágrima sair e estava decidida a não deixar, ao menos, pelo resto do dia.
Saímos do carro, eu já não tinha mais meu celular, o que me deixou sem poder avisar aos meus filhos, ou a Thalia que eu estava bem. E minha mãe, céus, eu me perguntei se alguém já teria avisado a ela.
Assim que Percy abriu a porta, vi uma multidão de pessoas, pelo menos para mim. O primeiro a aparecer em minha visão foi Paris com um abraço de urso, ele parecia terrivelmente preocupado, os olhos alertas.
– Você está bem, certo?
Olivia o empurrou para o lado, consegui dar um pequeno sorriso.
– Mãe, não aconteceu nada com você, não é?
Balancei a cabeça, no segundo seguinte, ambos me abraçaram.
Tive que afastá-lo porque estava ficando sem ar e porque queria ver quem mais estava ali. Ian correu até mim, parecia não saber ao certo porquê, no entanto sorriu.
– Eles são tão dramáticos. – Ian revirou os olhos
Nico bateu em sua nuca.
– Cala a boca, garoto. – em seguida, puxou-me para um abraço – Nunca mais, nunca mais nos dê um susto como esse, ok? Eu vou fazer questão de ver esse cara sofrer.
Apertei-o ainda mais.
– Obrigada.
– Não posso deixar escapar a melhor parte da família.
Thalia estava chorando. Pude ver isso assim que Nico se afastou, seus olhos estavam vermelhos, assim como suas bochechas, suas roupas de trabalhado estavam engomadas, como sempre me lembrei, ela pousou as mãos no quadril, fungando e sem se aproximar de mim.
– Não ouse nos deixar preocupados, Annabeth.
– Gente. – Percy resmungou – Luke só faz um grande alarde. A bala passou longe de Annabeth.
– Mas chegou em um homem inocente. – dessa vez, minha mãe que estava sentada no sofá, me olhando com um misto de alívio e felicidade se pronunciou – O que chega a ser pior.
Assenti, engolindo em seco. Se minha mãe sabia, a coisa estava muito feia...
– Está na hora de vocês darem um jeito nesse homem. – ela levantou-se, passando as mãos pelo vestido longo que usava – Não tenho ideia de como, nem quero saber... Só não quero que minha filha corra perigo novamente, entendido? – seu discurso foi direcionado para Percy que assentiu firmemente, como um soldado
– Só queríamos ter certeza que estava bem. – Nico acariciou meu braço, abraçando-me de lado – Estamos de saída.
Thalia me deu um olhar rápido antes de ir, apenas apertando minha mão.
Era um sinal? Que tipo de droga de sinal... O quê? Tentei parecer impassível enquanto me despedia de todos.
Depois que minha mãe e meus amigos foram embora, a casa pareceu maior e menos sufocante. Paris parecia aliviado enquanto me rondava em busca de algo.
– Paris. – Percy bufou – Está tudo bem.
– Um cara foi baleado. – Olivia começou, andando de um lado para o outro – E minha mãe foi baleada, lembram? Por que isso está acontecendo com a gente? Isso tem a ver com o passado “sombrio” de vocês?
– Sua mãe não está na capacidade de conversar sobre nosso passado ou o porquê desse homem está atrás de nós. Ela vai descansar, eu vou fazer uma sopa e vamos dormir. Sem surpresas, sem saídas. – decretou
– Por que deveríamos querer sair depois disso?
Balancei os ombros.
– Acho que a segurança vai ser redobrada. – murmurei e subi as escadas
***
Durante três dias, eu fiquei em casa com chás e cafés quentes. O inverno chegara e com o isso, o frio começava a aparecer. Acordava mais cedo e fazia o café da manhã dos meus filhos e de Percy, até começara a preparar sanduíches para que eles comessem, eu não conseguia nem olhar para rua sem lembrar do corpo de Graham. De minhas mãos sujas de sangue.
Contudo hoje, era o dia que eu poderia visita-lo. E eu estava determinada a lavar meu rosto das manchas de lágrimas que caíram durante esses três dias. Além disso, eu teria uma conversa importante com Poseidon, a seu pedido. Já havia guardado todas as cartas em minha bolsa, armazenado algumas perguntas na minha cabeça.
Agora, quase duas horas da tarde, esperando Paris e Olivia voltarem da escola, me sentia uma dona de casa. Eu precisava trabalhar, ao menos. Havia prometido para Mazzali que mandaria e-mails semanais, mostrando o progresso já que agora eu estava sem secretária por tempo indeterminado.
Encarei-me mais uma vez no espelho do quarto. Meu cabelo preso em um forte rabo de cavalo, minha blusa branca estava coberta por uma jaqueta jeans aconchegante e quente azul claro, além das calças pretas e botas da mesma cor.
Desci as escadas aos pulos, com as cartas na bolsa-carteira, Percy estava abrindo a porta quando atingi o chão.
– Está tudo bem? – ele deu aquele sorriso doce que eu estava acostumada a receber
Não queria aquilo.
– Claro. – sorri de volta, inclinando-me sobre seu peito e lhe dando um longo beijo – Sabe aquilo que eu estava te devendo?
Ele franziu o cenho, parou por um momento e sorriu novamente. Doce. Quase grunhi.
– Não se preocupe com isso, Annie. Se preocupe com sua saúde, você está bem, não está? Não precisamos visitar Graham se você não estiver bem.
Respirei fundo. Calma. Isso.
– Estou bem, Percy. Podemos ir?
Ele recuou um pouco, então segurou meus ombros e aproximou nossos lábios. Eles ficaram tão próximos que eu poderia sentir sua respiração contra a minha, seus dedos em meus ombros formigavam minha pele, ele deslizou seu nariz pelo meu pescoço e beijou algum canto perto de minha orelha.
– Só quero que esteja bem. Só isso.
Assenti, meio entorpecida e o segui até sua Mercedes.
Quando chegamos ao hospital, senti um arrepio percorrer cada célula do meu corpo. Observei Percy em seu paletó como se fosse parte de seu corpo, ele andava com tanta segurança e tão firme. Respirei fundo novamente. Estou bem, estou bem.
Aceitei sua mão enquanto chegamos a recepção.
– Queremos fazer uma visita a... – ele começou, ergueu as sobrancelhas e deu seu melhor sorriso a enfermeira – Graham.
– Jamie Graham. Sim. Ele vem tendo muitas visitas ultimamente. – a mulher de cabelos encaracolados resmungou, ela rasgou dois adesivos e os entregou a Percy – Ele está por ali... Eu vou pedir que alguém...
– Kay. – uma voz familiar soou em meus ouvidos, encolhi-me – Preciso que verifique o paciente do quarto 101. Senhor... Jake, acho? Ele precisa dos remédios nas horas corretas, deixe isso escrito. Ah, perdão, você estava... – ela ergueu seus olhos cor de esmeralda, as sardas salpicadas em seu nariz brilharam
Sem raiva, Annabeth. Você só passou por muita coisa. Muita coisa.
– Percy. Annabeth. – Rachel sorriu, calorosa, parecia bem ali, diferente de mim – Espero que não estejam doentes ou... Qualquer coisa do tipo. Ou uma bala no braço. – ela tentou fazer um tipo de piada que não foi muito legal
Mesmo assim, Percy sorriu. Ele acariciou seu cotovelo, afastou-se e passou um dos braços pelos meus ombros.
– Só viemos visitar um amigo...
– Jamie Graham. – completei por ele com um sorriso.
Ela não era uma ameaça. Nunca foi. Nunca. Você tem coisas mais importantes para lidar, aliás o sobrinho dela traiu minha filha. Realmente. Bela ironia.
– Sr. Graham. – Kay verificou e entregou uma prancheta para Rachel com um sorriso – Aqui está. Você deveria dar uma passada lá, Srta. Dare. E você poderia acompanhar a visita.
– Ah, sim, claro. Você poderia pedir que alguém leve as outras pranchetas para minha sala? – a recepcionista assentiu e Rachel retribuiu com um grande sorriso
Rachel nos levou até um corredor claro e com aquele cheiro de álcool. Percy apertou seu braço ao redor do meu ombro.
– Eu não sabia que ela estaria aqui. Só para deixar claro. – ele sussurrou em meu ouvido
– O quê? Você acha que eu acharia isso?
Ele arqueou uma sobrancelha e sorriu, beijando minha têmpora.
– Eu só quero que...
– Que eu fique bem. Sim, eu já entendi essa parte, Percy.
Percy deu um pequeno sorriso sem mostrar os dentes enquanto éramos guiados para o quarto de Graham. Rachel foi a primeira a irromper no quarto, ela parecia aquecer tudo aquilo e naquele momento, enquanto ela andava e falava, parecia uma fada de cabelos ruivos e sorriso genuíno. Naquele momento, senti-me grata por ela estar tratando de Graham.
– Vejo que já está bem. Já está levantado. – ela verificou os batimentos cardíacos dele – Tudo ok. Onde está Kacey?
– Ela foi pegar café. Está bastante cansada. – o rosto de Graham estava abatido e cansado, embora ele ainda mantivesse aquele sorriso no rosto – Annabeth?
– Eu. – sorri, caminhando ao seu lado – Desculpe-me por não te visitar antes. Sinto muito.
– Não. Sem problemas. Você já tem ideia do que aconteceu naquele dia?
Minha garganta fechou, minha língua parecia uma grande tábua de concreto, por sorte fui salva por Percy.
– A polícia está trabalhando nisso, Graham. Acho que não nos conhecemos, eu sou Percy... Hm, marido da Annie.
Eu pensei em corrigi-lo, mas percebi que aquela não seria a melhor hora para isso, então sorri concordando. Graham nos olhou, surpreso.
– Não sabia que você era casada.
– Ela não gosta de juntar o trabalho profissional com pessoal. – Percy acariciou meu braço – Mas ela estava bastante preocupada com seu estado de saúde.
Pigarreei, tentando recobrar minha voz.
– Sim. Você está se sentindo bem?
– Cansado, um pouco. Como disse, ainda estou preocupado com o que aconteceu naquele dia. Pergunto-me a quem aquele homem queria acertar.
Rachel soltou um suspiro.
– Já dissemos milhares de vezes que não queremos que se preocupe com isso, Graham...
– Mas ele me atirou!
–...já que pode afetar sua saúde mental e não é algo que queremos, ok? – Rachel verificou sua temperatura com a mão – Percy disse, a polícia está fazendo o trabalho dela.
– Saiu no jornal. – ele pigarreou, virando-se para mim – Que eles poderiam querer você.
Percy agarrou ainda mais meu braço, embora tivesse um sorriso quando disse.
– Quem disse isso?
Todos ficaram em silêncio. A voz de Percy não animava ninguém para que continuasse falando, portanto Rachel endireitou os ombros.
– Sua irmã. – ela mordeu o lábio inferior, me encarando embora soubesse que não estava se referindo a mim – Kaya Jackson.
O oxigênio pareceu ser queimado. Como quando eu estava na casa de Percy, onde o fogo estava em todo lugar, quando eu só conseguia tossir e gritar pelo seu nome. Agarrei-me na cama de Graham, tentando manter minha expressão neutra.
– Na verdade... – comecei e ouvi que minha voz estava histérica, tossi novamente – Talvez, quero dizer, havia tantas pessoas lá. Talvez eu tenha feito uma casa terrível e alguém quisesse me matar. – dei de ombros
Ninguém sorriu. O que não amenizou o clima.
– Annabeth? – virei-me para ver Kacey com um copo descartável de café (provavelmente ruim)
– Kacey. É um prazer te encontrar. – abracei-a quando ela se aproximou
– Ah, você deve ser Percy Jackson, certo? É um prazer te conhecer, sou Kacey Graham.
– O prazer é meu.
– Bem. – Rachel juntou as mãos – Acho que está na hora de darmos um tempo para o Sr. Graham aqui, hm? Não demorará muito para levar alta.
Eu agradeci mentalmente por ela me tirar dali. Eu e Percy parecêssemos voar para fora do quarto, assim como Rachel que fechou a porta e nos acompanhou.
– O estado dele era grave no inicio. A bala tinha atingido artérias importantes, estávamos com medo de que ele perdesse bastante sangue, além de que ela ficou alojada perto do coração. Três centímetros para baixo e talvez, ele não tivesse sobrevivido.
– Obrigada. – disse quando chegamos a recepção
Rachel arregalou os olhos, ergui o queixo.
– Obrigada. É... Bom saber que você faz seu trabalho tão bem... E...
– Então, é verdade? É por causa de você? – a voz dela ainda era calma e neutra, no entanto eu podia ver uma fagulha de raiva por trás da imensidade verde em seus olhos
– Não é por causa dela, Rach. – Percy interviu – As coisas ficaram bem difíceis ultimamente, por causa de um assunto inacabado que tem a ver com seu irmão e...
– Não quero saber disso. – ela ergueu a mão em sinal de silêncio – Realmente não. Espero que consigam passar sobre isso. Tenham um bom dia, Sr. e Sra. Jackson.
E então, saiu. Cruzei os braços e virei-me para Percy.
– Ela ficou com raiva?
Percy pareceu pensar e deu de ombros.
– Provavelmente. Próxima parada: casa do papai.
– E saber o que sua irmã estava fazendo na televisão. – resmunguei de volta
***
Claro que Percy não fazia ideia que Poseidon havia me chamado para uma conversa.
Claro que não.
Ou achava que não.
Assim que adentramos a casa, pude ver minha mãe andando de um lado para o outro, o que me inundou de uma preocupação imediata.
– Mãe? – aproximei-me
– Ah! Annie. – seus braços contornaram meus ombros
– Você está bem? – afastei suas mãos de mim com um sorriso neutro
– Claro! Ah, sim. – ela soltou um longo suspiro – Percy! Não sabia que ia nos acompanhar para o almoço.
– Na verdade... Eu já almocei, Atena.
– As crianças estão lá em cima. Estavam cansados. Essa rotina vem sendo muito cansativa para eles, estava propondo que no recesso do Natal poderíamos viajar para o Caribe. Algum lugar ensolarado.
Arqueei a sobrancelha. Decidi que minha mãe não estava em um bom momento para que eu discutisse nada, se bem que a ideia dela era um meio de “fugir” e de certa maneira, aquilo era muito bom. A ideia era bastante tentadora. Entretanto, deixei meus ombros eretos e tentei lhe mandar um grande sorriso.
– Podemos conversar sobre isso depois, claro. Só que ainda temos a Ação de Graças. Próxima semana. – pisquei
– Sim! Eu estava falando com Thalia... Conversamos bastante sobre isso e pensamos que poderia ser aqui. Claro que vai estar frio e vamos ficar enfurnados com a lareira ligada, só que a casa é grande e...
– Parece uma ótima ideia. – Percy interrompeu – Meu pai está no escritório dele? Preciso conversar com ele.
Atena o encarou. Meio desconfiada e confusa, por fim, cruzou os braços, empinou o nariz com uma expressão desafiadora.
– Seu pai está extremamente ocupado com Kaya agora.
No mesmo momento, eu e Percy trocamos um olhar e avançamos pelas escadas. Eu era movida pela curiosidade, ou pela pequena parte de mim que cantava vitória pela queda de Kaya. Percy deveria ser movido pela intenção de proteger a irmã, o que de fato, eu não me importava.
Eu ouvia minha mãe gritando meu nome atrás de mim. Ou algo para que tirássemos nossos sapatos. Eu ainda não conhecia a andar de cima, portanto tive que seguir Percy quando ele abriu uma porta em um empurrão.
Kaya estava sentada em uma poltrona bege enquanto Poseidon parecia irritado atrás de uma mesa de mogno. Avaliei rapidamente o escritório, observando os tons masculinos e o cheiro amadeirado que reinava por ali. Deixei uma nota mental para colocar uma grande estante de livros em uma das paredes ou um papel de parede interessante na parede esquerda, além de fazer uma decoração com gesso no teto.
– O que você estava fazendo na televisão falando sobre Annabeth? – Percy grunhiu
Um para Chase, zero para Kaya.
Poseidon respirou fundo.
– Por favor, feche a porta e sinta-se a vontade para sentar-se. Annie.
Cumprimentei-o rapidamente antes de obter um lugar na poltrona ao lado de Kaya. Percy, no entanto, estava atrás de mim.
– Pronto. Podemos começar a reunião de família. – Kaya resmungou – Claro a não ser por ela aqui. – revirou os olhos para mim
– Kaya, querida... – comecei
– Eu vou pedir, encarecidamente, que as duas não ajam como adolescentes ciumentas. E me deixem falar.
Mantivemos um silêncio de segundos.
– Primeiro, Percy, isso que você acabou de perguntar era o que eu estava tentando arrancar de Kaya. O que você estava pensando quando deu aquele depoimento?
– Era a verdade. – deu de ombros
– Não. Vamos... Do começo. – Poseidon estava nervoso, seus dedos mexiam uns nos outros enquanto sua voz saia serena – O que você estava fazendo na delegacia?
– Na delegacia? – sussurrei, surpresa, em especial para Percy
– Luke me chamou. – respondeu, a contragosto
– Qual o motivo? O motivo, Kaya. – a voz de Percy era quase um grunhido esganiçado
Eu tive medo. E nem era direcionado a mim.
Kaya se manteve calada pelo que pareceu uma eternidade. A curiosidade ruía minhas veias como se fosse parte de mim, eu estava prestes a me inclinar para o lado quando ela abriu a boca. Só que a voz dela saiu em alto e bom som.
– Eu conheço Jay. Conheço um... Homem que trabalha com ele.
Uma lufada de ar saiu de minha boca, eu mal tinha notado que prendia a respiração até aquele momento. Podia sentir a pressão dos dedos de Percy na poltrona atrás de mim. Era como se um iceberg tivesse pousado entre nós e todo clima tivesse ficado tão gelado quanto o polo sul.
– Como você conhece um homem que trabalha para ele?
– É uma longa... Longa história.
– Parece que temos um bom tempo para te ouvir, Kaya. – Percy murmurou, infelizmente não consegui identificar o que sua voz transparecia
Ela pareceu tentada a continuar calada. Um túmulo. No entanto, nossos olhares – principalmente de seu pai e de seu irmão – sobre ela, obrigando-a a falar, obrigando-a a confessar pareceu ter levado sua boca a abrir. Ela fechou, logo depois, abaixou os olhos, encarando as próprias unhas assim que começou a falar.
– Eu estava em Hampshire. E... Bem, eu estava fazendo um... Trabalho. – ela pigarreou
– Que trabalho? – interrompeu Percy
– Mercenária. – Poseidon resmungou
Arregalei os olhos, agarrando-me na poltrona.
– Mercenária? Digo, matar as pessoas por dinheiro?
Kaya revirou os olhos.
– Por que não podemos jogá-la pela janela?
– Não desse jeito. – Poseidon explicou com os olhos focados em sua filha – Ela é como uma informante. Infiltra-se em lugares pouco esperados, consegue informações e recebe dinheiro por isso.
Virei-me para Percy.
– Você sabia disso?
Ele balançou a cabeça milimetricamente. Cogitei que ele poderia estar mentindo, no entanto o franzir de sua boca e o ponto tenso entre suas sobrancelhas deixou claro que ele não fazia ideia de nada daquilo.
– Continue. – rosnou em direção a ela
Kaya se encolheu.
– O trabalho, na ocasião, era para um dos seguranças de Jay. Eu nunca o conheci, de fato, mas já o vi várias vezes.
– E você tem noção do que ele quer com a gente?
Ela se virou para Percy, como se ele fosse um alien.
– Não é óbvio? Ele a quer! Ele quer Annabeth, como se ela fosse um troféu e eu não faço ideia do porquê. Talvez seja a hora de se livrar dela.
– Eu não permito que fale assim com ela, entendido, Kaya? Você é minha irmã e ela é a mulher que eu escolhi amar, então meça suas palavras antes de se dirigir a ela.
Kaya se levantou, rapidamente.
– É isso! Isso que ele quer! Ele sabe que você vai protege-la por qualquer coisa e você vai morrer, Percy! – seus grandes cílios negros piscaram, como se ela tivesse se segurando para não chorar
– O motivo aqui não é esse. – ele se manteve neutro, com a voz calma – Por que você estava na delegacia? E por que você disse aquilo na televisão?
Pude ver minha cunhada perplexa. Ela cruzou as mãos em frente ao seu corpo, então apoiou-as na poltrona creme a sua frente.
– Eu fui a delegacia porque Luke me chamou. Ele descobriu o que eu vinha fazendo e pediu uma explicação. Ele me ameaçou, nós brigamos... E... Para... – ela engoliu em seco – Eu acabei contando uma informação secreta deles porque ele me irritou. Só isso.
– Calma. – Poseidon se afastou da mesa com um sorrisinho no rosto – Você colocou a segurança de nossa família em risco... Principalmente da Annabeth porque Luke descobriu seu segredo?
– Ele descobriu mais que isso, pai! Ele pode me arruinar por causa disso!
– Mas ele não o fez! – gritei em sua direção em defesa do meu primo – E ele nunca faria isso. Porque você é família, Kaya, você queira ou não. E protegemos família. E se ele fez o que fez, se ele descobriu o que fazia é porque tinha algo a ver com o caso. – ela se permaneceu calada por um tempo, inclinei-me em sua direção – Não tinha?
Ela deu de ombros.
– Kaya, se você quer se redimir, se você quer voltar atrás nisso... Diga. – Percy pediu
Seu peito se inflou, ela fechou os olhos por um momento, e então voltou a abri-los.
– Acho que você já sabe que Jay quer você... Não só porque tem a Lista de Frederick, mas porque ele quer você. – só de ouvir as palavras expressas por outra pessoa, senti o arrepio percorrer pelo meu corpo – Ele quer você como um... Objeto. Objeto que ele quer usar. O que eu sei é que ele trabalhou com seu pai. Na verdade, ele era parte da equipe de defesa dele... Só que as coisas não saíram como esperado, ele acabou saindo quando você nasceu e... Parece que criou uma obsessão por você.
– Obsessão? – Percy franziu o cenho – O que isso tem a ver?
– Não sei. Acho que... Ele pode ter feito uma ameaça a Frederick, qualquer coisa e desde então, ele vinha te perseguindo.
Lembrei-me vagamente de quando estava em Hampshire. O corpo dele pesado contra os meus e aqueles malditos olhos que ainda me davam pesadelos.
– Acho que sabemos o suficiente. – Poseidon soltou um suspiro grave e levantou-se
Percy mordeu o lábio inferior, concordando.
– Só é isso, Kaya?
Ela assentiu, imponente.
– Espero com todo o amor que isso não se repita. Seu trabalho está seguro, embora eu ainda o ache perigoso... – ele ergueu a mão quando ela ia começar a falar – Não irei ficar contra você já que é uma mulher adulta que pode tomar suas próprias decisões agora. Se tiver mais alguma coisa para compartilhar conosco...
– Nada. Eu juro.
– Ótimo. – Poseidon voltou a sentar-se em sua cadeira com uma expressão cansada – Pode ir. Não esqueça do nosso jantar.
Kaya assentiu freneticamente, de repente, ela parecia aquela garotinha insegura novamente. Ela virou-se, com pressa, sendo seguida por Percy com passos largos.
Pensei em chama-lo. Em dizer que ela já tinha ouvido o suficiente, mas Poseidon interrompeu meus pensamentos com um pigarrear.
– Eles vão ficar bem. – assegurou – Percy só precisa esclarecer algumas coisas por conta própria. Enquanto isso, temos conversas pendentes.
Concordei, puxando as cartas do meu pai. Empurrei-as sobre a mesa.
– O que é isso? – ele virou uma e sorriu – Acho que levou a sério quando eu aconselhei que remexesse nas coisas do seu pai.
– Super a sério. – sorri, inclinando-me na mesa – Claro... As cartas não dizem absolutamente nada. O que é estranho por diversos motivos.
Poseidon encostou-se em sua cadeira com um sorriso orgulhoso.
– Por favor, prossiga.
– Primeiro, por que ele mandaria carta quando poderia mandar um e-mail? As coisas eram mais fáceis, portanto há algo importante nas cartas. Algo que eu não sei o que é. Porque se ele mandou cartas é porque elas significam algo. – comecei, Poseidon assentiu, concordando – Certo. E segundo, aí só estão algumas cartas, outras chegaram ao seu destino e essa aqui... – procurei a carta direcionada para meu sogro em meio as outras – É para você. Ele até pergunta sobre Percy. Então, eu vinha me perguntando, só pode ser um tipo de código.
– Na verdade... – ele abriu a carta, lendo-a rapidamente – Nunca me veio que seria um código. Como também, eu não sabia da existência da Lista até Percy me contar. Ou seja, há coisas que Frederick sabia que estamos longe de desvendar.
– Só que precisamos porque se não dermos a maldita lista para Jay, ele não vai deixar de nos importunar.
– Se não dermos você. – Poseidon corrigiu – O que temos que fazer com Jay é prendê-lo e nada mais, podemos, sim, encontrar a Lista, o que seria bom para todo mundo. Só que não podemos pensar em hipótese alguma dar a Lista para Jay, entendido?
Assenti.
– Certo. – Poseidon recolheu as cartas
– Pode ficar com elas. Talvez, você se dê conta de algo que deixei passar. – dei de ombros
– Ok. Ok. Eu tenho quase certeza que essa Lista está próxima. Pensei em seu isqueiro.
Revirei os olhos.
– Não há nada em meu isqueiro. Já o puxei em todas as direções e com certeza, não é um pendrive.
– Você já pensou em destruí-lo?
Balancei a cabeça veemente. Lembrei-me de minha mãe comentando enquanto estávamos naquela mesinha em direção ao jardim, seus olhos compassivos e o sorriso compreensivo sugerindo a mesma coisa.
– Não vou fazer isso, Poseidon.
– É o que imaginei. Vamos ter que pensar em outros lugares onde possa estar. Qualquer lugar pode ser o lugar. Por enquanto... Acho que seria bom sair com seus filhos. Eles andam muito... Estressados.
Não que eu fosse acatar toda e qualquer opinião de Poseidon sobre como educar meus filhos, embora eu tivesse certeza que naquele momento ele estava absolutamente correto.
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