Notas iniciais
Esse capítulo é dedicado com todo meu coração e minhas lágrimas para a Vivi Falcão pela recomendação maravilhosa que me fez perceber que gazia quase uma semana que eu não tinha postado. P.S: Maratona Lightweight COMEÇOUUUU mentira vai ser só dois capitulos ta mores só pra estimular as recomendações aqueles reviews marotos etc etc

"You showed me everything I need to see"

Ordenei os papéis em cima de minha mesa, vendo Naomi entrar com uma careta preocupada.

– Naomi, eu estou sem tempo para quem quer que seja, então... Estou atrasada para um almoço e se eu não tiver ocupada, peço pra você agendar uma visita ainda hoje, ok?

– O Sr. Mazzali... – ela começou

Bufei, pousando as mãos na madeira enquanto pensava em um meio de fuga.

– Ele quer saber por que a senhora não atendeu o senhor Joshua...

Mordi o lábio inferior.

– Invente alguma coisa. Estou de saída. Meu celular está desligado pra qualquer um. – alertei

Peguei minha bolsa e minhas chaves. Não esperei por uma resposta dela, atravessei o curto corredor em direção ao elevador, agradecendo por estar vazio. Acabei por pegar meu celular.

Deveria seguir o conselho de Thalia?

– Alô? – disse

Mãe? O que houve? – Paris atendeu

– Você ainda vai almoçar com seu avô?

Até agora, sim. Ele disse que vai nos liberar às duas. Não me pergunte como.

Imagino como, resmunguei para mim mesma.

– Tudo bem. Talvez eu apareça lá.

Você não deveria estar no trabalho?

– Não se preocupe com isso, querido. Boa aula. – encerrei a chamada antes que ele me fizesse mais alguma pergunta

Uma mensagem piscava, era Percy. Apoiei meu corpo no carro, tentando ter um flash da coisa certa a se fazer. Tudo parecia errado, entretanto. Ele não me pediu desculpas, não havia me dito tudo que eu queria saber e nem sabia se ele estava metido nessa coisa de CIA novamente.

Balancei a cabeça e entrei no carro.

Poseidon estava no Jack N’ Jills Too, na 3rd Street, suficientemente perto de meu trabalho.

Repensei algumas vezes se deveria mesmo ir fazer meu questionário para ele. Poseidon era um cara legal, além de tudo, era o melhor sogro que alguém poderia ter pedido na vida, tirando pela sua ex-esposa, Sally, não ser esse mar de rosas que eu achei ser, nem mesmo sua filha, Kaya, que era uma cabeça dura tão irritante quanto Percy. De certa forma, agradecia por Poseidon ser o único da família deles que mantinha a calma e a inteligência em casos desesperadores.

Isso era um caso desesperador. Óbvio que ele iria me ajudar. Óbvio que ele faria o possível para me ajudar.

Só não tinha certeza até quanto o possível dele poderia atingir.

Poseidon estava no lugar marcado, ele continuava a usar bermudas e blusas despojadas, o que me mostrava que ele continuava o mesmo cara de sempre.

Pelo menos, era isso que eu esperava.

Avancei por entre as mesas, vendo a maitre tentando impedir minha entrada. Por sorte, eu era mais rápida.

Puxei a cadeira com um morder de lábios, nervoso.

Poseidon ergueu a mão na direção da mulher atrás de mim, sentei-me na cadeira de madeira acolchoada. Rapidamente, um garçom debruçou-se sobre nós.

– Uma... Água. — pedi

– Traga uma Caesar para minha querida nora, por favor.

Sorri.

– Aparentemente, você continua o mesmo, sogro preferido.

– Felizmente você continua bela, nora preferida.

Dei de ombros, colocando algumas mechas loiras para trás de meu cabelo.

– Eu pedi para Paris e Liv pegarem um táxi para virem me encontrar. Faz um bom tempo que não nos vemos, mas achei que eles viriam com você. – falou, o queixo apoiado na mão

– Eu queria ter uma conversa... A sós.

– Sobre Percy.

Balancei a cabeça, em concordância.

– Também. Primeiro, eu quero que seja franco comigo. — ele assentiu – Você deve saber que... Óbvio que sabe, Percy já deve ter te ligado.

– Sobre Rob, creio eu.

– Sim, isso mesmo. Ele te disse que ele está morando aqui? – Poseidon meneou a cabeça, concordando — O que acha sobre ele estar aqui?

– Acho que deveria estar preso.

– Mas você deu a sua palavra... Que ia deixa-lo em paz se nos deixasse em paz.- retruquei, meu tom de voz o mais calmo possível

– Claro, e é por isso que ele não está. Até agora, ele não nos causou nenhum problema.

– Então, consequentemente você acha que o Percy está sendo prematuro.

– Eu... — Poseidon correu os dedos com força pelo rosto — Sim, ele está.

– E a carta... De Jay? Você acha que Rob tem algo a ver com isso?

– Temos chances de que sim, Annie, talvez possa ser que sim já que Rob está aqui há dez anos.

Franzi o cenho.

Dez anos? Tentei não soltar a respiração pesada que estava instalada dentro de mim, suspirei levemente, controlando minha respiração e tentando tirar todas as perguntas sem respostas que ainda martelavam em minha cabeça, do tipo por que ele aceitou substituir meu avô? Queria saber se Cronos sabia disso, se havia concordado... Entretanto, eram perguntas tão egoístas que me deu vergonha de fazê-las para o cara que tentou cuidar de mim de um jeito meio estranho.

– Como você... — balancei a cabeça, me dando conta de que Poseidon era diretor da CIA e que provavelmente, ele tinha informação da vida de cada pessoa dos Estados Unidos — Ok, entendi.

– Afinal, você deve saber por que Percy mudou radicalmente em um dia. Na outra noite, tudo estava com os conformes...

Além dele não ter me dito que sua ex-namorada estava na cidade, completei mentalmente.

– E no minuto que ele viu Rob, tudo pareceu desmoronar ao seu redor.

Poseidon deu um sorriso.

– Em certa parte, eu o entendo. Não apenas por ser meu filho, Annie, mas porque ele está inseguro.

– Ele não tem porque estar inseguro! – contrabati, todo meu cérebro processando variadas informações, a principal era que eu era de Percy, sabia disso com toda clareza e para mim, isso também deveria estar claro pra ele

– Veja, Annie, pelo que Percy me fala, Rob foi o cara que ficou com você depois de todo aquele terremoto na Califórnia.

– Isso só aconteceu porque Percy acabou comigo. Então, em certa parte, ele também é culpado.

– Tudo bem, não estou defendendo-o. – meu sogro sorriu, as rugas tomando seu lugar ao redor dos olhos – Apenas digo que se fosse comigo, com a mulher que eu amo, eu ficaria extremamente inseguro em saber que além de você gostar dele, e esse sentimento ser recíproco, ele está bem perto de você. Isso sem falar que ele te sequestrou...

– Por um motivo que ninguém sabe. E Jay, ele também estava no sequestro.

– Esse é outro ponto que estamos procurando saber, Annie.

– O que você acha que Jay quer? – continuei, inclinando-me sobre a mesa

Em parte, senti-me culpada por continuar a fazer esse tipo de pergunta a Poseidon quando tudo que ele queria era ter um dia feliz com seus netos. Ele parecia muito com meu avô, tirando as roupas despojadas; o cabelo grisalho e a marca na testa de pequenas rugas se formando eram bem semelhantes. Podia ver um fundo de cansaço e desespero em seus olhos, no entanto, toda minha mente gritava para eu ignorar esses pequenos detalhes e o que parecia mais importante para mim naquele momento.

– Tenho algumas suspeitas, mas prefiro guarda-las para mim.

– Guardá-las pra você? Como assim? Poseidon, você não tem o direito de fazer isso.

– Essas informações são sigilosas, Annabeth, e não posso sair contando a qualquer um que me peça isso.

– Estamos falando da minha família. Não somos qualquer um.

Vocês são minha família. E eu quero protege-los acima de tudo.

– Preciso ajudar vocês, então. Preciso saber que não sou inútil em toda essa confusão.

– Não precisamos de sua ajuda, Annabeth. Você deveria entender isso.
– Poseidon, sabe que eu te amo e sabe que eu brigaria por você pelos meus filhos.
Ele sorriu, dedilhou a mesa de mogno, deslizando a ponta dos dedos pela mesa.
– Vou me arrepender disso, mas... Você deveria... Revirar as coisas de seu pai.

Franzi o cenho, tentando achar um fundo de entendimento em sua frase. Não fazia sentido.

– Você é a melhor pessoa a quem posso perguntar coisas de seu pai.

– Não sou o único.

– Claro, não é o único, mas é tudo que ele deixou pra mim. – encarei o teto, tentando desviar meu desespero – Certo, eles estão revirando a morte de meu pai de novo. Ótimo.

Poseidon deu um sorriso triste e afagou minha mão.

– Não precisa fazer isso.

– Além de mexer com minha família, voltam a mexer com meu pai. Eu tenho que fazer isso, Poseidon.

Sua resposta não foi imediata, se afastou, engolindo em seco enquanto eu procurava a água ao meu lado. Bebi o líquido em longos e rápidos goles, tentando afastar a bile que parecia estar trabalhando facilmente para expulsar o café que eu ainda havia tomado no trabalho.

– Espero que esteja melhor, suspeito que Liv e Paris nem desconfiem disso.

– Eles não precisam saber.

– Tenho certeza que não. Sugiro que coloque um sorriso porque eles estão vindo.

– Mãe? – Olivia sentou-se ao meu lado, ligeiramente confusa

– Decidi ter uma conversinha com seu avô antes que o tomassem apenas para vocês.

– O que vocês preferem? Espaguete ou uma salada? – Poseidon optou

Paris deu duas batidinhas no ombro de seu avô ao se sentar ao lado dele.

– Contou dos surtos do papai?

– Surtos? — ele perguntou

– Sim. — Olivia assentiu — Surtos, vovô. Você acredita que seu filho me bateu?

– O quê? — Poseidon me encarou — Por que não me disse isso?

– Liv. — Paris repreendeu

– O quê? Se ele teve coragem de me bater, tem que ter coragem de enfrentar meu avô já que minha mãe decidiu não se intrometer.

– Me conte o que aconteceu, querida.

– Ele só chegou lá, louco, obrigando-me a terminar meu namoro com Jake.

– Jake? — Poseidon voltou seus olhos para mim

– Filho de Rob.

– O que ser "filho de Rob" tem a ver com isso? — Olivia retrucou

– Acho que hoje não foi um bom dia para nos encontrarmos.

– Não. — apressei-me a dizer — Fiquem aqui, faz tempo que não fala com o avô de vocês. E Poseidon, obrigada. — afaguei seu ombro — E tente não ser tão maleável quanto essa garota quer que você seja.

– Você só está defendendo o papai, como sempre.

– Antes fosse isso, meu amor.

Beijei a testa de ambos, antes de pegar minha bolsa.

– Não vai comer, Annie? — Poseidon me chamou

– Você precisa conversar com eles.

Acabei por balançar a cabeça e avançar para o ar puro e incontrolável de Los Angeles.

Eu tinha certeza que havia me metido em algo que teria grandes consequências no futuro. Eu poderia deixar pra lá e deixar Percy resolver tudo sozinho.

Mas se, apenas com a chegada de Rob, ele ficara assim. Não poderia imaginar o que aconteceria se algo mais viesse a aparecer.

Meu celular vibrava mil e uma vezes enquanto estava conversando com meu sogro. O caminho do centro de Los Angeles para Santa Monica era relativamente longo, mas eu poderia ter esse tempo para pensar.

Olhei pelo retrovisor vendo um carro negro bem atrás de mim antes de virar a esquina.

Ele continuou dois carros atrás de mim. Mordi o lábio inferior. Um sentimento de terror varreu por todo meu corpo, não percebi quando joguei o carro para a minha esquerda, minha mão suava contra o couro do volante, contudo eu nem sequer me importava com isso. O sinal estava em vermelho. Suspirei, vendo pelo retrovisor, o carro negro dois carros atrás.

Minhas mãos tremiam quando eu abri minha bolsa a procura de meu telefone.

Buzinas me alertaram que eu deveria sair dali. Deixei o celular cair entre minhas pernas enquanto acelerava o carro, fazendo o retorno e voltando para o caminho de Santa Monica.

O carro ainda me seguia.

Decidi fazer algo que nunca fiz durante minha vida de motorista. Digitar enquanto dirigia. Os números se embaralharam em minha cabeça e meus dedos insistiam em não teclar o número correto, no entanto quando finalmente mais um semáforo se tornou vermelho, pude deixar meus olhos focarem no número que chamava.

– Percy? – chamei, minha voz trêmula e meus olhos prestes a desabar em lágrimas

Uma buzina disparou ao meu lado e mal pude processar quando já estava pulando com meu coração acelerado.

– Annie? – seus olhos verdes me acalmaram, em segundos, percebi que o maldito carro negro era uma Mercedes, e se eu não estivesse tão assustada poderia perceber que atrás das janelas blindadas e de fumê, Percy estava bem ali – Por que está fugindo?

Passei minha mão pelo meu rosto, sentindo uma grande onda de alivio me atingir.

– Céus, você me deu um susto!

– Só estava tentando nivelar a você. Mas... O que aconteceu? Por que está tão assustada?

Mais buzinas atrás de nós.

– Falo com você em casa. – retruquei, acelerando meu carro

Tentei confirmar para mim mesma que aquilo não foi nada, além de um pequeno surto de pânico, que poderia ter acontecido coisas piores e que sim, eu poderia me controlar. Uma parte de minha mente pensou que, talvez, Percy estivesse me seguindo. Tentei deixa-lo de lado, tentei ignorá-lo, ele não seria tão louco a esse ponto.

Sua Mercedes estava em minha frente.

Sentia que deixava de conhecer a pessoa em que tanto confiava. Parte de mim negava isso, entretanto.

***

Deixei meu carro no meio fio, tentando me acalmar definitivamente.

Durante todo meu caminho, eu sentia que meu coração poderia parar de bater. Percy parecia me escoltar, delineando o caminho que deveríamos passar e cortando-os, de vez em quando.

Tinha uma mensagem de Thalia, dizendo que não poderia ir ao shopping porque Ian ficou doente, pedindo desculpas por me dar um cano.

Isso era o de menos.

Balancei a cabeça, vendo as mensagens de Naomi ocupando a maior parte de minha memória. Decidi vê-las quando minha cabeça parasse de estourar, desliguei meu celular, jogando-o na minha bolsa.

Assim que saí do carro, tive certeza que eu era forte o suficiente para sobreviver de uma perseguição ao melhor estilo Velozes e Furiosos.

Percy estacionou o carro dele na garagem, o que me deu mais tempo para entrar em casa e me preparar psicologicamente para a batalha de perguntas que ele me faria.

Por sorte, tive tempo de subir as escadas. Troquei de roupa para uma legging azul e um top de cor cinza, calcei meus tênis, pegando um cinto que cabia meu telefone e eu estava segura que ele não cairia nem nada do tipo.

Desci as escadas a tempo de ver Percy abrindo a porta.

– Coloquei seu carro na garagem. – avisou enquanto fechava a mesma – Onde estava hoje?

Sabia que ele estava preocupado e estressado, o fato dele ter chegado cedo mesmo depois que Paris me avisou que ele chegaria tarde já era estranho. Queria que ele me contasse coisas que Poseidon não me pode me contar e não tinha ideia de como faria isso, mas decidi tentar.

Tirei as fronhas das almofadas de modo indiferente.

– O quê? Está me vigiando? — retruquei com uma sobrancelha arqueada, seus olhos me encararam na defensiva e me senti arrependida assim que as palavras saíram de minha boca — Eu só saí da Mazzali e parei pra conversar com seu pai.

– Meu pai? — disse enquanto colocava seu avental habitual sobre as roupas do trabalho, indo pra cozinha

– Sim. Sabe, desde aquele assunto de diretor da CIA... Não agi muito bem, tive que falar com ele.

– Isso é bom.

– E você? Tentou matar mais alguém nos últimos dias? — tentei fazer uma piada inútil

– Seu senso de humor sempre foi péssimo. Deveria parar com isso.

– Parar com isso o que? De fazer piadas ou de insinuar que você tem uma arma em casa e pode fazer estrago em seu arqui-inimigo?

Percy cortou alguma coisa e jogou na frigideira, enchendo de molho inglês.

– Ambos. E não, querida, eu não matei ninguém hoje, satisfeita?

– Quando se livrar daquela arma, sim.

– E onde estão os meninos?

– Almoçaram com Poseidon, ele não te disse?

– Ele não vem me dizendo muitas coisas. — resmungou

– O quê?

– Nada. Quer suco ou prefere que eu compre uma Pepsi?

– Suco. – optei

Percy assentiu. Apoiei minhas mãos no sofá, encarando-o do outro lado.

– Sabe, você... Ainda está atrás do... Rob ou você...

– Estou com problemas no trabalho, Annie. — suspirei ao ouvir meu apelido, tendo certeza que ele não estava a fim de brigar hoje — Aliás, esqueci-me de te avisar, mas estamos abrindo uma filial. Achar um lugar está me dando uma dor de cabeça terrível.

– Uh, então... Só trabalho?

Seus olhos me encararam com raiva.

– Diferente do que você acha, eu não sou um espião fachada da CIA, eu sou um pai de família e olha, eu tenho um trabalho, Annabeth e não vivo de prender estupradores ou sequestradores.

Arregalei os olhos, surpresa com seu discurso raivoso.

– Olha, desculpa, ok? Eu só estou estressado demais com tudo isso que está acontecendo e... Queria que me ajudasse com a decoração do espaço, fosse ver o lugar.

– Não... Você não tem nada com o que se preocupar, eu forcei a barra, eu sei. E claro, só diga o dia e eu posso ir lá.

Percy sorriu, embora seus olhos continuassem duros.

– Eu te ligo.

A porta se abriu, segundos depois de eu ter terminado de trocar as fronhas. Paris e Olivia entraram, rindo, como se os dois vivessem em uma bolha só deles. Automaticamente sorri. Eu adorava saber o quanto eles eram unidos, mesmo depois de toda a confusão que estava acontecendo, eles estavam felizes. Acabei por sorrir também. Ambos se jogaram nos bancos perto do balcão de mármore.

– Gostaram do almoço? — perguntei, aproximando-me deles

– Sim! Foi maravilhoso. — Olivia me encarou com um sorriso

– E como foi a escola? — Percy perguntou com um sorriso, debruçando-se sobre o balcão

Ambos ficaram em silêncio até Paris quebra-lo com um sorriso constrangido.

– Foi legal. Tivemos uma palestra sobre medicina, sabe, me deu ainda mais certeza do que quero ser.

– É e a palestrante conhece vovô. — Olivia apontou para mim

– Sério? — cocei minha nuca — Qual o nome dela?

– Algo com... Rebecca? — Paris indagou

– Não. Era... Rachel! Rachel Dare. Mamãe, você não tem noção do quanto ela é linda! Ela é ruiva natural.

Tranquei o maxilar, forçando meus olhos a não encararem Percy.

– Sim, eu tenho noção e eu sou loira natural, não tem muita diferença.

– Na verdade, mãe... — Paris começou antes de eu lhe mandar um olhar repleto de raiva — Aconteceu algo aqui?

– Que tal morarem com a médica perfeita? O pai de vocês iria adorar!

– Annie... — Percy deu a volta

– Ela é ruiva natural! Olha que beleza. — grunhi com raiva e virei as costas — Com licença.

Fui em direção das escadas, certa de me trancar no meu quarto por um longo tempo e não precisar escutar que aquela mulher já havia entrado em minha família. Não tinha ideia de que seria tão rápido. Encostei-me em um canto, tentando recuperar minha calma que se esvaiu em segundos, embora não pudesse vê-los, suas vozes, mesmo que baixas, eram audíveis.

– O que acabou de acontecer aqui? — Liv sussurrou

– Parece que ela não gosta muito de médicas bonitas.

– Ei... Gente. — Percy chamou — Ela... Rachel é minha ex. Uma antiga namorada do colegial.

– Uma namorada de Hampshire? — Paris supôs — O quê? Por que está me olhando desse jeito? Ela só tinha um sotaque bem puxado.

– Sim, Paris, ela é de Hampshire. Não sei se ela ainda mora lá.

– Então, é por isso que a mamãe a odeia? — Olivia perguntou

– Elas não têm... Uma relação muito amigável. Mas, olha, se gostaram dela e Paris, você quer fazer medicina, posso leva-los para conhecê-la melhor.

Afundei minhas unhas em minha barriga nua. Lembrei-me que ele não teria coragem de fazer isso. Ele não seria capaz.

– Acho... — Paris murmurou, ele provavelmente estaria mordendo o canto do lábio, perguntando-se se seria a coisa certa a fazer — Acho que nossa mãe não gostaria disso, sabe. Ex-namoradas e você nos levar para conhecê-la...

– Acho que seria ridículo. E se você for se encontrar com ela, Percy, — Liv falou — pode ter certeza que mamãe vai pedir o divórcio.

Engoli em seco. Dando um sorriso enquanto voltava a descer as escadas.

Todos os olhares recaíram sobre mim.

– O que foi? — perguntei, dedilhando o sofá em busca de meu celular

– Hm, nada. — Paris respondeu

– Ótimo.

Pensei em ligar para Nico, mas lembrei que Ian estava doente, então provavelmente ele não teria ido caminhar. Disquei o número de Luke, perguntando-me se ele ainda estava na caminhada ou se havia decidido me esperar. Embora tivesse odiado o fato de Percy ter pedido para que eles fossem me "vigiar" no único momento de solidão que eu poderia ter, eu realmente precisava deles para que não pudesse ter um surto de raiva ou algo do tipo.

– Ainda estão na praia? — perguntei

– Achamos que ia ficar em casa hoje.

– Em casa? Nunca faltei uma corrida, Luke!

Sabe, essa coisa das cartas, de Rob... Rachel. — ele sussurrou a última parte — E outra, já são oito horas. O que fará às oito horas lá? Deve estar escurecendo e...

– Cartas? Rob?

É, eu sei que isso foi ontem, mas o Nico me contou quando fomos caminhar.

– Além de irem caminhar sem mim, vocês ficam falando de minha vida?

Qual é, Annie, não precisa ficar irritada, estamos tentando te ajudar.

– Obrigada por me abandonar, por invadir minha vida e por tentar me proteger de um jeito totalmente estranho, querido Castellan. — encerrei a chamada antes que pudesse ouvir seu pedido de desculpa ou o que quer que seja que ele achasse que pudesse falar.

Fiz o mesmo caminho de sempre. Passei pela Froser e cheguei a Barnard Ave mais rápido do que as última vezes. Talvez minha raiva estivesse incrustada sobre mim de forma rudimentar o suficiente para tira-la em forma da força física, levando meus pulmões e músculos ao limite.

Lembrei da minha antiga psiquiatra de anos atrás, a que fui procurar logo depois que tive Paris. Queria ter certeza que aqueles surtos parariam, não queria ter um enquanto tivesse amamentando Paris ou enquanto estivesse dirigindo.

Só queria não estar em algum lugar que estivesse antes e ter um surto.

Minha antiga psiquiatra, insistia em dizer que quando eu soubesse que algum antigo sentimento estava dominando minha mente. Tinha que manter ocupada o suficiente para não saber as origens dele.

No entanto, agora eu queria saber a origem da minha raiva.

Por que eu tinha raiva dela? Eu tinha uma família perfeita e Rachel era boazinha demais para destruí-la.

Rachel Elizabeth Dare era só uma garota. Uma mulher, na verdade.

– Ei!

Minha cabeça girou e caí de bunda na passarela.

E eu estava em frente ao irmão dela.

– Parece que o destino quer que nos encontremos, uh? Já que não me ligou nem nada. — ele me ofereceu a mão

– Ou a má sorte, quem sabe. — resmunguei, acariciando minhas costas

– Tanto faz. — Rob deu de ombros e me encarou, tirando os fones de ouvido — Belo tombo.

– Obrigada. — passei a mão tirando a poeira do meu legging — Então, você está me seguindo ou...?

Senti que eu deveria estar com alguma mania de perseguição. Primeiro, meu quase infarto enquanto Percy me seguia, segundo eu ter me batido acidentalmente com Rob. Seus olhos azuis me encararam seriamente por alguns segundos enquanto andávamos. Em seguida, sorriu.

– Larguei dessa vida.

Acompanhei seu sorriso.

– E então, você caminha pela Barnard?

– Todo dia depois das oito. Me faz esquecer os fantasmas que insistem em me perseguir.

– Idem.

– Mas você não vem nesse horário, não é?

– Depois das quatro. — respondi

Rob balançou a cabeça.

– Acha que agora seria uma boa hora pra encontro nada romântico? Você está com uma cara que poderia matar qualquer pessoa a qualquer momento e sabe, eu não queria ser esse cara.

Ri, inclinando meu corpo pra seu lado.

– Senti falta disso, Rob.

Ele sorriu erguendo os braços como se fosse passar o mesmo pelos meus ombros. Hesitou e cruzou os braços.

– Também senti falta de você, Annie.

Senti-me embaraçada por alguns momentos. E acabei por perceber que eu queria que Rob se lembrasse de mim como a adolescente que ele deixara pra trás: a extrovertida, alegre, rebelde sem causa, líder de torcida e não da mulher madura, com dois filhos, um homem em casa e repleta de inseguranças.

– Ok! Acho que está na hora de eu aceitar aquele encontro. – pisquei

Notas finais
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