Lightweight.
13 Highs and Lows.
Notas iniciais
"Ain't it funny how we're all afraid?"
Pisquei os olhos, colocando um dos braços sobre o rosto e grunhi.
– Ei, ei... – Percy segurou meu braço, estreitando os olhos – Quer tomar um banho? Precisamos trocar isso. Logo.
– Está doendo menos. – encarei o gaze enrolado em meu braço com um suspiro
– Mesmo? Rachel me mandou uma mensagem. Comprei o remédio que ela me pediu.
Bocejei, girando-me para o lado.
– Acho que estou com o dia de folga. – murmurei
– Naomi mandou uma mensagem dizendo que a visita às dez ainda está de pé. – senti um beijo atrás de minha nuca e sua mão descendo pela lateral de meu corpo – Ou pode ficar deitada o dia todo e ignorar que tem um mundo lá fora.
– Adorei essa opção. – sorri
– E eu adoro você. – Percy roçou os lábios em minha têmpora, fazendo-me abrir os olhos e encarar seu rosto calmo
– Eu te amo. – retruquei, encarando seus olhos preguiçosos, acariciei seu rosto, aproximando-me dele
– Você precisa de um banho. Trocar seu curativo...
– Como se me importasse com isso. – confessei, fechando os olhos quando ele se aproximou do meu rosto
– Eu me importo. – afirmou
Deslizei meus dedos para sua nuca, roçando meus lábios dos seus. Como eu sentira falta de nossas manhãs bem acordadas. Como sentia falta do cara que me apaixonei. Percy girou-me, fazendo ficar por cima dele. Apoiei minhas mãos em seus ombros, afundando-me ainda mais em seu beijo.
– Poderia ficar o resto do dia aqui. – ele sussurrou enquanto eu descia meus beijos pelo seu pescoço – Mas eu preciso trabalhar. E trocar seu curativo antes que infeccione.
Soltei um muxoxo, jogando-me para o outro lado e me arrependendo logo em seguida. Meu braço voltara a latejar com mais intensidade dessa vez. O gemido que saiu entre meus lábios foi inevitável, odiei-me por isso.
– Está vendo, Annie? – Percy bufou e ajoelhou-se ao meu lado – Vamos, levante-se. Vou preparar... Rabanadas? Torradas com geleia, o que acha?
– Torradas. – aceitei com uma careta
Ele sorriu, passando o braço por debaixo dos meus e ajudando-me a levantar. Deixei que ele me colocasse na ponta da banheira enquanto desfazia do meu curativo e do meu pijama. Minha mente voava a mil por horas. Thalia havia me mandando uma mensagem, dizendo que havia falado com Luke e só tinha uma chance. Que era de manhã. Às oito. Ou seja, daqui a alguns minutos.
Comecei a trocar de roupa com certo cuidado. Não precisava de uma tipoia. Não precisava e fim.
Coloquei uma blusa social de botões sem mangas e um blazer preto junto com uma saia lápis. Percy estava vestido com seu típico paletó para trabalho, sem gravata. Percy coçou a nuca, encarando-me.
– Seu braço...
– Está bem. – suspirei – Quero minhas torradas. – segurei seu colarinho com um sorriso sensual, sentindo suas mãos ao redor de sua cintura – Com geleia de morango, certo?
– Com todo tipo de geleia que você quiser.
– Qualquer tipo? – fiz um beicinho
Percy agarrou meu rosto, colando nossos lábios. Nunca me cansaria daquilo. Do seu jeito impulsivo, de como me segurava. Suas pernas me empurravam com leveza até estarmos colados a parede ao lado da porta. Com meu braço são, abracei sua nuca com força, afundando nosso beijo. Céus, como eu amava aquilo. Como eu amava aquele gosto doce em seus lábios. Afastamo-nos levemente, o suficiente para que meus olhos devorassem a sua boca rosada. Rocei os meus aos seus mais uma vez, mordendo o canto de sua boca.
– Senti sua falta.
Dei um sorriso, girando-o para que ficasse contra a parede.
– Pode se atrasar para o trabalho?
– Não. – ofegou
Lambi meu lábio inferior, tirando seu paletó e afastando-me logo em seguida quando a porta se abriu.
Paris estava com as bochechas vermelhas, usando uma camisa vermelha e jeans.
– Mãe... Eu... Só fui checar a caixa dos correios, me desculpe... Eu abri porque...
– O que aconteceu, Paris? – segurei seu rosto entre minhas mãos vendo seus olhos brilharem, como se estivesse prestes a chorar, seu lábio inferior tremia e suas mãos seguraram os meus pulsos enquanto abaixava o olhar
Percy já passara por nós, descendo as escadas aos pulos.
– O que aconteceu? – sussurrei novamente
– Annabeth! – Percy gritou
Senti meu coração bater mais forte, mais rápido contra meu peito e não era excitação. Segurei a mão de meu filho enquanto descia as escadas, encontrando uma Olivia com a mão no peito, os olhos vermelhos de tanto chorar.
Em cima do balcão, havia um pequeno envelope pardo.
Aquilo foi só o começo, querida Annabeth.
Dê-me o que quero. Até que eu realmente tenha que ir busca-lo.
Com carinho,
Jay.
Ele não estava trás de Percy. Estava atrás de mim.
Dou uma risada nervosa e pego o bilhete, rasgando-o ao meio.
– Não é nada. – sorri, deixando os pequenos papéis caírem ao chão – Absolutamente nada. Alguém tentando nos assustar depois de ontem.
– Mas tem um nome! – Olivia apontou
– Um nome não significa nada, querida. – segurei sua mão, trazendo ela e Paris junto a mim – Eu amo vocês. E nada vai nos separar, entendido? – vi Percy fechar nosso ciclo e sorri, meus olhos arderam – Isso é uma brincadeira, meus amores. Esse inferno vai passar. Esqueçam que aquilo aconteceu.
– Pensei que ia te perder. Perder vocês duas. – Paris apoiou a cabeça em meu ombro, abraçando minha cintura, Olivia repetiu seu movimento, ambos apoiados em mim – Não quero sentir isso nunca mais, mãe.
– Você não vai sentir isso, Paris. Eu prometo, ok?
– Nós prometemos. – Percy afagou seu cabelo com um sorriso – Nós prometemos que nada vai acontecer com vocês. Nem com sua mãe.
– Nem com você, pai. – Olivia sorriu, o rosto molhado de lágrimas
– Amo vocês. – sussurrei, Percy passou os braços sobre eles, apoiando a testa contra a minha – Amo vocês a ponto de doer, meus amores. Tudo vai dar certo.
– Isso nunca mais vai acontecer, não é? – Paris murmurou
– Nunca mais. – confirmei – Agora, chega dessa melodrama, garotos! Seu pai me prometeu torradas e eu as mereço, ok?
Paris soltou uma risada.
– Ok, eu posso te ajudar, pai, vamos lá. – ele enxugou o rosto e Percy riu
– Estava chorando, Paris? Sério mesmo?
– Claro que não! Qual é! Vamos logo.
Olivia soltou um risinho, afastando-se e ligando a televisão.
Peguei o jogo americano e os pratos, colocando a mesa enquanto Olivia caminhava pela sala.
– Vocês não precisam ir pra escola hoje. – avisei – Posso chamar minha mãe para ficar aqui por algum tempo.
Percy ergueu os olhos e assentiu.
– Mãe? – Olivia me chamou, apontando para a televisão
Aproximei-me do sofá vendo um homem de meia-idade e uma mulher loira sentados em uma poltrona vermelha enquanto na tela atrás dele passava imagens horríveis, nelas, estava o homem do carro.
– Essas imagens são de câmeras amadoras.
Percy estava ao meu lado com uma travessa de pequenas torradas.
– Está vendo isso, Jer? Esse homem é louco. Ele está atirando diretamente para o casal parado em frente ao prédio da Jackson’s Buildings. O homem com uma arma é Perseu Jackson, um engenheiro bem cotado da Califórnia, um portador de arma. – a mulher disse, aparentemente chocada e surpresa, porém profissional – A mulher ao seu lado é sua esposa, Annabeth Chase. A famosa Chase.
– Ela seguiu os passos de sua mãe, Atena Chase, a famosa arquiteta. Mas o que eles estavam fazendo nesse lugar? Sendo alvo dos tiros?
– Ela foi atingida e liberada no mesmo dia. Não tivemos mais acessos a qualquer coisa.
– E quem são esses homens, Emily? O que podemos saber deles?
– A polícia está em busca. Luke Castellan, primo da vitima, é o líder da equipe. Esperamos que ele consiga esses homens.
– Califórnia não é segura para ninguém, Emil...
Desliguei a televisão. Sorri, falha.
– Então, quem quer torrada?
Olivia afundou as unhas no estofado do sofá, respirando fundo.
– Eu estou com medo, mãe. Quem são esses homens? O que eles querem com a gente?
– Não sabemos, Liv. – segurei sua mão entre as minhas – Mas ele não vão nos seguir novamente. Estamos seguras. Luke está dando conta disso.
– É algum inimigo dele? De tio Luke?
– Não. – Percy apressou-se a dizer – Não é nada com o Luke. Não temos ideia de quem seja. Vamos tomar café, por favor.
Olivia assentiu. Sentamo-nos ao redor da mesa.
O silêncio se instalara de forma desconfortável. Percy bufou e apoiou o queixo na mão.
– Vocês não vão poder sair de casa hoje. Não precisam ir pra escola. Não chamem ninguém só... Sei lá, façam algum dever de casa.
– Por quê? – Paris indagou – Tenho treino hoje, pai. Sábado temos um jogo importante contra um time de Nova York.
– Só por um dia, Paris. – pedi, passando a mão pela testa
– Vocês vão trabalhar?
– Vamos deixar essa poeira baixar. – Percy optou – Annie, você poderia ficar em casa com eles.
– Preciso visitar a Four Seasons. Hoje, sem falta. Vou ligar pra minha mãe.
– Me deixe falar com ela, também.
Afastamo-nos da mesa, recebendo olhares pesados de nossos filhos. Entramos no corredor que nos levava a dispensa.
– Eu vou falar com meu pai. Pedir alguns homens ao redor da casa.
– Luke pode dar conta também.
– Certo. Quanto mais, melhor. Ligue pra sua mãe também. Eles vão se sentir mais protegidos com ela.
– Não seria melhor eles irem para casa dela?
– Não, é muito perto do centro. Prefiro-os aqui. Vou ligar pro meu pai.
Assenti, teclando os números tão conhecidos de minha mãe.
– Atena?
– Filha! Eu acabei de te ver no noticiário. Percy falou que tudo estava bem, mas nem liguei para você. Céus, como sou uma péssima mãe.
– Mãe, você é ótima. Só preciso que você fique com os meninos. De novo.
– O que aconteceu dessa vez? Percy aprontou alguma?
– Não. Não sabemos o que aconteceu, só... Venha para cá.
– Estou indo, querida.
– Sim, pai... Eu preciso deles agora. Imediatamente! São seus netos, droga! Certo... Vou esperar. Obrigado. Fechado. – ele suspirou
– Percy...
– Não fique com medo. – pediu, suas mãos seguraram meu rosto e beijou todo o espaço do meu rosto – Estou aqui. Estou morrendo de medo por você e por eles, Annabeth. Não vou deixa-los levar vocês.
– Percy, está tudo bem.
– Não está tudo bem. Jay, ele... Ele quer me enlouquecer. Vou acabar com ele e...
Passei meus braços sobre seus ombros. Abraçando-o. Eu precisava daquilo tanto quanto ele. Percy afundou seu rosto entre meu pescoço e meu ombro, abracei-o com mais força quando o ouvi fungar.
– Percy... – afaguei seus cabelos – Precisamos voltar.
– Eu sei. Eu só... – ele fungou mais uma vez – Só preciso de mais um pouco disso.
– Percy, estamos todos com medo. Estou aterrorizada.
– Eu sei, eu sei. Isso vai acabar, eu prometo.
Assenti, mesmo sabendo que era apenas uma mentira que ele tivera que contar para se convencer de que tudo ficaria bem.
Eu o conhecia muito bem para saber que estava tão aterrorizado quanto eu e que tudo que queria era se esconder nos edredons até toda aquela tempestade ter passado. Mas não podíamos. Não quando dois adolescentes dependiam da gente para seguir a vida.
***
Respirei fundo, apoiando minha testa no volante do carro de Percy. Meu braço ainda lançava dores para meu cérebro, avisando que eu não estava cem por cento, na verdade, aquilo não me importava. O que me tirava do sério era saber que enquanto eu me encontrava com aquele velho, meus filhos estavam passando perigo. Qualquer que fosse.
Suspirei. Eu tinha que superar isso. Eles estavam bem, com quatro viaturas rondando-os a todo o momento. Só iria resolver isso e correr para casa.
Era isso.
Ouvi leves batidas no vidro do carro e ergui os olhos, dando de cara com Luke inclinado, seu sorriso era fraco e falho.
Assenti, reunindo toda a coragem que ainda sobrara. Peguei minha bolsa, lançando-a na dobra do meu braço são enquanto acionava o alarme do meu carro.
– Você está bem? – Luke perguntou assim que pisei na calçada, seu braço ao redor de minha cintura
Senti vontade de me apoiar em seu braço e abraça-lo. Chorar pelo resto do dia, como sempre acontecia quando eu estava passando por problemas e todos pediam por uma explicação. Enquanto Luke deixava a burocracia para depois.
Primeiro, trabalho; depois, consequências.
Era o que ele costumava a falar assim que entrou na polícia.
Abri um sorriso, jogando a ponta do meu rabo de cavalo para o lado.
– Estou bem. Nada demais. Vamos superar isso como superamos tudo que já aconteceu conosco.
– Eu sei. – suspirou – Mas dessa vez, temos mais dois adolescentes despreparados nisso. Tem certeza que quer continuar?
Já estávamos dentro da delegacia. Assim que entramos, Thalia se levantou com sua típica roupa de advogada. Calça social, uma camisa branca e o blazer. Soltei uma piscadela e um sorriso discreto.
– Nunca estive tão certa, primo. – afaguei seu cotovelo
Luke bufou, talvez cansado e estressado. Podia imaginar quantos sentimentos deveria estar passando em sua cabeça. Deveria estar se sentindo um inútil que não podia proteger as pessoas que o amava, vê-lo assim me doía mais do que qualquer coisa. Ele puxou uma das cadeiras para que eu me sentasse em frente ao homem de camisa social e jeans.
– Então, temos a família Olimpus completa aqui. Os famosos herdeiros.
Luke coçou o nariz com um sorriso discreto. Thalia, entretanto, apoiou um dos cotovelos na mesa de mogno com uma expressão séria e profissional.
– Sim. É um privilegio nos ter em sua... Delegacia. – ergueu os olhos, avaliando o local
– Advogada. Grace.
– É, Phil. Falei com você antes...
– Vocês querem falar com... Jack Jones. – o delegado suspirou e empurrou uma pasta para Luke – Ele vem tendo bom comportamento. Sem brigas. – soltou uma risadinha grosseira e revirou os olhos, inclinando-se sobre a cadeira – Quem arranjaria brigas em uma cadeira de rodas, não?
– E quem seria perigoso em uma cadeira de rodas? – resmunguei, pegando um dos papeis que minha prima me passara
Tinha a foto de Jack na esquerda, seu rosto pesado e cansado. Rugas se sobressaiam mais do que a última vez que o vi. Ele estava sério, porém seus olhos castanhos eram irritantemente irônicos. Embaixo havia coisas inúteis, como comportamento, idade, o que fazia em seu horário vago – que era muito. Deixei o papel pardo cair na mesa e cruzei as pernas.
– Só queremos falar com ele. – pedi
– Não é um interrogatório. É como uma... Visita. – Luke contornou, aproximando-se da mesa e apoiando um dos braços – Escute, Phil, é importante.
– Faz parte de seu trabalho, Castellan?
– Bem, não...
– Um policial não visitaria um criminoso.
– E por que está nos atrapalhando? – Thalia franziu o cenho – Quanto ele está te pagando?
– Thalia... – Luke resmungou, passando a mão pelo rosto, impaciente
– Eu posso te mandar um processo de calúnia e desacato a autoridade.
– Bem, se você me mandasse um processo de calúnia, ele se reverteria a você, Phil. Além disso, convenhamos que você não é o melhor tipo de autoridade. Você conseguiu se safar quantas vezes quando foi acusado por tráfico de drogas para Flórida? Quando podia morar lá? – Thalia relaxou em sua cadeira, cruzando as pernas e encarando as unhas extremamente negras – Sinto muito pela sua filha. Ela deve sentir sua falta.
– O que...
– Thalia. – Luke repreendeu – Eu podia cuidar disso.
– Mas eu fui mais rápida, priminho. – piscou e voltou a encarar Phil com um sorriso – Nos ajude, querida autoridade. Não iremos demorar mais que meia hora.
Thalia levantou-se, agarrando sua pasta de trabalho e colocando a alça em seu ombro. Troquei olhares com Luke que estava com a testa vermelha, o ponto entre suas sobrancelhas notavelmente tenso.
O delegado levantou-se, claramente irritado.
– Já deveria saber que a família Olimpus me traria dor de cabeça.
Ele ergueu dois dedos para dois policiais que faziam vigia na porta. Ambos assentiram, saindo rapidamente.
Luke voltou ao meu lado, segurando minha cintura firmemente.
– Eu não vou cair, Luke. – assegurei-o – Aliás, é sempre assim? – apontei com a cabeça para minha prima que caminhava firmemente em seus saltos assustadoramente altos a nossa frente
– Nem me conte. Se tem um cliente dela na minha delegacia, vejo a hora de coloca-la a baixo. – resmungou – E em um tribunal? Se eu tiver que dar um depoimento, vejo a hora de ela arrancar cada fio da minha cabeça. Acredite em mim, ela é assustadora quando interpreta a advogada má.
– Estou ouvindo, Castellan.
Soltei um risinho, acompanhando-os.
– Realmente está bem, Annie? O braço...
– Estou levando, Luke. Temos problemas bem maiores para tratar agora e não quero parecer a garotinha aterrorizada que ele viu pela última vez. Me dê essa chance. Por favor.
Ele mordeu o lábio inferior e assentiu.
Atravessamos um corredor escuro até estarmos em uma sala relativamente média com uma mesa de aço no meio e quatro cadeiras da mesma cor. Sentei-me em uma delas, obrigando-me a ficar séria e quieta. Não queria parecer assustada, mas serena e confiante. Era isso que Jack teria que ver.
Um policial empurrava sua cadeira, suas mãos grandes apertadas em algemas. Quase me senti feliz ao ver aquilo. Quase.
Ele parou a nossa frente. Luke em pé na ponta da mesa e Thalia sentada ao meu lado.
– Ao que devo a honra dessa bela visita em família?
– Nós precisamos de respostas. – apoiei na mesa, sentindo um arrepio estranho percorrer meu corpo devido ao frio – Sobre meu pai.
Jack franziu as sobrancelhas e encarou o policial que estava na porta.
– Me tire daqui, por favor.
– Não! – pedi, beirando ao desespero, Thalia me encarou, surpresa, irritada e claramente arrependida de ter me deixado tomar as rédeas
Luke fez um sinal para que o homem saísse dali. Ele hesitou alguns segundos até Luke assentir novamente, mostrando que tinha o controle sobre tudo.
– O que a pequena Chase quer?
– Quero respostas. – engoli em seco, cruzando os dedos – Jack, eu preciso que me diga tudo o que sabe sobre meu pai.
– Você deveria saber, garota. Ele é seu pai, afinal.
– O pai que você tirou cedo demais. – retruquei
– Pensei que já soubesse da verdadeira história.
– Não tente nos enganar, Jones. – Luke revirou os olhos, apoiando uma mão na mesa de ferro – Olha, não queremos demorar e aposto que você quer voltar para sua cela podre, não é? Só responde as perguntas e estará livre de nós.
– Perguntas? O que acha que eu sou? O Wikipedia?
– Agora está com piadinhas? – Thalia riu, pingando a irritabilidade extrema – Faça-me o favor, Jack. Apele menos. Ajude-nos e talvez, eu não denuncie seu delegadinho de merda por estar trazendo coisas demais para você.
Começava a me perguntar como Thalia sabia disso. Decidi deixar pra lá, ela é advogada. Uma boa advogada, afinal. Era seu emprego e deveria ser por isso que tinha uma ótima carreira.
– Diga-me o que sabe sobre meu pai. – pedi mais uma vez, minha língua passando pelo lábio inferior com urgência – Qualquer coisa. As últimas pessoas que falou, os últimos lugares que esteve... Sei que você notificou cada segundo da vida dele enquanto estava vivo. Por que queria a morte dele, afinal?
– Não era só eu que queria a morte dele, garota. Aquele maldito sabia demais. Tinha poderes demais. Nenhum de nós o queria vivo.
– Nós? – Luke indagou, inclinando a cabeça em sua direção
– Nós. Acha que eu atuei sozinho durante aqueles anos? Claro que não. E sabe, pequena Chase, seu pai ganhava o ódio de todos por onde passava. Até a sua equipe não o suportava.
– O que está tentando nos convencer? Que a equipe dele pode ter participado de sua morte?
Arqueei a sobrancelha, procurando uma falha naquilo. Estava errado. Era claro que Jack estava tentando nos enganar, estava procurando uma maneira de fugir. Eu só precisava fazer a pergunta certa quando ele estivesse distraído demais para perceber o que respondera. Só não sabia como fazer aquilo.
– Escute com atenção, Jack. – iniciei novamente – Eu preciso que diga o que sabe do meu pai. Agora.
– O que? Ele era só mais um agente tentando estragar meus negócios e de mais alguns bandidos idiotas por aí.
– Quais bandidos? – Thalia insistiu
– Pessoas grandes. Poderosas. Não adianta dizer nada disso a vocês. Nem sei qual nome deve estar usando agora.
– E qual nome ele tinha? Naquela época? – disse
– Algo como Joe? – suspirei, com raiva ao ouvir aquilo
– O que mais sabe?
– Que vocês são inúteis. – Jack bufou – Eu quero sair daqui. Chamem os policiais, por favor.
Luke avançou contra ele, segurando seu colarinho e o empurrou contra sua cadeira de rodas.
– Nem pense em fazer essas brincadeiras, Jack. Passaram-se mais de quinze anos. Estamos mais poderosos. – ameaçou – Não tente brincar conosco. – empurrou com força e voltou para sua posição anterior – Fale.
– Só me diga o que sabe. – ouvi as palavras saírem de minha boca quase como uma imploração
Jack engoliu em seco e deu de ombros.
– Seu pai guardava segredos. Muito bem escondidos. São segredos que se forem vendidos para pessoas certas valeriam bilhões, até.
Arregalei os olhos, afastando-me da mesa.
– Ele tem segredos de todos. De qualquer um da CIA, qualquer um da FBI... Qualquer pessoa importante tem seu nome naquela maldita lista.
– Segredos? – pisquei, confusa
– Segredos. – afirmou – São coisas que poderiam acabar com a vida de qualquer um; ninguém o mataria se não tivesse certeza de onde estava e com quem estava. Como ele morreu e nenhum desses segredos vieram a tona, bem... Acha-se que se perdeu junto com o incêndio, mas... – Jack riu, irônico – Você tem? É isso que está confessando, garota? Que os segredos ainda estão vivos?
– Não existe segredo. – Thalia rebateu, revirando os olhos – Nenhum.
– De qualquer maneira, é melhor tomarem cuidado. Porque se souberem que vocês os possui, — seu sorriso aumentou – sentirei muito a perda de vocês. – Jack soltou, por trás de um sorriso aterrorizante e afastou-se – Posso ir embora agora, grande Castellan? – esnobou
– Alguém tire-o daqui! – Luke vociferou – Antes que eu estoure sua cabeça, velho idiota.
Um policial adentrou quase de imediato, agarrando as alças de sua cadeira de rodas.
Jack virou-se para mim antes de ir.
– Deveria conhecer as pessoas que ama, Chase.
– E você deveria estar morto, Jones. Veja como a vida é boa conosco. – resmunguei
Ele deu um sorriso de canto antes de ser levado. Apoiei minha cabeça entre minhas mãos, grunhindo de raiva logo em seguida. Queria socar alguma coisa. Qualquer coisa. Queria ver Jack morto nem que eu tivesse que mata-lo. Queria respostas mais que tudo. E queria proteger meus filhos. Saber que amanhã eu acordaria e eles não estariam passando por esse inferno.
– Ei, Annie...
– Não me venha falar que está tudo bem. – rosnei, ainda com a cabeça afundada em minhas mãos – Não está nada bem. Meu mundo está desabando, venho procurar pistas e tudo que encontro é um velho irritadiço!
Dou uma risada nervosa, levantando-me da cadeira.
– É assim. – Thalia suspirou e levantou-se, encarando-me com os olhos tristes – Procuramos e seguimos pistas. Elas não são certas. Erguemos a cabeça e procuramos por mais. A vida é assim, Annie. Você tem que aceitar. Vamos encontrar quem fez isso com você.
– Eu preciso participar disso. – sussurrei, balançando a cabeça – Você não entende. Olivia foi ameaçada! Ela estava ao meu lado! Eu levei um tiro, Thalia.
– Eu sei, ok? – ela gritou de volta – Eu vi na televisão, eu vejo em seus olhos, Annabeth! Você não acha que eu me sinto mal por não poder fazer nada? Eu estou morrendo por dentro. Você é minha irmã! A Olivia... – ela bufou e passou a mão pelos cabelos devidamente arrumados, bagunçando os fios antes tão certinhos e alinhados – Eu estou surtando. Esse inferno está voltando e não quero que seus filhos ou meu filho passe por isso.
– Vocês tem que se acalmar. – Luke cruzou os braços e suspirou – Não encontramos nada aqui. E gritar uma com a outra não vai ajudar. Vamos tomar um café, vamos nos...
– Eu não posso. Eu... – passei a mão pelo meu rosto, irritada – Tenho uma visita no hotel. Eu... – procurei minha bolsa com os olhos, mas eu não conseguia ver nada além de imagens borradas
Mal pude acreditar quando as lágrimas desabaram pelo meu rosto. Não fazia sentido. Nada daquilo fazia sentido. Por que diabos meu pai guardaria segredos das pessoas?
Você não tem dezesseis anos, Annabeth.
– Annie...
– O encontro de família já acabou? Eu tenho coisas a tratar, Castellan.
– Nos dê cinco minutos, Phil. Estamos saindo.
O delegado bufou antes de sair. Enxuguei minhas lágrimas, brutalmente, pegando minha bolsa em cima da cadeira e sorrindo para ambos.
– Obrigada. Realmente obrigada por estarem aqui, mas eu preciso ir.
– Não vou deixar você ir desse jeito, sozinha. Me dê suas chaves, Annabeth. – Thalia pediu erguendo a mão
– Thalia, eu preciso trabalhar.
– Seu chefe vai entender. Você foi baleada ontem.
– Essa visita foi agendada há um mês.
– Eu não me importo! – ela revidou e pegou minha bolsa – Vou com você fazer essa maldita visita. E te deixo em casa, ok? Sem mais.
Não podia revidar. Saímos da sala em que estávamos e atravessamos a sala de entrada sem dar um oi. Thalia assume o lugar de motorista do meu carro com a mesma leveza que a vejo tomar as rédeas de todos nossos problemas.
Soltei um suspiro, apoiando minha cabeça no banco e fechei os olhos.
Precisava me calmar. Precisava recuperar meu autocontrole.
E isso tinha que acontecer logo.
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