Lightweight.
22 Heavy.
Notas iniciais
“I can feel it like the waves crashing down, I know I need to reach up not to drown”
Domingo. Três dias depois da primeira ligação de Jay. Enquanto eu preparava ovos mexidos, duas viaturas se revezavam para vigiar minha casa. E tudo que eu conseguia pensar era que quatro homens estavam perdendo seu tempo de ficar com suas famílias, com seus filhos.
Esse pensamento me fez acordar às seis da manhã em pleno domingo e preparar um bom café da manhã para quem quer que estivesse naquela viatura. Coloquei em uma bandeja quatro pratos com bacon, ovos mexidos, batatas, quatro maçãs e suco de laranja em caixa. Seria o suficiente.
Abri um pouco das cortinas da sala apenas para ter certeza de que havia uma viatura do outro lado da rua. Fechei meu robe azul, peguei a bandeja com os pratos e me aventurei pelo frio de Santa Monica.
Assim que eu saí, um dos homens abriu a porta de passageiro e atravessou a rua.
– Sra. Chase, não seria melhor...
– Eu estou bem, senhor. – abri um grande sorriso e estendi a bandeja – Não sei se vocês tomaram café ou algo do tipo, talvez um café seria melhor, droga, eu devia ter feito um café... De qualquer modo, não sou a melhor cozinheira do mundo, meu, hm, companheiro faz esse papel, mas como vocês estão... Bem, a essa hora, longe de casa, tomando conta de mim. É o mínimo que posso fazer para dizer obrigada.
Foi como se eu tivesse atingindo-o de algum modo que o fez sorrir e apertar meu ombro.
– É muito doce de sua parte, Sra. Chase.
– Como eu disse, é o mínimo. Imagino que tenha filhos ou uma esposa te esperando...
– É meu trabalho proteger as pessoas, senhora. Enfim, obrigado pelo café da manhã.
– Sem problemas.
Engoli em seco, então olhei ao redor, cruzando os braços.
– Sra. Chase, a senhora deveria entrar.
– É. Deveria. – assenti
Balancei a cabeça algumas vezes antes de refazer meu caminho para casa. Abri a porta, e dei de cara com Percy com o corpo apoiado na janela que abri a cortina. Ele usava apenas um moletom, sem camisa e coçou os olhos quando me viu.
– Aconteceu algo? Você saiu da cama cedo, achei que tivesse acontecido alguma coisa.
– Só fiz café da manhã para os policiais de plantão. – abracei-me, indo em sua direção e observando-os pela janela – Deve ser triste passar seu domingo sem sua família.
Pude sentir Percy sorrindo enquanto passava os braços ao redor de mim, apoiando o queixo em meu ombro.
– Você é maravilhosa. Tenho orgulho de estar com você, Annie.
– Queria ter feito mais. Não deveria ter chorado que nem uma idiota. Se ele tem pessoas perto de mim, vai saber que fui uma fraca. Como sempre fui. Isso tem que mudar. Precisa mudar.
– Ei. – Percy me virou, segurando meu rosto em suas mãos – Você não precisa se mostrar forte. Qualquer um, na posição em que você ficou, reagiria da mesma maneira. Sei que você ainda está aterrorizada por Luke não ter achado ele, mas vai ficar tudo bem. Precisa acreditar nisso.
– Não é tão fácil.
– Eu sei, meu amor. – Percy puxou meu rosto contra seu ombro, acariciando minhas costas com as pontas dos dedos – Eu estou aqui. E sabe, enquanto eu viver, que nada vai acontecer com você ou com nossos filhos. Sabe disso, não sabe?
Assenti, sentindo minha garganta fechar e pronta para entrar no meu quinto ataque de choro em três dias.
– Você deveria pedir uma licença do trabalho. Ficar mais tempo com as crianças, deveria sair mais. Se divertir.
– E eu pensaria que estava sendo vigiada a cada minuto... Eu iria enlouquecer. Preciso fazer o que amo para esquecer o que está me trazendo tanto ódio.
Percy se afastou, me encarou profundamente e suspirou.
– Lamento ter que deixar você sozinha hoje.
Eu ri e bati em sua mão.
– Não seja idiota. Será por três horas, no máximo e além disso, tenho quatro homens armados do lado de fora, prontos para me seguir para onde quer que eu vá.
– Quatro homens não valem nada para o homem que te ama. Nenhum deles se atiraria na frente de uma bala por você.
Arqueei a sobrancelha e fui em direção ao balcão da cozinha.
– Tenho minhas dúvidas. – brinquei
– O quê? – ele riu – Que eu possa me jogar ou que eles possam?
– Ambos.
Percy me seguiu, apoiando o cotovelo no balcão e sorriu.
– Na verdade, — sorri, apoiando meu queixo em sua palma – você é o único homem que me deixa para jogar futebol.
– Querida... – ele segurou meu queixo com um dos dedos, descendo os olhos para meus lábios – Qualquer homem te deixaria para jogar futebol.
– Percy! – bati em sua mão
– Vou tomar banho. Nico já deve estar passando por aqui. Por que você não vai ter uma hora de chá com Thalia hoje? Vocês poderiam se encontrar na casa do meu pai, ou sei lá.
– Vou ligar para ela.
Ele assentiu. Seu corpo se inclinou sobre o balcão e me beijou. Doce e levemente, me senti como se estivesse voando por meros segundos e quando ele se separou, queria que continuássemos do mesmo jeito por um bocado de tempo.
– Eu seria o único que não te deixaria por futebol.
– Mas está deixando.
– Temos que ter prioridades! – disse
– Ótimo. O que quer para o café?
– Você? Cozinhando? Achei que eu fizesse esse papel.
– Se posso cozinhar para policiais, posso cozinhar para minha família.
– Certo. Você está absolutamente certa. Torradas estão ótimas para mim.
– Então, teremos torradas, meu amor.
– Adoro quando me chama assim.
Percy me deu mais um beijo antes de subir as escadas pulando e então, Olivia desceu as escadas, coçando os olhos.
– Por que vocês tem que fazer tanto barulho quando acordam?
Arqueei a sobrancelha enquanto cortava os pães para coloca-los no forno.
– Por que você sempre acorda tão mal-humorada?
Ela atravessou a sala e esgueirou-se pela cortina, bufou logo em seguida e sentou-se em um dos bancos do balcão.
– Odeio ter esses caras em nossa cola. Parece que fiz algo de errado. – resmungou
– Eles estão tentando nos proteger.
– Proteger. Engraçado. – ela fez um coque com o cabelo e apoiou o queixo na mão – O que temos para hoje?
Coloquei dois pratos em cima do balcão e encarei Olivia, com o cenho franzido.
– Aconteceu alguma coisa que queira me contar, querida?
– Por quê? Notou alguma coisa estranha em mim? Meus peitos aumentaram, não foi?
Franzi as sobrancelhas e soltei um riso.
– Claro que não. Você parece tensa. Algo aconteceu que queira me contar? Sabe que ao ponto que estamos, pequenas coisas são importantes para a investigação. Se alguma pessoa estranha...
– Não. Não tem a ver com isso.
– Então, tem a ver com você. Obviamente. Alguma coisa com Jake? Vocês brigaram?
– Não! Não. – ela passou a mão pela testa enquanto eu continuava a encará-la, tentando decifrar sua tensão
– Conte comigo, se quiser falar alguma coisa. Se não, ainda estarei aqui. Café ou suco?
– Café. Bem... Digamos que... Lembra quando eu e Paris saímos... Quando vocês estavam brigando e tudo mais?
Arqueei a sobrancelha e despejei seu café flamejante em sua caneca verde com uma frase de filósofo ou alguma coisa.
– Hm. Péssimo dia aquele. O que houve?
– Bem... Jake apareceu lá. Nós tomamos café juntos no outro dia e eu conheci o pai dele, e a tia dele.
Oh.
– Rob e Rachel. Legal. É um grande passo na relação.
Aquela altura, eu já tinha me esquecido que eles existiam. A ameaça deles era tão pequena que não me vinha a cabeça que eles podiam fazer parte disso. E eles deveriam continuar longe. Voltei a lavar alguns pratos do dia anterior enquanto ela voltava a falar, depois de bebericar seu café.
– Não foi só isso. Rachel tinha plantão e Rob tinha que visitar algumas casas, então ficamos sozinhos...
Deixei um talher cair e a encarei por cima do ombro, me dando conta do que ela queria falar.
– Vocês... Transaram?
Ela assentiu, mordendo o lábio inferior.
– Eu sei! Eu não tinha que contar isso para minha mãe porque é estranho! – ela passou os dedos pelos cabelos, desfazendo o coque – Mas eu não tenho nenhuma melhor amiga, como você e a tia Thalia, não tenho ninguém parecido com isso e...
– Essa é a sua tensão. – interrompi — Conversa de mãe e filha. Céus, entendi. – enxuguei minhas mãos e voltei a ficar frente a frente com ela
Ela me encarou, confusa e eu fiz um gesto para que continuasse.
– Não sei o que me deu na cabeça. Estávamos lá e foi ótimo! Ele foi atencioso, carinhoso, mas me senti culpada logo que cheguei em casa. Me senti... Não sei. Isso é um sinal ruim?
– Não entendo nada de sinais. Sempre fui horrível com eles. – apoiei meu corpo no mármore e suspirei – Mas você gostou, não é? Você se arrepende?
– Não... Acho que não. – ela colocou a franja loira para trás da orelha e me encarou – Como foi a sua primeira vez?
Arqueei a sobrancelha e engoli em seco. Imediatamente, me senti suja por não lembrar como fora. Não foi com um namoradinho que eu gostava, nem um cara que eu confiava. Foi com alguém. Em alguma festa que eu mal me lembrava.
– Eu... – lambi o lábio inferior e voltei a encará-la – Não foi com seu pai. Mas para mim, com seu pai, foi o melhor de todas.
Ela fez uma careta.
– Se você perguntou, vai ter que aguentar.
– Não! Que nojo. Eu... Só queria saber se sentiu como eu.
– O quê? Confusa, com medo? Se vocês tomaram as devidas precauções...
– Precauções? – Percy enfiou a cabeça pela camisa e beijou o rosto de Olivia, pegando uma das torradas nos pratos – Nico já está aí na frente. Vocês não ouviram quando ele buzinou?
Ele parou e nos encarou, confuso.
– Aconteceu alguma coisa? Vocês estavam falando de precauções...
– Coisas da escola. Nada demais. – disse, rápido
– Ok. Tenho que ir. Tenham boas três horas sem mim.
Esperamos Percy bater a porta e seguido alguns minutos, eu sorri e segurei sua mão.
– É normal se sentir desse modo, baby. Mas se você gostou, se você quer repetir... Então, não há porque não fazê-lo.
– Doeu, sabe? A dor foi horrível...
– Posso marcar um ginecologista se sente mais segura assim.
– Você contou a sua mãe? – ela perguntou – Digo, não sei se você e vovó tinham uma relação aberta, parece que sim, mas...
– Quase nunca fomos assim, sabe, baby. – acariciei seu rosto bronzeado com um sorriso – Queria que eu tivesse uma relação tão boa com sua avó quanto temos agora. Eu a amo com todo meu coração, mas... Existem relações e relações.
– Então, quer dizer que vocês eram meio distantes?
– Logo após a morte de seu avô, sim. – segurei seus dedos, encarando como nossas mãos eram pequenas e parecidas – Ele morreu e eu despejei toda a culpa para ela até eu entender que ela não tinha nada a ver com isso. Na verdade, às vezes, acho que a culpa foi completamente minha.
– Claro que não, mãe. Foi um acidente. – ela me encarou, confusa – Não foi?
– Sim, sim. Foi. E sobre o ginecologista? Você tem algum compromisso importante essa semana?
– Ugh, ainda sobre isso? – Paris resmungou, coçando os olhos enquanto descia das escadas – Primeira vez não é uma grande coisa. Mas, Liv, na boa, Jake é meu amigo, mas vocês não precisavam ter feito isso.
Olivia revirou os olhos.
– Isso se refere a mim e a ele. Não preferi ter sido como você que pegou qualquer uma em um banheiro de uma mansão.
– Quê? – gritei
– Não foi em um banheiro. – ele revirou os olhos e se sentou ao seu lado
– E você não me contou? Que tipo de filho você é?
Paris me encarou, como se eu fosse algum tipo de ogro e balançou a cabeça.
– Mãe, você é, bem, minha mãe. Não quero ter que contar minha vida sexual para você. É por isso que o papai existe.
– É por isso que o papai existe. – resmunguei, tentando imitar sua voz – De qualquer maneira, Liv, estou feliz que você tenha vindo falar comigo. Agora, eu tenho que comprar camisinhas para vocês. Não quero ser avó tão cedo.
Ambos reviraram os olhos no mesmo momento, o que me fez sorrir ainda mais.
– Para onde meu pai foi? – Paris pegou enquanto se servia de suco
– Jogar com seu tio. Acho que ele te chamaria se você não acordasse tão tarde.
– Na verdade, estou acabado do treino de ontem. Não quero ver uma bola na minha frente tão cedo.
Encarei os dois. Emburrados, com sono e comendo, calmos. Eu os amava tanto. O fato de pensar que Jay poderia atingi-los de alguma forte, me causava uma dor tão forte e grande que era inimaginável.
– Mãe? – Paris passou os dedos em frente aos meus olhos – Está nos ouvindo?
Pisquei rapidamente e assenti.
– Estava pensando em irmos para casa da Thalia, o que acham?
– Tanto faz. – Paris deu de ombros – Podemos ir para casa do vovô? Vovó disse que pode fazer bolo de chocolate sempre que quisermos.
– Podemos ir à Thalia, depois na casa do vovô.
– Kaya está lá, não é?
Paris me encarou, com raiva.
– O que você tem contra ela? O que ela te fez? Ela foi vitima no que teve no Rise e você a trata como se fosse culpada de todos nossos problemas, mas, qual é! Eu não consigo te entender, mãe.
Franzi o cenho, e cruzei os braços.
– Não entendi o motivo de sua exaltação, querido.
– Paris, menos.
Ele engoliu em seco e saiu do banco.
– Vou tomar banho e então, podemos ir para onde quer que você queira ir.
Paris jogou a torrada que comia no prato novamente e subiu as escadas.
– Ele... Só está estressado por causa dos treinos. O treinador puxa demais dele. Coisa de capitão.
Arqueei a sobrancelha e cruzei os braços.
– Não precisa mentir pra mim, Liv.
– Mentir? – ela sorriu, insegura – Por que mentiria?
– Eu sei sobre Paris e... – respirei fundo – Kaya.
– O que você sabe? Eu...
Revirei os olhos e apoiei a mão no balcão.
– Sei que quer proteger seu irmão e te entendo, porque se eu tivesse um irmão, iria querer fazer a mesma coisa, mas você não acha isso... Doentio?
– Mãe... O amor bate em portas diferentes, às vezes...
– Você acha que isso é amor? Amor? O que eu e seu pai temos é amor, mas...
– Não tenho como comparar... E, por favor, não diga isso ao papai. Ele iria ter um infarto, no mínimo, não iria conseguir controlar sua raiva e espancaria o Paris.
– Você tem uma imagem muito distorcida de seu pai.
Ela arqueou a sobrancelha e cruzou os braços, como se estivesse certa.
– Ok. Sem discussão. Sem fofocas. Agora, banho.
Não observei Olivia subir as escadas. Peguei meu celular e sentei-me no sofá de pernas cruzadas, discando o número de minha melhor amiga.
– Grace.
– Olá, queridinha do meu coração.
– Hm, você está muito engraçadinha para uma mulher que recebeu o telefonema do homem do mal.
– Temos que superar de alguma maneira. Tenho quatro homens fortemente armados ao redor de minha casa. Estou me sentindo segura para soltar algumas piadas.
Thalia riu.
– Tudo bem, gata. Posso perguntar o porquê da ligação?
– Só queria saber o que está fazendo?
– Minutos atrás, tentando convencer meu pai a não levar Ian para um final de semana com os avós. Assim que Ian sair do banho, vou tentar convencê-lo a ficar com a mãe do que o avô louco.
– Tio Zeus não é um cara louco.
– Não. Você nunca viu meu pai louco.
– Então, se o Ian for mesmo viajar, o que vai acontecer, o que acha de almoçarmos juntas? Pode ser aqui em casa.
– Não sei. Nico vai chegar do jogo e se, apenas se, Ian for viajar mesmo, poderíamos ir a praia.
– Ah, por favor, Thalia. Quando Nico chegar, a última coisa que ele vai querer, vai ser voltar para praia. Vamos ser realistas.
– Tudo bem, você me convenceu, passe aqui em uma hora.
– Feito. – dei um sorriso gigantesco – Vou deixar minhas crias na casa do meu louco sogro.
– Mais conhecido como diretor da CIA.
– Ou isso.
Suspirei, e nos despedimos.
Corri para tomar um banho rápido. Optei por jeans e uma camiseta preta com estampa floral.
– E então, para onde vamos?
– Casa do Poseidon.
Pude ver Paris sorrir pelo retrovisor.
Assim que comecei a dirigir, uma das viaturas vinha na minha frente. Paris olhou para trás e eu tentei focar que aquilo não era para nós.
– Você não sente que está sendo seguida? – perguntou, sua voz soando sinistra
– Melhor por eles do que por outros.
Ele encolheu os ombros e suspirou.
– Só queria que nada disso tivesse acontecido.
Dei um sorriso confiante, entrando na estrada para Los Angeles.
– Quanto menos você esperar, estaremos em uma viagem para o Caribe. Você poderá surfar e tudo será maravilhoso.
– Quando tivermos dinheiro para viajar para o Caribe... – Olivia revirou os olhos
Chegamos a casa do Poseidon, deixei o carro estacionado de qualquer jeito no jardim e saímos. Quase imediatamente, a porta se abriu e minha mãe apareceu com um sorriso grande.
– Meus amores! Mal posso acreditar que as pessoas que eu mais amo estão aqui comigo no domingo! Parece que temos um dia de família, Poseidon! – minha mãe me apertou em seu abraço e sorriu, segurando meu rosto – Você não está mais tão abatida, querida.
– Maquiagem. – pisquei
Minha mãe riu e segurou meus ombros.
– Então, você foi a garagem? Achou as cartas do seu pai?
– A garagem... Ah. Não, na verdade... Eu ia agora. Só vim deixar os meninos e...
– Você não vai almoçar conosco?
– Eu vou pegar Thalia primeiro. – fugi – Vou pegá-la e iremos passar no shopping porque ela queria um vestido, alguma coisa do tipo. E quando Percy e Nico chegarem, podemos vir para cá. Tem almoço para todos, certo?
– Ah, claro! Tudo bem, então... – ela ajeitou as alças de minha blusa e deu um sorriso abatido – Está frio para sair de regata, querida. O inverno vai chegar logo.
– Eu sei, mamãe. Agora, preciso achar essas cartas. Volto logo. Não almoce sem mim!
Entrei no carro e esperei que minha mãe arrastasse meus filhos para dentro.
Ok. Eu queria mesmo achar essas cartas? Do lado de fora, eu ainda podia ver as viaturas da polícia esperando para que eu saísse e então, eles me seguiriam.
Eu queria isso mesmo? Queria achar as cartas do meu pai? Cartas privadas, cartas que chegaram para ele ou que não chegaram para a pessoa que ele quis mandar? E eu queria mesmo duas viaturas de polícia me seguindo?
Eu poderia ir a pé. A casa de minha mãe não era tão longe. Duas quadras, no máximo, eu poderia aguentar isso, não poderia?
Encarei por cima do ombro. Mas eu também poderia despistá-los e Luke não ficaria nada feliz, sairia de onde estivesse para vir me buscar, então...
Eu não iria fazer nada de errado. Desde quando visitar a garagem de minha mãe é um pecado ou um erro? Não era.
Embora um sentimento dentro de mim implorasse para que eu fosse a pé, me esgueirando em cada esquina possível, eu ainda, sim, me sentia mais segura com duas viaturas na minha cola. Portanto, por esse sentimento de que nada vai me atingir com eles, fiz o carro voltar sua trajetória e dirigi calmamente por aquele bairro nobre até chegar a casa de minha mãe.
Não estava como antes, era claro.
Sam não estava mais lá, limpando o carro, como se fosse uma carruagem. Só havia um segurança no portão que me permitiu entrar com um manejo de cabeça. Nem lembrava que ele existia e nem lembrava de onde ele me conhecia, por sorte, um dos homens da viatura saiu do carro para falar com um segurança. Não me dei o trabalho de autorizar a entrada deles, apenas estacionei meu carro, peguei minha bolsa e rumei até a garagem.
Na verdade, eu mal me lembrava da última vez que estive lá.
O carro da minha mãe estava coberto de poeira, as prateleiras tinham ferramentas inúteis que nunca usei nem minha mãe usaria. Nas prateleiras mais baixas, havia roupas para doação e brinquedos que deveriam ser doados no natal de alguma boa criança. Deixei minha bolsa do capô do carro e dei uma volta no meu próprio eixo.
Por sorte, eu estava de sapatilhas.
Comecei a procurar nas prateleiras mais altas. Achei apenas caixas com ferramentas, caixas com óleo para carro e embalagens plásticas. Não fazia ideia porque minha mãe guardava aquilo.
Passou-se algum tempo até que meu celular tocasse e eu suspirasse, derrotada.
– Alô?
– Annie? É o Luke. O que está fazendo na... Sua ex-casa?
– Ex-casa? Onde achou isso? Por favor, não posso mais visitar minha antiga casa? Eu sei que seus funcionários estão fazendo um belíssimo trabalho cuidando de mim, mas eu estou bem.
– Ok. Só queria saber se tinha acontecido alguma coisa ou... Se, talvez, está procurando alguma pista.
Revirei os olhos e cruzei os braços.
– Luke. Estou bem.
– Eu sei. Qualquer coisa, me liga.
Desliguei a chamada antes que ele tentasse mais alguma coisa.
Bufei e voltei ao trabalho. Desisti das prateleiras altas. Não achei um pedaço de papel. As prateleiras baixas estavam fora de questão, então comecei a vasculhar cada caixa de papelão até encontrar uma caixa de sapato, relativamente média. Ela estava coberta de poeira. Mais de vinte anos aquilo estava intocado ali.
Espirrei algumas vezes antes de abri-la e observar as variadas cartas velhas, amassadas e repletas de poeira.
Soprei parte dela e segurei-a embaixo do meu braço. Pronta para ir embora.
Joguei a caixa embaixo da poltrona de acompanhante e segui para casa de Thalia.
***
– O quê? – Thalia gritou enquanto eu enterrava minha cabeça entre minhas mãos – Eu achei que você tivesse esquecido isso! Deixado nas mãos de Luke ou de quem quer que fosse cuidar disso.
– Eu sei, eu sei! E olhe, eu tentei. Eu tentei esquecer, tentei deixar tudo nas mãos de Luke até que esse maldito me ligou e agora eu não sei mais o que fazer.
– Só um minuto. – ela saiu da sala de sua pequena e confortável casa gritando em busca de Ian – Seu moleque!
Thalia o arrastou pelo braço e então, o apertou em um abraço caloroso, junto com sua mala de couro repleta de roupas.
– Me escute bem, seu maldito Di Angelo, você vai com seu avô para essa viagem, mas se você voltar mais um pouquinho mimado...
– Sem videogame por um mês. Entendido, mamãe.
Dei um sorriso grande.
– Ei, Ian, me dê um abraço antes de ir.
Ele sorriu e puxou-me em um abraço, sorridente.
– Não vou morrer na viagem. Por que vocês fazem tudo parecer tão... Grandioso? – ele cruzou os braços – E o vovô já está me esperando, mãe!
Thalia revirou os olhos, ainda sorrindo e o empurrou até a porta de casa. Meu tio mal entrou para um cumprimento formal, apenas acenou da porta, deu um beijo na testa de minha prima e sorriu, pegando Ian.
– Ele adora o Ian. – afirmei
Minha amiga fechou a porta e assentiu.
– Vou pegar nosso café e então, podemos conversar.
Poucos minutos depois, ela apareceu com duas grandes xícaras de café com creme. Respirei fundo e encostei minhas costas no sofá.
– Me explique bem.
– Eu só não sei se devo abrir as cartas. Sinto que estou tirando o pouco de liberdade ou restrição que meu pai tinha antes de morrer...
– Sem ofensas, Annie, mas ele já está morto. Não há maior libertação que isso. Se quiser ver, veja. Se isso for te afetar de maneira ruim, não veja. Tudo bem que, talvez, só um pequeno talvez, nessas cartas esteja alguma coisa relacionada a Jay, mas 60% pode ser apenas cartas. Cartas que ele mandou para a CIA ou qualquer outra empresa de espionagem.
– É, eu sei. Mas eu fiquei pensando... Nem naquela época as pessoas mandavam cartas. Eram e-mails. Era mais rápido e eficiente.
– Porém, fácil de hackear. – Thalia deu de ombros e me encarou – Preciso saber dessas coisas se quero ter uma argumentação forte. Só acho que deveria ler. Bem, eu leria. Não vai ter nada demais, você vai ver. E se tiver, estará em códigos e só alguém da equipe dele... Oh, não. Não, não, não.
– Claro que sim! Se eu encontrasse algo e achasse que era de códigos...
– Não! As coisas não chegaram a esse ponto. Não chegou ao ponto de implorarmos por ajuda, ok? Jay até agora só fez ameaças vazias, ameaças suficientes para Luke colocar guardas atrás de você. – ela apontou para fora com um revirar de olhos – Annie, isso não quer dizer que ele vai te matar ou algo do tipo.
– Ameaças são o suficiente.
– Olhe, eu tenho dez anos de carreira e ameaças não são o suficiente. Só vamos pensar em algo tão grandioso quando as coisas se tornarem grandiosas.
– Quando ele matar um dos meus filhos? Quando ele matar alguém que eu amo?
– Ele não vai fazer isso. Não quando está sendo vigiado, digo, cada pessoa próxima de você está sendo vigiada, investigada. Até a conta do meu banco foi revirada de cima a baixo.
– Não acredito. – encarei-a
Ela arqueou a sobrancelha, me desafiando e de imediato, percebi que não era brincadeira.
– Mas, escute, ficará tudo bem. Sei disso. Se Jay quisesse atingir você, com certeza, ele já teria atirado pra valer. Até agora, ele só nos deu susto. Ele também está com medo.
– Você tem teorias bem fortes.
Ela deu de ombros e deu um grande gole em seu café.
– É, eu sei. E eu não consigo parar de falar. Onde vamos almoçar?
– Você gosta de almoço em família?
– Nenhum um pouco.
– Temos um, então.
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